No
extremo sul do Brasil, apenas os festejos da Semana da Pátria,
com o apogeu no 7 de Setembro, data da ruptura com ex-colônia
com Portugal, voltam para a garagem das efemérides anuais,
aquecem-se os motores para a largada da Semana Farroupilha,
com linha de chegada em 20 de Setembro, data do ingresso dos
rebeldes farroupilhas em Porto Alegre, em 1835, inicio da
ruptura da então província
sulina com o resto do país.
Através
do Rio Grande do Sul, como pequenos robôs esquizofrênicos,
os estudantes nas escolas públicas e particulares agitam
primeiro as cores verde e amarela das bandeirolas do unitarismo
nacional, inaugurado em 1822, para saudarem dias mais tarde,
com igual ânimo patriótico, o verde-amarelo-vermelho do
separatismo sul-rio-grandense de 35!
Nenhum
estado brasileiro celebra data cívica regional com tamanha
magnificência. Do Mampituba ao Chuí, do rio Uruguai ao oceano
Atlântico, nos pampas, na Serra, no Planalto, na Depressão
Central e no Litoral, organizam-se desfiles, celebrações,
festas. A mídia comenta fartamente os fatos do passado e
as comemorações em desenvolvimento.
De certo modo, a Semana Farroupilha está para o gaúcho
como o Carnaval está para o carioca.
A
Semana Farroupilha é sobretudo festa pública. Desde que
foi oficializada, em setembro de 1964, no início do Regime
Militar [1964-1984], o governo estadual sul-rio-grandense
abraçou fortemente as comemorações, verdadeira tradição
nas escolas públicas estaduais e municipais. Nesse sentido,
a passada administração petista [1999-2002] apenas vergou-se
à tradição nascida há mais de 30 anos, ao manter retoques
a festa patriótica regional.
Os
com e os sem
A
celebração privada da independência farroupilha é também
magnífica e portentosa. Almoços, jantares, bailes, shows,
conferências, acampamentos, palestras, exposições, etc.
são realizados na capital e no interior, sobretudo por iniciativa
do Movimento Tradicionalista Gaúcho – MTG –, através dos
milhares de Centros de Tradição Gaúcha – CTG – esparramados
através do Estado.
A
Semana Farroupilha é unanimidade regional, congregando cidadãos
de todas as regiões, origens, classes sociais e situações.
Na roda de chimarrão, reúnem-se o ítalo, o
teuto, o nipo, o luso, o afro-descendentes. Achegam-se à
chama crioula o bem empregado, o mal-empregado e
o desempregado; o esquerdista, o centrista e o direitistas;
os com muito, os com
pouco, os sem nada.
Diante
da pira cívica regional e da celebração das raízes e dos
princípios que seriam as mais lídimas expressões da Revolta
Farroupilha, realiza-se congregação suprapolítica, supra-racial
e supra-social que, no Brasil, repete-se apenas quando a
Seleção Nacional entra em campo vestindo a bandeira canarinho!
Travada
sobretudo no meridião do Rio Grande, a Guerra Farroupilha
constituiu apenas um entre os múltiplos movimentos armados
liberais, federalistas e separatistas terçados pelas elites
proprietárias das diversas regiões do Brasil, inicialmente,
contra o regime colonial lusitano e, após 1822, contra o
Estado imperial brasileiro.
Num
desses paradoxos da história, a guerra farroupilha contra
o regime imperial foi movimento elitista, sem nenhum conteúdo
social, promovido sobretudo pelos grandes criadores sulinos,
que sequer contou com a unanimidade dos proprietários regionais.
Não foi movimento de todo os habitantes sulinos,
nem de todo o Rio Grande da época.
2.
1822: a Independência dos Escravistas
A
América lusitana foi mosaico de regiões semi‑autônomas,
de frente para a Europa e para a África, de costas voltadas
umas às outras. As diversas colônias luso-brasileiras produziam
regionalmente os produtos que exportavam pelos portos da
costa, por onde chegavam os manufaturados e os africanos
duramente escravizados. Os mercados internos quase inexistiam.
Os
senhores luso-brasileiros controlavam o essencial do poder
regional e viviam em situação de associação subordinada
às elites portuguesas metropolitanas. Eles sentiam-se membros
do império lusitano, possuíam fortes laços de identidade
regional e desconheciam sentimentos ‘nacionais’ brasileiros
efetivos.
Quando
da crise colonial, as elites luso-brasileiras mobilizaram-se
por independência restrita aos limites objetivos das regiões
sócio-econômicas em que viviam e que controlavam. Então,
o Brasil era uma entidade essencialmente administrativa.
O Estado-nação brasileiro foi sobretudo produto do ciclo
nacional-industrialista dos anos 1930. É, portanto, realidade
muito recente.
Tendências
centrífugas
Nas
colônias luso-americanas atuavam as mesmas forças centrífugas
que explodiram a América espanhola em uma constelação de
repúblicas independentes. Porém, as diversas províncias
luso-brasileiras emergiram da Independência coeridas em
um Estado monárquico, centralizado, autoritário.
Quando
da crise colonial, as classes proprietárias regionais desejavam
pôr fim ao governo autocrático lusitano, nacionalizar o
comércio monopolizado pelos portugueses, resistir às pressões
inglesas pelo fim do tráfico transatlântico de cativos.
Elas defendiam soluções federalistas, separatistas, monárquicas
e republicanas.
No
Norte, no Nordeste, no Centro-Sul e no Sul eram muito fortes
as tendências republicanas e independistas. Tudo sugeria
que o Reino do Brasil explodiria em diversas repúblicas,
ao igual ao ocorrido com os vice-reinados espanhóis, através
das possessões hispano-americanas.
Porém,
um grande problema angustiava os grandes senhores de todo
o Brasil. Como realizar a independência sem comprometer
a ordem escravista, base da produção e da sociedade em todas
províncias? Fortes choques militares colocariam em perigo
a submissão dos cativos e a manutenção do tráfico de trabalhadores
escravizados.
Independência
negreira
Os
senhores sabiam que a guerra levaria ao alistamento e à
fuga de cativos, como ocorrera quando da luta contra os
holandeses. Havia também o exemplo recente do Haiti, onde
os cativos, sublevados, haviam fundado um Estado negro livre
da escravidão. Os Estados luso-brasileiros que abolissem
a escravidão acolheriam cativos fugidos. As pequenas nações
negreiras vergariam-se ao abolicionismo britânico do tráfico.
O
Estado monárquico, autoritário e centralizador foi partejado
e embalado pelos interesses negreiros. A Independência deu‑se
sob a batuta conservadora dos grandes proprietários e comerciantes
de trabalhadores escravizados. Os ideários republicano,
separatista e federalista – fortes sobretudo entre as fracas
classes médias regionais – foram reprimidos.
A
independência do Brasil foi a mais conservadora das Américas.
Os senhores brasileiros romperam com a coroa portuguesa
e com o absolutismo e entronizavam o autoritário herdeiro
do reino lusitano. Cortavam as amarras com Portugal e asseguravam
os interesses portugueses. Mantiveram-se unidos sobretudo
para garantir o abastecimento farto e a exploração dura
dos trabalhadores escravizados.
As
forças liberais e federalistas regionais curvaram-se à proposta
monárquica e unitarista sob a condição que a autonomia provincial
fosse discutida quando de Assembléia Constituinte, convocada
antes mesmo da Independência. Em novembro de 1823,
dom Pedro, digno filho dos Braganças, pôs fim ao regime
constitucional e às esperanças federalistas regionais, ao
inaugural o primeiro golpe de Estado militar do Brasil.
A
ferro e fogo
O
golpe anti-constitucional de 1823, e a constituição autoritária
imposta em 1824, no contexto de profunda crise da economia
escravista exportadora da época, determinaram período de
forte instabilidade político-social, durante o qual as facções
liberais das elites regionais mobilizaram-se pela independência
ou por maior autonomia regional.
Em
1824, a primeira revolta provincial contra o golpismo bragantino,
promovida sobretudo pelos liberais e republicanos pernambucanos
– Confederação do Equador –, foi sufocado em um verdadeiro
banho de sangue. Os líderes liberais foram executados sem
o julgamento garantido pela própria Constituição autoritária
outorgada por dom Pedro.
A
concentração despótica dos poderes e recursos provinciais
pelo governo central, em contexto de decadência da economia
escravista, levou à deposição de dom Pedro, em 7 de abril
de 183, pelos farroupilhas, como eram chamados os
liberais radicais de todas as províncias. Porém, o poder
terminou deslizando para as mãos dos liberais conservadores,
reais detentores do poder econômico, ou seja, de legiões
de trabalhadores escravizados e de imensas parcelas de terras.
Em
7 de abril de 1831, com a partida de dom Pedro e com o fim
do controle da administração e do exército por dignitários
e oficiais próximos do príncipe português, concluía-se finalmente
a independência política do Brasil. Então, o poder central
passou ao controle dos representantes dos grandes escravistas,
sobretudo do Rio de Janeiro.
3.
Revoltas farroupilhas no Brasil e no RS
Apesar
de ter debilitado as oposições provinciais, as limitadas
concessões regenciais às reivindicações federalistas e liberais
lançaram o Império em profunda crise. A negativa da Regência
de conceder a monarquia ou a república federativa quase
pôs fim à frágil unidade nacional brasileira, pactuada havia
dez anos.
Através
de todo o Brasil, um rosário de movimentos liberais federalistas
e liberais separatistas convulsionou a Regência e o início
do II Império: Ceará (1831-2); Pernambuco (1831-5); Minas
Gerais (1833-5); Bahia (1837-8); Grão-Pará (1835-40), Maranhão
(1838-41); Rio Grande do Sul (1835-45).
O
centralismo imperial teria sido possivelmente vergado se
cabanos, balaios, sabinos, praieiros, sul-rio-grandense
etc. tivessem coordenado suas lutas. Isolados, os movimentos
farroupilhas regionais foram esmagados, sucessivamente,
um após o outro, pelo poder central.
Liberais
radicais
É
um acaso histórico que apenas os farroupilhas sulinos
sejam conhecidos pela denominação comum a todos os liberais
radicais de então. É erro deduzir romanticamente o termo
farroupilha/farrapo dos uniformes em frangalhos dos últimos
combatentes sulinos.
Os
movimentos liberais regenciais foram impulsionados pelas
elites dissidentes regionais. No Maranhão (Balaiada) e no
Grão-Pará (Cabanagem), as revoltas liberais assumiram claro
caráter social com o ingresso na pugna de pobres, caboclos,
cativos, quilombolas, etc. O que levou as elites regionais
liberais a abandonarem a luta, submetendo-se ao tacão imperial.
Os
liberais sulinos reivindicavam a autonomia federativa, e,
a seguir, a república separatista. Sobretudo, o movimento
interpretou as reivindicações dos criadores do meridião,
então hegemônicos. A longevidade da revolta deveu-se também
ao fato de as elites sulinas manterem as classes subalternas
regionais à margem do movimento.
Em
geral, os comerciantes, a população urbana, os colonos alemães,
etc. optaram pelo Império, levando a que os farrapos
perdessem rapidamente o controle das grandes cidades
e, sobretudo, do litoral. Porto Alegre resistiu por três
vezes ao cerco farroupilha. O programa liberal-latifundiário
farroupilha pouco propunha para esses setores sociais.
A
questão oculta
Em
1835, no início da revolta, os farroupilhas controlaram
quase toda a província. Em 1845, ao concluir-se o movimento,
encontravam-se arrinconados nos pampas da fronteira sul.
Tal fato também se deveu à defecção dos grandes comerciantes
e charqueadores escravistas, temerosos que a vitória do
movimento separatista comprometesse o tráfico internacional
de trabalhadores escravizados.
Os
farroupilhas jamais foram revolucionários ou reformistas
sociais e políticos. Entretanto, continua-se a insistir
sobre o pretenso caráter revolucionário do movimento
sobretudo porque boa parte das tropas farrapas foram formadas
por peões pobres e ex-cativos.
Os
senhores farroupilhas e imperialistas preferiam que outros
lutassem e morressem por seus ideais. Muito logo, os exércitos
republicanos e monarquistas formaram-se com contingentes
de peões, nativos e cativos africanos e afro-descendentes
libertos.
Quando
da guerra, boa parte dos gaúchos livres eram descendentes
de nativos guaranis e pampianos, que haviam perdido, para
os grandes latifundiários, no século anterior, suas terras
ancestrais. Eles acompanhavam seus caudilhos nos combates,
como faziam-no tradicionalmente nas lides dos campos.
Churrasco
e saque
Não
foi o ideal liberal-republicano que levou o gaúcho pobre
à guerra. Quando os caudilhos trocavam de lado, sem pudor,
os peões faziam o mesmo. Bento Manuel mudou de bandeira
diversas vezes, sempre seguido por sua gauchada. Para o
peão, o ideário farroupilha significava sobretudo soldo,
churrasco e saque.
Quando
chamado às armas, o homem livre tinha o direito de substituir-se.
Em geral, alforriava um cativo para ocupar seu posto no
combate. Arrolavam-se nas tropas republicanas cativos dos
inimigos da República e compravam-se trabalhadores escravizados
de cidadãos da república para preencher os vazios das tropas.
Os
soldados negros que combateram faziam-no obrigados, por
preferirem a vida militar à escravidão, por sonharem com
liberdade após a luta, jamais obtida. Não houve democracia
racial nas tropas farrapas. Soldados negros e brancos marchavam,
comiam, dormiam e morriam separados. Os oficiais dos combatentes
negros eram brancos.
A
Constituição farroupilha dizia: "A República do Rio
Grande é a associação política de todos os cidadãos rio-grandenses".
Ou seja, dos "homens livres nascidos no território
da República". A República erguia-se sobre
a mesma pedra angular do Império: o latifúndio e a escravatura.
O índio e o cativo não eram e não seriam cidadãos.
República
dos senhores
Os
principais chefes farrapos eram ferrenhos escravizadores.
Ao ser enviado preso para a Corte, Bento Gonçalves da Silva
levou consigo um negro doméstico, para servi-lo.
Ao morrer, legou terras, gado e meia centena de trabalhadores
escravizados, numa época em que um cativo valia um bom patrimônio.
Os
farroupilhas jamais acenaram com a distribuição de terras,
aos gaúchos, e com o fim do cativeiro, aos cativos, como
fizera Artigas, na Banda Oriental. Os farroupilhas sequer
propuseram o fim do tráfico transatlântico de homens. Nas
filas farroupilhas, as veleidades emancipacionistas foram
facilmente silenciadas e abafadas. Sustentada sobretudo
com o sangue do peão sem terra e do negro liberto, a revolta
era das elites, para as elites.
Recorda-se
sempre que, para abater as armas, os farrapos exigiram,
insistentemente, que o Império respeitasse a liberdade dos
soldados negros. Nos fatos, temiam que se formasse uma guerrilha
negra na província, ou que os combatentes negros homiziassem-se
no Uruguai, caso
temessem a reescravização.
E, nos últimos anos da guerra farrapa, já se pensava
na intervenção na Banda Oriental ...
A
infâmia de Porongos
Na
madrugada de 14 de novembro de 1844, em conluio com Caxias,
chefe das forças imperial, David Canabarro, principal general
farrapo, entregou os soldados farroupilhas negros ao inimigo,
desarmados. No serro de Porongos, foi dizimada a infantaria
negra, acelerando a paz entre os amos farroupilhas e imperialistas.
A
rendição de Poncho Verde foi acordo de cavalheiros entre
senhores. Não havia contradições essenciais entre os chefes
imperialistas e republicanos. Os fazendeiros farroupilhas
não haviam conseguido impor a separação da província, o
Império não manteria o controle sobre ela sem a colaboração
dos grandes criadores. Muito logo, os ex-farrapos marchariam,
sem pejo, sob a bandeira imperial contra o Uruguai e a Argentina,
em defesa da extra-territoriedade de suas imensas
fazendas nos departamentos setentrionais da Banda Oriental.
4.
A Invenção da Tradição – Império e República Velha
Nas
décadas seguintes ao fim da guerra separatista, facções
das elites sul-rio-grandenses apropriaram-se da memória
farroupilha, adaptando-a aos seus objetivos. Esse processo
foi permitido pelo conteúdo nulamente social daquele movimento,
onde as classes subalternizadas jamais intervieram em forma
autônoma.
No
Segundo Reinado [1840-1889], o desenvolvimento da cafeicultura,
no Centro Sul, relançou, no Sul, a criação de mulas para
o transporte e a produção de charque para os trabalhadores
escravizados. A boa conjuntura permitiu às elites pastoris
retomaram o poder político regional, através do Partido
Liberal, incontestavelmente hegemônico no Rio Grande, de
1866 a 1889.
O
Partido Liberal expressava os criadores do meridião que
haviam dirigido a revolta de 1835. Devido à importância
dos cativos nas grandes fazendas e charqueadas, os liberais
sul-rio-grandenses defendiam a escravidão, ao contrário
do que faziam no resto do país, onde apoiavam em geral o
emancipacionismo. Discutindo a sorte do cativeiro, o grande
tribuno liberal Gaspar Silveira Martins declararia amar
“mais sua pátria do que o negro”.
Os
liberais reivindicaram facilmente a memória farroupilha,
que permaneceu propriedade das classes pastoris do meridião,
como no passado. Porém, os liberais, agora monarquistas,
reivindicando apenas apenas a descentralização dos poderes
imperiais, abandonavam duas grandes bandeiras farroupilhas
– a separação e a república.
Urbanos
e abolicionistas
Em
1878, em Porto Alegre, fundou-se o Clube Republicano “Bento
Gonçalves”. A seguir, fez-se o mesmo em outras cidades do
interior. Saídos das frágeis classes médias, os primeiros
neo-republicanos sulinos desenvolveram ativa agitação abolicionista,
com poucos resultados, em província dominada pelos grandes
criadores e charqueadores escravistas.
Entretanto,
agora, por primeira vez, a memória farroupilha era
apropriada por grupos sociais, política e geograficamente
estranhos ao movimento de 1835. O mundo urbano e as classes
médias jamais haviam sido farroupilhas. Os líderes farrapos
abominavam a libertação dos trabalhadores escravizados.
Bento Gonçalves morrera como grande escravista. Acelerava-se
a manipulação da memória farroupilha.
Em
fevereiro de 1882, em Porto Alegre, meia centena de delegados
elegeram a comissão organizadora do Partido Republicano
Rio-grandense. Logo, o PRR foi controlado por jovens filhos
de ricas famílias de criadores, sobretudo do centro e do
norte do RS, chegados em boa parte da escola de Direito
de São Paulo. Eles defendiam modernização conservadora do
Rio Grande.
No
início de 1880, em São Paulo, alguns desses universitários
– Borges de Medeiros, Júlio de Castilhos, Pinheiro Machado,
etc. – fundaram o Clube 20 de Setembro, para celebrar o
republicanismo sulino. Em 1882, a pedido dos seus pares
republicanos, o jovem Assis Brasil escreveu sua História
da república rio-grandense.
A
pátria pequena
Sem
ser separatista, o PRR desenvolveu virulenta pregação republicana
e federalista. Os jovens jacobinos defendiam a autonomia
regional e a diversificação produtiva, para superar a estagnação
da economia pastoril-charqueadora. A República Farrapa tornava-se
referência da propaganda dos positivistas radicais, adeptos
das “pequenas pátrias” de Auguste Comte.
Momentos
antes da República, o jovem líder republicano Júlio de Castilhos
propôs a celebração do 20 de Setembro. Com o golpe militar
anti-monárquico de 15 de novembro de 1889, apoiado primeiro
pelo marechal Deodoro da Fonseca, a seguir por Floriano
Peixoto, os republicanos sulinos empalmaram o poder regional,
institucionalizando a leitura positivistas do passado farroupilha.
Em
14 de julho de 1891, promulgava-se a constituição republicana
sulina, cópia quase literal do anteprojeto escrito por Júlio
de Castilhos. A primeira constituição sul-rio-grandense
determinava que as “insígnias oficiais do Estado” seriam
as do "pavilhão tricolor criado pelos revolucionários
[...] de 1935”.
Para
manterem-se no poder e implementar o novo projeto, os republicanos
positivistas vergaram as forças do meridião pastoril, na
mais sangrenta guerra civil conhecida Sul. A revolta farrapa
foi rusga de namorados, ao lado da carnificina de 1893-5.
A Revolução Federalista ceifou mais de dez mil vidas, em
uma população de um milhão de habitantes.
Somos
todos farrapos
Durante
o confronto, os fazendeiros do meridião, herdeiros sociais,
políticos e territoriais dos farroupilhas liberais, reunidos
sob a nova bandeira federalista, foram acusados de monarquistas
e de separatistas
pelos castilhistas, republicanos e federalistas extremados.
Reinterpretada, a memória farroupilha escorregava
das mãos dos grandes fazendeiros para as dos jacobinos do
PRR.
Os
republicanos positivistas assumiam a herança simbólica da
revolta latifundiária-pastoril, que vestiam com nova roupagem.
Enfatizando o autonomismo e o republicanismo farrapos, alicerçavam
simbolicamente o republicanismo federalista radical defendido
pelo PRR através de toda a República Velha [1889-1930].
Na
nova versão, a memória farroupilha passava a ser herança
de todo sulino, não importando sua origem étnica – negro
ou branco –; sua origem social – pobre ou rico –; sua região
de nascimento – Campanha, Litoral, Serra, etc. Manipulava-se
a história, apresentando o movimento como de toda a população
do Rio Grande, contra o Estado central.
O
mito da unidade da população, no passado, na luta por ideal
único republicano e autonomista, fortalecia a proposta de
comunhão de interesses do sul-rio-grandense, no presente,
pilastra da ordem republicana autoritária que regeu o Rio Grande até a chamada
Revolução de 1930. Nesse processo, a história desvanecia
por detrás do mito.
5.
A invenção da tradição: o Movimento Tradicionalista Gaúcho
Na
República Velha [1889-1930], o Rio Grande foi talvez o Estado
mais cioso de sua autonomia federa, assentada em uma economia
em boa parte voltada para o mercado interno sulino. Nesses
anos, o RS foi o único Estado que jamais conheceu intervenção
federal. A independência sul-rio-grandense seria vergada
apenas em 1930, por Getúlio Vargas, gaúcho e ex-militante,
desde a juventude, do PRR.
A
chamada Revolução de 1930 e, sobretudo o golpe do Estado
Novo, de fins de 1937, promoveram a propagação autoritária
do sentimento de brasilidade. Com ele, buscava-se
consolidar cultural e ideologicamente a formação em curso
de mercado e de indústria nacionais centrados no eixo Rio-São
Paulo. Para tal, foram fortemente reprimidos os sentimentos
regionalistas.
Durante
a “Proclamação ao Povo Brasileiro”, de 10 de novembro de
1937, Vargas denunciou o “caudilhismo regional” que, segundo
o ditador, ameaçava a unidade nacional brasileira. Em gesto
simbólico, mandou queimar publicamente as bandeiras regionais,
ardendo, entre elas, o estandarte criado por seus antigos
mestres, Castilhos e Borges, em 1891!
A
seguir, o Estado Novo promoveu a invenção de cultura
nacional, como substrato da identidade nacional proposta
e imposta. Para isso, o getulismo apoiou fortemente a seleção
futebolística nacional; difundiu o carnaval e o samba cariocas;
financiou o surgimento de arquitetura moderna brasileira
etc.
Brasileiros
para o Brasil
Criaram-se
e adaptaram-se órgãos e associações destinados a divulgação-imposição
do sentimento de amor à Pátria e à Nação, entre eles, a
Liga de Defesa Nacional; a Juventude Brasileira; o Departamento
de Imprensa e Propaganda; a Hora do Brasil; a Rádio Nacional, etc. As iniciativas
contaram com o apoio de grande parte da intelectualidade
brasileira e, logicamente, sul-rio-grandense.
A
campanha de nacionalização reprimiu os sentimentos regionalistas
fortalecidos na República Velha. O separatismo farroupilha
passou a ser execrado. Nesses anos, historiadores do Instituto
Histórico e Geográfico do RS negaram, de mãos juntas, contra
todas as evidências históricas, o independismo farrapo.
O mesmo seria também feito, após 1964, por historiadores
acadêmicos.
A
dominância das relações econômico-sociais nacionais sobre
as regionais exigia que o sul-rio-grandense deixasse de
ser sobretudo gaúcho, para passar a ser essencialmente brasileiro.
Ainda que, em âmbito local, a identidade gaúcha –
leitura romantizada da vida pastoril – mantivesse seu caráter
dominante sobre as outras identidades sulinas possíveis
– escrava, imigrante, operária, etc.
Durante
o Estado Novo, a posição econômica e política relativa do
Rio Grande recuou em relação ao Rio de Janeiro e São Paulo,
que se industrializaram aceleradamente. As elites sulinas
aceitaram a subordinação imposta, preocupadas em manter
a dominância regional. A industria sulina cresceu em ritmos
menores do que a de São Paulo e Rio de Janeiro e se manteve
a importância relativa da produção rural e pastoril sulina.
O
Novo Tradicionalismo
Com
a derrota do nazi-fascismo e a redemocratização conservadora
de 1945, a perda de importância relativa do Rio Grande ensejou
movimentos culturais regionalistas que reafirmavam a especificidade
sulina, em oposição à proposta nacional-centalizador getulista
que marginalizara relativamente o Estado sulino.
Em
vez de apontarem para o rompimento com um passado que determinara,
em última instância, esse atraso, esses movimentos reivindicaram
o passado rural-latifundiário arcaico, apresentando-o em
forma utópica e idealizada como espécie de Era de Ouro pampeana
perdida.
Em
1947, em Porto Alegre, alguns filhos de proprietários rurais
fundam movimento regionalista que, apoiados no mito da democracia
pastoril e do caráter libertário farroupilha,
propunha o culto da ideologia latifundiária-pastoril. O
movimento expressava também a rejeição ao plebeísmo democratizante
da sociedade urbana-industrial e o fortalecimento político
e social das classes trabalhadoras industriais sulinas.
Essa
releitura do passado retomava a visão pastoril liberal-federalista
do movimento farroupilha, repudiando a interpretação
urbana-industrialista do castilhismo. A Guerra Farroupilha
surgia apenas como uma expressão, entre outras, da excelência
da sociedade pastoril-latifundiária, apontada como síntese
da essência do povo gaúcho.
O
mito da unidade
Também
em 1947, Érico Veríssimo começou a escrever O Continente,
primeira parte de sua trilogia regionalista, onde mitifica
igualmente a história gaúcha, realizando o elogio póstumo
da economia pastoril-latifundiária. Também nesse romance,
é mínimo o espaço dedicado às classes subalternizadas no
passado – peões pobres e trabalhadores escravizados.
O
Tradicionalismo organizou-se em torno dos Centro de Tradições
Gaúchas – CTG –, espécie de ludização da fazenda pastoril,
onde peões confraternizam sob a presidência do patrão.
Para não perder sua funcionalidade, essa interpretação do
passado ignorou o papel do trabalhador escravizado no passado
sulino, em geral, e na grande fazenda pastoril, em especial.
O
Tradicionalismo surgia, em 1947, em plena Guerra Fria, em
época em que as classes operárias gaúcha e brasileira começavam
a expressar-se no cenário político, em forma tendencialmente
autonômica. Ou seja, quando se materializavam nas esfera
das relações políticas e das representações culturais os
antagonismos sociais profundos que haviam dividido, desde
sempre, o Rio Grande.
No
contexto de uma sociedade crescentemente industrial, o novo
regionalismo construía discurso ideológico que tentava
abafar a consciência sobre as contradições sociais, através
do mito do destino comum de explorados e exploradores, construído
em torno do culto à propriedade pastoril latifundiária e
de seu proprietário – o patrão.
Então
já hegemônico, o capital industrial sulino
apoiou o movimento, solidário com sua essência conservadora,
já que a debilidade econômica do latifúndio descartava-o
como força política concorrente. Em setembro de 1964, a
Assembléia Legislativa institucionalizou a Semana Farroupilha,
comemorada de 14 a 20 de setembro, através do Rio Grande
do Sul.
6.
O Mito Fundador – A Democracia Pastoril
Em
1923, a derrota da insurreição armada assisista assinalou
a definitiva submissão política do campo pela cidade no
Rio Grande do Sul. Em 1927, desde a ótica do latifúndio
pastoril, Salis Jorge Goulart publicou A formação do
Rio Grande do Sul, tida como a primeira tentativa de
análise estrutural da história sulina.
Em
uma época em que a produção colonial-camponesa do norte
gaúcho já superava a produção latifundiária-pastoril do
meridião, o autor baseava sua explicação da formação sulina
nos mitos “da democracia pastoril” e da “produção sem trabalho”,
aos quais também procurou dar uma base sociológica sistemática.
Para
o jovem ideólogo do latifúndio, o processo de formação sulino
diferenciara-se do resto do Brasil que, desde o berço, apoiara-se
na despótica exploração do índio e do negro escravizados.
Para ele, ao contrário, a formação social sulina teria nascido
e se desenvolvido à margem das diferenças e contrdições
de classes.
No
Sul, a “influência geográfica” das “vastas extensões territoriais”
e a “grande quantidade de alimentos fornecidos pelos rebanhos”
haviam gerado o latifúndio pastoril,
“célula social” do “organismo coletivo” rio-grandense,
que se apoiara essencialmente no trabalho solidário e não-compulsório.
Meu
patrão, meu amigo
Nessa
estranha “terra sem males”, onde o alimento surgia da terra
sem exigir o suor humano, com “a subsistência garantida
em qualquer parte”, o “trabalhador” jamais se empregara
sob o chicote da necessidade, servindo “espontaneamente”
ao “patrão, de quem era “mais um amigo do que um subordinado”.
Portanto,
tratava-se de uma sociedade nascida sob verdadeira “indiferenciação
de classes”, formada essencialmente por “uma classe única,
a dos gaúchos” que, fossem
“ricos ou pobres”, igualavam-se sempre “pelo garbo dos gestos,
pelo amor da guerra, pelo gosto das aventuras”.
Gaúchos
preocupados apenas com a “galhardia do pingo, felizes
na roda amistosa do chimarrão, entre relatos guerreiros
ou façanhas dos dias de rodeio”. Gaúchos que possuiriam,
“todos, humildes e potentados, os mesmo hábitos, os mesmos
costumes, os mesmos ideais”.
Um
mundo em que “patrões e empregados alimentavam-se com o
mesmo churrasco e o mesmo chimarrão, cavalgavam os mesmo
animais e juntos entregavam-se às mesma fainas dos campos,
às mais velozes correrias [...].” Sociedade onde o “empregado”
“não criava interesses opostos aos do patrão”, identificava-se
“com ele”, tornava-se “seu amigo e, por assim dizer, seu
igual.”
Poucos
e tarde
Era
clara a contradição posta à proposta da democracia pastoril
pela importância do cativo no Sul. Na solução do paradoxo
que se elevava entre o mito e a história, Salis Goulart
simplesmente negou a importante introdução de cativos desde
os primórdios sulinos e sua contribuição às atividades criatórias.
Segundo
ele, a origem singular do Rio Grande deveria-se ao “pouco”
“contingente de escravos” e ao fato de que o “espírito democrático”
sulino “se formara antes da grande introdução do elemento
negro”, que teria conhecido no Sul condições de vida superiores
às do resto do Brasil.
“Julgamos
que o nosso espírito democrático já se formara antes da
grande introdução do elemento negro. Esse ponto de vista
explica o fato de serem, como relatam os historiadores,
os escravos melhor tratados aqui [...].” Para ele, o Rio
Grande, em geral, e a fazenda pastoril, em especial, seriam
sobretudo produto do trabalho livre.
Salis
Goulart não inventou nada. No preciso momento em que se
consolidava a superação do latifúndio pastoril pela produção
colonial e urbana, sistematizou, com inteligência e criatividade,
os mitos já existentes da “democracia pastoril” e da “produção
pastoril sem trabalho”.
A
invenção da memória
As
romantizações históricas não são simples resultados de uma
conspiração consciente de intelectuais com o objetivo de
escamotear as contradições étnico-sociais do passado, para
melhor domesticar as classes subalternas do presente. Não
são meras estórias construídas por imaginações fantasiosas
a partir de elucubrações arbitrárias.
Não
é condição suficiente à universalização das apologias que
sejam profusamente difundidas pelas elites. Em geral, elas
são produtos de uma longa elaboração coletiva das classes
que as patrocinam, através da potenciação-generalização
de fatos circunstanciais, da ocultação-distorção de fenômenos
essenciais, da projeção no passado de expectativas sociais
jamais cumpridas.
A
apologia pastoril da identidade entre fazendeiros e trabalhadores
apoiava-se na ausência de movimentos multitudinários de
luta de peões pela terra. No século 19, para estabelecer-se
como criador, o gaúcho pobre necessitava de talvez
não menos de mil hectares. Realidade que dificultava, naquele
então, objetivamente, a
luta pela divisão dos latifúndios.
Fenômeno
que não impediu o confronto social incessante, expresso
no abate selvagem de gado, pelo gaúcho, pela carne e pelo
couro, e na sua luta por um naco de terra onde levantar
seu rancho. A ojeriza do latifundiário ao sem-terra, nos
dias de hoje, repete o horror, no passado, de seu ancestral,
do peão em busca de um lugar onde levantar um rancho.
Luta
social no campo
As
apologias pastoris sobre as condições idílicas de vida dos
trabalhadores escravizados sulinos extremam e generalizam
para todo o Rio Grande as relativamente melhores
condições de trabalho dos cativos
campeiros, em relação aos negros das charqueadas,
das olariais, dos cortumes, das plantações, no Sul e no
resto do Brasil.
A
produção pastoril era atividade extensiva semi-natural,
que se baseava nas condições naturais das fazendas – pastagens,
aguadas etc. – e no esforço humano. Realidade que restringia,
e não abolia, a produção crescente de lucro monetário através
da intensificação de extração de trabalho excedente. Para
o peão e o cativo, o trabalho pastoril era um jogo,
apenas se comparado ao trabalho duro na charqueada e na
plantação.
Porém,
o trabalho escravizado negava, essencialmente, as representações
de uma sociedade pastoril edênica. Assim sendo, em verdadeira
limpeza étnica, as narrativas apologéticas simplesmente
ignoraram, como o fez Salis Goulart, o papel sistêmico do
cativo campeiro nas ricas fazendas criatórias.
A
Idade de Ouro
As
representações sobre a fazenda pastoril no passado sulino
foram levantadas sobretudo através da generalização das
condições de trabalho das pequenas fazendas de subsistência,
exploradas pelo fazendeiro e seus familiares, já que incapaz
de comprar um cativo ou assalariar um peão.
A
facilidade com que as narrativas sobre a democracia pastoril
universalizaram-se no Rio Grande atual, processo que se
registra sobretudo através da grande adesão popular aos
relatos nativistas, deve-se igualmente a fenômenos recentes.
Estressadas
pelas contradições da sociedade capitalista, em forma inconsciente,
os segmentos sociais populares e médios, sem forças e canais
para concretizarem suas expectativas no presente, voltam-se
para o passado, recriando uma imaginária idade de ouro,
solidária e fraterna, onde o trabalho alienado era aventura
lúdica e criativa.
Manipuladas
pela elites, as mitificações do passado assumem sentido
social negativo ao escamotear a história real das classes
trabalhadoras e a verdadeira essência da formação social
sulina, apresentando-as como mundos em que o lobo apascentava
o cordeiro, em que o explorador fraternizava com o explorado.
7.
O MTG contra o Capitão Gay
O
turista mostra apreensivo na alfândega italiana a mala com
o valioso cálice etrusco comprado a peso de ouro ao arqueólogo
furtivo. Displicente, o policial pouca atenção dá à peça
contrafeita rusticamente que repousará sobre centenas de
lareiras de incautos e orgulhosos compradores norte-americanos.
Movimento
Tradicionalista Gaúcho não busca no passado valores originais
que iluminem o presente. Simplesmente apresenta como bens
pretéritos visões do presente avelhentadas rusticamente
para parecerem desterradas do tempo.
Em
Nativismo: um fenômeno social gaúcho, Barbosa Lessa
confessou com grande honestidade intelectual como o tradicionalismo
procedeu, não raro na “votação”, a “invenção das tradições”
gaúchas. “Quando algum elemento faltasse para a nossa ação,
nós teríamos de suprir a lacuna de um jeito ou outro.”
Criado
por filhos de fazendeiros, o MTG leu o passado com os olhos
do latifúndio moderno. Suas interpretações romantizadas
da sociedade pastoril-latifundiária monopolizaram o passado,
esterilizando a real, rica, contraditória e semi-desconhecida
história sul-rio-grandense.
A
alegoria do latifúndio feliz dissolveu a diversidade e a
contradição do passado. Ela negou espaço histórico ao nativo
sulino e ao missioneiro e a suas lutas pela defesa da terra
ancestral; ao peão pobre e ao gaúcho vago e quarteiro,
na sua oposição ao criador; ao trabalhador escravizado,
trabalhador, fujão, quilombola e justiceiro.
Diversidade
e Contradição
O
tradicionalismo desconheceu a rica e dolorosa trajetória
histórica da mulher. A sua pretensa doce submissão ao marido,
no passado, teatralizada na submissão da prenda do
CTG ao peão e ao
patrão, no presente, apresenta imagem idealizada
da fazendeira como sinônimo de toda mulher sulina.
Na
sociedade patoril-latifundiária, o trabalho era monopólio
do pobre e do cativo. O ato produtivo transformador da natureza
era signo de inferioridade. Nesse universo mandonista, os
fazendeiros sobreviviam impondo-se pela violência aos subalternizados.
A
coragem era a qualidade paradigmática senhorial. O gaúcho-fazendeiro
devia ser macho, pouco importando sua disposição
ao trabalho. Personagem-síntese do gaúcho em O
continente, de Érico Veríssimo, o capitão Rodrigo
era femeeiro e pouco amigo do trabalho. Mas brilhava pela
macheza.
O
grande signo da sociedade pastoril não foi a enxada, mas
o rebenque. Com ele, o fazendeiro domesticava o animal bravio
e, protegido pelo capataz, chegava-se às costas do cativo
desobediente e ao rosto do peão impertinente, em castigo
físico degradante. Nas cavalgadas urbanas, tradicionalistas
expõem valiosos rebenques de cabos de prata.
Nos
gestos, falas e canções, os tradicionalistas cultuam a imagem
mítica do gaúcho-fazendeiro que defendia seus latifúndios,
impondo-se despótico as suas mulheres, peões, cativos e
lindeiros. Reconstrução funcional em momento em que milhares
de trabalhadores sem terra lutam por um naco de terreno
onde possam trabalhar.
Surge
o Capitão Gay
Sem
maior sucesso, o movimento gay brasileiro tem
lançado candidatos a cargos legislativos. Em fins de 2002,
procurando a exposição à mídia, imprescindível ao sucesso
eleitoral, candidato gay ao legislativo sulino por
partido conservador, já derrotado como candidato a vereador
em Pelotas, assumiu a personagem do Capitão Gay, em referência
aos personagens do humorista Jô Soares e do ficcionista
Érico Veríssimo.
A
transfiguração possuía múltiplas mensagens e reivindicações,
implícitas e explícitas, conscientes e inconscientes. Entre
elas, o direito do homossexual masculino de participar de
pleno direito do MTG e a proposta de que a destemerosidade
pessoal é também qualidade do gay. Idéia que é um
quase truísmo. E se alguém dela duvida, que vá separar uma
dessas desesperadas e furiosas disputas urbanas de travestis,
à navalha, por um pedaço de calçada.
O
Capitão Gay trazia também à discussão tabu da história sulina.
Ou seja, a sexualidade do peão, trabalhador pastoril do
passado, eternamente solteiro, devido à negativa do fazendeiro
de ceder naco de terra para arranchar-se com sua china.
Em geral, na fazenda, fora o patrão, apenas o capataz casava
e procriava, fenômeno que determinou a débil expansão demográfica
pastoril do meridião do RS, uma das razões de seu atual
atraso.
Reduzido
ao celibato, vivendo em latifúndios onde escasseavam as
mulheres, o gaúcho concretizou os impulsos erótico-sexuais
como pôde. Em geral, se reconhece seus hábitos bestialistas,
mantendo-se porém silêncio sobre suas relações homoeróticas,
finamente abordadas no conto A intrusa, de Jorge
Luis Borges que inspirou a sensível obra cinematográfica
homônima de Carlos Christensen [1979].
Gaúcho
desinteressado
O
francês Nicolau Dreys viveu no Sul em 1817-27. Em relato,
anotou que o gaúcho não tinha “mulheres”, mostrando
por elas “pouca atração” [sic]. Pesquisas históricas demonstrarão
certamente que o gaúcho destemido do passado podia eventualmente
ser um gay, por natureza ou necessidade.
Em
Porto Alegre, durante o desfile de 20 de Setembro de 2002,
ao desfraldar a bandeira arco-íris do movimento homossexual,
diante do palanque oficial, o Capitão Gay foi perseguido
e surrado a rebenque, como anunciado, por cavalarianos tradicionalistas.
Em 7 de setembro, já fora impedido de entrar no mega-acampamento
ruralista, promovido anualmente em parque público municipal
de Porto Alegre, cidade que jamais se rendeu aos farroupilhas.
Em
uma metáfora histórica, os regionalistas perseguiram e golpearam,
matreiramente, em grupo, um tradicionalista que ousou enunciar,
isolado, sua diversidade, ao igual que os fazendeiros surravam
no relho, no passado, protegidos pelos prepostos, o peão
e o cativo alçado. A covarde violência do presente espelhou-se
e inspirou-se no barbarismo do passado.
Há
quase meio ano dos fatos, o cidadão ofendido, em especial,
e a população sul-rio-grandense humilhada, em geral, não
conheceram a devida reparação mínima através da expulsão
pública e notória pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho
de seus associados siderados pelo ódio homofóbico.