|
Por RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Doutor em Ciências Sociais, Professor da PUC (MG) e Escola Superior
Dom Hélder Câmara. Autor de Terra de Ninguém (Ed.
Unicamp) e Diretor da CPP
Consultoria em Políticas Públicas
|
|
Desde
meados dos anos 80 do século passado, o Brasil experimenta reformas
educacionais de natureza progressista, tendo como referência o acompanhamento
do desenvolvimento humano e maior autonomia escolar. Alterava-se,
assim, a ênfase dos objetivos pedagógicos: do resultado final, tendo
como referência um padrão ideal de aluno, para o processo de aprendizagem,
diferenciado de aluno para aluno. Fora dos círculos de debate sobre
política educacional, poucos entenderam a mudança de perspectiva.
Na verdade, poucos conseguem, até hoje, relacionar a forma como
educamos nossos filhos com a maneira como um aluno se desenvolve
na escola. O processo de aprendizagem e desenvolvimento, enfim,
é o mesmo.
A partir da
mudança de perspectiva, as reformas introduziram novidades organizacionais
e de concepção no sistema educacional brasileiro. Quatro dessas
novidades se destacaram e se disseminaram ao longo do país:
A . Sistema
de Ciclos de Formação. Cada ciclo é uma série escolar de dois
ou três anos de duração. A base teórica que fundamenta os ciclos
são as fases de desenvolvimento de um ser humano. Piaget já
havia estudado o desenvolvimento de crianças e adolescentes
e, desde os anos 30, sugeria que as mudanças biológicas, cognitivas
e morais ocorrem em ciclos. Outros autores se seguiram e reafirmaram
o desenvolvimento a partir de ciclos superiores a doze meses.
A organização em ciclos acompanharia, portanto, as fases de
desenvolvimento das crianças, que nunca são regulares ou lineares
(ninguém muda de comportamento ou sua cognição de acordo com
o calendário de doze meses). Os projetos de ensino e situações
de aprendizagem acompanhariam as peculiaridades do desenvolvimento
de cada aluno e turma;
B . Descentralização
Administrativa. Coerente com o sistema de ciclos, as escolas
ganharam maior autonomia para elaborar seu Regimento Interno
(forma de gestão, sistema de avaliação, relação com comunidade,
currículo, organização dos tempos escolares) e os conteúdos
escolares a serem desenvolvidos. Grande parte dos recursos financeiros
para estudo e assessoria educacional foram descentralizados.
Nunca se investiu tanto em formação continuada dos professores
de ensino fundamental e médio como nos últimos dez anos;
C . Formação
Continuada. Nos últimos dez anos, firmou-se a convicção que
as universidades brasileiras não formam professores. Este não
é um fenômeno nacional. Estudos desenvolvidos pelo professor
António Nóvoa, da Universidade de Lisboa, revelam que o aprendizado
de um professor ocorre efetivamente nos dois primeiros anos
da sua carreira. O educador, enfim, não se faz apenas pela teoria
em virtude de se apoiar sempre no relacionamento com o educando,
na sua capacidade de diagnosticar e intuir o desenvolvimento
de cada turma, de saber estruturar um plano de aprendizagem
articulado a partir de situações programadas. A avaliação que
faz do educando é múltipla porque envolve inúmeros indicadores
(sociais, de comportamento, de capacidade de criação, de procedimentos
técnicos e metodológicos de estudo e pesquisa, de compreensão
e uso de conceitos). Estas características da profissão de educador
sugerem que a formação continuada do professor se mistura com
atividades de planejamento e de diagnóstico. Por este motivo,
deve ser contínua, permanente e exercitada na própria escola,
envolvendo todo corpo docente.
D . Ênfase
na Avaliação Sistêmica. A partir de um seminário organizado
pelo MEC em 1990, o país passou a desenvolver inúmeros métodos
de avaliação dos resultados alcançados em todos sistemas de
ensino: SAEB, Provão, sistemas estaduais. Surpreendentemente,
tais sistemas de avaliação raramente se articularam com as avaliações
pedagógicas realizadas em sala de aula ou nas escolas. O divórcio
das duas modalidades de avaliação foi também conceitual: a sistêmica
sempre foi classificatória (apoiada em um padrão externo de
resultado ideal) e quantitativa; as avaliações pedagógicas,
sugeridas na maioria das reformas eram formativas (acompanhando
o movimento errático de desenvolvimento de cada aluno, sem padrão
de resultado definido prescritivamente) e qualitativa.
Passada a
década de noventa, já é possível identificar avanços e problemas
acumulados. Gostaria de destacar dois problemas maiores que parecem
bater nas consciências dos educadores brasileiros. O primeiro
grande problema é o resultado pedagógico. Na medida em que o sistema
educacional brasileiro se democratiza e acolhe mais e mais educandos,
os problemas de aprendizagem ficam mais evidentes. Ficam ainda
mais expostos com a adoção de tantos sistemas de avaliação adotados.
Entre tantos, destaco os dados do PISA. Trata-se de uma pesquisa
realizada em 2000 em 32 países, organizada pela OCDE (Organização
para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento). Pretende-se que
este teste seja aplicado a cada 3 anos. Em 2000, pouco mais de
265 mil estudantes foram submetidos aos testes de matemática e
linguagem. O Brasil e mais outros três países não-membros da OCDE
foram convidados a participar deste levantamento. O resultado
foi extremamente negativo para nosso país. Nossos alunos apresentaram
os piores resultados de aprendizagem dentre os 32 países. Quanto
mais baixa a renda familiar, pior o resultado, o que denuncia
nossa democracia social. Mas, mesmo os estudantes de mais alta
renda do Brasil apresentam resultados inferiores à média dos outros
31 países pesquisados, denunciando o trabalho das redes públicas
e privadas. Outros testes desenvolvidos no país nos últimos dois
anos constataram o mesmo.
O segundo
grande problema é o déficit na formação de cidadãos. Este não
é um problema apenas brasileiro. As famílias diminuíram sensivelmente
seu papel na educação básica, primária, de crianças e adolescentes,
desde os anos 70. As escolas, por sua vez, não se prepararam para
assumir esta tarefa. Assim, com o aumento de competitividade econômica
e dos convites ao consumo desenfreado, o abandono social foi potencializado
e jogou nossos jovens numa arena de combate pela sobrevivência
ou reconhecimento público. Não conseguimos desenvolver o tão propalado
"protagonismo juvenil" na grande maioria de nossos estudantes.
Mesmo com as inúmeras inovações, apenas 8% das crianças e dos
adolescentes do mundo dizem ir à escola por prazer (segundo
a pesquisa "Voz das Crianças", da UNICEF). Não estamos
educando para que ganhem autonomia, que ajam solidariamente, que
desenvolvam noções de justiça social.
É o caso,
portanto, de nos perguntarmos: que erros estamos cometendo?
Acredito que
um dos erros é o baixo grau de organização profissional da categoria
de educadores. Desde os anos 80, nós, educadores, nos organizamos
para lutar por melhores condições de trabalho. Mas aprofundamos,
de fato, muito pouco sobre o nosso projeto educacional. Em encontros
com educadores de todo o país, quando perguntamos qual o sistema
de avaliação que propomos, a estrutura curricular, o sistema de
promoção de alunos, o modelo de gestão, a resposta, sem exceção,
é um profundo silêncio. Temos nossas opções individuais, mas não
elaboramos nosso projeto de categoria. Sem projeto comum, não
influenciamos na construção de metas, métodos e ações de educação
para o país. Nossa ação, como educadores, continua solitária,
isolada. Nossos problemas são pessoais. O mesmo ocorre com as
soluções. Nós, professores, continuamos passivos em relação à
política educacional.
O segundo
problema é a dispersão de programas de formação. São ofertados,
todos os anos, inúmeros programas oficiais e particulares de formação
continuada dos professores. O mercado editorial brasileiro descobriu
as escolas e colocou à disposição manuais e pequenos textos de
apoio para cada tema das reformas. Ocorre que as orientações metodológicas
e conceituais são totalmente distintas, o que contribui para que
os professores não consigam articular as concepções educacionais
aos instrumentos pedagógicos ou didáticos. Tudo vira um grande
comércio, ofertando o produto da moda, o instrumento que dá os
melhores resultados.
Um terceiro
erro é a evidente fragilidade dos sistemas de avaliação pedagógica.
O que avaliamos nas escolas ou mesmo nos sistemas não está redundando
em mudanças na prática de ensino. É uma falácia creditar o erro
na famosa "promoção automática". Não existe nenhuma
reforma que sugira a promoção sem mérito. O que existe é outro
conceito: "progressão continuada" que significa que
o aluno é avaliado periodicamente através de inúmeros instrumentos
(e não apenas através de provas) e progride de acordo com sua
capacidade, recebendo atenção específica naquilo em que não obtiver
sucesso. Contudo, tanto no ensino seriado como no sistema de ciclos,
as avaliações realizadas não redundam em alterações no plano de
aula que consigam auxiliar na superação das dificuldades dos alunos.
Fazendo uma analogia simplória: é como se um técnico de futebol
avaliasse uma dificuldade de cobrança de faltas num atleta e não
desenvolvesse qualquer programação específica relacionada ao problema
detectado. Este hiato é grave e persiste na história da educação
brasileira.
Grande parte
dos erros identificados acima estão vinculados às condições e
estruturas de trabalho incompatíveis com exigências das reformas
em curso. As reformas sugerem maior autonomia do professor para
elaborar seus planos de aula, para construir os currículos escolares.
Contudo, o tempo de aula continua, com raras exceções, sendo de
50 minutos; os professores de ensino fundamental ministram aula
para mais de 10 turmas com mais de 40 alunos cada; poucas escolas
possuem biblioteca do professor ou tempo de discussão coletiva
para elaborarem uma estratégia comum entre professores de uma
mesma turma; a maioria dos professores ministra aulas em mais
de duas escolas. Como exigir autonomia, criatividade, capacidade
de acompanhar com atenção cada aluno e turma com tais condições
de trabalho e jornada extensiva e intensiva?
Finalmente,
um último erro. Estamos dissociando a educação formal da educação
informal dos educandos. Em outras palavras, o que fazemos em sala
de aula não se articula com o aprendizado na rua, nas tribos de
adolescentes e de amigos, ou mesmo na família e na comunidade
em que o aluno vive. E, para ser sincero, o aprendizado informal
está sendo muito mais útil e vivo que aquele que ocorre nas salas
de aula. A competição, no caso, está desequilibrada. Precisamos
aprender com as ruas e com as ongs. Muitas ongs descobriram métodos
e espaços diferenciados de aprendizagem e conseguem envolver crianças
e adolescentes em situação de risco. Educam, de fato. Nossas escolas
precisam aprender com tais iniciativas. Este é o caso do Circo
de Todo Mundo, de Belo Horizonte, uma ong que utiliza o espaço
circense como projeto educacional. Utilizando o mesmo conceito
uma escola pública, de Brasília, a Escola dos Meninos do Parque,
desenvolvem um projeto pedagógico similar.
Na educação
aprendemos que os erros são mais sinceros que as respostas certas
dos alunos. Revelam sua alma e seu esforço. É com eles que os
professores engajados trabalham e estudam para elaborar seus planos
de trabalho. Seguindo esta trilha poderemos superar nossos fracassos
da última década. Temos que enfrentá-los para reafirmar o ímpeto
e desejo das reformas educacionais. Para que a intenção seja acompanhada
do gesto.
RUDÁ
RICCI
|