É
difícil percebermos quando nos tornamos prolixos. No dia de
sua diplomação o nosso novo presidente até reconheceu que
nunca havia falado por apenas cinco minutos. Foi uma exceção.
Escrever
também pode tornar-se uma obsessão. Isso ocorre quando as
palavras que digitamos e aparecem na tela não fazem concessão
e exigem sempre mais. Cobram intermináveis complementações,
esclarecimentos, adequações, aquela expressão exata. Muitas
vezes tudo isso é desnecessário, pois o leitor vai sempre
preencher os brancos do texto que lê com a sua imaginação
e o seu discernimento. Mas não, o autor prolixo considera
como essencial emendar, fundamentar e ilustrar até que o leitor
se canse e descubra a verdade do mouse.
Pela
escrita podemos fugir da realidade com o pretexto de investigá-la.
É assim que suplantamos os limites do existente. Analisar,
descrever, interpretar e explicar se revelam, então, vícios
incorrigíveis.
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Os
excluídos
No
Brasil dos anos trinta, apenas algumas centenas de escritores
publicavam nos jornais e revistas de norte a sul do país.
Agora são centenas de milhares de escritores que reclamam
o direito de expressão pública.
Tudo
indica que a rede será transformada em um veículo perene,
uma vez que vem crescendo o número de pessoas que escrevem,
enquanto os canais de divulgação mais prestigiosos tendem
para a centralização.
Escrever
e publicar na Internet
faz esquecermos que os veículos mais lidos e tomados a
sério estão fechados para a turba de digitadores implacáveis
que compomos.
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Os
solitários
Quando
publicamos na rede lançamos inúmeras garrafas ao mar com um pedido de socorro. Esta imagem pode ser usual,
mas me parece irresistível e apropriada. Desde o instante
em que lançamos a primeira garrafa passamos a cultivar a esperança
de que alguém a encontre. Isso quase aconteceu comigo quando
uma leitora enviou-me uma mensagem instigante: “Li o seu artigo
sobre o professor universitário e achei-o muito interessante
numa primeira leitura”. Não é fácil se entregar a um desconhecido,
reconheço.
Quando
compramos um livro, podemos conferir a procedência da obra,
a credibilidade da editora, o currículum
do autor. Nas grandes editoras os autores são mais conhecidos.
Acho impensável um raciocínio do tipo: “Li o livro de Saramago
e achei-o muito interessante numa primeira leitura”. Simplesmente
confiamos. Podemos ser efusivos, amar ou odiar um texto de
um escritor célebre desde a primeira leitura das primeiras
linhas. Quanto aos desconhecidos que habitam o mundo virtual
é preciso evitar um engano. Nunca se sabe quem está do outro
lado da rede.
Mas
ocorre também de uma de nossas garrafas virtuais ser encontrada.
Então, uma resposta que recebemos e interpretamos como sincera,
substitui os leitores anônimos, sem rosto ou opinião que desconhecemos
ou que nunca conquistaremos, nos livrando da sensação de esquecimento
por algum tempo. Por isso continuamos lançando garrafas ao
mar.