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RESENHA
Um
olhar à esquerda: A utopia tenentista na construção
do pensamento marxista de Nelson Werneck Sodré
CUNHA,
Paulo Ribeiro da
Rio de Janeiro: Editora
Revan; São Paulo: FAPESP 2002
335 págs. - $R 35,00
O
autor é docente na UNESP - Campus de Marília (SP)
e membro da Revista Novos
Rumos
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Por MOACIR
ASSUNÇÃO
Jornalista de O Estado de S. Paulo
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Estudo
reavalia pensamento de Werneck Sodré
Em
Um Olhar à Esquerda, Paulo Ribeiro da Cunha se
insere em processo atual de releitura da obra do historiador
e analisa a sua relação com a história militar do País
O
livro recém-lançado Um Olhar à Esquerda – A Utopia
Tenentista na Construção do Pensamento Marxista de
Nelson Werneck Sodré – de Paulo Ribeiro da Cunha (Editora
Revan/Fapesp, 335 págs., R$ 35), resgata a trajetória
intelectual desse autor, um dos mais importantes historiadores
brasileiros, cuja obra passa ultimamente por um processo
de releitura que inclui o clássico História Militar
do Brasil.
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De
quebra, o trabalho, fruto da defesa da tese de doutorado
de Cunha sob a orientação da professora Élide Rugai
Bastos, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
traz à luz um dado pouco conhecido até na própria
esquerda: a existência de um grupo denominado Antimil
(antimilitar) dentro do Partido Comunista Brasileiro
(PCB), do qual o próprio Sodré, que chegou a general
do Exército, faria parte.
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Criado
após resolução do comitê central do PCB em 1929,
o Antimil tinha, de acordo com o pesquisador, a
função de “atuar junto aos militares com o objetivo
de desenvolver ações insurrecionais”, ou seja, trabalhar
como braço forte do partidão, pronto para a tomada
do poder pela via da luta armada. Esse grupo, de
acordo com o pesquisador, chegaria, nas estimativas
mais otimistas, de 5% a 10% do efetivo das Forças
Armadas.
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Era
coordenado por Almir Guimarães e depois por Giocondo
Dias, ambos participantes da Intentona Comunista
de 1935. Em 1964, haveria cerca de 10% dos oficiais
e praças de corrente nacionalista no Antimil, alguns
dos quais de patentes superiores.
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Até
mesmo a ultraconservadora Marinha de Guerra chegou
a contar com cerca de 300 suboficiais militantes
do PCB, que editaram um jornal clandestino chamado
Bandeira Vermelha. Nos anos 50, relata o autor,
uma deliberação do Antimil aos marinheiros pedia
que não permitissem a incorporação dos cruzadores
Tamandaré e Barroso, recém-adquiridos nos Estados
Unidos, na Guerra da Coréia, como se desconfiava
na época por um acordo entre os governos.
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“Tudo
indica que haveria uma sublevação organizada em
contrário daquela ação, se prevalecesse o acordo
denunciado para a intervenção no conflito”, afirma
Cunha em seu trabalho. O grupo chegou a contar até
com um brigadeiro, Francisco Teixeira. Cerca de
mil militares acabaram expulsos no período posterior
a 1964 por conta da participação no Antimil.
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“Fascistização”
– A tese de Cunha, professor de ciência política
da Universidade Estadual Paulista (Unesp), aponta
para a curiosidade de que o Brasil é, talvez, o
único país do mundo no qual os militares tiveram
uma intensa participação política de esquerda, pelo
menos até os expurgos pós-64, precedidos pelo que
Sodré chamou de “fascistização do Exército”, sob
o comando de seus arquiinimigos Góis Monteiro e
Eurico Gaspar Dutra.
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A
razão pode estar na origem social dos jovens oficiais,
quase todos integrantes da classe média urbana.
Aliás, os “tenentes”, como ficaram conhecidos os
militares de baixa patente que promoveram as revoltas
de 1922, 1924 e, divididos, a de 1930, que levou
Vargas ao poder, se constituíram na principal inspiração
do jovem Werneck Sodré quando da sua entrada no
Exército, em 1924.
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O
então cadete começaria a simpatizar com os “tenentes,”
entre os quais o capitão Luís Carlos Prestes, o
“Cavaleiro da Esperança”, que exerceu grande influência
nos alunos da Escola Militar da Praia Vermelha,
no Rio, onde estudou. Na época, com o prestígio
adquirido na Guerra do Paraguai, o Exército começava
a ganhar ares de única instituição brasileira de
caráter nacional e democrático, ao contrário da
Guarda Nacional, considerada uma arma poderosa nas
mãos dos donos do poder local.
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Na
verdade, a trajetória política do futuro historiador
– defensor empedernido da tese de um feudalismo
brasileiro – iniciou-se no nacionalismo militante,
recheado de flertes com o tenentismo. A turma da
qual fez parte escolheu como patrono o “tenente”
Siqueira Campos. No início da sua carreira militar,
Sodré sofreu, de forma intensa, a influência do
professor Isnard Dantas Barreto que lhe ensinou
que a história era “a ciência das ciências”. Na
época, o ensino dessa disciplina se resumia a um
mero decorar de datas e fatos.
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O
historiador foi um dos criadores do projeto História
Nova que se propunha a revolucionar a forma de ensinar
história. Colaborador do jornal Correio Paulistano
durante parte de sua vida, Sodré iniciou a sua rotação
à esquerda, na direção do marxismo, somente depois
de 1937, em pleno Estado Novo getulista, quando
atuava em Mato Grosso como ajudante-de-ordens do
general Pessoa, um velho amigo.
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Na
ocasião, quando o Exército foi chamado a intervir
na tensa relação entre proprietários rurais e agricultores
pobres, Sodré escreveu o livro Oeste: Ensaios sobre
a Grande Propriedade Pastoril. No início dos anos
40, pontua o autor, o historiador, amigo pessoal
de Graciliano Ramos, Jorge Amado e vários expoentes
da literatura no período, já teria entrado no PCB,
com uma atitude de intelectual militante.
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Discrição
– É interessante constatar que a condição de comunista
ou membro do PCB nunca foi assumida publicamente
pelo autor. Cunha relembra em seu livro trechos
de entrevistas concedidas por Sodré, em que ele
se refere explicitamente ao partido, embora de maneira
discreta. “O que nós achávamos do governo Dutra
nem se pode escrever, são coisas impublicáveis.
O governo dele foi uma calamidade pública. Percebíamos
que o alvo da reação era o partido”, afirma em entrevista
a Dênis Moraes. Em 1947, o PCB seria colocado na
ilegalidade.
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Quase
20 anos depois, Sodré veria a derrota dos militares
nacionalistas com o Golpe de 1964. A sua análise
sobre o momento seria fria e direta: “A esquerdização
nos isolou.”
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Foto:
Ag. Globo - Legenda: Werneck Sodré: trajetória política
teve início no nacionalismo militante
Fonte:
O Estado de S. Paulo - Caderno 2
- 05 de janeiro de 2003
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