Líderes
das Coréias
Quem diria: um país pequenininho,
que não produz praticamente nada, que durante o século
XX foi invadido, destroçado, escravizado e incorporado
pelo Japão, depois bombardeado até quase a idade
da pedra pelos Estados Unidos, finalmente dividido em duas partes,
e cuja parte norte tem vivido sob um regime totalitário
de fazer inveja a qualquer outro regime totalitário,
e que vive às beiras da fome generalizada, está
fazendo o Japão; a Inglaterra e os Estados Unidos dançarem
a música que ele toca. Sim, quem diria? O fato é
que a Coréia do Norte está fazendo exatamente
isto. Como tal coisa pode ser explicada?
Tem os que acham e não
são poucos que o líder norte coreano Kim
Jong Il não é bom da cabeça, afinal, o
país tem muito pouco poder de negociação,
e está praticamente isolado no mundo. Os que têm
esta opinião argumentam que o que Kim Jong Il tem feito,
praticamente provocando os Estados Unidos, é coisa de
louco.
Qualquer
outro líder, especialmente depois que Bush colocou a
Coréia do Norte na lista dos países compreendidos
como o "eixo do mal," teria tentado ou manter-se fora
da lente americana, ou desconversar. Não o Kim Jong Il,
que decidiu fazer exatamente o contrário, e praticamente
se acusou de ter começado seu programa nuclear, e deixou
várias insinuações no ar sobre a possibilidade
de estar com a bomba atômica a caminho.
Para qualquer pessoa que mora
no Japão, a possibilidade que tal bomba exista é
amedrontadora. O Japão é vulnerável a mísseis
da Coréia (ou das Coréias, caso a amizade coma
Coréia do Sul azede), e tem tido motivos para temer os
vizinhos. De vez em quando a marinha japonesa tem escaramuças
com "barcos misteriosos" que invadem suas águas,
e houve recentemente um caso em que navios militares japoneses
foram atacados por um barco que parecia ser pesqueiro, mas não
tinha identificação, e estava em águas
territoriais japonesas. Na troca de tiros que se seguiu, o misterioso
barco foi afundado, e mais tarde equipes submarinas resgataram
o que diz em ser provas que o barco era da Coréia do
Norte. No Japão atual, o medo mais constante é
o medo dos mísseis que a Coréia do Norte diz que
tem, apontados para o Japão.
Outro exemplo do que a Coréia
do Norte pode fazer, e já fez, é a questão
dos jovens japoneses seqüestrados e "desaparecidos."
O ano passado, depois que o primeiro ministro japonês
Juinichiro Koizumi fez uma visita oficial à Coréia
do Norte, os japoneses que haviam sido seqüestrados há
mais de 20 anos puderam voltar ao Japão para uma visita
aos familiares. A confirmação da existência
destes cidadãos japoneses na Coréia do Norte finalmente
colocou um termo na especulação do que teria realmente
acontecido com os jovens japoneses que tinham desaparecido misteriosamente:
eles tinham sido raptados e levados para a Coréia do
Norte para ensinar japonês a espiões coreanos,
que viriam ao Japão e se infiltrariam no país.
Só que nem todos que desapareceram em circunstâncias
idênticas reapareceram: a Coréia do Norte admitiu
que muitos deles "morreram." No Japão, para
os parentes dos desaparecidos, ficou a certeza que seus entes
queridos foram executados na Coréia por não terem
colaborado com o regime.
E possível dizer-se que
Coréia do Sul é tão vulnerável quanto
a do Japão. Está muito claro para todos que o
fato da Coréia do Sul e a Coréia do Norte terem
sido o mesmo país, e de que parentes ainda hoje vivem
separados nas duas Coréias não salvaria Seoul
de um ataque selvagem. Tal é o caso, que agora já
se começam a descobrir provas que o govern o de Kim De
Jungque está deixando o poder na Coréia
do Sul - foi praticamente chantageado pela Coréia do
Norte, a qual permitiu que parentes separados desde a divisão
da Coréia pudessem se reencontrar, mas somente se a Coréia
do Sul fizesse uma série de concessões, doações
de comida e outros benefícios.
Então, Kim Jong Il, que
pode parecer um maluco aos olhos de todos, na verdade é
um líder extremamente astuto e capaz. Ninguém
deste lado do mundo conseguiria convencer a qualquer outra pessoa
que ele é um líder justo, interessado no bem estar
de seu povo. É um fato conhecido na Ásia que as
punições aos dissidentes na Coréia do Norte
são atrozes, e nas grandes cidades da China há
sempre um contingente de refugiados norte coreanos que enfrentam
as maiores dificuldades para terem a oportunidade de viverem
em um lugar onde pelo menos apesar das agruras de uma
vida sem documentos e sem quaisquer direitos possam comer.
Várias agências internacionais têm chamado
a atenção para a situação calamitosa
da população civil da Coréia do Norte,
e são freqüentes as tentativas de fuga para a Coréia
do Sul.
Mas a Coréia do Norte,
país pequeno, praticamente sem amigos, está fazendo
com que a ONU preste atenção às suas exigências,
e, ainda mais importante, está fazendo com que o governo
de George W. Bush engula suas próprias palavras. Vale
recordar que Bush assumiu o poder criticando o governo de Bill
Clinton pela maneira que tinha tratado a Coréia do Norte,
e dizendo que dali pra frente, tudo ia ser diferente, e que
Kim Jong Il teria que aprender a ser mais humilde, e deixar
que os poderes mundiais lhe dessem uma lição,
está tendo que admitir que vai ter que fazer um acordo
semelhante com Kim Jong Il. Obviamente, a situação
da Coréia do Norte pode mudar de um dia para o outro.
Mas, por enquanto, é ainda uma coisa terrivelmente admirável
o que Kim Jong Il já conseguiu, fazendo com que os Estados
Unidos parassem pra escutar, e prestar atenção.
Por outro lado também é possível que, como
dizem alguns, além da habilidade política de seu
"querido líder," a maior arma de defesa da
Coréia do Norte é a sua total falta de petróleo.
Talvez uma das medidas do gênio de Kim Jong Il é
que ele sabe disso, e se aproveita das vantagens que isso traz
ao seu país.