Não
é a primeira vez que escrevo sobre a geopolítica européia, especialmente
sobre os dois tópicos chaves que a delimitam atualmente, ou
seja, a definição do que será a nova OTAN e os problemas
da União Européia para se afirmar como grande potência. Os acontecimentos
das últimas semanas, contudo, me levam de volta ao tema, já
que estes demonstram, de forma claríssima,
como as questões acima mencionadas estão latentes e muito
longe de serem resolvidas.
Dando um contexto conjuntural às minhas
reflexões, o que chamou a minha atenção nas últimas semanas
foram duas séries de acontecimentos, ambos relacionados. Na
primeira, a OTAN sofreu uma crise seríssima quando do pedido
de ajuda da Turquia, país membro da organização, aos outros
aliados. A Turquia desejava apoio militar para proteger sua
fronteira com o Iraque de ataques desse país, possíveis e até
previsíveis em caso de ataque americano a Bagdá. Os Estados
Unidos estavam dispostos a dar esse apoio e o dariam, seguramente,
mesmo sem o consentimento da OTAN. No entanto, o manto jurídico
da organização e alguma ajuda dos aliados europeus seriam bem
vindas e ela foi solicitada em Bruxelas. Apesar do apoio da
maioria dos países membros, França, Alemanha e Bélgica vetaram
a ajuda, num claro desafio à posição americana.
Numa frente de batalha paralela, a
Europa se rachou ao meio para decidir se apoia ou não a ofensiva
americana contra Saddan Hussein. O eixo franco-alemão, motivado
por interesses geopolíticos no Iraque, de política interna e,
especialmente, por não conseguir aceitar a hegemonia absoluta
dos Estados Unidos no mundo, se posicionou radicalmente contra
a guerra. Não se imagina, é claro, o porta aviões Charles de Gaulle atacando a frota americana
no Golfo ou blindados alemães desembarcando em Nova York, mas
a oposição desses países à guerra, com apoio diplomático da
Rússia e da China, é um fato e tem irritado profundamente Washington.
Esse
posicionamento francês e inglês causou, além disso, funda divisão
entre os países europeus. Mais da metade dos Estados membros
da União Européia, liderados por Grã Bretanha, Itália e Espanha,
efetivamente se rebelaram contra o eixo Paris-Berlim e estão
apoiando os Estados Unidos. E o estão fazendo por puro oportunismo
e desejo de ter lucros tanto com os despojos da guerra como
com a boa vontade da superpotência americana.
Não
são esses fatos imediatos, contudo, que nos interessam aqui.
As crises diplomáticas dentro da OTAN e da União Européia acabaram
por ser resolvidas logo depois, ainda em fevereiro/2003, através
de negociações e busca de um meio termo. No entanto, os conflitos
maiores que estão por trás dessas crises estão longe de serem
resolvidos e são estes que merecem uma análise maior.
Antes
de tudo, fica evidente que a OTAN está totalmente paralisada
por seus conflitos internos e, especialmente, por não saber
qual é a sua função num mundo onde o seu grande inimigo, o bloco
soviético, acabou. Sem um inimigo à vista que os intimide e
unifique e sem ter clareza dos objetivos comuns, não espanta
que seus Estados membros fiquem defendendo apenas os seus interesses,
que, às vezes, colidem uns com os outros e levam a crises como
esta.
Nada
mais grave, contudo, que a situação lamentável da União Européia.
Um grupo que reúne alguns dos países mais civilizados do mundo,
com uma economia maior do que a americana, alta tecnologia e
quase 400 milhões de habitantes teria condições de exercer
influência maior nos destinos globais. Se tal influência
está crescendo em termos econômicos, especialmente depois da
adoção do euro, ainda é decepcionante em termos políticos e
estratégicos, como demonstraram as crises do Golfo, da Bósnia,
do Kosovo e muitas outras nos últimos anos, quando os europeus
se revelaram meros coadjuvantes dos americanos.
Sempre
considerei que uma das causas centrais dessa situação fosse
a incapacidade européia em unificar suas forças armadas e ampliar
seu poder bélico a ponto de poder dar sustentação à sua política
externa, além dos receios europeus em assumir os gastos e a
perda de vidas que a posição de potência exige. Essas idéias
continuam completamente válidas, mas me parece claro, nesse
momento, como a unificação política tem precedência sobre a
militar.
Os
efeitos da política interna de cada Estado Nação estão realmente
presentes nessa conjuntura de apoio ou não à posição americana.
Uma Espanha e uma Itália dominadas pela direita, por exemplo,
tendem a se aproximar da administração republicana, enquanto
a Alemanha social democrata e verde tende a ser antiamericana.
Os países do leste europeu candidatos à OTAN e à EU, por sua
vez, parecem dispostos a qualquer coisa para conseguir auxílio
econômico e proteção militar dos Estados Unidos. Claro que esta
determinação interna não é uma regra absoluta (tanto que é a França conservadora de Chirac que lidera a oposição
à guerra e três dos governos mais belicistas, o de Blair, o
de Berlusconi e o de Aznar, enfrentam intensa oposição da opinião
pública à guerra), mas que o continente sofre clivagens ideológicas
que ajudam a romper qualquer possibilidade de união, parece
evidente.
No
entanto, talvez mais importante que as clivagens ideológicas
e de política interna é a incapacidade dos Estados europeus
em ceder sua soberania para a criação de uma política externa
comum. Efetivamente, o que vemos nesse exato momento são países
que aceitam abdicar de sua soberania econômica, via euro e Banco
Central europeu, mas não a política, e seguem as suas tradições
de política externa de forma independente. De um lado, uma Inglaterra
sempre pronta a apoiar os Estados Unidos, a espera de que esse
“relacionamento especial” lhe traga de volta o status de grande
potência, mas que, na verdade, leva apenas ao escárnio mundial.
De outro, uma Alemanha que faz de tudo para evitar conflitos
e uma França que quer usar o manto europeu para readquirir status
mundial. Ao mesmo tempo, vários países (desde gigantes como
a Itália e a Espanha até pesos menores, como a Dinamarca ou
Portugal) aproveitam o momento de conflito entre Berlim, Paris
e Washington para enfraquecer o eixo França/Alemanha que tem conduzido os
destinos da União Européia desde os seus anos iniciais.
O
que se percebe, portanto, é que a idéia de fazer da União Européia
um pólo de poder militar e político mundial capaz de rivalizar
com a superpotência americana e sendo um igual dentro da OTAN
a ela esbarra no desejo de muitos outros países europeus em
evitar os ônus e gastos que a construção dessa superpotência
geraria e manter os vínculos estreitos e cômodos (mas subordinados)
com os Estados Unidos. Melhor Washington do que Berlim e Paris,
parece ser este o grito de guerra em várias capitais européias.
Acredito,
portanto, que esse é um momento decisivo na construção da nova
Europa. Não é impossível que, com a guerra no Iraque finalizada
e com o fim da administração republicana nos EUA (que espero
ardentemente), as tensões da Europa com os EUA diminuam e os
europeus tentem por panos quentes em mais essa crise. Mas eu
espero que não. Ou se definem novos objetivos para a OTAN e
para a União Européia (e também para a ONU) e se caminha efetivamente
nessa direção ou essas organizações tendem a se tornar, cada
vez mais, meras estruturas vazias, sem nenhum significado ou
poder.
A
OTAN, a meu ver, cumpriu um papel chave ao estabilizar o continente
europeu por meio século. Agora, com o grande inimigo vermelho
desaparecido e os dois pólos do Ocidente (Europa e América)
divergindo entre si, é importante repensar o que é o Ocidente
e para que serve a OTAN. Força de apoio ao poder americano?
Organização de vigilância sobre a Rússia e o mundo islâmico?
O debate vai ter que ser feito, mas só vai ter alguma definição,
a meu ver, depois que a União Européia tomar alguma decisão
real sobre o que ela
quer representar no novo mundo. Uma aliança de Estados com mercado
comum como é agora só poderá ser um apêndice do poder americano.
Um grupo de países realmente unidos e com força militar e política
real já seria algo diferente e que mudaria o equilíbrio de forças
dentro da OTAN e em todo o mundo.
Cabe
aos europeus, portanto, decidirem o que querem. Ou a União Européia
será uma união de Estados nação unidos apenas economicamente,
sempre em conflito e menosprezados pelo resto do mundo ou terão
um governo único, eleito por todos os europeus, capaz de dar
uma voz única à Europa e canalizar seu poder (econômico, militar
ou diplomático) para estes fins. Anos atrás, Henry Kissinger
perguntou que número de telefone ele deveria chamar quando quisesse
saber a posição européia sobre algum tema. Ninguém soube responder,
mas talvez já esteja mais do que na hora deste número ser criado
e de existir um presidente da Europa para atender os telefonemas
de Washington.