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Por ANTÔNIO OZAÍ DA SILVA
Professor
da Universidade Estadual de Maringá; doutorando na Faculdade de
Educação (USP); autor de História das Tendências no Brasil. |
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Balzac
e Maquiavel: Curso de História e Moral
para Uso dos Ambiciosos
"O
sucesso é a razão suprema de todas as ações, quaisquer que sejam
elas. O fato não é pois mais nada por si mesmo, consiste
inteiramente na idéia que os outros formam a seu respeito".
(Honoré de Balzac)
A
ambição, define o Aurélio, é o desejo veemente de alcançar
aquilo que valoriza os bens materiais ou o amor-próprio (poder, glória,
riqueza, posição social, etc.); exprime um desejo ardente de alcançar
um objetivo de ordem superior. Na tradição judaica-cristã, a
sofreguidão em possuir bens materiais ou mesmo o intenso desejo
carnal pela mulher se inscreve entre os maiores pecados que o ser
humano pode cometer:
“Não
cobiçarás a casa do teu próximo, não desejarás sua mulher, seu
servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma
que pertença a teu próximo”.(Ex. 20,17)
“Todo
aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu
adultério”.(Mt., 5, 28)
Vivemos
numa sociedade onde prevalece desejo ardoroso de consumir bens
materiais e simbólicos. A todo momento somos estimulados a querer
algo, possuí-lo. Os padrões sociais são balizados pela ostentação,
pela indumentária, por aquilo que temos. Vivemos numa sociedade do
TER, na qual o SER encontra-se asfixiado. A sociedade não perdoa a
ingenuidade dos que não fazem um bom curso de ambição. Os
vencedores são os que tiram as maiores notas.
O
consumismo e a erotização são faces da mesma moeda. As
mercadorias substituem as relações entre as pessoas: não só
estas são tratadas como mercadorias – que podem, portanto, serem
compradas, vendidas trocadas etc., conforme o poder econômico –
como, as próprias mercadorias assumem características humanas.
Que
me perdoem os cristãos antigos e novos, mas numa sociedade que
excita diuturnamente seus membros a consumirem e verter erotismo, é
impossível não transgredir a lei sagrada. Do jeito que vai, o anjo
rebelde reivindicará uma reforma da lei ou o seu reino ficará
diminuto para tantas almas cujos corpos desejam outros corpos e vêem
em máquinas e outros objetos a personificação dos corpos cobiçados.
Mas,
deixemos tema tão escabroso de lado e voltemos à ambição. Honoré
de Balzac, em Ilusões perdidas (1978), desenvolve uma crítica
corrosiva do autor de O Príncipe. Os personagens
balzaquianos, o ambicioso Luciano e o maquiavélico cônego, travam
um diálogo muito instrutivo. Começa o padre ensinando-nos que há
sempre duas histórias: a oficial e a que se ensina ad usum
Delfhini, ou seja, a mentirosa; a historia expurgada dos textos
que possam confundir a mente, portanto, impróprias para o uso do
filho do rei, o Delfim.
A
história ensinada nas escolas, ontem como hoje, é, em geral, uma
coleção de datas e fatos, que nada esclarece sobre as verdadeiras
e vergonhosas causas dos acontecimentos. De que nos serve saber que
Joana d’Arc existiu?, pergunta o cônego. De que nos serve
conhecer os resultados das ações dos grandes homens e mulheres se
não conhecermos os meios que utilizaram? Vejamos, a título de
ilustração, um trecho deste elucidativo diálogo:
–
Não estudou os meios pelos quais os Médicis, de simples
negociantes, chegaram a grão-duques de Toscana?
–
Um poeta, na França, não tem obrigação de ser um beneditino –
disse Luciano.
–
Pois bem, meu jovem, eles se tornaram grão-duques como Richelieu se
tornou ministro. Se tivesse procurado na história as causas humanas
dos acontecimentos, em vez de aprender-lhes de cor as etiquetas, o
senhor obteria preceitos para a sua conduta. De que acabo de tomar
ao acaso na coleção de fatos verdadeiros, resulta a seguinte lei:
Não veja nos homens, e principalmente nas mulheres, senão
instrumentos; mas não deixem que eles o percebam. Adore como ao próprio
Deus aquele que, colocado acima do senhor, lhe pode ser útil, e não
o abandone até que ele lhe tenha pago bem caro a sua servidão. No
comércio do mundo, seja em suma, duro como o judeu e vil como ele:
faça pelo poder o que faz ele pelo dinheiro. Mas também,
preocupe-se tanto com o homem que caiu como se ele jamais tivesse
existido. Sabe por que deve proceder assim?... O senhor quer dominar
o mundo, não é? Pois é preciso começar por obedecer ao mundo e
estudá-lo bem. Os sábios estudam os livros, os políticos estudam
os homens, seus interesses, as causas geradoras dos seus interesses,
as causas geradoras de suas ações. Ora, o mundo, a sociedade, os
homens tomados em seu conjunto são fatalistas: eles adoram o
acontecimento. Não sabe por que lhe faço esse pequeno curso de
história? É que o julgo de uma ambição desmedida...
–
Sim, meu padre!
Neste
diálogo, o cônego balzaquiano assume-se como discípulo de
Maquiavel. Neste caso, o nome do florentino adjetiva a atitude dos
que pautam sua vida pela cobiça, sem preocupação com qualquer
fogo sobrenatural. Luciano, o ambicioso fracassado, é criticado por
ter sido humano demais, isto é, por ter deixado que seus
sentimentos atrapalhassem sua ascensão, por ter sucumbido ao
moralismo. Seu pecado não foi ambicionar, mas não fazê-lo com a
devida intensidade.
Em
Ilusões perdidas, maquiavelismo tem significação
pejorativa. Como nos ensina o Aurélio, esta palavra também
expressa uma atitude política desprovida de boa-fé, um
procedimento astucioso, velhaco, traiçoeiro, dissimulador. Numa
palavra: maquiavélico.
Balzac
reafirma o mito do judeu rico e o que poderíamos denominar tipo
ideal weberiano do avarento, tão bem representado pelo Pai Grandet
noutra de suas obras magistrais: Eugénie de Grandet. Recordemos
este autor clássico escreve no século XIX, quando o espírito
burguês encanta a sociedade mercantilizando as relações humanas.
Mas é diferente na atualidade?
A
Moral
Não
há moral. O que determina o bem e o mal é o resultado. Seja
vitorioso, torne-se poderoso, rico etc.e todos os seus atos
desonrosos serão esquecidos. O importante não é a prática ou o
que você é, mais a imagem que fazem da sua pessoa. "Esconda o
avesso da sua vida", afirma o padre, personagem balzaquiano, ao
ambicioso Luciano.
Mesmo
que você não se suporte diante do espelho – material e/ou da sua
consciência - mostre-se belo para o exterior. Discrição: eis a
palavra chave; ou como diremos nos meios políticos, a
palavra-de-ordem do ambicioso. Adote-a como sua, ensina-nos o
sacerdote. E, para que não fiquem dúvidas, vejamos seu argumento:
"Os
grandes cometem tantas covardias como os miseráveis; mas
cometem-nas na sombra e fazem ostentação das suas virtudes:
permanecem grandes. Os pobres exercem suas virtudes na sombra e expõem
suas misérias ao sol: são desprezados”.
Seja
verdadeiro e sincero, mostre-se como você é e será ridicularizado
e desprezado. Aparente ser o que você não é; atue na escuridão e
não deixe que a luz seja suficiente para tornar a obscuridade do
seu ser inteligível ao outro e você será respeitado, elogiado e
bajulado. Tudo reside na fórmula: dissimule.
Balzac
revela os desígnios ocultos em relação ao mito da moral e da
virtuosidade da justiça. O que é moralmente condenável e justo?
Acaso o ladrão é mais culpado do que o indivíduo que, por
irresponsabilidade política e administrativa, atira na miséria
dezenas e centenas de famílias? Será o governante cuja política
econômica aprofunda a exclusão social e favorece os que vivem na
sombra menos culpado que o ladrão que rouba um indivíduo ou uma
família?
"Os
juízes, condenando o ladrão, mantém a barreira entre pobres e
ricos", afirma Balzac. Na verdade, os grandes roubos - como os
escândalos que pipocam por este país - tendem a ser acobertados
porque expressam apenas deslocamentos de fortunas. Há a privatização
do dinheiro público – aliás, esta não é a palavra da moda? A
estratégia é abafar um escândalo com um novo escândalo. Agora,
por exemplo, o foco desloca-se do executivo para o
legislativo.Transferem-se fortunas de forma lícita – dentro das
normas legais - ou por maneiras ilícitas. O efeito é o mesmo:
deslocamento de fortunas. As fraudes, os grandes roubos etc., não
colocam a sociedade em risco. Envolve gente graúda, tubarões. Os
bagrinhos têm que garantir a sobrevivência, não têm tempo e
condições para se preocupar com a dilapidação do bem público.
Acompanham estarrecidos. Comentam entre os seus e ironizam: por que
fulano depositou dinheiro na conta de tanta gente e esqueceu de
mim?! Uma minoria se organiza e tenta influir sobre a maioria para
colocá-la em movimento contra este estado de coisas. Mas, não é fácil.
O
modelo que prevalece é o dos que tem sucesso e... propriedades.
Enriquecer! Este é o grito de guerra de todas as torcidas. Feito
isso, pode-se permitir o "luxo da honra”.Só quem ousa pode
atingir o topo. E ousar é saber usar os meios certos nos momentos
adequados.
Maquiavel
diria que o príncipe deve saber usar os vícios e as virtudes, a
bondade e a maldade, a paz e a violência: é preciso ser ter a força
do leão e a astúcia da raposa: saber agir como homem e como
animal. O padre balzaquiano, que é maquiavélico, diz que devemos
agir como o jogador: saber dissimular e esconder o jogo. O jogador
que é franco é um péssimo jogador: só perderá. O exímio
jogador "não somente oculta o seu jogo, mais ainda trata de
dar a entender, quando está certo de ganhar, que vai perder”.O
segredo é a lei suprema: é imprescindível ocultar os meios.
Os
fins justificam os meios! Quanto maquiavelismo nesta frase
pronunciada há séculos sem qualquer referência com o contexto
histórico em que foi escrita - e, na maioria dos casos,
descontextualizada em relação à totalidade da obra. Não deve nos
surpreender o fato de maquiavelismo e maquiavélico terem adquirido
o status de adjetivo e substantivo. O Aurélio define-os como a
"política desprovida de boa-fé, procedimento astucioso,
velhaco, traiçoeiro; velhacaria, perfídia".
Pode
realmente haver boa-fé na política? A exemplo do ambicioso
balzaquiano, o objetivo do político não é o sucesso? Também ele
não é avaliado pelos resultados? O político deve observar a moral
ou agir como o jogador?
Uma
rápida leitura de O Príncipe, modelo para os ambiciosos de todo
parece comprovar a analogia. Mas, de qual ambição nos fala
Maquiavel: do indivíduo que almeja a riqueza ou mesmo o poder para
o deleite pessoal ou aquela ambição que move os homens mais
ilustres na história humana, indivíduos que almejam construir algo
que transcenda a finitude da vida? No contexto do renascimento
italiano, esse ente duradouro que sobrevive ao seu criador e é
legado às gerações futuras, é o Estado. O objetivo de Maquiavel
é o estabelecimento de um poder capaz de garantir a ordem social.
A
política e a moral pertencem a domínios diferentes da práxis
humana. O sujeito da política é a coletividade, a Pólis. Na
esfera da ação política o que importa é a certeza, os efeitos e
a fecundidade dos resultados. O criador de cidades terrenas,
condutor de homens e do Estado, é julgado pelo sucesso ou fracasso
e não por considerações morais cristãs. Seu lema é: fazer o que
é necessário, a fim de aconteça o que se objetiva. Sua ética é
a da responsabilidade - como definiria Max Weber.
O
sujeito da moral é o indivíduo. Sua ética é a do dever pela
convicção. A moral individual adota como preceito fazer o que deve
ser feito, independente do que possa acontecer. Pouco lhe importa as
conseqüências dos seus atos, os resultados: o essencial é a
certeza do dever cumprido. O que vale é a pureza das intenções, o
que pressupõe a coerência entre a intenção e a ação. Ages com
justiça e deixa o resto nas mãos de Deus. Na esfera individual a
moral cristã apresenta-se como própria do homem de fé, do sábio
profeta, cujos olhos estão postos na cidade celeste. Porém, os
homens não são anjos celestiais e a política, enquanto esfera de
ação coletiva, é o reino terreno de interesses genuínos e espúrios.
Pode
o condutor de homens e construtor do Estado pautar suas ações pela
ética da convicção? Os antigos falavam em bem comum, bom governo,
justiça, etc. Outros, como Thomas More, em Utopia,
imaginaram sociedades onde o homem finalmente alcançaria a
felicidade. Expressam uma concepção política prescritiva destituída
de vínculos com a realidade nua e fria. Há muito que os reis e
governantes deixaram de ser avaliados por suas virtudes e/ou vícios,
mas por sua eficácia – Ricardo II, de Shakespeare, é uma bela
ilustração desta forma de julgar o governante.
A
política pauta-se por interesses conflituosos e antagônicos
concretos e pela ação de homens de carne e osso. Sua moralidade não
é a do dever pelo dever. Aquilo que é visto como imoralidade é,
na verdade, uma inversão do moralismo sacrossanto: o que move a política
é busca de resultados concretos e não imaginários (embora a
imaginação também cumpra um papel importante, principalmente
quando codificada em Ideologia).
Balzac
e outros anti-maquiavélicos invertem Maquiavel: traz para a arena
do privado o que foi pensado tendo como referência uma entidade
superior aos indivíduos - e mesmo ao governante. A perspectiva de
Maquiavel é histórica pois é balizada pela necessidade da
constituição do Estado que, nas condições do seu tempo,
significava a unificação da Itália. Ora, esta é uma tarefa
gigantesca, acima das forças de homens normais e de quaisquer
considerações de cunho moralista.
O
príncipe capaz de dar cabo desta tarefa pode tudo? Ele pode usar do
bem e do mal, dos vícios e das virtudes e da violência conforme
considerar necessário. Contudo, há limites: não abusar dos
direitos dos súditos, garantir a segurança e a estabilidade, não
ser odiado pelo povo - embora seja prudente ser temido. Se o príncipe
colocar suas ambições pessoais acima do Estado, poderá ficar em
maus lençóis. A ambição do príncipe não é a que se reduz à
mesquinhez do indivíduo privado: ele é o criador e provedor de
instituições.
Se
há um bem para Maquiavel, este diz respeito ao estabelecimento da
ordem temporal. Maquiavel foi um ambicioso à maneira do que hoje
chamamos de cidadão - construtor e mantenedor do Estado. Sua ambição
maior era servir à república de Florença e contribuir para a
unificação da Itália - não por acaso será reabilitado pelos
italianos no século XIX. Também não é um acaso que ele tenha
morrido pobre e desprezado pelos políticos da sua época.
Maquiavel
era bastante pessimista quanto à natureza humana:
"Quem
quiser praticar sempre a bondade em tudo o que faz está condenado a
penar, entre tantos que não são bons. É necessário.
Portanto, que o príncipe que deseja manter-se aprenda a agir sem
bondade, faculdade que usará ou não, e cada caso, conforme necessário”.(O
Príncipe, cap. XV)
Se
somos ambiciosos por natureza - o homem lobo do homem, como diria
Hobbes -, é preciso um poder que garanta a ordem social. Este poder
é o Estado: principado ou república em Maquiavel; Leviatã em
Hobbes. Num e noutro caso, a estabilidade da ordem social é
mantida. Hoje, essa ordem é a dos privilégios, a que protege os
campeões em ambição, a que faculta as condições para os
deslocamentos das fortunas.
De
qualquer forma, não culpemos Maquiavel pelos ambiciosos do nosso
tempo. Pois, se como escreveu Balzac no século XIX, "a nossa
sociedade não mais adora o verdadeiro Deus, mas o bezerro de
ouro", ou seja, se a "política só leva em conta a
propriedade", a culpa não é do florentino.
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