Amnésia provocou mais espanto que boa crítica.
E quase passou despercebido pelo grande público. Nos cinemas
do Rio de Janeiro não teve uma temporada expressiva, mas quando
foi lançado em vídeo passou a ser bastante procurado. É desses
filmes cult, divulgados informalmente, que se pode ver
em casa, na telinha da televisão. Não exige uma sala de projeção
especial — o seu forte não são imagens, mas a lógica do seu
enredo.
A história
é banal. Após o estupro seguido do assassinato da esposa, homem
perdeu a habilidade de memorizar qualquer acontecimento recente
e iniciou uma saga de vingança. Não se tornara um completo desmemoriado;
sabia quem era, lembrava-se do seu nome (Leonard), onde havia
nascido e permanecera consciente do seu passado até o momento
do acidente. O problema é que a partir daí virou um prisioneiro
do presente. Vivia cada instante como se fosse o único, sendo
incapaz de lembrá-los ou de concatenar a sucessão das suas experiências
rotineiras. Sua memória não guardava coisa alguma por mais de
uns poucos minutos. Condenado à vida vegetativa, Leonard perdeu
a faculdade de dar sentido às suas vivências. O filme consiste
neste imbróglio: o protagonista sofre de amnésia recente;
quer encontrar os assassinos da mulher; e tenta superar sua
deficiência mnemônica com a mesma obstinação que alimenta pela
vingança. Para isso se impôs uma disciplina férrea e sistemática
registrando todos os acontecimentos cotidianos. Munido de máquina
Polaroid e caneta, ele fotografava a tudo e a todos, anotando
qualquer pequeno fato que lhe acontecesse. Não satisfeito, adotou
uma solução ainda mais radical e tatuou no próprio corpo a seqüência
ordenada dos resultados da sua investigação. Pensava que através
desse curioso sistema de notações supriria suas falhas de memória.
Afinal, se o continuum do real lhe escapava, inventou
um artifício que mantivesse e fixasse a ordem dos fatos.
É no roteiro
que está a originalidade do filme. Obedecendo à percepção temporal
do protagonista esquecido, a narrativa fílmica desconstrói o
sentido natural do tempo e se apresenta de trás para frente.
Quer dizer, em vez de as tomadas seguirem o encadeamento cronológico
padrão vindo do passado para o presente — diretamente, ou mesmo
em flashsback que geralmente retornam aos fatos anteriores
para reconstituírem linear e cumulativamente a sucessão de eventos
—, Amnésia conta seu enredo na ordem temporal inversa.
A história começa pelo fim. Em sua primeira cena, a revelação
de um negativo Polaroid, a imagem fotografada de um cadáver
empalidece lentamente. No avesso do sentido usual, a foto não
se torna nítida e aos poucos vai sumindo até desaparecer. Apesar de fugaz, a cena insinua toda a estrutura
do roteiro. Desde o início sabe-se que o protagonista matou
um homem, mas tal como desmemoriados, desconhecemos os fatos
prévios que conduziram àquela situação.
Contra toda
obviedade, Amnésia desmonta os elos do raciocínio linear
e impede que se estabeleçam vínculos fáceis entre a contigüidade
temporal e a explicação causal. Na marcha ré do tempo, o filme
é uma dramática perseguição às causas das ações do seu protagonista.
No limite, trata-se de uma tentativa desesperada para
oferecer sentido às ações de um homem que mesmo sem conseguir
entender o significado dos seus próprios atos, quer obstinadamente
alcançar uma meta futura. Entre a memória de um passado perdido
e a perseguição de um destino que, sendo realizado ou não, será
inexoravelmente esquecido, o protagonista está preso em um tempo
eternamente atual. Sua
consciência não registra a experiência da mobilidade temporal
e, portanto, o presente se lhe parece inalterado. Não que tivesse
desaprendido o significado das palavras antes/passado, durante/presente,
depois/futuro. Leonard não perdeu o entendimento ou a razão;
e algumas de suas faculdades intelectuais permaneciam intactas.
O que ele não possuía mais era a capacidade de reunir os fragmentos
das suas ações emprestando-lhes algum sentido. Sabia quem era
e aonde queria chegar, mas não entendia se o que acabara de
fazer era compatível com sua identidade e intenção. Refém do
esquecimento, Leonard perdeu a natural habilidade de compreender
e explicar o fluxo do tempo.
É por esta
razão que Amnésia contém um desafio aos historiadores.
Além de ser um engenhoso quebra-cabeça, o filme tangencia as
indagações sobre quais critérios avaliam os atos humanos. A
questão é clássica. E
nos tempos modernos foi Maquiavel quem primeiramente fixou seus
termos ao polarizar fortuna e virtude.
Desde então, os estudiosos vêm se perguntando qual é
o foco do juízo racional sobre as ações, ou seja, sob qual aspecto
se interpreta a conduta dos homens? Considerando a intenção
dos agentes ou os efeitos dos atos? A virtú ou as circunstâncias
casuais? Levando em conta o livre arbítrio ou a determinação
das escolhas? Valorizando os princípios morais ou as conseqüências
políticas? Chamando os homens à responsabilidade ou deixando-os
entregues à suas convicções? Pólos indissociáveis — a despeito
dos esforços de Max Weber para racionalizar a questão —, esses
dilemas exprimem as múltiplas faces de um lento processo de
alteração cognitiva. Eles encerram o simultâneo processo de
dissolução da idéia de uma natureza humana eterna, a conformação
do indivíduo como cidadela livre e voluntária e a valorização
da História e da mobilidade temporal como princípios de compreensibilidade
dos assuntos humanos. Em outras palavras, trata-se do esvaziamento
dos paradigmas atemporais junto ao surgimento da visão de mundo
moderna cujas fórmulas explicativas da vida dos homens são historicizantes.
Nesse sentido,
o filme interessa aos historiadores não apenas porque enfrenta
o dilema dos efeitos perversos envolvidos nas nossas escolhas
— situações em que a ação ou a omissão pode resultar em malefícios
infinitamente piores que o previsto pelas (boas) intenções —,
mas principalmente porque sugere que a inteligibilidade desse
dilema supõe a construção em retrocesso de uma seqüência
causal, ou seja, implica em resgatar uma História que compatibilize
fins e meios, conseqüências com intenções. Em outras palavras, a força dramática de Amnésia
não reside somente no fato de o protagonista hesitar em
agir. Mais que a imprevisibilidade inscrita nas suas
decisões (o que, de resto, é comum a todos os mortais), Leonard
se depara como a perda da faculdade de lembrar e reconhecer
suas próprias ações. Portanto, mesmo que estivesse orientado
por todos os manuais de boa conduta ou animado pela mais maquiavélica
das astúcias, sem memória, tornara-se incapaz de dar sentido
àquilo que fizera. E tal como fazem os historiadores (os profissionais
da memória), se viu obrigado a escolher e fixar os fatos dignos
de serem lembrados para, a partir deles, forjar retrospectivamente
uma série causal. Afinal, quando perdeu o entendimento espontâneo
da sucessão temporal, seus esforços para compreender a marcha
dos acontecimentos e enquadrá-los numa narrativa minimamente
convincente passaram a ser tão arbitrários e artificiais quanto
suas (in)decisões de agir.
Sob
esse aspecto, o filme é uma lição de teoria da História — digo,
é uma aula de como o historiador lida com sua matéria prima:
o tempo. Igual à personagem do filme, o historiador
está preso ao presente e aborda o passado a partir dessa circunstância.
A História, disse Marc Bloch, é elaborada do presente. Inescapável,
tal pertencimento ao presente não é, contudo, um interdito à
inteligibilidade do passado. Justo o contrário. Pois se guarda
os limites, também reúne as condições de possibilidade (epistêmicas
e ônticas) da inteligência historiadora. Diálogo entre horizontes
temporais díspares, a História consiste numa relação complexa,
mútua e reciprocamente constitutiva do presente, do passado,
do futuro. Em outras
palavras, o passado é reinterpretado constantemente pelo presente
que, por sua vez, se reordena a cada atualização do ontem e
reelabora novas projeções de futuro que, mais uma vez, reforçam
(ou não) a necessidade de outras visões da História.
É claro
que não se inventa o tempo passado. Trabalhando com documentos,
registros, arquivos, provas testemunhais etc, os historiadores
em geral estão sinceramente vocacionados a buscar a verdade
dos fatos e procuram, nos limites da nossa falibilidade, comprovar
suas investigações. (E caso façam inferências pouco convincentes,
considerando que pertencem a uma comunidade de intelectuais
atentos, competitivos e prontos a lançar dúvidas sobre as conclusões
uns dos outros, vale lembrar que o debate interpares consiste
numa instância limite para aferição do que é social e historicamente
aceito como verdadeiro.) Portanto, dificilmente concordariam
com a hipótese de que são ficcionistas, artífices inventivos
de um mundo imaginário, fantasioso e irreal.
O que
importa, porém, não é contrapor o “realismo histórico” à admissão
da liberalidade construtiva do historiador. A questão não se
cinge à oposição entre as evidências empíricas e a margem de
autonomia do intérprete da História. Trata-se, antes, de enfatizar
a artificialidade do empreendimento historiográfico. Diferentemente
do memorialista, o historiador mesmo que seja protagonista dos
acontecimentos não os lembra espontaneamente. Na oficina da
História, a montagem de uma continuidade qualquer de eventos
não é um dado natural, mas resulta de pesquisa (cujos princípios
metódicos pertencem a um corpus disciplinar reconhecido)
e também de muito trabalho e esforço intelectual. Trata-se de
uma empresa cognitiva que critica e seleciona fatos, define
seus significados, estabelece as séries seqüenciais em que se
encaixam e, por fim, conecta todo esse material sob uma escrita
literariamente arbitrária. Além disso, e a despeito das suas
inclinações teórico-metodológicas, os historiadores se entregam
a tal tarefa na contramão do fluxo temporal. Quer dizer, à semelhança
do roteiro de Amnésia, não se lançam ao passado saltando
sobre um vácuo de tempo. O retorno ao passado não é um simples
transplante do hic et nunc para o período histórico que
pretendem investigar. Ao invés disso, os historiadores recuperam
os atuais vestígios do passado e, num regresso às avessas, reconstroem
(no limite, inventam) a ordem da contigüidade factual estabelecendo
suas conexões causais.
Esta
aproximação artificial e regressiva é nítida quando, por exemplo,
antes mesmo de lidar mais estreitamente com as fontes primárias,
o historiador cerca o debate historiográfico em torno do seu
objeto de pesquisa. Ele visita os clássicos, os autores consagrados
e o círculo de idéias que ao longo dos tempos se produziu sobre
seu objeto de interesse não só por cautela, mas porque nesse
reconhecimento à tradição intelectual reside seu caminho de
aproximação com o passado. Afinal, caso estude a antiguidade
oriental, não será catapultado do hoje à civilização babilônica.
Com efeito, seus passos de pesquisa (leia-se método) em vez
de serem meras técnicas de investigação, devem ser considerados
em si mesmos como um modo de resgatar a própria historicidade
dos elos que vinculam o presente ao passado. Dessa forma,
a historicidade da investigação — o pertencimento da razão histórica
ao tempo presente — se expressa nos procedimentos metódicos
que foram sendo adotados e o historiador precisa tornar essa
dimensão do seu trabalho intelectualmente produtiva (em Verdade
e Método, Gadamer explora tal questão).
Prisioneira
do presente, a inteligência historiadora é artífice do tempo.
Ao registrar o sentido das ações, estabelecer início e fim dos
processos factuais, conectar intenções e conseqüências e descrever
o rumo dos acontecimentos, os historiadores emprestam ritmo
e significado à experiência da mobilidade temporal.
Não que o tempo seja criatura da consciência histórica.
Justo o contrário — para usar os termos de Heidegger,
se pode dizer que ela encontra no tempo a sua morada. Todavia,
assim como em Amnésia, a faculdade mnemônica não existe
a priori do próprio empreendimento que busca compreender
a ordem dos fatos. E o filme encerra essa lição: descreve os
passos de (des)construção do sentido do tempo, convidando os
historiadores a refletirem sobre seu ofício.