Terminou de anotar suas respostas? Recolheu quase 100% de aprovação,
como ocorre nos plebiscitos da CNBB? Não se preocupe com esse
tipo de unanimidade, pois meu teste é obviamente capcioso
e destinado a recolher o máximo de respostas positivas, com
base numa indução provavelmente maldosa no próprio ato de
formular as questões (aliás, como ocorre nos plebiscitos da
CNBB).
Mas você concorda, pelo menos, em que afirmações desse tipo
costumam receber o assentimento da maioria das pessoas, a
partir de simples posições de “senso comum”, como as que você
mesmo ostenta, sendo portanto suscetíveis de recolher a adesão
da grande maioria dos brasileiros “bem informados”?
Se você continua respondendo pela afirmativa, vamos tentar
abalar essas convicções bem formadas mediante uma operação
de “desconstrucionismo” político-econômico, como convém a
pessoas que não hesitam em completar as descobertas da psicologia
analítica com outros elementos conceituais e factuais das
demais disciplinas das ciências humanas.
Não por um simples exercício de “contrarianismo”, mas também
com base numa reflexão própria a partir dos dados da história,
das evidências econômicas, da sociologia “empírica” e da experiência
vivida, vou tentar defender posições contrárias (quase em
100%, ainda que essas unanimidades seja aborrecidas). Minha
intenção é de mostrar como um mero esforço de think again (o mais popular “pense duas
vezes”) pode acabar desvendando surpreendentes contradições
nas posições mais singelas que são exibidas normalmente em
nossos manuais correntes de “idéias recebidas”, dessas que
também se encontram nas cartilhas da CNBB e nos livros de
“economia política” de uma certa comunidade acadêmica.
Vejamos, portanto, a mesma lista de questões/afirmações, agora
acrescentadas de meus comentários provavelmente enviesados
(mas, como ensina Max Weber, é difícil evitar absolutamente
julgamentos de valor na prática das ciências humanas).
1. O mundo é injusto
e desigual, está baseado nas relações de força e na prepotência
dos poderosos.
Talvez, mas menos do
que antes e menos do que se pensa.
O mundo sempre foi desigual e os países menos poderosos têm
de fazer um esforço singular para garantir que seus interesses
sejam pelo menos ouvidos, como já clamava Rui Barbosa na segunda
conferência da Haia, em 1907. Ele continua desigual, mas com
o surgimento da ONU e a expansão do direito internacional
em áreas cada vez mais amplas dos sistemas normativo e regulatório
– anteriormente deixadas à competência exclusiva dos Estados
– ele tende a tornar-se administrado mais pela força do direito,
do que pelo direito da força. Ele deve continuar sendo desigual,
até onde o horizonte histórico nos permite visualizar, mas
a imposição da força bruta tende a ser relegada a casos extremos
(e marginais) de litígios entre países ou dentro de países
(guerras civis). Mesmo o moderno sucedâneo dos poderosos impérios
de outrora não pode atuar com base apenas na sua vontade unilateral
e tem de fazer legitimar determinadas ações pelo corpo político
por excelência (por certo imperfeito) da comunidade das nações,
representado pela ONU (e seu Conselho de Segurança).
Nesse sentido, o mundo contemporâneo é menos injusto do que
aquele conhecido até meados do século XX, mas ele continuará
sendo desigual, estruturalmente falando, na medida em que
o desempenho relativo dos países continua apresentando diferenciais
enormes, no que respeita educação, direitos humanos, democracia,
avanços tecnológicos, oportunidades de progresso social etc.
O mundo era por certo menos desigual quando a maioria das
nações tinham sistemas econômicos baseados na agricultura
de subsistência ou em processos manufatureiros simples. A
divergência aumentou a partir da primeira e da segunda revoluções
industriais – vapor, primeiro, química, eletricidade e motor
a explosão, depois – e tornou-se propriamente abismal com
o aprofundamento da terceira, baseada nos sistemas de informação
e na economia do conhecimento.
A distância atual não tem a ver, entretanto, com os velhos
mecanismos imperiais ou coloniais do passado, uma vez que
o desempenho nestas novas áreas não se baseia na extração
de recursos primários, mas sim no acúmulo de conhecimento,
algo que pode estar ao alcance de qualquer sociedade que se
disponha a fazer da educação a alavanca principal de sua organização
econômica e social. A “acumulação primitiva” requerida por
esse tipo de prioridade social não pode ser obstada por nenhuma
desigualdade estrutural baseada no poder da força bruta; ao
contrário, os menos poderosos podem aprender muito com as
potências mais avançadas e a maior parte do conhecimento humano
encontra-se hoje livremente disponível nos sistemas de informação
abertos.
2.
O Brasil está situado na periferia, por razões históricas
e estruturais, e portanto forçado a uma situação de dependência
em relação às poderosas nações centrais.
Certo relativamente,
mas errado absolutamente, válido num passado distante, não
muito válido depois de quase 200 anos de independência.
Trata-se aqui de uma derivação da afirmação anterior, pois
que supostamente implicando numa preservação de laços de “exploração”
e de “extração de recursos” em benefício do sistema central.
Ainda que a acumulação sempre se faça em proveito de uma economia
central, como ocorre historicamente em qualquer sistema estruturado
de produção e distribuição de bens e serviços escassos, nada
impede elites conscientes de organizarem seu próprio sistema
de acumulação produtiva em bases propriamente nacionais. Se
elas não o fizeram, ou ainda não o fazem, não se deve buscar
culpados – os “bodes expiatórios” das antigas religiões sacrificiais
– fora de seu próprio ambiente histórico de organização social,
quando minimamente dotado de autonomia política, como parece
ser o caso do Estado brasileiro a partir de 1822.
A “dependência”, empiricamente, é um outro nome para a acomodação
das elites em relação a um sistema que lhes permitia desfrutar
de relativo conforto material, sem a obrigação de criar novas
formas de organização social da produção baseada num “modo
inventivo” gerado de forma endógena. Não há dúvida de que
o Brasil emerge a partir de uma estrutura colonial extrovertida,
mas o rompimento dos laços políticos e econômicos de dependência
formal está quase completando dois séculos, sem que no entanto
algumas de suas elites tenham decidido romper com a “dependência
mental” que as faz atribuir a uma “dominação estrangeira”
as razões de certos males e deficiências que se situam inteiramente
em nosso controle remediar, sobretudo mediante a educação
ampliada das grandes massas e a introdução de ganhos incrementais
nas atividades produtivas básicas do sistema econômico nacional
(exportamos café há 200 anos, por exemplo, sem que se tenha
consolidado uma marca própria nessa área).
Quanto à “teoria da dependência”, não há porque atribuir-lhe
maior importância analítica, e de fato ela não possui nenhuma,
pelo menos no que se refere a nossos próprios problemas de
desenvolvimento. Trata-se, meramente, numa comparação ex
post, do “neoliberalismo do marxismo vulgar”, aquele imperante
nos anos 1950 e 60 e que justamente procurava explicar nosso
“subdesenvolvimento” devido à “exploração” das nações centrais
(isto é, mais avançadas). O que essa “teoria” – na verdade
uma tentativa de “explicação” não convencional, mas corrigindo
a velha teoria do imperialismo – buscou “demonstrar” foi que,
justamente, a despeito da “exploração capitalista”, algum
desenvolvimento era possível, no quadro da mesma situação
de “dependência”. Para todos os efeitos práticos, pode se
deixar o passado em paz, esquecer a “teoria” e dedicar-se
à tarefa de “desenvolver” o país pela aplicação das “velhas”
e provadas receitas dos países centrais: educação, capacitação
técnica e profissional, instituições compatíveis com as necessidades
de “acumulação”, elites menos parasitárias ou prebendalistas,
moeda saudável, Estado e sistema político funcionais para
os fins do progresso econômico e social da Nação.
3.
A dominação econômica de empresas multinacionais atua como
obstáculo para nossa independência tecnológica e se reflete
em relações desiguais na balança tecnológica.
Totalmente
errado. Os efeitos são exatamente no sentido contrário, mas
o trabalho principal tem de ser feito em casa.
As “empresas multinacionais” do primeiro capitalismo, isto
é, antes mesmo da Renascença, eram representadas pelos banqueiros
italianos e seus agentes comerciais espalhados pelas principais
cidades européias e portos das costas comerciais vinculadas
entre si pela rede incipiente de negócios do sistema mercantilista.
Eles foram depois suplantados pelos banqueiros germânicos
e holandeses, que passaram a atuar em mares mais distantes
ou financiando as empresas comerciais e os entrepostos longínquos
dos aventureiros ibéricos. O monopólio holandês do comércio
de alto mar foi logo depois desafiado e vencido pelos capitalistas
britânicos, fazendo de Londres o centro do primeiro sistema
econômico verdadeiramente mundial da história.
As “empresas multinacionais”, até então, eram empreendimentos
mercantis e financeiros, como as companhias de comércio, muitas
delas dispondo de “monopólios estatais” (com reservas de mercado
legalmente atribuídas) ou mesmo de verdadeiros exércitos (como
a que conquistou o Nordeste do Brasil). Com a primeira revolução
industrial, fundamentalmente britânica até meados do século
XIX, surgem as primeiras grandes companhias devotadas ao setor
industrial: locomotivas, motores a vapor, máquinas têxteis,
ou mesmo grandes empresas manufatureiras para os bens correntes
(tecidos e roupas, porcelanas, artigos da metalurgia, processamento
alimentar etc.). O sistema patentário se desenvolve contemporaneamente,
buscando precisamente preservar “segredos tecnológicos” que
até então circulavam com os mestres de fábrica ou eram apropriados
sem maior respeito pela “propriedade intelectual” representada
pelo “gênio inventivo” de algum engenheiro isolado. O sistema
financeiro também se expandiu de modo inédito, junto com serviços
de seguros e transportes, mas o setor foi durante um certo
tempo dominado por empresas inglesas de alcance mundial, na
medida em que o padrão ouro se confundia com a própria libra
britânica.
O sistema fabril se expandiu enormemente desde então, colocando
em segundo plano as velhas companhias de comércio e navegação
e dando origem aos famosos “trustes” do final do século XIX
e início do seguinte: tinham nascido as empresas multinacionais
típicas do século XX, ou seja, empresas integradas, verticalizadas,
voltadas para a fabricação completa de um determinado produto
ou máquina (como as máquinas de costura, por exemplo). O capitalismo
se concentra – no setor automobilístico essa tendência é evidente
– e produz alguns dos gigantes industriais, vários deles ainda
presentes no cenário das “companhias gigantes” de nossa época.
O fato de que a maior parte dessas empresas multinacionais
fosse, na verdade, a expressão mundial de firmas da Europa
e dos Estados Unidos não impediu que o Japão e, no devido
tempo, a Coréia passassem também a contar com o seu pequeno
ou grande lote de “multinacionais”, assim como países considerados
em outras épocas como periféricos (Finlândia, por exemplo).
Como isso se deu? Obviamente pela cópia de tecnologias bem
sucedidas – em alguns casos, pirataria de patentes, para ser
claro e direto –, pelo licenciamento de know-how
e de técnicas de fabricação e comercialização de produtos
ou processos, mas basicamente pelo investimento pesado em
mecanismos e instituições próprios de inovação tecnológica,
o que geralmente começa pela disseminação democrática de sistemas
educativos amplos e criativos, mobilizadores de TODAS as energias
nacionais. Esse é o caminho da constituição de “multinacionais
nacionais”, sem que haja, a rigor, nenhum obstáculo tecnológico
ou político à repetição de experiências bem sucedidas em outros
lugares. O fato de que grandes empresas estrangeiras desloquem
a produção nacional em algum setor específico não é um impedimento
absoluto à capacitação tecnológica nesse setor, pois que a
transferência de tecnologia sempre se dá, de modo direto ou
indireto, tanto mais rapidamente quanto o país receptor não
criar obstáculos “soberanistas” ao livre jogo das forças de
mercado.
Não há, nem pode haver, imutabilidade no campo da tecnologia,
como o provam as novas multinacionais do século XXI, empresas
nascidas no bojo da terceira revolução industrial que estão
deixando para trás algumas gigantes manufatureiras da era
elétrica ou química. Essas novas multinacionais são, aliás,
relativamente independentes dos antigos processos manufatureiros
e criam sua própria estrutura da oferta e da demanda, sem
se preocupar com os monopólios do passado. Monopólios temporários
na área do software, por exemplo, serão por sua vez
erodidos pela própria lógica do sistema aberto da economia
do conhecimento, algo que está ao alcance da mão de países
hoje relativamente “atrasados” como o Brasil ou Índia.
Quanto à desigualdade tecnológica e seus efeitos no balanço
de pagamentos, não há motivo para maiores preocupações a médio
ou longo prazo. Um país importador líquido de tecnologias,
mesmo já desenvolvido, sempre terá uma balança desfavorável,
em determinadas conjunturas, pois que confrontando seu próprio
estoque de conhecimentos, necessariamente limitado, ao do
resto da humanidade, infinitamente mais vasto. Num determinado
momento, ele passa a ser exportador de uma determinada modalidade
de produto ou serviço, no qual ostenta maiores vantagens comparativas
– música, por exemplo, ou ainda jogadores de futebol – e passa
a auferir ganhos derivados dessa situação de excelência frente
a todos os demais rivais.
Fim da Primeira Parte; continua…