O
que haveria de positivo no neoliberalismo?
O
neoliberalismo está no centro de vários debates da atualidade.
Como já é possível discutir idéias sem ser preso e torturado
por isso, diferente de anos atrás, muitas pessoas tiveram
acesso a discussões sobre esse tema e, assim, puderam
tirar suas conclusões. Em conseqüência disso, e não
do senso comum, a sociedade brasileira construiu uma
forte rejeição a essa postura teórica que comanda as
práticas políticas de vários governos no mundo. Cientes
da ojeriza que o termo provocou, os liberais reagiram
e afirmam que “não são neoliberais, que são liberais
clássicos” e que “neoliberalismo é invenção da esquerda
para acabar com eles”. Mesmo que fosse invenção, eles
reconhecem que teria funcionado, pois, assim como nos
países capitalistas centrais, a ideologia neoliberal
vem perdendo espaço também em países periféricos como
o Brasil.
Além
do ataque à esquerda, como que responsabilizando os
outros pelo seu próprio fracasso, alguns liberais têm
se manifestado publicamente, afirmando que as pessoas
“de forma pobre e maniqueista culpam o neoliberalismo
e o FMI pela miséria brasileira”. Ora, será que a culpa
seria do PT, da CUT, do MST, da intelectualidade e do
povo brasileiro? Em quem colocar a culpa de algo que
foi construído unilateralmente por uns que agora não
assumem a responsabilidade pelo que fizeram e ainda
tentam descaracterizar o debate que já não podem mais
impedir como no período da ditadura militar?
O
neoliberalismo não constitui um corpo teórico à parte
da tradição liberal, mas tende a radicalizar alguns
aspectos do liberalismo que os liberais clássicos mantinham
com um pouco de receio. Ou seja, podemos afirmar que
o neoliberalismo é a “ala direita” do liberalismo, sendo
concretizado em orientações de governo e a disseminação
de valores em torno do mito do “Estado-mínimo”. A partir
da década de 70, o capitalismo sofreu um enorme desgaste
e, com a incorporação de tecnologia aumentando a crise
de superprodução, houve uma gradativa redução na taxa
de lucros e no crescimento econômico. Como solução ao
problema, foram trazidas idéias de economistas como
Friedrich Hayek e Milton Friedman, reforçando o ideal
da competitividade no livre mercado e a retirada da
influência do Estado sobre a economia.
No
entanto, o que verificamos é que com o acento no livre
mercado houve uma diminuição do crescimento econômico
(de 4% na década
de 60 para uma estagnação em 1% na década de 90), a
desigualdade entre países ricos e pobres cresceu 110
vezes (desde a 2ª. Guerra Mundial até a década de 90),
o desemprego aumentou no mundo inteiro e a miserabilidade
da população é crescente, principalmente nos países
pobres. Além disso, o Estado diminuiu somente no que
se refere às políticas sociais, já que em termos de
aparato coercitivo (Ex. OTAN) e incentivo às corporações
ele só tem aumentado. Os próprios liberais falam de
um aumento do Estado nas últimas décadas e podemos acrescentar
que ele está sendo máximo para o capital e mínimo para
os trabalhadores. O próprio Milton Friedman tem afirmado
que “a mão invisível do mercado só funciona tendo um
punho visível”, o que evidencia como a crítica ao Estado
é apenas parcial.
Mas,
se nem a crítica ao Estado, rotulado como ineficiente
e paternalista pelos liberais permanece, o que ainda
poderia restar em defesa do neoliberalismo? O que se
percebe é uma vangloriação em torno de algumas conquistas
históricas do liberalismo do período da Revolução Francesa
como a “valorização da iniciativa pessoal” e a instituição
dos “direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à prosperidade”.
Podemos admitir que o reconhecimento da liberdade do
indivíduo (conforme John Locke) e a valorização da razão
como meio de conhecimento e conduta ao invés da fé,
foram importantes para a superação da Idade Média, do
feudalismo e da opressão exercida pela Igreja sobre
os indivíduos. Mas, os ideais de liberdade, igualdade
e fraternidade, revolucionários para uma época, foram
utilizados para a legitimação da propriedade privada,
do mercado e da acumulação capitalista no decorrer da
história, não servindo mais como possibilidade de emancipação
humana.
É
evidente que a atual situação social não é simplesmente
decorrente do neoliberalismo, mas inerente à estrutura
do capitalismo. O liberalismo só vem a legitimar o “modo
de dominação” capitalista e o neoliberalismo é sua versão
mais exagerada. Afinal, se o problema central da economia
capitalista é a concentração e se a solução dada como
valorização da iniciativa pessoal ou “meritocracia”
só tende a aumentar a concentração, será que o neoliberalismo
está isento da culpa de ter agravado o capitalismo?