O
termo "estigma" surgiu na Grécia Antiga, para se referir
aos sinais do corpo que os gregos interpretavam como algo mau
daquela pessoa. Assim negativamente marcada, a pessoa deveria
ser evitada, especialmente em lugares públicos.
Hoje
em dia é considerado estigma qualquer marca diferencial - não
somente do corpo - de uma pessoa, que o social se aproveita
para reduzí-la à esse sinal. Estigmatizar
é como colocar um rótulo em alguém. Pode-se rotular
uma pessoa a partir de um defeito físico, a gordura ou magreza,
a cor da pele, a estatura, o modo de falar, andar, vestir, se
é canhota, enfim, qualquer traço que fuja dos padrões "normais",
pode levar um grupo social a discriminar, rejeitar ou excluir
uma pessoa ou grupo.
Caetano
Veloso declarou que "de perto, ninguém é normal".
Algumas personalidades olham os outros como que através de uma
lupa procurando defeitos. Para estes, sua lupa somente se fixa
nos defeitos dos outros, apequenando o ser pessoal.
O estigma na escola
No
cotidiano escolar é estigmatizante e causa sofrimento
psíquico quando uma pessoa sente-se reduzida a: "retardado",
"escravo", "carvão", "ceguinho",
"zarolho", "perna torta", "dumbo"
etc. Tais modos de tratamento, geralmente repetido de
modo zombeteiro e depreciador, no mínimo, terminam irritando
a vítima ou colando nela como apelido.
Freqüentemente,
crianças de classe média discriminam as pobres, os menos pobres
também discriminam os ainda mais pobres, as brancas tendem a
discriminarem as que são negras, asiáticas ou indígenas. Quando
pequeno, sofri discriminação por ser filho de pais desquitados.
Fui exposto em sala de aula pela professora, que não tinha noção
de que me constrangia fazendo perguntas sobre minha situação
particular. Recentemente soube que, nas escolas, crianças e
adolescente que sentem-se discriminados porque simplesmente
usam óculos; também uma adolescente grávida é tão discriminada
quanto um garoto que perde o cabelo no tratamento quimioterápico.
Enfim, ser diferente na escola - aluno ou profissional
- ainda é alvo de estigmatização por aqueles que se acham perfeitos.
Tal como está na Bíblia, se pudessem, alguns atirariam pedras
nos diferentes por ter uma marca física, psicológica, racial
ou cultural.
Se
a escola "deixa" que esse tipo de atitude discriminatória
ou excludente continue, estará "autorizando"
o desenvolvimento de cidadãos injustos, superficiais e maus.
O adulto que estigmatiza, discrimina e exclui seu semelhante
certamente aprendeu quando criança a agir assim.
A
escola e universidade são instituições que supostamente reinam
a razão (logos), mas na prática é um espaço social dominado
pelas paixões (pathos), preconceitos, estereotipias e
estigmas. Grupos ou "panelas" nelas existentes, são
sintomas de que nelas reinam paixões jamais discutidas ou investigadas.
Há uma espécie de acordo de cavalheiros nessas instituições
em não tocar em determinados assuntos, como por exemplo, a questão
racial, as discriminações dirigidas a um professor seguidor
de uma determinada linha teórica divergente, fora do cânon...
Na minha experiência de professor, convivi com colegas de cursos
de psicologia em que os behavioristas não se aproximam dos psicanalistas;
na pedagogia, onde os piagetianos não se misturavam com os vigotskianos;
nas ciências sociais a verve crítica tende a metralhar tudo,
menos a si mesmo, ou seja, conforme o dizer de P. Demo, são
"dialéticos para fora e funcionalistas para dentro"
(Demo, P. Dialética da felicidade. V. 3. Petrópolis,
Vozes, 2001, p. 59), etc.
Que
fazer quando esses profissionais em vez trabalhar para diminuir
reforçam estereótipos e estigmas? Que fazer quando sabemos que
o professor estigmatiza um aluno ou colega porque, no fundo,
carrega o preconceito contra nordestino ou é racista contra
negros? Que fazer se a escola - mesmo sem querer - também reproduz
os estereótipos e preconceitos existentes na sociedade?
Professores
e demais funcionários também sofrem de serem vítimas de apelidos
e exclusão, tanto pelos alunos como pelos próprios colegas de
trabalho. Os sinais de exclusão mais freqüentes acontecem através
do olhar, do distanciamento do corpo, das palavras que visam
"queimar" socialmente a pessoa, geralmente feito em
forma de cochicho, de meias palavras, insinuações e, nos casos
mais graves, através de atos de exclusão camuflados hoje tipificados
de "assédio moral". O "assédio moral"
é uma atitude psíquica ainda mais violenta, pois causa profundos
danos na personalidade da vítima indefesa. Segundo estudos,
o "assédio moral" acontece quando alguém ou um grupo
tentam destruir a auto-estima de outra mais frágil ou marcada
por algum atributo que chame a atenção. A vítima não sabendo
como reagir, introjeta o estigma, terminando por achar-se merecedora
da rejeição. Ela pensa: "Se todos vêem que sou tão defeituoso,
feio, ruim, logo, devo aceitar isso como verdade".
Recentes investigação das causas dos atos amoucos em que jovens
cometeram assassinatos múltiplos em algumas escolas norte americanas,
divulgado no programa de tv "60 minutos" (2003), aponta
a estigmatização, a intimidação, a provocação, com um flagelo
em todos os EUA e acontecem diariamente nas escolas. "Todos
os dias mais de 100 mil crianças deixam de ir à escola, por
temor dessas ameaças". Após esse estudo, esses crimes não
mais são considerados produtos de psicóticos ou loucos. Suspeita-se
que a maioria dessas tragédias "absurdas" naquele
país é decorrente "dessa situação infernal em que jovens
são humilhados todos os dias e que decidem preferirem matar
ou morrer a serem provocados outra vez".
O estigma muda para ficar no mesmo
Na
época da ditadura militar, ser rotulado de "subversivo",
"comunista" ou "reacionário" podia afetar a imagem social da pessoa. No período democrático de
FHC, não ficava bem uma pessoa ser rotulada de "neo liberal"
ou "chapa branca", mesmo que o sujeito não comungasse
desse tipo de ideologia.
Até
hoje "queimar" politicamente alguém é como jogá-la
no fogo dos infernos da sociedade, de onde será muito difícil
ela sair de lá. Na China quando um membro do governo não é mais
aceito se diz que "caiu em desgraça" social.
Em
variados momentos da história da humanidade muitas pessoas consideras
"diferentes" da maioria sofreram maus tratos ou foram
destruídas ou até exterminadas. A inquisição religiosa, a chamada
"caça às bruxas", a "solução final" contra
os judeus, a "caça aos comunistas", a "revolução
cultural chinesa", são alguns maus exemplos da história
da humanidade onde rotular alguém ou grupo foi condição sine
qua non para destruí-las. Pode-se dizer que a história da
humanidade é uma história de intolerâncias, perseguições e atrocidades
cometidas em nome de alguma idéia, crença ou moral, por pessoas
consideradas "certas", "perfeitas". Caberia
aos demais apenas o dever de submeter a essa crença, senão...
(Leiam aqui, no Espaço Acadêmico, n. 17, out/ 2002, o artigo
"Burakumin", de Eva Bueno,
analisando o grupo social mais estigmatizado no Japão. Os burakumins
são considerados pela sociedade japonesa os "párias",
os "impuros", "inferiores", e não devem
misturar-se a sociedade normal, revela Bueno. Lembramos também
os brasileiros, dekasseguis, que sofrem o estigma enquanto
trabalhadores imigrantes na terra do sol nascente).
O estigma
também atinge grupos culturais e religiosos fechados ou não
compreendidos. Após o 11 set.2001, nos EUA, qualquer
pessoa parecida com árabe ou que vista como muçulmano, é vista
como uma terrorista em potencial. Mais que um erro de generalização
é um ato estigmatizante que pune injusta e indiscriminadamente
todos os membros de culturas que não sejam anglo-saxônicas.
Muitos
estigmas morrem após ter passado as contingências da época.
Na década de 70, no Brasil, a palavra "subversivo"
causava arrepios, hoje está esvaziada de sentido, pois o momento
político e outro. Nosso presidente Lula, sofreu estigmas de
"subversivo", de "operário", "nordestino",
"deficiente físico" (por ter perdido um dedo em acidente
de trabalho), também por não possuir diploma de nível superior,
etc
Mas,
existem estigmas que tem o poder de deixar a pessoa marcada
para sempre. Por exemplo, a marca de "traidor", "delator",
"alcaguete", "dedo duro", tem o poder de
fixar na memória social, causando sérios danos sócio-psicológicos
no seu portador que poderia carregar tal marca maldita para
sempre. Nos anos da ditadura, o famoso cantor Wilson Simonal
foi considerado "dedo duro" no meio artístico e nunca
mais conseguiu se reerguer na carreira profissional. Não sabemos
ao certo qual era o fundo verídico desse boato, mas o estigma
de "dedo duro" pegou no cantor de músicas como "Pa-tro-pi"
e "Samarina" que ficou impedido de exercer sua profissão
e morreu esquecido.
Estigmatização camuflada
A
Profa. Leny Mrech, da USP, nos alertou sobre os atos e palavras
que passam por inocentes [literalmente em latin in +
nocens = não nocivo, sem maldade] mas que no fundo
portam estigmas e desejo de exclusão. Por exemplo, quando alguém diz "meu aluno
down" (ao se referir a um aluno portador de deficiência
mental), ou "minha amiga, que é deficiente física...",
será que não está fazendo um ato de exclusão social? Lembro-me
de um colega da universidade pretendendo passar um "elogio"
a uma colega, dizendo: "apesar de ser mulher, ela é uma
boa profissional". Certa vez, presenciei de um encontro
patrocinado para se discutir os rumos da cultura da cidade,
um rapaz branco dirigiu-se ao público pedindo licença para chamar
os negros presentes de "marrons", pois assim ele pensava
não estar sendo racista. Será que esses atos não são de exclusão
e racismo, camuflados? Perguntemos as pessoas "vitimadas",
como se sentem tratadas dessa maneira ?
Finalmente,
não podemos esquecer outra faceta quanto ao uso de estigmas.
Pessoas ou grupos, por algum interesse escuso, costumam usar
do engenhoso artifício de forjar uma falso estigma sobre alguém
que eles odeiam com a finalidade de queimá-lo. Casos comprovados
criminalmente, como a Escola Base, de São Paulo, e outro retratado
no filme norte-americano "Acusação", em que professores
e diretores foram acusados injustamente de pedofilia. Diante
de maquinações como essas, é praticamente impossível remover
de si tal marca totalmente, mesmo sendo mentira. Porque mesmo
sendo comprovado ser falsa a acusação o imaginário social ficará
sempre com a suspeita ou dúvida. J. Goebbs, espécie de ministro
das comunicações de Hitler, formulou o dito "uma mentira
repetida várias vezes, termina virando verdade". As
vezes uma pessoa fica marcada a vida toda, sem motivo, sem merecer,
pela via da repetição do boca a boca. Um famoso cirurgião plástico,
nos EUA, sofreu o boato de que estava com AIDS, no início do
aparecimento dessa doença, quando ela foi chamada de "peste
gay". Perdeu todos os clientes, caiu em depressão, e terminou
se exilando noutro país para sobreviver pessoal e profissionalmente
Esse artigo foi escrito inicialmente para pais, visando a educação
dos filhos. A conclusão provisória é: se os pais deixam de corrigir a conduta
dos filhos que teimam em estigmatizar e excluir os coleguinhas,
ainda poderíamos contar com os professores um penúltimo recurso
de re-educação. Mas, isso só seria possível se os professores
antes souberem trabalhar em si próprios virtudes como: a tolerância,
o respeito ao próximo, a polidez, a temperança, a generosidade,
a humildade, a boa-fé . A educação deve ir para além
do ensino de conhecimentos e da simples tomada de consciência
dos problemas humanos; além de palavras do professor (cuspe
e giz) deve-se propor exercícios de atos de cidadania de todos.
Afinal, não é suficiente ter boas intenções, é preciso passar
ao teste da realidade.
Quanto às crianças que pertencem a grupos minoritários, o psicólogo
social Kurt Lewin, elaborou 4 princípios para a sua educação:
1. A criança, desde cedo, deve tomar consciência de sua condição,
da qual grupo pertence, os constrangimentos e discriminações
dos quais sofrem.
2. Sensibilizar a criança desde cedo ao fato de que essa questão
[discriminação, estigmatização, preconceito, racismo, exclusão]
não é pessoal, é antes uma questão social e histórica.
3. Os pais devem deixar de pressionar as crianças a adotarem
uma conduta exemplar em presença dos outros. Deve evitar de
constranger a criança a ambicionar altos postos nas diferentes
esferas em que se orienta. Dito de outro modo, é necessário
libertar a criança do mito de que será facilmente aceita pelos
outros se sobressair. Por exemplo, quando diante de expressões
anti-semitas ela estará imunizada contra o jogo dos mecanismos
de auto-acusação, os quais são disparados como defesa contra
a discriminação.
4. É fundamental ensinar desde cedo ao jovem minoritário estigmatizado, que o verdadeiro
perigo para ele é de ser, durante toda a sua vida, um sujeito
à margem da sociedade, que tenta integrar-se e assim permanece
um eterno adolescente - por um lado, incapaz de se identificar com
seu grupo de origem e também com o grupo que deseja pertencer.
[Fonte: MAILHIOT, G. Dinâmica e gênese dos grupos. São
Paulo: Duas cidades, 1976, p. 30-61]
PS: Um estudo clássico sobre esse assunto é de GOFMANN, E. O estigma.
Ed. Zahar. Recentemente foi publicado o livro de HIRIGOYEN,
M-F. Assédio moral; a violência perversa do cotidiano.
Ed. Bertrand-Brasil, 2000. Tb. documentários apresentando workshops
sobre o racismo, nos EUA, conduzido pela Profa. Jane Elliot, "Olhos
azuis" em 2 partes, [1996] e "O olhar indignado
de Jane Elliot" [1998?}. Produção da Dentkmal Films,
EUA; Br-GNT. O programa "60 min", foi transmitido,
no Brasil, pelo GNT, de 24/01/2003).