O
debate sobre a legislação trabalhista ocorre num momento singular
do Brasil. A ordem mundial com pretensões à univocidade sofreu
um duro revés em nosso país com a vitória de Lula em outubro,
depois de reinar quase absoluta por mais de uma década. Nesse
período, o modelo de relações de trabalho fundado nas idéias
liberais conseguiu se impor em muitos setores e um dos maiores
prejuízos que causou foi o de refrear o debate a respeito das
concepções sobre esse tema formadas ao longo da história.
Já no século XIX, quando a maioria dos países havia trocado a monarquia
de base feudal pela república, esse debate passou a representar
o pano de fundo da luta entre direita e esquerda, entre capital
e trabalho. Quando os projetos capitalista e socialista passaram
a disputar a hegemonia do planeta, no século XX, essa luta ganhou
feições mais definidas. O ideário capitalista reivindica a precedência
do capital em relação ao trabalho e o socialismo advogava a
primazia do trabalho em relação ao capital. Entre os dois, surgiu
o projeto social-democrata que procurou adaptar a economia capitalista
às preocupações sociais.
A derrota temporária do socialismo fez com que o capitalismo proclamasse
sua vitória como sendo histórica. Essa tese ganhou mais força
ainda quando o projeto social-democrata, atingido pela crise
do socialismo, começou a sentir as pernas fraquejarem. Assim,
o velho liberalismo, que serviu de base para o desenvolvimento
da tese capitalista até às primeiras décadas do século passado,
ressurgiu triunfante e com nova roupagem. Portanto, se quisermos
compreender o alcance da disputa que se trava hoje em torno
dessa questão precisamos restabelecer o fio condutor da dicotomia
entre direita e esquerda.
No Brasil, durante o século XX, esses conceitos ficaram claros. As posições
extremadas da direita obrigaram a esquerda a lutar muito para
conquistar pouco. As manifestações populares, na maioria das
vezes, ocorreram para defender direitos que têm a abolição prevista
pela cartilha liberal. Nunca tivemos por aqui uma efetiva predominância
da esquerda no poder.
Esse atraso pode ser explicado pelo modo como aconteceu a colonização
do nosso país. Os episódios da escravidão e da maciça imigração
representaram o estabelecimento nítido de duas vertentes em
luta aberta e irreconciliável. E o Estado sempre agiu de forma
autoritária para manter a ordem estabelecida e garantir a sobrevivência
da estrutura oligárquica. Antes o dono da terra tinha escravos,
depois passou a ter vassalos. Essa tradição feudal foi determinante
na formação do povo brasileiro.
Desde as capitanias hereditárias até a década de 50, o Brasil viveu no
campo. Esse tempo foi suficiente para que o pensamento feudal
ganhasse raízes fundas na cultura nacional. O retrato mais nítido
dessa projeção é a enorme distância que separa patrão e empregado
– em termos econômicos e políticos. Poucos países ostentam uma
distinção social tão marcada como a nossa. A elite brasileira
não aceita outra posição do restante da população, senão a completa
subordinação.
Momento singular
Essa elite sempre viveu sob a proteção do Estado, de modo fisiológico
e clientelista. Os governos sempre estiveram a seu serviço,
criando fontes de lucros e, não raro, pagando as suas contas.
Hoje, esse papel do Estado está em jogo. E isso explica a singularidade
do momento em que se trava o debate sobre a legislação trabalhista.
Ao longo da nossa história, os trabalhadores obtiveram algumas
conquistas – particularmente na segunda metade do século XX
– e a elite tentou abatê-las. Com o resultado eleitoral de outubro,
amplamente favorável às forças progressistas, a pergunta que
se impõe é a seguinte: qual deve ser o papel do Estado, governado
por forças de esquerda, nessa contenda?
Vista por esse ângulo, a questão apresenta como ponto inicial a defesa
das conquistas históricas, já bastante abaladas pela hegemonia
neoliberal da “era FHC”. Num segundo momento, se quisermos falar
de uma reforma séria do Estado, devemos ter como premissas a
um só tempo desprivatizar o governo – sobretudo no que toca
à transferência brutal de renda dos mais pobres para os mais
ricos – e ampliar direitos
para os trabalhadores. A definição clara do que é público e
do que é privado, do que é de todos e do que é de cada um, é
uma das discussões mais prementes nesse Brasil que nasce com
Lula presidente.
Concretamente, esse debate tem de começar pelo conceito amplamente difundido
na “era FHC” de que o conflito entre capital e trabalho é uma
questão individual. A lei, diz esse conceito, não pode se sobrepor
à realidade do “mercado”. O Estado não pode determinar quais
são os interesses dos trabalhadores e como eles devem ser exercidos.
E as diferenças entre patrões e empregados devem ser negociadas
e não legisladas. É a idéia cristalina do liberalismo que privilegia
o individual em relação ao coletivo. Para ela, tanto um poderoso
executivo de uma multinacional quanto um operário têm as mesmas
condições de negociar a duração do período de férias, o tempo
da licença-maternidade e o pagamento do 13º salário.
É evidente que essa tese é de interesse exclusivo do capital. Quanto mais
os trabalhadores estiveram divididos, envolvidos em demandas
corporativas, mais os patrões têm condições de impor suas vontades.
Para esse ponto de vista liberal sobre as relações de trabalho,
a tradicional organização sindical classista é o principal entrave
ao seu projeto de sociedade – fundado num Estado inteiramente
a seu serviço.
Força da unidade
No Brasil, a luta pela unidade dos trabalhadores tem sido renhida exatamente
porque foi esse modelo de organização que garantiu a maior parte
das nossas conquistas. Historicamente, o trabalho foi submetido
a feitores – muitos deles instalados no Estado –, que arrancam
no porrete as metas de produção. Mas nunca aceitamos essa situação
passivamente. As nossas conquistas trabalhistas não são concessões
bondosas do capital. E isso se deve ao entendimento de que a
força do trabalho reside em sua capacidade de organização e
ação coletivas. Só assim é possível proteger o trabalho dos
abusos praticados pelo capital.
Por isso, interessa muito aos trabalhadores o avanço de um projeto que
visa um Estado democrático e progressista. Nunca aceitamos,
desde a escravidão, a idéia de uma postura de plebeus diante
dos nobres. Mas também nunca conseguimos criar espaços tão amplos
no Estado como agora para defendermos nossas idéias. Se conseguirmos
imprimir ao Estado outro papel nas relações sociais, talvez
brevemente diremos que o Brasil iniciou o rompimento com o legado
de mais de 500 anos de dominação oligárquica.
É evidente que temos ainda um longo caminho a percorrer. Ainda há muita
gente sem trabalho e sem o que comer. Atualmente, 57% da população
economicamente ativa estão na informalidade, sem carteira de
trabalho, férias, descanso semanal remunerado, fundo de garantia
e previdência social. Esses são os pontos que precisam nortear
o debate a respeito da nossa legislação trabalhista, a partir
do que já conquistamos, no que toca ao papel do Estado na execução
do programa de governo eleito em outubro.
Enxergar o trabalho por essa ótica é uma questão de opção classista. Isso
implica em ver na outra margem das relações trabalhistas o capital
e sua história. São duas agendas em conflito. De um lado, a
necessidade de um novo contrato, no qual o trabalho seja beneficiado
com mais direitos para a construção de valores que revoguem
a hierarquia do medo e do mandato de feitores. E de outro, o
status quo disposto
a avançar sobre o que conquistamos e a moldar o Estado segundo
seus interesses. Esse é o pano de fundo do debate.