Nova
York antes do 11.09.01 (Foto: Araquém Alcântara)
“Ista quidem vis est!” (Mas isto é violência!) – Gaius Julius
Caesar (100 - 44
a.C.) exclamou, quando Lucius Tillius
Cimber agarrou-o pelos dois ombros e um dos Cascas (Servilius Casca), por atrás,
enfiou-lhe o estilete debaixo da goela, seguido pelos demais
conspiradores, que lhe fizeram no corpo cerca de vinte e três
feridas. Esta violência, o assassinato de Julius
Caesar, no ano 44 a.C., constituiu um perduellio ou crimen laesa majestatis, i. e., crime cometido contra um
representante da república, com objetivo político, um ato
de sedição, o que William Shakespeare ressaltou, ao teatralizar
o episódio no início do século XVII, quando imaginou Julius
Cornelius Cinna, um dos assassinos, a gritar, logo em seguida
ao feito: “Liberty! Freedom! Tirany is dead”. Libertas, porém, significava liberdade
para o Senado, com a restauração da re publica aristocrática,
dominada pelo patriciado, e a preservação da mos maiorum,
ou seja, dos costumes, da tradição. E tal foi, inter alia,
o propósito que animou os conspiradores, articulados
Marcus Iunius Brutus (85 – 42 a. C) e Gaius Cassius Longinus (? – 42 a.C.),
a esfaquearem Julius Caesar, pois temiam que ele assumisse
o título de rex (rei).
O assassinato de Julius Caesar constituiu
um ato de terror individual, como a partir do século XIX foram
denominados os assassinatos de autoridades e governantes,
i. e., foi um dos inúmeros crimes políticos, ocorridos ao
longo da história, desde a formação do Estado, ou seja, do
dominium que exerce
imperium (poder) sobre os homens, quer sob a forma
de república quer como principado (monarquia), conforme o
conceito amplo de Niccolò Machiavelli (1469-1527). Em Roma, já nos primeiros tempo
da República, considerava-se
perduellio todo ato que atentasse contra o Estado ou
a paz, e seu autor (perduellis) era levado perante
o povo (populi judicio), e executado, se fosse condenado. Lúcio
Cornelio Silla (138 a.C. - 79 a.C.), durante a sua
ditadura (82-79 a.C), decretara
a Lex Cornelia de Maiestatis (8 - 82 a.C), regulando o procedimento
penal contra o crimen majestatis, de modo a proteger
tanto a pessoa dos governantes como as instituições políticas,
punindo quem executasse,
colaborasse ou planejasse
atentado contra os magistratus Populi Romani,
ou contra quem tivesse imperium ou
potestas. Em 70 a.C, a legislação de Silas foi abolida, mas foi Julius
Caesar, provavelmente, que promulgou, por volta de 46 a.C
a Lex Julia de Maiestatis, para punir os delitos contra o
povo romano e sua segurança, incluindo alta traição, sedição,
deserção do exército, ataques criminosos contra magistrados
e outros. A Lex Julia de Maiestatis não foi
aplicada contra Cinna, Brutus, Cassius, Cimber e outros assassinos
de Julius Caesar. Como
sempre, a eficácia da lei dependeu da correlação de forças
políticas. O Senado,
controlado pelos patrícios, a casta dominante privilegiada,
percebia geralmente os ditadores assassinados, como demagogos
e egoístas, cujas medidas de caráter popular visavam a possibilitar
a restauração da monarquia, e consideravam os assassinos salvadores
da liberdade republicana. Assim, incapaz de tomar uma atitude consistente, o Senado negociou com Marcus Antonius, que assumira o
controle de Roma e queria consolidar-se no poder, e concedeu anistia aos criminosos, ao mesmo tempo em que ratificava
os atos de Julius Caesar. Porém, após o funeral, o povo, que
simpatizava com Julius Caesar, levantou-se, os tumultos recrudesceram
e Brutus, Cassius e demais conspiradores, impopularizados,
fugiram de Roma para a Grécia. Nenhum sobreviveu três anos
e nenhum morreu naturalmente. Em 43 a.C., Caius Julius Caesar
Octavianus (62 -14 a.C.), sobrinho-neto e herdeiro de Julius
Caesar, Marcus Antonius
(83 -30 a.C.), e Marcus Aemilius Lepidus (? – 13/12 a.C) formaram
um segundo triunvirato e desencadearam o terror, proscrevendo
(assassinando ou exilando) cerca de 300 senadores (optimates,
representantes da aristocracia patrícia), inclusive Marcus
Tulius Cicero (106 – 43 a.C) e 200 equites (comerciantes enriquecidos,
coletores de taxa e outros agraciados). Depois, suas tropas
perseguiram Brutus, Cassius e Casca, que se suicidaram, em
42 a.C., após perderem duas sucessivas batalhas, em Philippos (Macedônia). Caius Julius Caesar Octavianus,
posteriormente, rompeu com Marcus Antonius, a quem derrotou
na batalha de Actium (31 a.C), e, após ser eleito Princeps
Senatus (28 a.C.) e tornar-se imperador com o título
de Augustos Caesar Octavianus (27 a.C),
revigorou, por volta de 8
a.C, a Lex Julia Maiestatis,
incluindo então os atentados contra os princeps.
A severidade da lei, entretanto, não impediu que os crimes,
inclusive o assassinato de imperadores, continuassem a ocorrer,
como instrumento político na luta pelo poder. Os imperadores
Caius Caesar Germanicus, celebrizado como Calígula (12 - 41 d.C), e Tito Flavius Domicianus (51 – 96 d.C.), último da dinastia dos Flavius
(Flavia), foram assassinados no palácio por soldados
de sua Guarda Pretoriana. Marcus Aurelius Antonius Basianus (188-217 d.C.), conhecido como Caracalla, foi morto na Mesopotâmia pelo comandante
da Guarda Pretoriana, Marcus Ofelius Macrinus.
E em 455 Valentiniaus III (419-455), imperador do Ocidente,
foi morto por soldados da guarda pessoal do general Flavius
Aetius, Roman General (circa 396-454), a quem ele assassinara
um ano antes, com as próprias mãos, por temer que ele quisesse
ocupar o trono de Roma.
Os assassinatos, com fins políticos,
não resultaram apenas de conspirações palacianas. Os povos,
que Roma dominava, apelaram para as ações de terror, como
forma de insurgência. Na Judéia, na medida em que o jugo de Roma
se fez mais opressivo, aumentando o desespero do povo, os zelotes, uma seita judaica, empreenderam, no ano 48 a.C., uma campanha
terrorista para encorajar a insurreição, mediante o assassinato
de legionários romanos e de judeus colaboradores, por sicarii,
que se infiltravam nas cidades e os apunhalavam com a sica
(adaga curva), ou seqüestravam membros da guarda do Templo
para pedir resgate, ou usavam veneno em larga escala. Iesus
Chrestus provavelmente fora um zelote, pois tanto a morte
na cruz, forma usada pelos romanos para executar os rebeldes,
quanto a inscrição I.N.R.I (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum),
indicaram a sua condenação por crime de
perduellio, i. e.,
sedição contra Roma, species atrocíssima criminis
laesa majestatis, ao proclamar-se Messias, Rei dos Judeus,
e defender o não pagamento de tributo ao Caesar. Porém, cerca de 200 anos depois, Flavivs Valerivs
Clavdivs Constantinvs (307 a 337 d.C.) adotou o cristianismo como religião
oficial do Império Romano, cuja capital transferiu para Constantinopla (Bizâncio), e em 325 convocou o Concílio Ecumênico
de Nicéia. O monoteísmo, acabando a pluralidade de deuses,
legitimou o absolutismo do monarca, cujo poder, soberano,
não podia ter limite jurídico, i. e., não podia ser limitado
pelos direitos públicos subjetivos, ou auto-limitar-se, porque
ele era a própria fonte do direito. A princípio, o paganismo
foi apenas tolerado. E os sucessores de Constantinvs começaram
a considerar-se divinos, mestres das condições materiais
e temporais da Igreja, ao mesmo tempo em que buscavam reter
a autoridade de Pontífice Máximo (Pontifex Maximus), ante
a qual a autoridade civil se inclinava. O Império Romano,
bizantino, tornou-se assim um Estado teocrático, como
o existente na Judéia, para o qual os delitos religiosos configuravam
crimes políticos. O domínio da religião, como Karl Marx observou,
foi a religião do domínio (Herrschaft), no Império
Romano cristão, só importava o monarca, um ser de origem
divina, que personificava o Estado, cuja contextura institucional
assentava-se sobre o dogma da soberania uma e indivisível
da coroa.
Os crimes políticos, visando a modificar
as relações de poder, subverter ou manter o domínio, ocorreram,
ao longo da história. Na Inglaterra, os reis Edmund I (940-946),
Edward (975-978) e Edmund II (este reinou apenas sete meses
em 1016) foram assassinados. Durante muitos séculos, ao longo
da Idade Média, o punhal e a adaga, o veneno e fogo, bem como o arco e flecha serviram como instrumentos
políticos, para matar e destruir, na luta pelo poder ou contra
o poder. A partir do século XV, a pistola incorporou-se ao
arsenal dos conspiradores. O terrorismo acompanhou o desenvolvimento
tecnológico. E em 1758, Dom José I, rei de Portugal, sofreu
um atentado a bala, do qual escapou seriamente ferido. Em
1775 foi a vez de Luiz XV, rei de França. O tratamento dado
aos conspiradores, nos dois casos, correspondeu aos costumes
da época: foram submetidos a toda sorte de castigos físicos,
durante horas, antes do coup
de grace. O terror individual, como sempre, desencadeou
o terror do Estado. Quer fosse individual ou de massas, quer
contra o Estado quer o terror do Estado, o terror constituiu
sempre um elemento essencial em todas as conspirações e em
todas as revoltas, assim como na repressão, inclusive das
heresias, ou seja, das doutrinas contrárias aos dogmas da
Igreja, que era parte integrante da ordem política feudal,
na qual toda forma de direito e de liberdade se manifestava
como um privilégio. Porém, terror, como expressão, significando,
de modo vago, o recurso à violência como arma política, quer
com objetivo revolucionário ou de repressão, a fim de gerar
sentimentos de pavor e atemorizar os adversários, somente se difundiu
a partir da Revolução Francesa, quando o líder dos jacobinos,
Maximilian Robespierre (1758 – 1794), instalou o régime de la terreur, durante o qual o Tribunal Révolutionnaire,
entre 17 de abril de 1793, data de sua fundação, até 22 de
Pradial e 9 de Thermidor (27 de julho de 1794), ou
seja, em 15 meses, mandou executar cerca de 3.964 pessoas. O político e publicista Edmund Burke
(1729-97) foi que a popularizou na Grã-Bretanha, ao criticar
a Revolução Francesa, referindo-se a Robespierre e aos jacobinos
como “those hell-hounds
called terrorists [who] are let loose on the people”. O terrorismo individual, não obstante,
não cessou. Em pleno régime de la terreur, 13
de julho de 1793,
a jovem aristocrata Marie-Anne Charlotte de Corday
d'Armont (1768 – 1793), apunhalou Jean Paul Marat
(1743-1793), um dos líderes da revolução e editor do jornal
l'Ami du Peuple. Ela se tornara republicana,
porém, chocada com a proscrição dos girondinos (la Proscription
des Girondins - 2 juin 1793), considerava Marat, que todo
dia reclamava mais cabeças para a guilhotina, era em larga
medida responsável pelo sofrimento do povo francês e decidiu
eliminá-lo do país. Guilhotinada quatro dias depois, em
17 de julho, ela se tornou uma heroína para o povo francês,
mas a repressão recresceu ainda mais, ao ponto de tornar a
república odiosa e la
terreur deixar de aterrorizar, possibilitando le coup d'Etat
de 8 Thermidor (26 de julho de 1794), que
derrubou la dictature
de Robespierre, condenado pelo Tribunal Révolutionnaire
e guilhotinado le 10 Thermidor (28 julho de 1794),
cerca de um ano depois de Charlotte de Corday.
Marx
e Engels e o terrorismo
No transcurso do século XIX, o terrorismo
individual, ou seja, o recurso ao assassinato e aos atentados
a bomba, continuaram como tática de luta política. No Brasil,
em 25 de março de 1824, os liberais republicanos intentaram
incendiar o teatro onde se realizaria o espetáculo de gala,
solenizando a solenidade de outorga da Constituição,
a fim de que pudessem assassinar Dom Pedro, mas logo
no início do tumulto fim de que, no início do tumulto, ele
saiu, ileso, sem saber sequer que seria vítima de um atentado. Em outros países da América, também houve atentados
e atos terroristas, ingrediente consubstancial com revoltas,
sublevações e guerras civis e estrangeiras. Mas na Europa,
o terrorismo assumiu contornos de doutrina,
configurando uma estratégia insurrecional para os movimentos
nacionalistas e republicanos, tais como os Carbonari, os Fenianos e outros, que apareceram em grande
número de países da Europa, assim como para certos setores
da emergente classe operária, na Grã-Bretanha e na
França, desesperados com as condições de vida geradas pelo
desenvolvimento do capitalismo industrial. Carlo Pisacane
(1818-1857), um dos líderes da luta pela reunificação
da Itália, ao tempo do Risorgimento, defendeu a violência
como método de ação política, com objetivo didático, porém,
Karl Marx e Friedrich Engels opuseram-se a qualquer procedimento
que pudesse implicar terrorismo,
criticando-o, quando, em 18 de setembro de 1867, um
grupo de Fenianos, em Manchester, assaltou um carro da polícia,
libertou seus correligionários presos, após matar a tiros
os agentes, que os escoltavam. Os autores da operação não
foram descobertos, mas o governo encarcerou enorme número
de Fenianos, acusou-os do crime executou três, apesar de que
não pudesse produzir nenhuma prova concludente contra eles.
Como represália, promovendo o pânico em toda a Inglaterra,
os Fenianos lançaram então uma bomba diante dos muros do presídio de Clerkenwell, bairro de Londres,
habitado por gente simples e proletária, o que resultou na
morte de alguns homens e deixou mais de 100 feridos. Embora simpatizasse com o movimento pela
libertação da Irlanda, Marx condenou o atentado. Em carta
a Engels disse que “dieser
letzte Fenianexploit in Clerkenwell ist eine große Dummheit”, i. e., que a explosão de Clerkenwell fora
“uma grande estupidez”. Na sua opinião, esse atentado prejudicaria,
sobretudo, os próprios Fenianos, arrefecendo ou mesmo liquidando
a simpatia dos operários ingleses pela causa irlandesa. Engels,
dias depois, respondeu a Marx e, ao considerar a “Clerkenwell Dummheit” como obra de “Spezialfanatiker” (especiais fanáticos),
observou que o azar de todas as conspirações era conduzir
a tal estupidez. Segundo Engels, muito ruído se fez na
América em torno desse tema – explosão e incêndio
– e então vieram “alguns asnos e promoveram tal idiotice”.
“Diese Menschenfresser
sind dabei meist die größten Feiglinge” (Esses canibais
são no mais das vezes os maiores covardes) – Engels asseverou
e, após observar que William Phillip Allen, executado por
causa do assalto ao camburão da polícia, parecia ter testemunhado,
disse ironicamente que nisso estava a idéia de incendiar uma
alfaiataria em Londres para libertar a Irlanda.
Marx e Engels também se opuseram,
dentro da Associação Internacional dos Trabalhadores (I Internacional),
às atividades e idéias de Michael Bakunin (1814-1876), imigrante
russo e um dos ideólogos
do anarquismo, que defendia a abolição de todos os Estados,
destruição da toda a civilização burguesa, a fim de levantar
sobre suas ruínas, de baixo para cima, uma federação de associações
dos produtores livres de todos os países, “um novo mundo humano”. “Onde existe o Estado existe inevitavelmente
a dominação, por conseguinte, a escravidão; o Estado sem escravidão
– aberta ou mascarada – é impossível: é a razão pela qual
somos inimigos do Estado” – assim pensava Bakunin, acusando Marx de comandar os “revolucionários
doutrinários”, que apoiavam em todas as partes “o estatismo
e os estatistas contra a revolução do povo”. O antagonismo entre eles recresceu depois
que Bakunin, após fundar a Allianz der sozialistischen Demokratie,
para dividir a Associação Internacional dos Trabalhadores,
juntou-se a Serguei Guennádievich Netchayeve (1847-1882) e com ele se comprometeu a publicar uma
série de escritos revolucionários e enviá-los à Rússia. Marx e Engels, que em 1872 já suspeitavam
fosse Netchayeve um “russischer
Agente provocateur”, publicaram, em 1873, uma brochura – La
Alliance de la Démocratie Socialiste et la Association Internationale
des Travailleurs, criticando acerbamente tais escritos,
como Der Revolutionskateschismus
(O Catecismo da Revolução),
atribuído a Netchayeve, segundo o qual “um revolucionário (...)
não conhece senão uma só ciência: a da destruição”; e
“para ele, o que é moral, é o que favorece o triunfo
da Revolução, o que é imoral e criminoso, é o que a contraria”.
“Os camaradas terão de fazer listas dos seus condenados, classificados
de conformidade com as suas maleficências relativas e os interesses
da obra revolucionária, de tal modo que os primeiros números
sejam liquidados antes dos outros” – determinava Der
Revolutionskateschismus, ressaltando, em outro parágrafo,
que era “necessário executar primeiramente os indivíduos mais
perigosos para a organização revolucionária, e aqueles cuja
morte violenta e súbita é a mais apropriada para assustar
o governo e enfraquecer sua força, privando-os dos seus auxiliares
mais enérgicos e mais inteligentes”. Der
Revolutionskateschismus recomendava, por fim, a aliança
“com o mundo dos aventureiros e dos bandidos, que são, na
Rússia, os únicos verdadeiros revolucionários”, para lutar
“contra todos os auxiliares diretos ou indiretos do Estado:
nobreza, burocracia, clero, grandes e pequenos comerciantes,
e numa palavra, contra todos os exploradores do povo”.
Fiodor Dostoiévski (1821-1881) inspirou-se
em Netchayeve, ao escrever Crime
e Castigo,
a fim de expor a questão em forma de novela e dar uma resposta
clara à pergunta: como, na sociedade russa, que atravessava
um período de transição, podiam aparecer não apenas um Netchayeve,
mas vários Netchayeves, e de como podiam esses Netchayeves
recrutar adeptos? De
fato, Netchayeve e Bakunin fizeram escola. Eles, por entenderem
que os revolucionários não deviam ensinar ao povo, mas agitá-lo,
consideravam o ladrão russo “o verdadeiro e único revolucionário”,
o revolucionário sem frase, sem a retórica retirada dos livros.
E o médico francês Paul Brousse (1844-1912) caiu sob a sua
influência, no início da década 1870, e tornou-se um dos expoentes da corrente anarquista, ao
defender a propagande par le fait, ou seja, a propaganda através da ação,
da criação de fatos, com atos de violência, adotando o assassinato
como principal procedimento. Os atentados começaram então
na França, primeiro para vingar os 20.000 mortos, entre os
quais centenas de anarquistas, na brutal repressão da Comuna
de Paris; e, depois, com o propósito de encorajar o povo
a rebelar-se, mostrando-lhe que os governantes e os
burgueses podiam ser destruídos. Um congresso anarquista,
realizado em La Chaux-de-Fonds (Suíça), em 1879, aprovou finalmente
essa estratégia e o terrorismo individual, acompanhando o
desenvolvimento tecnológico, ampliou seu poder de destruição,
com a dinamite, inventada em 1868 por Alfred Nobel e empregada
em várias indústria. François Claudius Kœnigstein, ou Ravachol (1859-1892), chamado a
“voz da dinamite”, foi quem então personificou, na França,
o revolucionário idealizado por Netchayeve, que rechaçava
toda a moralidade como preconceito burguês e não admitia limites
para a ação revolucionária. Ele apregoava que
“il était permis d'attaquer ouvertement ces gens-là sans craint de la police
et par conséquent pour se peau (sic) on n'irait pas détruire
leurs habitations à l'aide engins explosibles, moyens qui
peuvent tuer en même temps qu'eux la classe souffrante qu'ils
ont à leur service”.
A condenação à morte dos anarquistas
franceses Decamp,
Dardare e Léveillé, em agosto de 1891, induziu Ravachol a promover a vingança, mediante uma sucessão de atentados
terroristas. Em 2 de março de 1892, fez explodir o apartamento do presidente da Corte de
Justiça, M. Benoit, quatro dias depois ocorreu
outra explosão no Quartel Lobau e, no dia 27, na residência
de M. Bulot, o procurador da República. E assim o terror foi
deflagrado em Paris, onde as repetidas explosões, matando
pessoas e destruindo propriedades, alarmou seus habitantes.
Ravachol foi preso em 30 março de 1892 e condenado a prisão
perpétua. Porém, dois meses mais tarde, em Montbrison, a corte
de Justiça de Loire condenou-o à morte por um assassinato
cometido em 18 junho de 1891, diversos delitos e dois outros
crimes comuns em 1886 e 1891. Após o pronunciamento da sentença,
ele gritou “Vive l'Anarchie
!”
A
execução de Ravachol ocorreu em 11 julho de 1892, em Montbrison.
Mas os atentados e as explosões não cessaram. Em 9 de
dezembro de 1893, Auguste Vaillant (1861-1894) lançou uma
bomba na Câmara dos Deputados, em Paris. Ninguém saiu ferido.
Foi uma ação simbólica. O objetivo não fora matar, mas ferir
um grande número de deputados, que logo reagiram, aprovando
em 12 de dezembro, a primeira das
lois scélérates,
para reprimir a imprensa
anarquista. E Auguste Vaillant, preso, declarou, perante a Corte
de Justiça:
“Messieurs,
dans quelques minutes, vous allez me frapper, mais en recevant
votre verdict, j'aurai au moins la satisfaction d'avoir blessé
la société actuelle, cette société maudite où l'on peut voir
un homme dépenser inutilement de quoi nourrir des milliers
de familles, société infâme qui permet à quelques individus
d'accaparer les richesses sociales (...) Las de mener cette
vie de souffrance et de lâcheté, j'ai porté cette bombe chez
ceux qui sont les premiers responsables des souffrances sociales”.
Vaillant,
foi condenado à morte e guilhotinado, aos 33 anos, em 5 de fevereiro
de 1894, gritando: Mort à la
société bourgeoise et vive l'anarchie”. E uma semana depois de sua execução,
outro anarquista Émile Henry Gauvreay, jovem de 20 anos, estudante
da Escola Politécnica, fez explodir uma bomba no Café Terminus,
próximo da Gare Saint Lazare. Preso, confessou que sua intenção
era realmente matar e demonstrou terrível frieza perante a
Corte de Justiça do Sena, ao justificar o terrorismo, que
acarretava a morte de pessoas inocentes. “A bomba encontrada
no Café Terminus é a resposta a todas as violações à liberdade,
às prisões, às buscas, às leis contra a imprensa, às deportações
em massa, às guilhotinas” – Émile Henry proclamou, acrescentando:
“Não
pouparemos as mulheres e crianças burguesas porque as mulheres
e crianças daqueles que amamos também não foram poupadas.
Não deveríamos incluir entre as vítimas inocentes, as crianças
que morrem lentamente de anemia nos cortiços porque não há
pão em suas casas? As mulheres que vão se tornando cada vez
mais pálidas trabalhando nas fábricas, esfalfando-se para
ganhar alguns tostões por dia e podendo se considerar felizes
se a pobreza não as levar à prostituição? Ou os velhos que
foram tratados como máquinas durante toda a vida e que agora
são lançados ao monte de refugos nos asilos, quando já não
têm mais forças para trabalhar? Tenham ao menos a coragem
de assumir seus crimes, cavalheiros da burguesia, e reconheçam
que nossas represálias são totalmente válidas”.
Três dias antes do julgamento de
Émile Henry, que ocorreu em 27 e 28 junho de 1894, um anarquista italiano, Jerônimo Santo Caserio, em 24 de junho de 1894, apunhalou o presidente da França, Marie Françoise
Sadi Carnot (1837-1894), para
vingar a execução de Auguste Vaillant. Santo Caserio foi executado
em 15 de agosto de
1894. Diante da guilhotina gritou:
“Corragio
camaradi,
viva l'anarchia!”.
Émile Henry, condenado inicialmente a trabalhos
forçados, recebeu depois a pena de morte, em virtude de outros
atentados que praticara, e foi executado em 5 de
fevereiro de 1895. Eles matavam, dispostos a morrer. E assim
os atentados, as explosões de bomba, provocando a perda de
vidas e a destruição de propriedades, as prisões em massa
e as execuções se sucediam e conformavam o círculo vicioso,
em que o estado de terror e o terror de Estado reciprocamente
se realimentavam .
Embora nem todas as correntes anarquistas
defendessem a propaganda através do fato e/ou praticassem
o terrorismo individual, a ação direta constituiu, geralmente,
seu principal método de luta, visando a destruir a sociedade
capitalista e o Estado. E o conceito da ação direta, o forma
de ensinar aos trabalhadores a agir, solidariamente, na luta por melhores condições de trabalho,
e a conhecer através da própria experiência as necessidades
da revolução, implicava manifestações de massa greves, boicotes,
sabotagens ou, até mesmo, o assassinato e a bomba. A destruição
de máquinas, o incêndio de fábricas ou o assassinato de seus
proprietários, o atentado contra governantes, eram, geralmente,
aceitáveis para os anarco-sindicalistas (anarquistas vinculados
ao movimento operário) e poucos consideravam tais feitos como
terrorismo. Entretanto, o terrorismo individual, promovido
por um pequeno número de anarquistas, que atuavam, isoladamente,
com o propósito de desencadear a revolução social e destruir
o Estado, não floresceu somente na França. Estendeu-se a diversos
países, sobretudo Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, EUA
e Rússia, e uma série de atentados, como o assassinato de
membros realeza, homens de governo e explosões a bomba, nem
todos, decerto, cometidos por anarquistas, ocorreram, entre
os anos 70 do século XIX e a primeira década do século XX.
Em 11 de maio de 1878, o funileiro
Emil Heinrich Max Hödel (1857-1878), em Berlim, atentou contra
a vida do imperador da Alemanha, Wilhelm I, mas fracassou.
Três semanas, depois, um intelectual, Karl Edward Nobiling,
promoveu outro atentado e, como Hödel, não teve igualmente
êxito. Nobiling, em seguida, suicidou-se. Hödel
foi decapitado em 16 de agosto de 1878. Marx condenou esses
atentados, que permitiram ao Kanzler Otto von Bismarck, chefe
do governo de Willhelm I, reprimir o movimento operário, com
a aprovação pelo Reichstag, em outubro de 1868, de uma lei,
proscrevendo a social-democracia, constituída como partido
em 1869. E Engels comparou a Dummheit (estupidez)
de Hödel e Nobiling com os atentados cometidos pelos Fenianos, no parque Phönix (Irlanda), que qualificou
como não só como “bloße Dummheit” (mera estupidez),
mas como “pure bakunistische, renommistische, zwecklose
‘propagande par le fait’”. Pouco tempo depois, na Espanha, um tanoeiro,
Juan Oliver Moncasi, atentou contra a vida do rei Afonso II,. E, nos
EUA, onde o presidente Abraham Lincoln fora morto em 1865, Charles J. Guiteau,
em 2 de julho de 1881,
assassinou outro presidente, James Abram Garfield (1831-1881),
na estação ferroviária de Washington, após escrever uma carta,
alegando que resolvera removê-lo do governo, porque ele provara
ser traidor e estava pondo em perigo a república. O terror, porém, não se limitou
ao assassinato do presidente Garfield. Em 1886, alguns policiais
morreram, em conseqüência da explosão de uma bomba, quando
tentaram dissolver pela força uma demonstração pacífica de
operários, promovida, em Chicago, por August Spies, que foi
preso e executado, juntamente com outros anarquistas (Albert
Parsons, George Engel Adolph Fischer), embora nada fosse provado
contra eles. A tolerância com a divulgação de idéias revolucionárias
acabou nos EUA, em meio da repressão que se seguiu ao conflito
de Chicago, os partidos socialistas trataram de desfazer quaisquer
vínculos com as correntes anarquistas, mas o terrorismo individual
prosseguiu, nos mais diversos países. O
imperador do Brasil, Dom. Pedro II (1824-1891), escapou de
um atentado, no Rio de Janeiro, ao sair do Teatro Sant’Ana,
em 15 de julho de 1889, quando, após um pequeno tumulto provocado por alguém
que gritara “Viva o partido republicano”, um jovem português,
Adriano do Vale, disparou três tiros contra a sua carruagem. Ao contrário do que ocorreu na Alemanha, onde Hödel
fora decapitado por tentar assassinar o imperador Wilhelm I, Dom Pedro II não deu importância
ao fato e perdoou o terrorista. Mas quatro meses depois, os
militares desfecharam um golpe de Estado e instituíram a república.
E em 5 de novembro de 1897, o soldado Marcelino
Bispo, partidário do marechal Floriano Peixoto, atirou contra
o primeiro presidente civil do Brasil, Prudente de Moraes,
no cais do porto do Rio de Janeiro, e atingiu e matou o ministro
da Guerra, marechal Carlos Bittencourt. Na Suíça, um anarquista italiano, Luigi
Luccheni, assassinou, em 1898, a imperatriz Elizabeth de
Wittelsbach (Sissi), esposa do imperador Francisco José
I, da Áustria. Outro anarquista, Gaetano Bresci, matou em
1900 o rei da Itália, Umberto I, em Monza. Um ano depois,
1901, Leon Czolgosz, anarquista americano de 28 anos, influenciado
pela doutrina de Emma Goldman (1869-1940), abateu a tiros de revólver mais outro
presidente dos EUA, William McKinley (1843-1901), durante
a Exposição Pan-Americana, em Búfalo (New York).
Terrorismo
e Bolchevismo
Na Rússia, o castigo infligido aos
presos políticos foi que impeliu Vera Ivanovna Zasulich (1849-1919),
em 1878, a atentar contra a vida do general Theodore Trepov,
governador militar e chefe da polícia de St. Petersburg, exprimindo
um sentimento geral de indignação contra o governo do czar
Alexandre II. Seu exemplo inspirou os círculos da intelligentsia
revolucionária, que não contavam com apoio de massa. E o terrorismo
individual, começando como ato de simples vingança, tornou-se
método de luta política, constituiu
um sistema e, ao contrário do que ocorreu nos países
da Europa Ocidental e nos EUA, assumiu forma organizada, entre 1879 e
1781, com a cisão do movimento populista - Narodnichestvo
– que imaginava poder
a Rússia saltar diretamente do feudalismo para o socialismo,
sem passar pelo purgatório capitalista. Uma de suas correntes criou a Narodnaya
Volya (Vontade do Povo), com a intenção expressa de assassinar
o czar Alexandre II(1855- 1881), mediante incessantes esforços para executar
essa decisão. Sua estratégia consistiu na realização de atentados
contra os representantes da autocracia, a fim de despertar
as massas populares para a revolução ou, ao menos, estimular
os liberais na luta contra o czar Alexandre II. Toda a sua
força se concentrava num comitê executivo, que se compunha
de 28 pessoas e, até 1881, não possuiu mais de 37 militantes.
Todos viviam na clandestinidade, sem qualquer relação social
e familiar, devotados, exclusivamente, à causa revolucionária,
conforme os mandamentos do Der
Revolutionskateschismus (O
Catecismo da Revolução), atribuído a Netchayeve, dispostos
a sacrificar suas vidas, não tendo “negócios ou interesses
pessoais, nem sentimentos ou afeições, nem propriedade, nem
mesmo um nome, absorvidos por um só interesse exclusivo, um
só pensamento, uma só paixão: a revolução”. Demonstravam extraordinário
talento de organização, mas seu isolamento propiciou o êxito
da repressão policial. De agosto de 1878 a dezembro de 1879,
para cada duas vítimas dos atentados, entre o pessoal do governo,
dezessete revolucionários morreram na forca. Contudo, Alexandre
II finalmente tombou
com a explosão de uma bomba, em 1° de março de 1881, 1881,
ano em que o presidente James A. Garfield também foi assinado
nos EUA. Seu filho, Alexandre III, ascendeu ao
trono e, longe de ceder, não apenas derrogou muitas das reformas empreendidas pelo pai como intensificou
ainda mais a repressão. E nenhuma organização podia sobreviver,
na clandestinidade, sem apoio efetivo da população. Em 1885,
a Narodnaya Volia estava
praticamente liquidada. Porém, toda vez que a intolerância
da autocracia, no seu obscurantismo, impedia o curso pacífico
das manifestações de protesto, a
intelligenisia voltava
suas esperanças para a dinamite. E a palavra de ordem da Narodnaya Volia – “Um Alexandre depois do outro” ‑ readquiriu
força para seduzir parte da mocidade e canalizar seu desespero.
Assim, quando a polícia, em 1886, proibiu a homenagem à memória
do publicista radical Nicolai A. Dobroliubov, devido ao seu
caráter político, um grupo de estudantes recordou: “Um Alexandre
depois do outro”. Alexandre III deveria ter o mesmo destino
que Alexandre II. Não restaria outra saída senão a bomba.
E começou a preparação do atentado. A esse grupo pertencia Alexandre Ulianov, (Sashka,
para seus familiares). Tinha 21 anos, cursava a Universidade
de Petersburg e caiu preso, em 19 de março de 1887, quando
atravessava a Perspectiva Nevsky com um exemplar do Dicionário
de Medicina, oco por dentro, contendo a dinamite e
algumas cápsulas de estriquinina. Talvez não fosse Alexandre
Ulianov o dirigente da conspiração. Mas, diante da polícia
e do tribunal, assumiu todas as responsabilidades e declarou.
“(…)
Nossa cultura é tão fraca, fisicamente, e tão desordenada,
que na época atual não se pode lançar em luta aberta. É apenas
pelo terrorismo que ela se torna capaz de defender seu direito
de pensar e sua participação intelectual na vida da sociedade.
O terrorismo é a forma de luta criada no século XIX, como
única defesa accessível à minoria, que apenas é forte no espírito
e na convicção de sua razão contra as idéias de força da maioria.
(…) Na Rússia, será sempre possível encontrar dez pessoas
tão leais às suas idéias e tão tristes com sua terra que não
será sacrifício para elas morrer por esta causa. Nada poderá
amedrontar tais pessoas”.
Dos quinze acusados (o mais velho
tinha 28 anos), cinco receberam a sentença de morte e, entre eles, Alexandre Ulianov, que subiu
ao patíbulo em 5 de maio de 1887, na fortaleza de Schlusselburg.
“Alexandre Ulianov tornou-se herói de uma nação que jamais
o tinha visto ou ouvido falar dele” – ressaltou Louis Fischer,
biografo de seu irmão mais jovem, Vladimir Ilitch Ulianov,
o futuro Lenin, então com 17 anos.
A social-democracia internacional
- Trotsky ressaltou em 1911 - sempre se opusera “da maneira
mais irreconciliável” a essa classe de terrorismo, o terrorismo
individual, considerando-o “inadmissível” precisamente porque
apequenava “o papel das massas em sua própria consciência”,
as fazia aceitar sua impotência e voltar os olhos para “o
grande vingador e libertador que algum dia virá cumprir com
sua missão”. Segundo Trotsky,
o terrorismo individual, como método para a revolução
política, representava o aporte “nacional” russo”, pois, embora
o assassinato de tiranos fosse quase tão antigo quanto a instituição
da tirania, o terror sistemático, que assumiu a tarefa de
eliminar sátrapa atrás de sátrapa, ministro atrás de ministro,
monarca atrás de monarca – “Sashka atrás de Sashka” – ajustava-se à hierarquia burocrática
do absolutismo e criava sua própria burocracia revolucionaria,
fora “produto dos singulares poderes criadores da intelectualidade
russa”. Porém, não somente o terrorismo individual,
como método para a revolução política, fora produto desses
“singulares poderes criadores da intelectualidade russa”.
Lenin, embora aderisse à social-democracia, ao contrário do
seu irmão Alexandre Ulianov, e condenasse o terrorismo individual
como inútil e inconveniente, sempre admirou
a combatividade e a organização da Narodnaya Volia.
Nunca deixou de olhar com respeito e veneração aqueles revolucionários
que, recorrendo ao terrorismo, tombaram na luta contra a autocracia.
Seu irmão, Alexander, fora um deles. E essa admiração ele
extravasou, ao relembrar que muitos dos social-democratas,
dirigentes do movimento operário, começaram a pensar, revolucionariamente,
como narodovoltsi. “Quase todos rendiam em sua mocidade
um culto entusiasta aos heróis do terror, e muito lhes custou
renunciar à impressão sedutora dessa tradição heróica” – ele
escreveu. Nadezda Krupskaia, em suas memórias, considerou
esse parágrafo como um pedaço da biografia de Lenin. Com efeito,
Lenin valorizou vontade como fator revolucionário,
entendendo que, nas condições da Rússia, não podia haver movimento
revolucionário sólido sem uma organização clandestina de dirigentes
estáveis, entregues profissionalmente às atividades revolucionárias,
a fim de dificultar a repressão policial. E concebeu um modelo de partido político – o do partido bolchevique,
fração do Partido Operário Social-Democrata – com base na
organização da Narodnaya
Volia, dirigida por um Zhelyabov, um Comitê Executivo clandestino, e
cujo erro – Lenin julgava – fora não ligar suas atividades
ao movimento de massas, à luta de classes, às greves e aos
combates de rua. Esse modelo de organização, concebido por Lenin, para “preparar,
fixar e levar a prática a insurreição de todo o povo”, era o mesmo que o populista russo Piotr Nikititsch Tkatschow
(1844-1885) preconizara, em 1875, em uma brochura, intitulada
Nabat (A campanha de alarme) e publicada em
Genebra, defendo a de teoria de que a revolução na Rússia
somente poderia ser desencadeada, por um pequeno grupo disciplinado e submetido,
hierarquicamente, a uma direção centralizada, que viesse a
capturar o poder político, por meio de uma conspiração. Essa
concepção era similar à do revolucionário francês Louis-Auguste
Blanqui (1805-1881), segundo a qual uma pequena
minoria bem organizada poderia, em determinado momento, efetuar
un coup de main révolutionnaire e conduzir as massas
a uma revolução vitoriosa, concepção esta duramente criticada
por Marx, bem como por Engels, que, respondendo a Tkatschow,
qualificou como falsa a afirmativa de que para os revolucionários
russos nenhum outro meio havia senão a pura conspiração”.
A idéia da revolução,
como resultado de uma conspiração empreendida por uma pequena
minoria bem organizada e disciplinada, que Netchayeve e Tkatschow defenderam,
refletiu, entretanto, as idiossincrasias políticas
e culturais da Rússia, onde o capitalismo
se desenvolvia, lenta e tardiamente, de forma complexa e irregular,
amalgamando diversas etapas do processus histórico
de sua formação econômica e social. Na Rússia, em fins do
século XIX e início do século XX, camponeses (80%) e artesãos ainda conformavam a maior
parte da população. O artesanato ainda não se desvinculara completamente da agricultura.
O proletariado surgira do campesinato, poucas décadas havia,
ao contrário do que ocorrera na maior parte a Europa Ocidental,
cuja classe operária se formara, basicamente, com descendentes
dos trabalhadores das guildas medievais, dos quais herdaram
uma cultura urbana e as tradições. E a autocracia
bizantina (1% de nobreza hereditária), representada pela dinastia dos
Romanov, constituía o regime político, que capeava aquele
estado de tipo asiático, despótico, aparelhado com uma polícia
política e social, a Okrana, sempre a reprimir, violentamente,
todas as tentativas de contestação, inclusive da intelectualidade.
Marx e Engels, porém, formularam sua doutrina a partir
do estudo do capitalismo industrial, cujo epicentro fora Inglaterra,
onde milhares de operários já se concentravam nas fábricas,
sem mais vínculos com o campo, e os artesãos, bem como os
pequenos comerciantes, embora lutassem para sobreviver, tinham
as liberdades garantidas, dentro da monarquia parlamentar.
Destarte, trasladado da Europa Ocidental, a doutrina de Marx
e Engels defrontou-se, na Rússia, com uma realidade distinta
da que a gerou, a da Inglaterra, na segunda metade do século
XIX. Lenin adotou-a, mas a adaptou às condições sociais e
políticas existentes na Rússia, onde a violência era inerente
à sua cultura e tradição. Ele criticou o terror da Narodnaya
Volia apenas porque era a “vingança contra indivíduos
isolados”, era o “complot de grupos de intelectuais”, “não
estava em absoluto ligado ao ânimo das massas”, “não preparava
nenhum dirigente combativo” e resultava da falta de fé na
insurreição, da falta de fé nas condições para a insurreição”.
Mas admitiu as expropriações e o seqüestro de fundos financeiros
do governo, visando a angariar recursos e armas para o partido,
a execução de alcagüetes, de policiais, de gendarmes, a explosão
das delegacias de polícia e a libertação dos detidos. O militante
bolchevique corporalizou, assim, o revolucionário profissional
idealizado em Der
Revolutionskatechismus. Pautou sua conduta pelo princípio
de que o fim, a revolução,
justificava os meios, ou seja, adotou a moral dos Jesuítas
aumentada, a que Marx e Engels se referiram, criticando Netchayeve,
para quem o protótipo do revolucionário era o ladrão. E daí os crimes políticos e outros
delitos, como assaltos a bancos e expropriações, dos quais os bolcheviques participaram,
logo após a derrota da revolução de 1905, ao tempo em que governo autocrático
desencadeava violenta repressão (expedições punitivas, assassinato
de revolucionários) e as ações terroristas, individuais ou
de grupos, incursões de guerrilha e explosões continuaram
a convulsionar a Rússia. Apesar da oposição de muitos social-democratas,
Lenin entendia que nenhum marxista podia condenar, pura e
simplesmente, “a guerra de guerrilhas, o terror geral das
massas”, que, quase sem interrupção, se estendia por toda
a parte da Rússia. De certo, nem todos os que passaram à guerrilha, após o fracasso da revolução de 1905, eram
social-democratas, da facção bolchevique.
Oriundos da Narodnaya Volya,
os militantes do Partido Socialista-Revolucionário (populistas),
que era relativamente mais numeroso do que cada uma das facções
da social-democracia (bolcheviques e mencheviques), recorreram outra vez aos assassinatos
punitivos. Em realidade, eles não haviam abandonado as práticas
terroristas dos narodniki, no estilo da propagande
par le fait, com o propósito de personalidades odiosas,
responsáveis pela repressão. A brutal represália contra os
operários em greve e a turbulência nas universidades, com
prisões, invasões de domicílio, condenações ao exílio, os
pogroms contra os judeus e outras violências incitavam o terrorismo. Entretanto, agentes da Zagranichnaia Okhrana, (polícia secreta russa), infiltrados
principalmente no Partido Socialista-Revolucionário, que consideravam
a organização mais perigosa, participaram,
muitas vezes, na preparação dos atentados, ou mesmo os instigaram,
visando a facilitar a captura e extermínio dos opositores
da autocracia. Em 27
de fevereiro de 1901, um
estudante, membro do Partido Socialista-Revolucionário,
assassinou Nicolai Parlovich Bogolepov, ministro
da Educação da Rússia e, em 1902, outros militantes da mesma
organização tentaram matar Dimitri F. Trepov, chefe da polícia
de Moscou, mas foram presos. O diretor da Okhrana, S.V. Zubatov (1868-1917), já dispunha da informação
e conhecia a identidade de todos, fornecida por um agente
duplo Yevno Philopovich Azev (1869-1918). Azev também colaborou
com Gregory Gershuni (1870-1908), fundador da Organização
de Combate do Partido Socialista-Revolucionário, na preparação
do assassinato de Dimitri Sipiagin, ministro do Interior da
Rússia, executado pelo estudante S. B. Balmashov, e N. M. Bogdanovich, governador
de Ufa (Kiev), por outro socialista-revolucionário em 1903.
Gregory Gershuni foi preso, teve a pena de morte comutada
em prisão na Sibéria. Balmashov foi enforcado. Azev, assumindo
a direção da organização terrorista, induziu um estudante
nacionalista finlandês, em 1904, a matar o general russo Nicolai Ivanovich Bobrikov, governador
da Finlândia, e articulou também o assassinato, em St. Petersburg, do ministro do Interior, de Vyacheslav Konstantinovich Plehve (1846–1904),
estraçalhado por uma bomba que Egor
Sozonov lhe jogara. No ano seguinte, 17 de fevereiro
(4 de fevereiro no calendário juliano), de 1905, o socialista-revolucionário
Ivan Kaliaev, finalmente, eliminou, também com a explosão
de uma bomba, o Grão-Duque
Serge Alexandrovich Romanov (1857-1905), sobrinho predileto
do Czar Nicholas II, o que deixara de fazer, dois dias antes,
para não matar pessoas inocentes, ao ver que na carruagem
também estavam a grã-duquesa Elisabeth, e seus dois
filhos, Marie e Dimitri. “Não quis a vossa morte, assim como estava
disposto a fazer todo o possível para assegurar o êxito de
meu atentado contra o príncipe” - disse Kaliaev à viúva da vítima, a grã-duquesa
Elisabeth, que o foi visitar dia 20 de fevereiro, na prisão. E ela comentou: “Você deve ter sofrido
muito ao tomar essa decisão”. “Não importa se eu sofri muito
ou não” – respondeu Kaliaev, acrescentando: “Sim, sofri, mas
uni meu sofrimento ao de milhões de outros. Muito sangue está
sendo derramado em torno de nós e, não obstante, não temos
outra forma de protestar contra o governo cruel e a terrível
guerra”. Ele aludiu à desastrosa guerra contra o Japão
(1904-1905) e ao massacre de 22 de janeiro de 1905 (9 de janeiro
no calendário Juliano), o Domingo Sangrento, ocorrido
algumas semanas antes do assassinato do Grão-Duque
Serge Alexandrovich, quando a Okhrana metralhou milhares
de camponeses e operários, que se dirigiam ao Palácio do Inverno,
pacificamente, reclamando reformas.
O Domingo Sangrento e a derrota
da Rússia, na guerra com o Japão, concorreram para desencadear
a insurreição de 1905, levando o Czar Nicholas II a lançar
o manifesto de 17 de outubro, transformando a Duma em assembléia
legislativa e concedendo direito de voto (em dois e três graus)
à classe média urbana e ao operariado. A revolução, entretanto,
fracassou. A reação logo sobreveio, com pogroms, que resultaram
na morte de 4.000 judeus (só em Odessa 500 foram mortos) e
10.000 feridos, em 110 cidades e vilas da Rússia. Ao fim de 1905, cerca de 250 pessoas foram
arbitrariamente fuziladas. E as execuções prosseguiram em
janeiro de 1906, mês em que, no dia 6, Maria Alexandrowna
Spiridinowa (1884-1941), também da ala terrorista do Partido
Socialista Revolucionário, assassinou, na estação ferroviária
de Borisoglebsk, o chefe de segurança do governo provincial
de Tambov, G. N. Luzhenovskii, acusado de torturar camponeses. As expedições de represália restabeleceram
a ordem, com um frio furo, porém, como Victor Serge ressaltou,
semearem ódios terríveis nas províncias bálticas, na Sibéria
e no Cáucaso. Os bolcheviques, em algumas regiões, passaram
a luta de guerrilhas, assim como os socialistas-revolucionários.
Alguns grupos, no entanto, congregavam o lumpenproletariat,
os vagabundos, a periferia social, e o número de assassinatos
saltou de 233, em 1905, para 768, em 1906, e para 1.231, em
1907, período em que os socialistas-revolucionários
assumiram a autoria de 191 atos de terrorismo. Nesse mesmo
período, mais de mil atentados, de várias espécies, foram
perpetrados somente na Transcaucásia. Outros ocorreram nos
Urais. E nas ruas de Varsóvia, dezenas de policiais e soldados
foram assassinados, em 2 de agosto de 1906, por inspiração
dos dirigentes do Partido Socialista Polonês, com o propósito
de estimular o ânimo revolucionário. A onda de atentados terroristas,
que recomeçara em 1901, atingiu o ápice, na Rússia, entre 1905 e 1907, ano em que o número de assassinatos
foi da ordem de 1.231, porém, depois, o número decaiu, para
400, em 1908, e apenas 100, em 1909, cessando, praticamente, em 1° de
setembro de 1911, quando Dmitri Bogrov
(1887-1911), socialista-revolucionário e agente da Okhrana, assassinou, na Opera de Kiev, o primeiro-ministro
Pjotr Arcadjevic Stolypin (1862-1911), autor de várias reformas,
inclusive a Constituição de 1906, e responsável pela execução
de mais de 3.000 pessoas, entre 1906 e 1909.