A
máfia na Itália e no Brasil Fenômenos
similares?
A leitura do livro de Salvatore Lupo
permite ao leitor uma compreensão do fenômeno mafioso.
O autor, partindo de uma retrospectiva histórica, a qual
se inicia no século XIX e vai até a década de 90, evidencia
de modo, na sua maioria, jornalístico e histórico, a origem,
o funcionamento, e o pressuposto fim da máfia italiana.
Saliento que em alguns momentos o autor procura desenvolver
uma análise sociológica; porém, incipiente. É nisto que
a obra peca.
Mesmo com a escassez de uma análise
sociológica, a obra de Salvatore é de grande importância
para os campos da Ciência Política e da Sociologia. Pois,
desde o início do livro, o leitor constatará que a máfia
funciona como uma organização criminosa, a qual possui
laços com as instituições do Estado, com as empresas capitalistas,
com o sistema financeiro e com a política.
Além disso, o livro permite ao leitor
que a compreensão puramente institucional do fenômeno
mafioso é limitado. Afirmo isto, apoiado no fato de que
as inúmeras informações contidas no livro evidenciam que
o entendimento da dinâmica social da máfia tem
um viés cultural, ou seja, os modus operandi da
atividade mafiosa já faz parte e é legitimado pela sociedade.
A máfia é uma instituição organizada
que atua à margem do Estado, ou melhor, da legalidade.
A atividade dos mafiosos se concentra nas seguintes áreas:
(1) proteção a fazendeiros e a comerciantes do interior;
(2) interferência nos agentes públicos com o objetivo
de participar dos negócios do Estado, como licitações;
(3) influência sobre os funcionários de Estado na tentativa
de orientar as suas tomadas de decisões; (4) contrabando,
o qual envolve as mais diversas mercadorias; (5) crimes
de pistolagem; (6) e tráfico de drogas.
A proteção a fazendeiros e a comerciantes
é a primeira fase da atuação mafiosa, ou de acordo com
o autor, é o surgimento da máfia, a protomáfia.
Nesta época, no século XIX, a Itália era uma região rural
com a presença de grandes latifúndios. A concentração
fundiária possibilitou a existência de camponeses sem
terras e conseqüentemente miseráveis. O Estado ainda estava
em se período de formação. Neste contexto, assaltos a
gados e saques em fazendas passam a ocorrer. Por conta
disso, surgem pessoas que oferecem proteção aos fazendeiros.
Com o avanço do tempo, esses indivíduos mostram-se organizados
na atividade de segurança e passam a fazer também a proteção
dos comerciantes urbanos.
A atividade de proteção mostra-se
lucrativa, pois os seguranças demonstram eficiência. Os
seguranças privados passam a lucrar, a exercerem atividades
comerciais e a constituírem patrimônios. A recente formação
do Estado ainda não evidencia a diferença entre a atividade
pública e privada. Compreendo que gradativamente uma cultura/prática
social baseada na ilegalidade, motivada por atividades
de segurança à margem do Estado e conseqüentemente arbitrária,
se constitui. Ou, como bem define Salvatore Lupo, esse
contexto apresentado representa o caldo de cultura
do fenômeno mafioso.
O desenvolvimento do Estado e do
capitalismo italiano deixa para trás um país agrícola;
um país com um Estado em formação e ineficiente. Porém,
a protomáfia em vez de conhecer o seu fim, acompanha
o “desenvolvimento” do Estado e capitalismo italiano.
Neste sentido, surge a máfia. Esse novo estágio da máfia,
mais desenvolvido e conseqüentemente mais organizado,
passa a exercer influência, ou melhor, buscar relação
de cooperação com os agentes estatais.
A relação de cooperação/colaboração
entre mafiosos e agentes públicos tem como objetivo o
ganho para as duas partes. A dinâmica desse processo de
cooperação permite que os mafiosos participem de atividades
do Estado, como licitações, construções; e em contrapartida,
os agentes públicos obtêm ganhos financeiros, ou outros
benefícios privados.
Porém, a relação de cooperação não fica restrita
a apenas isso.
Os mafiosos passam a também desenvolver
outras atividades ilícitas como contrabandos de cigarros.
Neste sentido, as extensas e lucrativas atividades mafiosas
começam a chamar a atenção das autoridades de justiça
e também da opinião pública. Os integrantes da máfia começam
a ser perseguidos. E é neste momento que se dar início
a construção de uma relação de cooperação entre mafiosos
e autoridades públicas (políticos, juízes, policiais,
etc.) com o objetivo da preservação da ilegalidade.
Juízes passam a fazer julgamentos
imparciais. Policiais mostram-se ineficientes. Políticos
solicitam aos juízes e aos policiais que não processem
ou prendam determinada pessoa. Mafiosos começam a colaborar
com campanhas políticas. Cria-se, portanto, o que o Salvatore
Lupo não definiu, a Máfia-Estado, onde os mafiosos
consolidam a sua interferência, ou até a captura dos agentes
públicos, os quais passam a representar no interior do
Estado os interesses mafiosos.
É comum na atuação mafiosa a guerra
entre grupos. A máfia possui um código de honra próprio,
o qual se for rompido por algum dos seus integrantes a
pena é a morte. A morte de um mafioso pode motivar guerras
entre grupos, os crimes por encomenda. A pena capital
da máfia não é apenas provocada pelo rompimento dos códigos
de honra, mas também por disputa de espaço em atividades
comerciais.
A máfia consolida a sua atuação na
Itália na década de 70. Neste período, a máfia desenvolve
as suas atividades como uma grande empresa. Hierarquias
são constituídas. Famílias dominam territórios. O tráfico
de drogas é agora uma nova atividade mafiosa. Alta soma
de dinheiro é acumulado. Lavagem de dinheiro é feita.
Consolida-se o intercâmbio mafioso entre Sicília e América.
Surge a Cosa Nostra, isto é: a associação mafiosa entre
Estados Unidos e Itália.
No discorrer das páginas do livro
não estão apenas cronologias e informações. Salvatore
Lupo concebe uma relação teórica de grande valia. Como
também, possibilita e conseqüentemente incentiva a comparação
do fenômeno mafioso na Itália e o crime organizado no
Brasil.
Salvatore Lupo evidencia a tese de
muitos autores, a qual compreende a máfia como um fenômeno
proveniente de uma sociedade rural e pouco desenvolvida
economicamente. Esta tese desenvolve o raciocínio de que
a transformação do rural ao urbano e o desenvolvimento
econômico anularia o fenômeno mafioso.
Salvatore ao ter o privilégio de
acompanhar o desenrolar histórico até hoje, argumenta
que o desenvolvimento econômico e o crescimento da sociedade
urbana não possibilitaram o fim da atividade mafiosa,
ao contrário, tornou-o mais organizado e mais lucrativo.
Por conta disso, compreendo que a análise histórica da
máfia serve para compreender o seu surgimento e a sua
construção de poder junto ao Estado e a sociedade italiana.
Porém, não é factível teoricamente associar atividade
criminosa, no caso a máfia e até o crime organizado, inclusive
o brasileiro, com desenvolvimento econômico e muito menos
com a sociedade rural.
O que vejo, com o auxílio do livro,
é que existem diversas variáveis que possibilitam e consolidam
a atividade criminosa organizada/mafiosa. Falo em atividade
criminosa organizada, e não em ações criminais individualizadas,
as quais observamos em qualquer esquina do Brasil. Por
conta disso, a História da Máfia possibilita também o
encontro com a realidade e a História brasileira. Encontro
nas páginas, uma abordagem que se tornaria mais rica se
trouxesse a colaboração de Max Weber. O patrimonialismo,
o monopólio da violência, a burocracia, termos tão bem
definidos por Weber, fazem parte da História italiana
e do Brasil. Portanto, compreendo que é impossível entender
o fenômeno mafioso/crime organizado sem o auxílio do raciocínio
weberiano.
O patrimonialismo é encontrado na
Itália e no Brasil no momento em que ocorre a relação
de cooperação entre mafiosos/crime organizado e agentes
públicos. A divisão entre o que é público e privado parece
não existir. Verifico que o monopólio da violência,
pressuposto básico do Estado moderno weberiano, mostra-se
falível quando os mafiosos, aqui no Brasil são os traficantes,
exercem a atividade da justiça e domina territórios. Por
fim, a burocracia weberiana, outra característica do Estado
weberiano, mas parece com estamentos burocráticos. Nestes estamentos, a pessoalidade,
por meio do poder político e econômico, é que orienta
a ação institucional.
Gostaria de esclarecer, contudo,
que ao contrário da máfia Italiana, o crime organizado
no Brasil possui hierarquias. Na Itália a máfia se apresenta
como o único tipo de crime organizado, isto é, sem grupos
mais ou menos organizados, os quais são intermediários. Já no Brasil, o traficante da favela
pode ser considerado um integrante de uma organização
criminosa mediana ou pequena, isto é, não exerce uma atividade
tão complexa como àquela que financia a entrada da droga
nas favelas e lava dinheiro; ou que, e isso acontece no
Polígono da Maconha, financia a compra de sementes e a
distribuição da droga.
A leitura da História da Máfia é
de grande importância para aqueles que estudam ou estão
dispostos a pesquisar o crime organizado. Faço esta afirmação
por conta de que o fenômeno do crime organizado deve ser
compreendido com uma recapitulação histórica, a qual deve
levar em consideração variáveis culturais. Além disso,
o crime organizado requer um entendimento globalizado
por conta dos seus extensos campos de atuação. O livro
evidencia que o sucesso financeiro da máfia italiana se
consolidou quando ela internacionalizou as suas atividades.
Porém, o que considero mais importante
e isso deve ser motivo de preocupação teórica e cidadã
dos leitores, é que o Estado brasileiro já pode ter sofrido
um processo de italianização (Fernandes, 2001). Porém,
a possível italianização do Estado brasileiro não representa
apenas o fato de que o crime organizado captura agentes
públicos, ou que desenvolve atividade transnacional.
Mas também por conta de que, assim
como a máfia italiana no início da década de 80, integrantes
de facções criminosas promovem atentados a prédios públicos
ou tentam atingir com carro bomba a Bolsa de Valores de
São Paulo. Isso é terrorismo incipiente? Para Salvatore
Lupo, os atentados desse tipo na Itália, os quais tinham
como objetivo atacar o Estado pelo fato de que este estava
combatendo o terrorismo de modo eficaz, são atividades
terroristas. Precisamos refletir e orientar a nossa pesquisa
aqui no Brasil.