Os
descaminhos do desenvolvimento
O fracasso das recomendações do ”Consenso
de Washington” – liberalizar, privatizar e flexibilizar
as relações de trabalho – impõe uma revisão urgente
da teoria e da prática do desenvolvimento econômico.
A experiência das duas últimas décadas evidencia amplamente
que não é o maior crescimento econômico, mas a qualidade
deste, que determina a medida do aumento do bem-estar.
O crescimento do PIB não significa melhor qualidade
de vida, em termos de saúde, educação e mais liberdade
de opções. Número crescente de estudiosos consideram
o crescimento econômico como condição necessária porém
não suficiente para o desenvolvimento, que é um processo
complexo e irredutível a poucas variáveis econômicas.
Para Amartya Sen (1981), o desenvolvimento seria o processo
de ampliação da capacidade de realizar atividades livremente
escolhidas e valorizadas, o que não é conseqüência automática
do crescimento econômico. Para James Wolfensohn, presidente
do Banco Mundial (1996),”sem desenvolvimento social
concomitante, nunca haverá desenvolvimento econômico
satisfatório”.
Apesar dos esforços louváveis do
Banco Mundial para financiar e apoiar projetos de desenvolvimento
social, os resultados têm sido decepcionantes. Ignoram
seus mentores a contradição fundamental inerente ao
sistema de produção capitalista, cuja dinâmica de acumulação
e reprodução – via busca cega de mais produtividade
e lucros – tende a destruir o tecido das relações sociais.
A exploração e alienação no trabalho pela divisão e
subdivisão das tarefas; o desemprego tecnológico e estrutural;
as migrações e o conseqüente desarraigamento de trabalhadores
rurais e urbanos propagam os sintomas de anomia social
– agressões, violência e criminalidade que afetam indiscriminadamente
a todas as camadas da população. O ritmo e a intensidade
com que progride a concentração de capital em conseqüência
da corrida pela produtividade e eficiência, sem considerar
os efeitos sociais negativos, não podem ser compensados
por projetos paternalistas e de caridade.
A proposta alternativa parte de uma
visão sistêmica, contemplando a multiplicidade de fatores
intervenientes e suas relações recíprocas, recusando
a visão mecânica simplista e postulando que “o todo
é diferente da soma das partes”.
Os cientistas sociais que se debruçaram
sobre a problemática dos fracassos do desenvolvimento
e suas causas – positivas e negativas – têm apontado
alternadamente para variáveis geográficas, políticas,
étnico-raciais, entre outras para explicar os respectivos
sucessos de alguns países e regiões, particularmente
do hemisfério setentrional, e os fracassos do desenvolvimento
no sul, nas antigas áreas e territórios colonizados.
(The Economist
– Roots of Development, October 5, 2002, pág.74).
Uma nova política social, em vez
de procurar remediar os efeitos destrutivos da lógica
da acumulação, é concebida como condição indispensável
do desenvolvimento sustentável. Em todos os debates
travados nos últimos anos, o conceito de Capital Social
tem ocupado espaço crescente, devido à percepção de
seus impactos na reformulação das práticas de desenvolvimento.
Além da onda de democratização que varreu o mundo dos
países pobres nas últimas duas décadas, criando condições
favoráveis à revisão crítica das teorias convencionais,
está se impondo a percepção do ser humano como ator
social. Em vez de condiciona-lo por estímulos e sanções
positivas e negativas, “a cenoura ou o chicote” do sistema
de produção taylorista, procura-se trabalhar com a necessidade
gregária, o espírito de cooperação e os valores de apoio
mútuo e solidariedade, como base na “eficiência social
coletiva”. No clima geral de incerteza e insegurança
quanto ao futuro e, tendo em vista o baixo poder explicativo
da epistemologia convencional, torna-se imprescindível
à integração de novos conceitos e análises nos debates
sobre desenvolvimento. Entre estes, ocupam lugares cada
vez mais proeminentes o capital social e o papel da
cultura.
Capital social e cultura como
fatores de desenvolvimento
Estudos de economistas do Banco Mundial
distinguem quatro formas básicas de capital: o natural,
constituído pelos recursos naturais aproveitáveis em
cada espaço geográfico-ecológico; o capital físico construído
pela sociedade, tal como a infra-estrutura, as máquinas
e equipamentos, o sistema financeiro; o capital humano,
resultado do nível de educação, saúde e acesso à informação
da população, e o capital social - conceito inovador
nas análises e propostas de desenvolvimento. Ao tentar
desvendar as causas da dinâmica de expansão do sistema
de produção capitalista nas últimas décadas, privilegia-se
a contribuição da capital social e humano para o desenvolvimento
tecnológico, o aumento da produtividade e o próprio
crescimento da economia.
Por ser de origem recente – as primeiras
menções são da década de noventa – não há ainda uma
definição precisa de capital social e a maioria dos
autores recorre a definições relacionadas com suas funções,
ressaltando ora aspectos da estrutura social, ora o
uso desse recurso por indivíduos. Coleman (1990) trabalha
com o conceito no plano individual, apontando a capacidade
de relacionamento do indivíduo, sua rede de contatos
sociais baseada em expectativas de reciprocidade e comportamento
confiáveis que, no conjunto, melhoram a eficiência individual.
No plano coletivo, o capital social ajudaria a manter
a coesão social, pela obediência às normas e leis; a
negociação em situação de conflito e a prevalência da cooperação sobre a competição, tanto nas escolas
quanto na vida pública, o que resultaria em um estilo
de vida baseado na associação espontânea, no comportamento
cívico, enfim, numa sociedade mais aberta e democrática.
Também para Putnam (1984), um dos
pioneiros nos estudos sobre capital social, este se
reflete no grau de confiança existente entre os diversos
atores sociais, seu grau de associativismo e o acatamento
às normas de comportamento cívico, tais como o pagamento
de impostos e os cuidados com que são tratados os espaços
públicos e os “bens comuns”. Enquanto o capital humano
é produto de ações individuais em busca de aprendizado
e aperfeiçoamento, o capital social se fundamenta nas
relações entre os atores sociais que estabelecem obrigações
e expectativas mútuas, estimulam a confiabilidade nas
relações sociais e agilizam o fluxo de informações,
internas e externas. Em vez de controles e relações
de dominação patrimonialistas, o capital social favorece
o funcionamento de normas e sanções consentidas, ressaltando
os interesses públicos coletivos. Enquanto as vias convencionais
de formar capital humano estimulam o individualismo,
a construção de capital social repercute favoravelmente
na coesão da família, da comunidade e na sociedade.
B. Kliksberg (2001) ressalta o papel fundamental do
Estado na criação do capital social. Citando vários
estudos realizados pelo Banco Mundial e universidades
norte-americanas, evidencia-se uma correlação significativa
entre o grau de confiança geral e as normas de cooperação
prevalecentes na sociedade com os avanços no desenvolvimento
econômico e social. Como hipótese a ser testada empiricamente,
afirma-se que quanto menor a polarização entre ricos
e pobres maior o capital social, maior a participação
em associações e projetos coletivos, maior a renda e
melhores as práticas produtivas, na agricultura e na
indústria. A cooperação com a administração pública
melhora a qualidade dos serviços públicos e influencia
positivamente o rendimento das crianças nas escolas
e a eficiência dos serviços de saúde.
Fatores adversos à formação de capital
social são a desigualdade na distribuição da renda e
de oportunidades, o desemprego e as catástrofes naturais
que levam à migrações, desarticulando a rede de relações
sociais existentes e exigindo dos indivíduos grandes
esforços nas tentativas de reconstrução de uma rede
de relações sociais de apoio e confiança. As maiores
vítimas no processo de desestruturação são as crianças,
particularmente, as de famílias desorganizadas, que
apresentam baixos índices de aprendizagem e elevadas
taxas de evasão escolar. Segundo A. Hirschman (1986),
o capital social não se desgasta com o uso e não se
esgota, mas pode ser destruído ou reduzido, aumentando
a vulnerabilidade dos mais pobres e mais fracos, dos
desempregados e desabrigados sujeitos às manifestações
das diferentes formas de violência, agressões e delinqüência,
transformando o ambiente numa situação em que o homem
se torna o lobo dos outros (“homo homini lupus”).
Capital social e cultura
A cultura, entendida como o conjunto
de conhecimentos, crenças, artes, normas e costumes
adquiridos e desenvolvidos pelos seres humanos em suas
relações sociais, é um fenômeno universal, embora infinitamente
variada em suas manifestações concretas. Sendo a parte
“aprendida” do comportamento humano, a cultura em seus
variados aspectos confere “sentido” à vida dos seres
humanos, que se comportam de acordo com as normas e
valores codificados em sua linguagem de símbolos que,
em seu conjunto, configuram o estilo de vida do grupo,
da comunidade e da sociedade. Sua função básica é manter
a coesão do grupo de seus portadores, resistindo às
mudanças introduzidas por processos econômicos e políticos,
internos e externos.
A interação com outros grupos e sociedades
resulta em pressões e conflitos que têm caracterizado
toda a evolução histórica da humanidade. Inovações tecnológicas
e bens de consumo são mais facilmente assimilados, enquanto
padrões culturais que afetem a estrutura familiar e
o código moral e religioso despertem mais resistência
e sentimentos de solidariedade dos membros do grupo.
Este tipo de coesão que se fecha contra o intercâmbio
externo aproxima-se do padrão, denominado por E. Durkheim,
de “solidariedade mecânica”, baseado na uniformidade
e rigidez de conduta e suas sanções. Como conciliar
a aspiração à autodeterminação e autonomia cultural
de inúmeros grupos étnicos, ansiosos de preservar sua
cultura e tradições, face ao avanço impetuoso da globalização
da economia, rompendo todas as barreiras e impondo padrões
de consumo, materiais e simbólicos, únicos?
O fortalecimento e a mobilização
das culturas tradicionais podem exercer um papel importante
nas políticas e projetos que visem a superação do estado
de pobreza e a integração de populações marginalizadas
e excluídas. Mesmo desprovidas e espoliadas de bens
materiais, a cultura e as tradições com seus conhecimentos
acumulados e aplicados em projetos de integração social
podem ter um papel fundamental. O resgate de padrões
tradicionais na preparação de alimentos, elaboração
de produtos de artesanato, cantos e danças pode funcionar
como elemento-chave na reconstrução da identidade coletiva
e do capital social. Processos de intervenção social
devem visar prioritariamente o resgate da auto-estima
dos grupos e populações marginalizadas, a fim de estimular
sua criatividade e o espírito de cooperação.”A promoção
da cultura popular, a abertura de canais para sua expressão,
seu cultivo nas gerações jovens (...) cria um clima
de apreço genuíno por seus conteúdos, fará crescer a
cultura e, com isso, devolverá a identidade aos grupos
empobrecidos” (Kliksberg, 2001, p.142).
A exclusão social – fenômeno típico
nas sociedades periféricas neste século – se revela
na fome, falta de abrigo e falta de acesso ao mercado
de trabalho tem se alastrado pelos efeitos perversos
da acumulação concentradora de riquezas do próprio sistema.
A democratização da cultura, através da criação de espaços
culturais acessíveis às populações desfavorecidas, permite
criar vias de integração. Atividades culturais podem
funcionar como um sistema educativo complementar, reforçando
o trabalho da escola, inclusive para adolescentes e
adultos que abandonaram antes do tempo o ensino oficial.
Desenvolvendo uma ampla variedade de programas, os espaços
culturais podem oferecer opções alternativas de identidade,
pertinência e participação social. A família, instituição
social básica de integração social, seria a principal
beneficiada por programas culturais, reforçando os vínculos
afetivos e espirituais que contribuem à melhoria do
rendimento escolar das crianças e no desenvolvimento
de sua inteligência emocional e criativa. Outro aspecto
positivo reside no estimulo a uma cultura de saúde preventiva,
envolvendo todos os membros da família.
Diante o quadro de desagregação de
famílias de deserdados, quando uma parcela crescente
é chefiada pelas mães com numerosa prole a cuidar, os
espaços culturais podem contribuir ao fortalecimento
dos laços, internos e externos, desta instituição e
de diferentes formas de associação e cooperação para
enfrentar problemas comuns.
Não devemos, contudo, alimentar ilusões
quanto aos efeitos milagrosos da participação em espaços
culturais. A cultura oficial, tanto no sistema educativo
quanto na vida profissional, enfatiza o individualismo
e o desinteresse pelo bem-estar coletivo. Estimula o
consumo afluente e o enriquecimento individual como
principais objetivos na vida, o que enfraquece o tecido
social e leva à sua desagregação. A predominância de
valores contrários à solidariedade e cooperação resulta
em expansão das redes de corrupção e delinqüência em
todos os níveis da sociedade.
A cultura constitui o âmbito onde
a sociedade gera valores e os transmite de geração a
geração. Valores positivos favorecem a equidade e a
justiça social, na medida em que permeiem os grupos
e as instituições sociais, desde a escola e os lugares
de trabalho até os tribunais de justiça. Constituem
fatores propícios ao espírito empreendedor coletivo
e assim, ao desenvolvimento democrático e participativo.
São também esses valores que têm potencial de atrair
jovens das classes mais abastadas para que engajem em
atividades de voluntariado e de militância em ONGs e
movimentos sociais, inspirando uma consciência cívica
fundamental para a formação da sociedade civil capaz
de arcar com uma parte das responsabilidades do desenvolvimento
social, em estreita colaboração e parceria com os poderes
públicos.
Paradigmático a este respeito é a
criação de uma Comissão Governamental de Valores Humanos,
em 1998, na Noruega, (vide Kliksberg, 2001, pág. 146),
com os seguintes objetivos:
a)
criar na sociedade uma consciência crescente sobre os valores
e os problemas éticos;
b)
contribuir para um maior conhecimento do desenvolvimento de
valores humanos em nossa cultura contemporânea;
c)
identificar desafios atuais em matéria ética da sociedade e
discutir possíveis respostas;
d)
promover a integração dos diferentes setores a este debate;
A colaboração entre o poder público
e a sociedade civil afigura-se como fator fundamental
para mobilizar e liberar as forças criativas latentes
para a luta por um desenvolvimento sustentável em nossa
sociedade.