Acabamos
de testemunhar dois acontecimentos mundiais significativamente
importantes, ocorridos simultaneamente: um no Brasil, o III
Fórum Social Mundial, em Porto Alegre e o outro na Suíça, o
33º. Fórum Econômico Mundial, em Davos. Em ambos, pudemos perceber
a preocupação veemente com a incerteza da economia, principalmente
com os aspectos humanos existentes nas relações econômicas atuais,
fruto do ritmo e da forma como a globalização tem ocorrido.
Porto Alegre enfatizou aspectos relativos à justiça e às desigualdades
sociais reivindicando uma melhor distribuição de renda apoiada
no conceito de desenvolvimento sustentável. Já em Davos, ficou
patente a preocupação com um crescimento econômico duradouro
pautado numa distribuição de renda e de oportunidades mais equilibrada,
de tal modo que haja reduções nas diferenças entre as camadas
sociais.
De fato, a busca atual por um desenvolvimento mais harmônico
e sustentável, preocupado com o futuro da preservação da existência
da espécie humana, depende da qualidade das relações entre todos
os seres vivos que habitam este planeta vivo, chamado Terra,
e está prejudicada pelo paradigma em que se alicerça o modelo
econômico vigente.
Neste sentido, a comunidade global precisa criar uma nova forma
de conviver com a natureza, o que torna a questão sócio-ambiental
o ponto chave e crucial nesta mudança do comportamento do ser
humano.
Por conseguinte, articulações internacionais, como o Fórum
Social Mundial, crescem a cada ano e demonstram a percepção
da magnitude da questão, com todos os seus reflexos econômicos,
políticos e sociais, e apontam que a solução efetiva só ocorrerá
quando houver uma mudança paradigmática dos valores que norteiam
as relações.
Posições radicais pautadas na competitividade e no desenvolvimento
desenfreado e irresponsável, aliados a um estilo de vida em
que impera o desperdício e o supérfluo, não poderão se sustentar
por muito mais tempo, por maior que sejam as pressões impostas
por uma classe dominante. Isto porque não será mais possível
obstruir as mudanças históricas frente às novas realidades econômicas
e sociais.
Por seu turno, as ações e os resultados dos programas em torno
das entidades direcionadas ao Terceiro Setor, as ONGs (Organizações
Não-Governamentais), estão chamando a atenção das grandes empresas
e alertando a publicidade para a divulgação de um produto precioso:
o bem-estar social.
Neste contexto, reuniram-se, durante o III Fórum Social Mundial,
vários grupos organizados e entre as diversas abordagens pudemos
observar como tema central e recorrente, a valorização da preocupação
pragmática com a responsabilidade social.
É verdade que as ações solidárias e os produtos socialmente
responsáveis podem agregar valores às empresas comprometidas
com as causas sociais.
A sociedade está reconhecendo quais são os bens mais importantes
que devem ser produzidos, bem como os valores universais que
norteiam a vida no planeta, e por assim dizer, está se organizando
para essa nova realidade. Falta agora à publicidade transformar
esses bens sociais em produtos, mobilizando cidadãos numa só
causa para levar qualidade de vida para todos os indivíduos.
Por outro lado, hoje não podemos mais aceitar o conceito de
“obras sociais”, isso faz parte do passado. Não é mais suficiente
só ajudar pessoas carentes. É preciso estabelecer verdadeiros
conceitos de parceria em torno de um objetivo comum. As empresas
estão começando a entender que não adianta ter compromissos
objetivando apenas o lucro. É preciso fazer investimento social,
porque este gera, em longo prazo, o verdadeiro benefício financeiro
a todos os cidadãos, na medida em que ao promover o desenvolvimento
sustentável, estas empresas auferem ganhos de capital em maiores
potencialidades. Para isso, concluo, as melhores ferramentas
são a informação e a educação.
Para tanto, apropriando-se de conhecimentos de teoria da administração,
o Terceiro Setor desenvolveu o conceito de “marketing social”
e passou a usá-lo na prática como ferramenta importante para
atingir seus objetivos. A conseqüência mediata foi à melhoria
da vida em algumas comunidades, a valorização das empresas e
também de suas marcas comprometidas com o social.
Por trás de toda a ação de marketing social deve sempre estar
como meta à transformação. Desta forma, um projeto bem conduzido
muito possivelmente levará à mudança de comportamentos e atitudes.
Por essa razão, é preciso definir este conceito com precisão.
Isto porque, o marketing social não é o marketing convencional
aplicado às questões sociais. É uma ferramenta preocupada com
a mudança de atitudes e de comportamentos que levará à melhoria
da vida da comunidade. Cumpre ressaltar que o “social” do termo
não está ligado apenas à questão da pobreza, não significa assistencialismo.
Está relacionado às questões que envolvem a sociedade, seus
problemas e a busca do maior número de mudanças acolhedoras
das diversas conjunturas sociais.
Em outras palavras, não é uma campanha esporádica que fala
de questões sociais, não é a venda de um produto, nem a promoção
em cima de causas. É um instrumento planejado que quer buscar
a melhoria de um aspecto da sociedade. Não é um mecanismo para
dar visibilidade, para se ter lucro ou vender mais. Isso pode
ser uma conseqüência. É uma ferramenta para mudar a realidade.
Resumindo, o marketing social é uma ferramenta que usa princípios
do marketing convencional para promover a mudança do comportamento
social de um indivíduo, de um grupo ou de uma comunidade, com
o objetivo de melhorar a qualidade de vida.
Não obstante tais aspectos relevantes é de suma importância
a inserção de uma ponte entre esses dois mundos distintos e
ao mesmo tempo convergentes: o econômico e o social. Dar ampla
publicidade. Inovar conceitos. Eliminar preconceitos. Estabelecer
novos paradigmas são também objetivos urgentes.
A presença do nosso presidente nos dois fóruns foi o primeiro
passo. Sua mensagem foi além do apelo em favor da paz e da redistribuição
de renda no planeta. Ela aponta para a necessidade de um diálogo
entre dicotomias tradicionais. É um novo modo de ver o mundo
que ultrapassa um pedido de ajuda aos famintos do planeta. Torçamos
por ele e nos orgulhemos, porque mesmo que seu ideal não seja
alcançado, vale por si só como idéia inovadora e proposta de
novo paradigma mundial.