Já nas primeiras páginas, os autores, que
tiveram acesso aos documentos secretos da embaixada
brasileira em Oslo (Noruega), revelam, de forma inédita,
as articulações que o governo do ditador Emílio Médici
(1969-74) moveu contra a eleição do então arcebispo
d. Hélder Câmara para o Prêmio Nobel da Paz. De um
lado, a diplomacia brasileira moveu uma campanha difamatória
com notícias "plantadas" na imprensa norueguesa
contra d. Hélder. De outro, atuou diretamente junto
aos membros do Comitê Nobel, na tentativa de influenciar
e mudar os votos.
Os executores desse plano ardiloso contaram
com a importante contribuição do empresário norueguês
Tore Munch, dono de duas fábricas de guindastes em
São Paulo, e de jornais na Noruega. No Brasil, Munch
mantinha estreitas relações com o jornalista Júlio
de Mesquita Neto, diretor proprietário de O Estado
de S. Paulo, o qual ajudou-o a conseguir um Dossiê
sobre d. Hélder, que municiou a atuação de um jornalista
a soldo do Sr. Munch contra o arcebispo.
A estratégia dos representantes do governo
brasileiro, funcionou: em 1970, o Prêmio Nobel foi
concedido a um professor norte-americano, especialista
em fisiologia das plantas; no ano seguinte, o premiado
foi o alemão Willy Brandt (vitorioso por 3 votos a
2).
Esse episódio, contado em detalhes pelos
autores, é apenas a introdução. Nas mais de quatrocentas
páginas, eles relatam o trajeto percorrido por d.
Hélder até o presente. Nesse percurso a biografia
e a história do Brasil se fundem. Na primeira parte,
os Anos Verdes (1909-1935), observamos no cotidiano
das famílias cearenses os laços políticos característicos
do coronelismo, o poder e a disputa entre as oligarquias,
contraposto à dura realidade do povo diante da seca
e da miséria.
São os anos de infância e juventude, da
descoberta da vocação sacerdotal e da militância política
integralista. Então, o jovem padre defendia a instituição
de um Estado forte, centralizado e autoritário, capaz
de fomentar a colaboração entre as classes e combater
o comunismo, a exemplo do fascismo de Mussolini .
Na segunda parte, os Anos Dourados
(1936-1964), os autores expõem como a atuação religiosa
e política do padre Hélder evoluiu em direção à defesa
da causa dos pobres: o desencantamento diante do integralismo
deu lugar à ideologia do Humanismo integral,
influenciado pelo livro homônimo do intelectual católico
francês Jacques Maritain. Agora, o catolicismo de
feição integralista e anticomunista procura se reconciliar
com a democracia, condenando todas as formas de totalitarismo,
de direita ou de esquerda
A Igreja Católica, embora com a resistência
dos tradicionalistas, assumia uma nova postura: de
propugnar por uma ordem social justa. A conseqüência
imediata era a aceitação da necessidade de estabelecer
uma nova forma de atuação dos cristãos, ampliando
sua influência sobre as diferentes esferas da vida
dos leigos. Tratava-se de reconquistar o apoio que
a Igreja vinha perdendo e impedir o avanço do comunismo.
Esse foi o esteio ideológico que contribuiu
para a ação política-religiosa do padre Hélder, principal
agente da reorganização da Ação Católica Operária
(ACO) e do reconhecimento oficial dos movimentos
especializados, os "meios" específicos para
a ação dos leigos (a Juventude Estudantil Católica,
a Juventude Operária Católica etc.). A partir
de então, o padre Hélder centraliza todas as energias
na organização do episcopado brasileiro: a Conferência
Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), fundada
em outubro de 1952.
Todo esse processo, é descrito minuciosamente
pelos autores. Podemos acompanhar os bastidores, as
disputas intestinais na Igreja, a capacidade de articulação
e o talento do Monsenhor Hélder. A ação de d. Hélder,
permeada pelo clima político e ideológico dos Anos
Dourados, é analisada com objetividade e mestria.
Se na primeira parte, o texto flui vagarosamente
devido às minúcias sobre a vida pessoal e familiar
do biografado, bem ao gosto dos que apegam-se estritamente
ao estudo do cotidiano, agora, a leitura decorre ao
sabor do desenrolar dos acontecimentos históricos.
Ao leitor é dado o raro prazer, próprio dos bons livros,
de envolver-se e interagir com o texto. A individualidade
do personagem principal é alçada à grandeza dos desafios
sociais, políticos e econômicos desse rico período
da história brasileira.
A última parte, os Anos Vermelhos
(de 1964 aos nossos dias), mantém o vigor da anterior.
Devoramos atentamente as páginas que relatam esse
trágico período da nossa história. Foram anos difíceis.
D. Hélder, cuja relação com o poder político sempre
pautou-se por uma atitude colaboracionista, passa
a ser perseguido, até tornar-se persona non grata
para os militares.
Até 1964, o "Bispo Vermelho" não
teve dificuldades em transitar pelos corredores do
poder econômico e político. Em 1952, por exemplo,
logo após a fundação da CNBB e já no como bispo, d.
Hélder promoveu um verdadeiro pacto de colaboração
com o governo getulista, cujo objetivo era a promoção
do desenvolvimento das regiões mais atrasadas do país.
A Igreja entraria com sua estrutura, sacerdotes e
leigos e o governo pagaria a conta. Os projetos de
d. Hélder, fundados numa doutrina social que procurava
melhorar as condições de vida da população pobre,
promovendo reformas pacíficas da sociedade, sempre
tiveram o apoio dos sucessivos governos de Getúlio
a Goulart. Essa mesma desenvoltura na convivência
com os governantes do pré-64 também ocorreu na relação
com o poder econômico. Quando solicitados, os banqueiros,
empresários e mesmo as senhoras burguesas do Rio de
Janeiro, deram o seu apoio às obras sociais.
Em princípio esse bom convívio não foi prejudicado
pelo golpe militar. D. Hélder continuou se relacionando
com o poder econômico e não teve dificuldades diante
dos primeiros presidentes militares. Ele manteve os
mesmos objetivos pastorais e sociais e sua atitude
era pragmática: se o governo militar oferecia recursos
para seus projetos, tudo bem. Se não, ele continuava
a trabalhar por seus ideais, com as próprias forças.
Havia mesmo a esperança de que o regime militar realmente
colocasse em prática as reformas que a sociedade brasileira
necessitava, como por exemplo a reforma agrária.
D. Hélder adotou uma postura independente,
acima das disputas entre esquerda e direita. De um
lado, isto representava um apoio tácito à dita "revolução"
Por outro lado, expressava o desejo de não ser obstado
pela esquerda pernambucana em sua ação pastoral, cujas
diretrizes emanavam das encíclicas sociais de João
XXIII e do Concílio Vaticano II.
Enquanto a hierarquia católica, adotava
uma postura anticomunista que resultava na apologia
do golpe, dezenas de leigos e membros do clero estavam
encarcerados. Esse foi precisamente o ponto de estrangulamento
no relacionamento Igreja e Estado. A ação de d. Hélder
em defesa dos presos políticos, inclusive visitando
vários deles nas cadeias, tornou-se inaceitável para
os militares (aliás, um dos mais belos trechos desse
livro é o que relata o encontro do católico Hélder
com o legendário comunista Gregório Bezerra). Isso,
aliado à intransigência e ausência de visão política
do IV Exército em Recife, levou à ruptura. D. Hélder
passou a ser difamado, ameaçado e censurado (foi banido
dos órgão de imprensa, proibidos de fazer qualquer
referência ao mesmo).
Não podendo atingi-lo diretamente, um esquadrão
paramilitar assassinou, em 1969, um dos seus principais
colaboradores, o padre Antônio Henrique. Seus amigos
e pessoas próximas estavam sob constante risco de
vida. D. Hélder passou a denunciar publicamente os
abusos contra os direitos humanos. Em suas conferências
no exterior relatou a situação política brasileira,
descreveu casos de tortura. Foi essa ação que o tornou
um forte candidato ao Prêmio Nobel da Paz.
Nesses "anos de sangue", d. Hélder
também, foi perseguido no interior da própria igreja.
A correlação de forças na burocracia eclesiástica
tornara-se desfavorável à sua atuação. Ele passou
a ser censurado pelo poder hierárquico católico: o
Vaticano exigiu que diminuísse o número das viagens
internacionais, que moderasse o seu discurso público
(o qual deveria passar pelo crivo das autoridades
hierarquicamente superiores). No Brasil, a situação
não era melhor. Atacado por seus próprios pares, acusado
de "esquerdizante", simpatizante do comunismo,
d. Hélder enfrentou um verdadeiro IPM (Inquérito Policial
Militar) interno.
O "arcebispo vermelho" defendeu-se
de forma hábil. Mas, manteve a postura de obediência
e submissão diante das autoridades eclesiásticas.
Obedecer as ordens superiores não levou d. Hélder
a abandonar seus projetos, seus ideais, seu programa
de atuação social. A capacidade de combinar essa difícil
dualidade, constitui um traço característico de sua
forma de agir desde os tempos de padre.
O livro de Praxedes e Piletti, permite-nos
adentrar nos meandros dessas instituições e seus complexos
mecanismos de poder político. Possibilita-nos compreender
a exata dimensão e dinâmica de relacionamentos e acontecimentos
que fogem ao nosso domínio. Fruto de uma pesquisa
minuciosa, com numerosas entrevistas e a análise objetiva
de documentos inéditos, esta obra não apenas fornece
informações precisas até então inéditas, mas é um
retrato vivo das vicissitudes de um personagem mundialmente
reconhecido por seu valor humanitário.
A principal virtude dessa obra é precisamente
situar o biografado no contexto político-ideológico,
sem perder a noção do humano. Não é, portanto, um
livro apologético. É uma biografia digna do nome do
seu personagem principal e comparável àquelas feitas
por grandes biógrafos. Vale a pena ler.