Convidaram-me a comentar o livro "O menino que ganhou uma boneca", de Majô Babtistoni. [Maringá:
Ed. Massoni, 2002].
Dirigido para o público infantil e também para os pais, o livro é uma delícia
de se ler. À medida que vamos avançando na leitura envolvente
pelo simbolismo seu intencional sobre os dogmas de gênero,
os preconceitos, a intolerância, o trabalho sobre a
resistência de reconhecer e imaginar como é o outro
mundo psicossexual, o livro termina oferecendo uma reflexão
ativa que fatalmente nos induz a revermos os conceitos
e os pré-conceitos sobre a psicossexualidade humana
e suas diferenças psicológicas e culturais.
Também o trabalho estético, os desenhos, sincronizados com o sentido das
frases do texto, é simples, inteligente e cativante.
Após ter terminado a leitura, lembrei-me de dois escritores brasileiros:
Mário Quintana e Monteiro Lobato. Quintana dizia que
um bom livro não deve apenas embalar, mas sobretudo
deve saber abalar as mentes e atitudes. Quanto
a Lobato, no reconhecimento de que esse escritor escrevia
não só para crianças mas para qualquer
adulto que mantêm a criança dentro de si,
com sua curiosidade, espírito alegre, energia para
movimentação e a liberdade de ver, pensar, agir, sentir.
Pois bem, em poucas páginas, esse "livrinho" consegue ao mesmo
tempo, embalar e abalar
a base machista da educação tradicionalista e autoritária.
Como já disse, é uma história para criança e também
para os pais e professores. Contribui tanto para a formação
da personalidade virtuosa
da criança, como também provoca, no adulto, uma reflexão
sobre suas crenças, valores, preconceitos, estígmas
e estereotipias culturais aprendidas. Sou mais favorável
indicá-lo para os professores e pais, pois estes ainda
são os agentes principais da educação; deixá-lo apenas
a criança se "virar" numa leitura consumista,
rápida e sem testemunha de seu ato e provocador de seu
necessária reflexão, parece-me desperdício de ensino
e aprendizagem. Após ter lido, levei para meu filho
de 9 anos ler...Claro, depois que ele leu, conversamos
sobre o livro e a vida.
Majô, a autora - que não conheço pessoalmente -, através de uma história
simples, consegue com sutileza e inteligência, mexer
nos clichês adormecidos e mantidos pela cultura que
hoje parece camuflar e denegar os estereótipos e preconceitos,
principalmente quando estes se expressam na ação educativa.
Ainda as dimensões "demasiadamente humanas",
que ainda hoje são muito complicadas para serem traduzidas
em palavras são a psicossexualidade, os preconceitos
e a inveja.
Segundo uma pesquisa, de casa 10 pais, apenas 3 conseguem
conversar com os filhos sobre esses assuntos. No campo
teórico, a psicanálise trabalhou bem a primeira e inventou
uma clínica para trabalhar ou tratar dessas três "coisas"
humanas, mas com humildade ela reconhece sua insuficiência
teórica-metodológica para modificar ou transformar essas
"coisas" em objetos de orientação do sujeito
autêntico.
Por que as pessoas reagem negativamente
se o menino brincar de boneca?
Por
que desde bebê as pessoas de plantão escolhem para que
a menina use cor rosa e o menino azul? Por que a menina
tem que brincar só com menina e o menino só com meninos?
Por que tempos atrás - e, ainda em muitos países é assim
- existem salas de aula para meninos e salas de aulas
para meninas? Por que a cultura impõe essas normas e
regras sem discuti-las? Por que a mulher é ainda sempre
posta em posição de submetimento, numa cultura mais
do que outra? Que pensar sobre o papel do grupo versus
o sujeito, na determinação de escolhas e jeito de ser?
Sexo é a mesma coisa que "sexualidade" ou,
melhor, que a
"psicossexualidade" como Freud se referia?
Qual é a função dos pais e da escola na educação? Que
posicionamento devemos tomar para contribuirmos por
uma formação cuja personalidade seja sadia, aberta e
pronta para ser feliz?
Essas e tantas outras questões, creio que o livro O menino que ganhou uma boneca, pode ser um bom disparador para ajudar a abalar as estruturas psíquicas,
promover o debate e apontar novos caminhos para melhorar
as relações humanas. Sem exageros, penso que também
pode contribuir para fazer laço com algumas idéias avançadas
de autores como Freud, Reich, Klein, Lacan, Foucault,
Ariès, Lash, Winnicott, etc. Há um desafia aí para ser
pesquisado.
Num mundo cada vez mais sem coração e sem sabedoria, mas em compensação
muito poluído de tudo, inclusive de informação, cientificismo,
estetismo e fanatismo, precisamos ler mais livros de
ficção, romances; quem sabe por aí se não pudermos resgatar
nossa infância perdida, pelo menos podemos nela mirar
coisas como a alegria, a inocência, a autenticidade
e a esperança.
Boa leitura e boa conversa.