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Classe
média negra no Brasil: negros em ascensão social
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Por ROSÂNGELA ROSA PRAXEDES
Ativista
da Associação União e Consciência Negra de Maringá, graduada
em Ciências Sociais pela USP, coordenadora do Curso Preparatório
Milton Santos.
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Ilustração:
Jean-Baptiste Debret (1768-1848)*
O
estudo da mobilidade social ascendente da população brasileira,
em particular o aumento apontado por diferentes estudos demográficos
das classes médias em relação aos demais segmentos populacionais,
leva-nos a uma reflexão sobre as desvantagens raciais relacionadas
à ascensão social de não-brancos.
A sociedade brasileira tem proporcionado algumas oportunidades
de mobilidade social aos seus membros. Pesquisas mostram que no
período entre 1973 e 1996, por exemplo, muitos brasileiros
ascenderam socialmente, conforme apontam as análises de
José Pastore e Nelson do Valle Silva (2000), que indicam,
ainda, a ocorrência, no período em questão, de um considerável
fortalecimento dos segmentos médios da população. Na mesma
direção, o professor Milton Santos considera que “...o chamado
milagre econômico brasileiro permite a difusão, à escala
do país, do fato da classe média. Na realidade, entre as
muitas “explosões” características do período, está esse
crescimento contínuo das classe médias, primeiro nas grandes
cidades e depois nas cidades menores e no campo modernizado”
(SANTOS, 2001: 135).
Embora a classe média tenha crescido em termos relativos
e absolutos, entre a população negra esse crescimento foi
significativamente menor. Segundo dados do IPEA, a quantidade
de negros pertencentes à classe média ainda é muito pequena.
Apesar disso, a classe média negra das capitais brasileiras
teve um crescimento relativo de 10% entre os anos de 1992
e 1999, chegando ao patamar de um terço da classe média
brasileira (PINHEIRO, 1999:63).
Ao pesquisar em um contexto histórico anterior ao dos
anos setenta, as dificuldades de ascensão social para a
população negra assim foram apresentadas por Florestan Fernandes:
“as
nossas observações evidenciaram duas tendências globais.
Primeiro, uma que se associa à proletarização. As parcelas
da “população de cor”
que lograram classificar-se socialmente, em sua quase totalidade,
cabem nessa categoria. Segundo, outra que se vincula à ascensão
do negro e do mulato a ocupações ou profissões cujo nível
de renda assegura um padrão de vida e prestígio social mais
ou menos característicos das classes médias da sociedade
inclusiva. A nossa experiência demonstrou que esta tendência
afeta um número muito reduzido de pessoas. Além disso, existem
casos esporádicos de “indivíduos de cor “ e de “famílias
negras” de fato pertencentes aos estratos superiores do
sistema.” (FERNANDES, 1978: 156-157)
Segundo estudos mais recentes, como o de Pastore e do
Valle Silva (2000), podemos verificar que a mobilidade social
ascendente para a população negra continua limitada. Dentre
os fatores negativos gerados pela sociedade racista está
a dificuldade de
conversão da educação formal em posições ocupacionais compatíveis.
Para os dois autores, referindo-se aos dados coletados em
sua pesquisa, as informações que coletaram “...sugerem que
os não-brancos experimentam uma desvantagem na conversão
de sua educação formal em posições ocupacionais, o que pode
estar vinculado a processos de discriminação racial no mercado
de trabalho.” (PASTORE & SILVA, 2000: 95)
Também deve ser lembrado aqui o difícil acesso à educação
de boa qualidade por parte da comunidade negra, pois “...em
maior ou menor medida, dependendo do estrato social de origem,
as pessoas do grupo não-branco contam com uma severa desvantagem
no acesso a um recurso crucial na competição por posições
na estrutura social, como é o caso da educação formal”.
(PASTORE & SILVA, 2000: 94)
Estudos feitos por Hasenbalg, indicam também as dificuldades
específicas para a população afro-descendente, com relação
a ascensão social quando afirma que estes “...sofrem uma
desvantagem competitiva em todas as etapas do processo de
mobilidade social. Suas possibilidades de escapar às limitações de uma posição social
baixa são menores que as dos brancos na mesma origem social,
assim como são maiores as dificuldades para manter as posições
já conquistadas”. (HASENBALG & SILVA, 1988: 177)
Quando analisamos a situação de afro-descendentes que
já alcançaram a
classificação social como classe média, surgem outras indagações
relativas à sua “nova” identidade. Uma
análise importante atinente à temática, pode ser
encontrada em Castells, referindo-se às relações raciais
nos Estados Unidos, para quem
“...os
negros de classe média são precisamente os que se sentem
mais frustrados com a desilusão com o ‘Sonho Americano’,
sentindo-se completamente discriminados pela permanência
do racismo, enquanto a maioria dos brancos acredita que
os negros estão sendo favorecidos demais pelas políticas
de ação afirmativa, reclamando de discriminação invertida....”,
mas, de modo geral, “...os afro-americanos afluentes não
se sentem bem-vindos na sociedade como um todo. Realmente,
não são bem aceitos. Não
só a hostilidade racial entre os brancos continua sendo
uma constante, como as conquistas dos negros do sexo masculino
de classe média ainda os colocam em uma posição bem inferior
à dos brancos em termos de educação...” (CASTELLS, 2000:
75).
Para a população negra de classe média a superação dos
estereótipos vinculados à cor, (admitindo-se que os negros
se encontram muito freqüentemente realizando atividades
desprestigiadas socialmente), constitui-se um problema que
podemos associar a uma redefinição da própria identidade
negra. Como se não fossem suficientes as dificuldades de
uma recente transição do país de economia agrícola para
economia urbana industrial e de serviços, há, ainda,
o peso da herança deixada pelo longo período de escravidão
no país, que influencia o racismo a que negros ainda são submetidos.
Neste sentido é que os afro-descendentes se empenham
para a aquisição de certos símbolos que garantam sua distinção
em relação ao restante dos afro-descendentes pertencentes
às camadas populares, como a posse de um diploma universitário,
o exercício de um trabalho não manual e o cultivo de algumas
práticas de consumo que envolve
diferenças no tamanho das residências, no modelo
e ano do automóvel adquirido, no número de empregados domésticos
e no modo de vestir.
Conclusão
A ascensão social da população negra tem como maior
obstáculo a discriminação racial existente em nossa sociedade. Ao incorporar uma representação do espaço social
como um espaço em que é possível a ascensão social, os cidadãos
negros de classe média muitas vezes relevam o fato de o
racismo existente na sociedade brasileira tornar suas perspectivas
de futuro frustradas, o que corresponde a reconhecermos
que um conjunto de possibilidades teoricamente existentes,
na prática podem se tornar inviáveis para um negro no Brasil,
limitando efetivamente o campo de suas possibilidades, já
que nem sempre o capital cultural acumulado pelos negros
pode ser convertido em uma posição social correspondente.
ROSÂNGELA
ROSA PRAXEDES
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Bibliografia:
CASTELLS,
Manuel. O poder da identidade. Rio de Janeiro, Paz
e Terra, 2000.
FERNANDES,
Florestan. A integração do negro na sociedade
de classes / Vol. 1. São Paulo, Ática, 1978.
______.
A integração do negro na sociedade de classes
/ Vol. 2. São Paulo, Ática, 1978.
______.
Luta de raça e de classes. In: Teoria e Debate.
Nº 2, São Paulo (março, 1988).
MUNANGA,
Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil.
Petrópolis, Vozes, 1999.
______.
"Identidade, cidadania e democracia: algumas reflexões
sobre os discursos antiracistas no Brasil". In: SPINK,
Mary Jane Paris (Org.) A cidadania em construção:
uma reflexão transdisciplinar. São Paulo:
Cortez, 1994.
PASTORE,
José & SILVA, Nelson do Valle. Mobilidade social
no Brasil. São Paulo, Makron Books, 2000.
PINHEIRO,
Daniela. "A classe média negra". In:
Revista Veja. Edição nº. 1611 - ano 32
- nº 33. São Paulo, Editora Abril, 18/08/1999,
p. 62-69.
SANTOS,
MILTON. Por uma outra globalização. Rio
de Janeiro, Record, 2001.
_______NOTA
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Debret, famoso pintor francês, esteve no Brasil entre
1816 e 183. Sua obra, registra o cotidiano da sociedade brasileira
no século XIX e a forte presença do escravo.
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