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Avaliando a transição:
Balanço
da vitória, no momento da subida ao poder
(da série: Conseqüências
econômicas da vitória, parte 7)
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Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais e autor de
vários livros na área diplomática e das relações internacionais.
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Em
texto elaborado no dia 20 de outubro de 2002, intitulado “Como
vencer a transição” e inscrito na série “conseqüências econômicas
da vitória” (transcrito in fine deste trabalho, para
fins de verificação), eu apresentava uma espécie de “decálogo”
para o período que se estenderia desde a vitória, no dia 27
seguinte (do que já estava seguro, muito tempo antes), até a
posse, em 1º de janeiro de 2003. Em dez pontos sintéticos, eu
apresentava então alguns desafios de caráter imediato e outros
de ordem mais estratégica, pois que vinculados à maneira de
governar e de se relacionar com os aliados.
Pretendo, na presente “reavaliação”
da transição, efetuar, com base nos critérios selecionados
naquele texto, uma espécie de balanço desta fase que passou
(entre 27 de outubro e 27 de dezembro de 2002), enfatizando
sucessos e frustrações e até distribuindo pontos por “merecimento”,
o que constitui, obviamente, um exercício de impressionismo
político totalmente pessoal. Para isso vou retomar cada um
daqueles pontos, evidenciando realizações e carências do período
em questão, sem que minha avaliação apresente, está claro,
qualquer implicação para o desempenho futuro do governo da
nova maioria social.
Vejamos quais eram a tarefas então
selecionadas como relevantes na fase de transição e que tipo
de “boletim” (classificação por pontos) poderíamos atribuir
ao grupo que trabalhou para o sucesso do novo governo que
se inaugura em 1º de janeiro de 2003:
2) Falar ao País, não ao partido
3) Dirigir-se ao mundo, seletivamente
4) Tranqüilizar os agentes econômicos
5) Designar os principais assessores,
depois negociar
6) Recompor um programa de governo
7) Atender a circunstâncias excepcionais
8) Indicar as linhas do discurso
de posse
9) Estruturar as bases do apoio congressual
10) Preparar-se para o pior, manter
a mensagem otimista
Numa versão mais elaborada, os comentários
pessoais que poderiam ser feitos ao desempenho da nova maioria
na fase de transição seriam os seguintes:
1) Unificar o discurso
Essa regra, classificada então como
absoluta, válida em qualquer momento e em qualquer circunstância
do jogo político, foi cumprida de modo satisfatório, com pequenos
deslizes setoriais na montagem da equipe ministerial ou na
orientação a ser dada à política econômica do novo governo.
Em discurso pronunciado no dia 28 de outubro que pode ser
considerado como praticamente impecável – não fosse a referência
a alguns caudilhos políticos do passado que melhor seria ter
deixado no limbo, a despeito do fato incômodo que eles também
pertencem ao presente – o vencedor ofereceu uma visão bastante
clara do que pretenderia fazer no comando do País.
Tivemos então a impressão de que
a liderança estava sendo exercida em todas as suas dimensões.
Mas é óbvio que o Príncipe não pode ocupar-se pessoalmente
de todos os detalhes da nova administração, daí a delegação
de poderes ao chefe operacional do partido, que desempenhou-se
relativamente bem nesse período. O poder é contudo algo tão
fascinante e atraente que, inevitavelmente, outros personagens
sentir-se-ão atraídos por suas luzes e possibilidades de mando,
o que de fato ocorreu, em condições bastante limitadas, felizmente.
Assim, não ocorreu o fenômeno da “dupla linguagem”, mas houve
pequenos incidentes verbais sobre como melhor encaminhar os
temas econômicos na fase de transição e além. Minha pontuação:
começo com 9 pontos no boletim.
2) Falar ao País, não ao partido
Ocorreu aqui uma das mais gratas
surpresas de qualquer período de transição ocorrido historicamente
no Brasil – descontando-se aquela entre FHC I e FHC II – no
sentido em que o País uniu-se, em lugar de dividir-se, tanto
quanto tinha sido o caso durante a campanha eleitoral. A nova
maioria, por obra e graça das suas lideranças, mas também
em razão das circunstâncias excepcionais de consolidação democrática
do País, da maturidade eleitoral demonstrada pela população
(com a infeliz exceção de Brasília) e em virtude de novos
mecanismos institucionais concebidos para a fase de transição
– o que devemos creditar inteiramente à presidência esclarecida
de FHC – logrou beneficiar-se de um arco impressionante de
apoios políticos e de simpatias generalizadas no âmbito do
sistema político e da população em seu conjunto, a ponto de
ter passado a desfrutar de uma aprovação superior a 70% da
opinião pública, proporção bem maior do que aquela conquistada
no pleito eleitoral (61.27%).
Em grande medida, esse “crescimento”
pós-eleitoral se deve precisamente ao fato de que o eleito
falou mais ao País do que ao partido, ainda que ele tenha
tido de ocupar-se pessoalmente de certos equilíbrios internos
à sua agremiação política (sobretudo na fase final de montagem
do governo). O primeiro discurso ao País continuou sendo tranquilizador
e “consensuador” e a menção do resgate da dignidade do povo
– tão importante na fase eleitoral – bem como o compromisso
com os excluídos e marginalizados compareceram nessa declaração
mediante a decisão de se implantar imediatamente um programa
de combate à fome, algo impossível de despertar oposição de
quem quer que seja (ainda que os economistas “alimentem” dúvidas
sobre sua eficácia relativa). Novos pontos ganhos: 9,5, com
louvor.
3) Dirigir-se ao mundo, seletivamente
Difícil escapar da sensação de contentamento
com tantos telefonemas e tantas mensagens de congratulações,
além dos inúmeros convites para visitas pré-posse, inclusive
– parbleu! – do próprio líder do Império. Essa coisa
de “tour du monde” antes da posse parece coisa de subdesenvolvido,
de colonizado cultural, mas parece que foi incorporado como
uma espécie de hábito de todo presidente eleito. Que seja:
algo de útil pode resultar desses contatos informais – ainda
que com um certo sentido diplomático – anteriores à assunção
de responsabilidades governativas, se mais não fosse para
uma espécie de “treino” nos meandros do poder e da administração
de uma agenda por certo algo mais complexa do que as simplificações
realizadas durante a campanha eleitoral.
Como não se pode ver ou visitar todo
mundo, a escolha dos “mais iguais” carrega uma simbologia
altamente complexa, mas que de certo modo se casa com o perfil
das relações diplomáticas do País: Cone Sul em primeiro lugar,
demais vizinhos regionais e o Império estão compreensivelmente
situados nas primeiras linhas das prioridades, com um certo
ciúme carregado pelos europeus e demais países provedores
de imigrantes para o Brasil. Alguns convites de visita podem
ser gentilmente recusados, mas outros são praticamente incontornáveis,
como pode ser o da própria capital do Império.
Nesses primeiros contatos, devia-se
realizar uma balança apropriada entre inovação e continuidade,
o que parece ter sido assegurado de modo satisfatório nas
viagens empreendidas em dezembro de 2002. Talvez tenha faltado
um pouco de surpresa ou espontaneidade aqui e ali – já que
o diplomatês parece ter predominado rapidamente – mas o balanço
provisório pode ser considerado como satisfatório, em especial
o encontro na capital imperial. Via de regra, pode-se dizer
que as viagens antecipam um tratamento profissional de alguns
dos problemas mais importantes da fase seguinte: Mercosul,
Alca e negociações comerciais de modo geral. Pontos ganhos
nesta etapa “turística”: 8, com viés de alta.
4) Tranqüilizar os agentes econômicos
A despeito de um bom começo, as fontes
de tensão persistiram, em função das indefinições prolongadas
seja quanto ao pessoal do núcleo econômico, seja quanto ao
próprio conteúdo das políticas a serem implementadas. As mensagens
dilatórias emitidas pela nova equipe não lograram reduzir
as incertezas da conjuntura econômica, razão pela qual câmbio
e taxa de risco continuaram a apresentar um cenário preocupante.
Um novo repique inflacionário agregou à sensação de o Brasil
poderia estar voltando a uma época que se acreditava superada:
o ciclo da alta de preços, as demandas por reajuste ou por
correção e a queda na aceleração inflacionária.
Os novos responsáveis indicados procuraram
transmitir um quadro de seriedade no compromisso com políticas
de estabilização, mas a falta de engajamento pessoal da principal
liderança e a demora na escolha dos “guardiães da moeda” trouxeram
de volta um cenário de tensão na frente econômica. Pode-se
resumir o quadro com duas palavras: há uma grande esperança
depositada nas novas lideranças, mas a confiança dos
agentes econômicos ainda é limitada ao refrão habitual: esperar
para ver. Pior: a confiança ainda não existe, de verdade,
o que termina por diminuir o grau de esperança na capacidade
da nova equipe em reverter o quadro em relativa deterioração.
A reversão do cenário parece depender da uma demonstrada capacidade
de comando, por quem teoricamente está na instância suprema
da tomada de decisão. Até meados de dezembro de 2002, essa
capacidade de liderança não tinha ainda sido demonstrada.
Depois da montagem do novo governo, as reações foram variadas,
alguns depositando no (pequeno) grupo controlador das finanças
públicas, outros reagindo com preocupação à designação de
um (grande) grupo de ministérios e novas secretarias “gastadores”.
Pontos recebidos: 5, no máximo.
5) Designar os principais assessores,
depois negociar
O que ocorreu, inversamente, foi
um longo processo de negociação em câmara secreta, sem a designação
do “núcleo duro” do futuro governo. Mas, de certa forma, os
principais assessores já estavam designados desde o início,
o que trouxe um pouco mais de tranqüilidade do que teríamos
tido sem qualquer tipo de “anúncio ministerial”. Como ocorreu
um delongado processo de designação de quem passaria a comandar,
de fato, a área econômica e a política monetária, os custos
dessa demora foram sendo impostos ao país, sob a forma de
queda no valor externo da moeda e do aumento do custo de vida.
De toda forma, como a montagem da
equipe ministerial foi de certa forma feita ao sabor das possibilidades
políticas (inclusive para se atender às conveniências do mais
importante partido centrista), pode-se prever um certo potencial
de atritos, de desgastes e de fricções no relacionamento com
o Congresso e no funcionamento do governo, sem que o tipo
de arranjo político finalmente logrado garanta as condições
de governabilidade, sobretudo no Congresso. A pressão do tempo
e as indefinições políticas determinaram um certo desequilíbrio
na equipe administrativa, com metade do ministério atribuído
à própria formação central e a outra metade dividida em sem
partidos e seis outros de cada um dos demais partidos da coalizão.
Pontos atribuídos: 4,5 para baixo.
6) Recompor um programa de governo
Até o final de dezembro, com exceção
do programa de emergência vinculado às carências alimentares
da população mais desfavorecida, ainda não se tinha ouvido
falar de um “programa governativo”, mas simplesmente de um
“relatório de transição”, no máximo fazendo um “diagnóstico”,
mas não formulando linhas diretrizes de governo. Não era,
aliás, encargo da equipe de transição apresentar algo coerente
para compor um novo programa de governo, pois ela trabalhou
mais setorialmente do que de forma integrada. Ela ofereceu
um balanço da herança recebida, apontando os números mas também
as lacunas, carências e deficiências dos oito anos de tucanato.
Cabe, então, ao chamado “núcleo central”
da nova governança realizar essa tarefa de compor um novo
programa, mas ele aparentemente não conseguirá fazer tudo
isso em pouco tempo. Como parece evidente a qualquer um, não
se deveria exigir qualidades de “super-homens” dos novos responsáveis
econômicos e políticos. No máximo eles conseguirão administrar
a máquina sem causar rupturas desnecessárias.
Esse é o custo das transições políticas
excessivamente paradigmáticas, com alguns “novatos” assumindo
postos de responsabilidade. Em todo caso, seria importante
que o novo governo consiga apresentar um documento contendo
diretrizes executivas como base da sua ação nos primeiros
seis meses. Pontuação média: 5.
7) Atender a circunstâncias excepcionais
Nessa área, o que tivemos foi empirismo
involuntário, uma certa boa vontade dos mercados e muita sorte,
em doses variadas de cada um desses elementos segundo a conjuntura.
O repique inflacionário parece ser o mais importante desafio
da nova equipe política, já que o “repique das reivindicações
classistas” parece estar sendo controlado de forma bastante
satisfatória pelos novos dirigentes (executivos e partidários).
Deve-se reconhecer que a nova equipe
não contribuiu, ela mesma, para agravar a deterioração da
situação econômica, embora se tenha observado um e outro deslize,
aqui e ali. Mas, o entrosamento com a equipe que sai poderia
ter sido maior, caso houvesse uma real abertura de espírito
para reconhecer que a tal de “ruptura” era mais uma palavra
de ordem eleitoral do que uma disposição efetiva para mudar
“tudo isso que está aí”. A disposição para ações conjuntas
em prol de estabilidade macroeconômica permaneceu, todavia,
reduzida durante todo o período de transição. Houve aqui uma
certa deficiência de liderança política. Pontos tolerados:
4.
8) Indicar as linhas do discurso
de posse
Isso não ocorreu, mas de certa forma,
já não havia mais surpresas a esperar, uma vez que o processo
de transição foi mais tranqüilo, do ponto de vista político,
do que se supunha antes da realização do segundo turno das
eleições presidenciais. Espera-se que um pouco mais de “esperança”
seja dispensado nesse discurso de posse, embora a credibilidade
desse tipo de mensagem tenha uma “esperança de vida” cada
vez mais reduzida. Pontos que se pode atribuir a essa não
situação: 6 pontos.
9) Estruturar as bases do apoio
congressual
A situação não parece extremamente
complicada e de fato a nova maioria logrou realizar um amplo
leque de consultas que poderiam assegurar apoios desde a extrema
direita até a extrema esquerda do espectro político, com alguma
confusão e frustrações no centro (como seria de se esperar).
A nova equipe comporta, todavia, apenas um representante de
cada um dos seis outros partidos participando da coalizão,
contra treze ministros do núcleo dirigente. Em todo caso,
a costura de apoios para aprovação de projetos específicos
permanecerá uma tarefa de alta habilidade política, sem grandes
inovações, portanto, em relação à situação atual. Perspectivas
razoáveis nessa frente: 7 pontos.
10) Preparar-se para o pior, manter
a mensagem otimista
Continua válida essa regra e, sobretudo,
a recomendação de que não se deve sair buscando “bodes expiatórios”
dentro ou fora do País. As mudanças sempre têm um custo e
este tem de ser absorvido pela nova administração. Caberia
talvez acrescentar uma nova regra: a de que os principais
custos da governabilidade nas novas condições podem ter origem
não em dados objetivos da realidade externa (dentro e fora
do País), mas no próprio seio da nova equipe dirigente. A
razão é muito simples: toda medida econômica apresenta um
custo político e por isso torna-se aparentemente muito provável
que o setor político do novo governo venha a se chocar com
a ala executiva da direção econômica. O potencial de desastre
é muito grande, na falta de um árbitro capaz de decidir quais
custos absorver e quais outros afastar.
Não há receita pronta para esse tipo
de dilema, mas deve-se ter confiança (e talvez esperança)
no grau de discernimento do supremo mandatário. Avaliação:
8 pontos.
Se ouso tirar uma “média aritmética”
da pontuação acima atribuída – por certo altamente subjetiva,
pois que baseada em uma distribuição linear de valores uniformes
para fatores totalmente dissimilares e de importância desigual
entre si – ela estaria representada pela nota 6,6. Não se
trata de uma aprovação completa, como se vê (que, pelos critérios
tradicionais, poderia requerer um 7 redondo), mas tampouco
de uma reprovação por insuficiência. A situação está mais
para “acompanhar com atenção”, ou ainda, “ajudar na preparação
para os exames”, o que certamente exigirá um reforço nos deveres
de casa e mais aplicação nos estudos. O aluno parece sério
e competente e por isso deve se sair bem nos próximos testes,
ainda que não se possa excluir a intervenção de fatores externos
que degradem o cenário de funcionamento do estabelecimento
escolar (como a diminuição do orçamento e ausência de financiamentos
externos, por exemplo).
Em todo caso, caberia expressar um
moderado otimismo quanto às chances de avanço intelectual
do “estudante” em questão, rumo a uma pós-graduação com louvor.
Pelo menos esta é a esperança.
Preparando a futura avaliação:
desmontando os números de forma objetiva
Um dos mais propalados instrumentos
de “condenação” literal dos oito anos de administração “neoliberal”
do tucanato foi um “balanço” politicamente motivado por parte
de estudiosos ligados à ala progressista da Igreja Católica,
cujo resultado foi a publicação de uma obra sobre um pretenso
“desmonte” da Nação (cf. Ivo Lebauspin e Adhemar Mineiro:
O Desmonte da Nação em Dados. Petrópolis: Vozes, 2002).
Como no caso do “plebiscito” sobre
a Alca, as conclusões estavam provavelmente definidas previamente,
o que permite duvidar dos fundamentos metodológicos e da honestidade
interpretativa do ensaio de “avaliação” ali conduzido. Por
isso mesmo, para diminuir o grau de subjetividade deste tipo
de exercício caberia tentar introduzir alguns critérios objetivos
de avaliação da nova governabilidade, sob a forma de indicadores
econômicos e sociais relativamente isentos que permitam conferir
resultados de meio de caminho (um ou dois anos) e finais (em
2006).
Com o objetivo de permitir uma avaliação
objetiva (e comparada) do governo da nova maioria, caberia
anotar escrupulosamente os dados registrados ao longo das
duas últimas administrações, bem como aqueles que refletem
a situação recebida em 1º de janeiro de 2003. Proponho que
essa avaliação seja feita com base em dados oficiais, homogêneos
no tempo, pois que produzidos, elaborados ou compilados por
instituições públicas, o que nos habilita portanto a dispor
de séries históricas uniformes. Tal é o caso dos indicadores
puramente econômicos e quantitativos, para os quais se oferece
uma primeira amostra no Quadro 1. Adicionalmente, pode-se
selecionar alguns outros índices de caráter qualitativo, que
poderiam incidir sobre os elementos inscritos no Quadro 2.
Cabe observar que alguns dados somente poderão estar disponíveis
bem mais tarde, como é o caso do coeficiente de Gini, para
o que se deve portanto marcar rendez-vous em 2006.
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Quadro 1: Economia brasileira,
dados básicos e projeções: 1999-2003
|
|
|
1999
|
2000
|
2001
|
2002
|
2003
|
|
Nível de
Atividade
|
|
PIB em US$
bilhões
|
530,8
|
593,9
|
503,7
|
486,7
|
477,8
|
|
População
(milhões de hab)
|
167,9
|
170,1
|
172,4
|
174,6
|
176,9
|
|
PIB per capita
(em US$)
|
3.161
|
3.491
|
2.922
|
2.787
|
2.702
|
|
Crescim.
anual do PIB (%)
|
0,8
|
4,4
|
1,4
|
1,5
|
1,4
|
|
Agropecuária
|
8,3
|
2,2
|
5,7
|
5,8
|
4,0
|
|
Indústria
|
-2,2
|
4,8
|
-0,3
|
1,0
|
0,8
|
|
Serviços
|
2,0
|
3,8
|
1,9
|
1,6
|
1,5
|
|
Investimento
(% do PIB)
|
19,1
|
19,4
|
19,4
|
19,6
|
19,5
|
|
Massa real
de rendimentos
|
-5,2
|
3,7
|
-3,1
|
-2,0
|
-2,0
|
|
Desemprego
aberto 7 dias
|
7,6
|
7,1
|
6,2
|
7,5
|
8,6
|
|
Desemprego
aberto 30 dias
|
8,3
|
7,9
|
6,8
|
8,1
|
9,2
|
|
Inflação (%)
|
|
IPCA (IBGE)
|
8,9
|
6,0
|
7,7
|
12,6
|
10,5
|
|
IGP-M (FGV)
|
20,1
|
10,0
|
10,4
|
25,4
|
8,7
|
|
Setor Externo
(US $ bilhões)
|
|
Exportações
|
48,0
|
55,1
|
58,2
|
60,7
|
67,5
|
|
Importações
|
49,3
|
55,8
|
55,6
|
47,6
|
50,4
|
|
Balança comercial
|
-1,3
|
-0,7
|
2,6
|
13,1
|
17,1
|
|
Conta Corrente
|
-25,4
|
-24,6
|
-23,2
|
-8,4
|
-5,8
|
|
Conta de
Capital
|
17,4
|
19,9
|
27,9
|
9,5
|
5,8
|
|
Reservas líquidas intern.
|
36,3
|
33,0
|
35,9
|
35,0
|
35,0
|
|
Déficit Público
(% do PIB)
|
|
Nominal
|
10,0
|
4,5
|
5,2
|
9,5
|
5,2
|
|
Primário
|
-3,2
|
-3,5
|
-3,7
|
-3,9
|
-3,8
|
|
Juros Nominais
|
13,2
|
8,0
|
8,9
|
13,4
|
9,0
|
|
Câmbio e
juros (% ao ano)
|
|
Taxa de câmbio
(nominal)
|
1,7890
|
1,9554
|
2,3204
|
3,50
|
3,71
|
|
Juro nom./TBC
(Selic)
|
25,5
|
17,4
|
17,3
|
19,1
|
22,5
|
|
Juros reais
(deflat. IPCA)
|
15,7
|
11,5
|
9,0
|
5,8
|
8,9
|
|
Juros reais
em dólar
|
15,2
|
7,4
|
-1,1
|
-21,0
|
15,7
|
|
2000: estimativas;
2001: projeções (atualizadas em 27/12/2002)
|
|
Fonte: IBGE,
Consultoria Tendências (Conjuntura Semanal,
30/12/02 a 3/01/03)
|
|
|
|
|
|
|
|
Ainda na vertente econômica, poder-se-ía
agregar dados sobre a dívida externa (tanto a bruta quanto
a líquida, bem como dados relativos às amortizações do principal
e seu serviço, assim como sua relação com o PIB e as exportações),
mas uma avaliação objetiva desses dados do ponto de vista
da política econômica nem sempre é possível, uma vez que grande
parte dessa dívida, atualmente, é detida pelo setor privado
(e também por grandes companhias ainda sob controle do Estado),
que persegue sua própria estratégia de endividamento (em função
do diferencial de juros internos e externos), não necessariamente
compatível com políticas preferidas pelas autoridades econômicas.
O mesmo poderia ser dito do índice de poupança, sua taxa de
crescimento e relação ao PIB, com variáveis não controláveis
pelo governo. A dívida pública, por outro lado, tem uma parte
indexada ao dólar, o que se reflete em sua variação nominal
em função do câmbio, o que pode introduzir flutuações não
diretamente derivadas da política econômica.
Quanto aos indicadores puramente
sociais, ou qualitativos, eles poderiam ser avaliados com
base nos seguintes critérios, com algumas especificações,
abaixo explicitadas:
|
Quadro 2: Indicadores sociais brasileiros,
1990-2000
|
|
|
1990
|
2000
|
|
Índice Desenvolvimento Humano (Pnud)
|
0,713
|
0,757
|
|
Esperança de vida ao nascimento
(anos)
|
65
|
68,6
|
|
Mortalidade infantil (por 1000
nascims.)
|
47,8
|
29,6
|
|
Analfabetos (% da população 10
anos ou +)
|
16,4 (1)
|
11,4 (2)
|
|
População abaixo linha pobreza
(milhões)
|
60,7
|
53,7
|
|
Taxa de escolarização (% crian.
7-14 anos)
|
86,6 (1)
|
96,5 (2)
|
|
Distrib. livros didáticos (milhões
alunos)
|
5,5 (3)
|
33,5
|
|
Trabalho infantil (5-15 anos trabalho/milh.)
|
5,1 (3)
|
3,8 (4)
|
|
Lares com eletricidade (milhões)
|
27,3
|
39,5
|
|
Venda anual de refrigeradores (milhões)
|
0,4
|
3,3
|
|
Venda anual de televisores (milhões)
|
2,3
|
5,2
|
|
Usuários ligados à Internet (milhões)
|
0,2 (5)
|
12,0 (6)
|
|
Títulos de livros editados/reeditados
*
|
22,5
|
45,1
|
|
Número livros editados/reeditados
(milh.) *
|
239
|
330
|
|
Coeficiente de Gini
|
0.62
|
0.61
|
|
Notas: (1) 1992; (2)
2001; (3) 1995; (4) 1999;
(5) 1996; (6) 2002
Fontes: IBGE; * Câmara Brasileira
do Livro, Abigraf
|
Alguns outros dados são de difícil
inclusão, pois eles teriam de dispor de bases uniformes de
comparação, o que nem sempre é o caso, como por exemplo o
número de telefones por habitante, em vista da enormidade
das mudanças estruturais ocorridas (e ainda por ocorrer) no
setor, o de certa forma se aplica igualmente ao número de
computadores (e a ligação à servidor vinculado à Internet)
e à venda de livros e jornais por habitantes. Outros dados
aparentemente objetivos, como o valor da cesta básica e sua
relação com salário mínimo, poderiam servir como indicador
indireto de bem estar das populações mais carentes, mas aqui
também problemas metodológicos indicam que se deveria trabalhar
com o máximo de cuidado nesse terreno, para não efetuar comparações
desfavoráveis para nenhum dos lados, em vista de diferenças
na composição das cestas e da evolução dos hábitos de consumo
pessoal e o peso de cada elemento na despesa familiar (em
função, aliás, da própria evolução de políticas setoriais
e da oferta agregada em determinados ramos econômicos). O
coeficiente de Gini (medida de concentração da renda), por
sua vez, não se presta para comparações diretas, ano a ano,
razão pela qual ele deve ser manipulado com os mesmos cuidados
metodológicos das pesquisas envolvendo cestas básicas e outros
índices elaborados por amostragem.
Voilà: fixados
os critérios de uma comparação honesta e objetiva, basta dar
rendez-vous daqui a um ano neste mesmo espaço para
conferir os resultados parciais. Uma comparação mais abrangente
e cobrindo sistematicamente um conjunto mais amplo de fatores
que sofreriam numa perspectiva conjuntural muito estreita
(inflação ou câmbio, por exemplo) deveria ficar para 2004
ou diretamente para 2006, ao término de um período governativo
completo. Nesse caso, pode-se comparar o ritmo de crescimento
anual observado no período 1995-2002, com aquele que emergirá
no período 2002-2006. Atenção maior deve ser dada ao capítulo
social, que se apresenta manifestamente como o leit-motiv
da nova maioria. Em qualquer hipótese: boa sorte à nova equipe
dirigente!
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Anexo: Artigo
original sobre a transição (20.10.02):
Como vencer a transição:
recomendações espontâneas
sobre como alcançar a vitória na subida ao poder
(da
série: Conseqüências econômicas da vitória, parte 4)
Paulo Roberto de Almeida
Dando continuidade a minha série
de reflexões sobre a nova situação política criada com
a mudança da maioria social de governo no Brasil – já
consubstanciada em trabalhos sobre aspectos pouco usuais
do pensamento mudancista – , pretendo tocar mais de
perto, não nos elementos constitutivos de um “manual
para a nova economia política”, que estava compondo
de maneira algo improvisada, mas em uma série de pontos
de caráter mais tático do que estratégico, que visam
chamar a atenção para problemas do curto prazo, condizentes
aliás com a transição relativamente longa que se vive
no sistema político brasileiro. Esses pontos podem ser
sumariados nas tarefas seguintes:
1) Unificar o discurso
2) Falar ao País, não ao partido
3) Dirigir-se ao mundo, seletivamente
4) Tranqüilizar os agentes econômicos
5) Designar os principais assessores,
depois negociar
6) Recompor um programa de governo
7) Atender a circunstâncias excepcionais
8) Indicar as linhas do discurso
de posse
9) Estruturar as bases do apoio congressual
10) Preparar-se para o pior, manter
a mensagem otimista
Não se trata obviamente de uma lista
exaustiva, ou de um “manual para a fase de transição”,
mas de alguns pontos que me parecem de consideração
relevante na presente conjuntura, a partir de uma observação
prática de outros momentos de transição para uma nova
maioria, no Brasil e no exterior. A ordem não é essencial,
mas pode ser importante.
1) Unificar o discurso
Trata-se de uma regra absoluta, válida
em qualquer momento, em qualquer circunstância do jogo
político, por isso vem em primeiro lugar. A liderança
fala de uma voz única, ou quando ela não é única é pelo
menos unificada, homogênea, concordante, sobretudo em
matéria econômica, terreno no qual os perigos são maiores
do que em qualquer outro, dadas suas conseqüências potencialmente
catastróficas. Pequenos chefes e porta-vozes auto-assumidos
têm de ser alertados para os efeitos nefastos da chamada
“dupla linguagem” e o comando central tem de saber impor
um discurso uniforme e, portanto, tranquilizador. Em
operações militares não pode haver dualidade de comando,
e a arte da política tem regras muito semelhantes.
2) Falar ao País, não ao partido
Quaisquer que sejam os resultados
de 27 de outubro, o corpo eleitoral e, mais importante,
a Nação permanecerão divididos, independentemente do
que diga ou faça o vencedor. A desconfiança em relação
ao novo centro de poder é obviamente muito maior no
caso de uma mudança importante no centro de gravidade
política como a que acaba de ocorrer, com temores infundados
e animosidades involuntárias aflorando mesmo na ausência
de motivos objetivos para tal estado de espírito. Trata-se
de um sentimento talvez exagerado mas não de todo inesperado,
dada a situação de incerteza que reina no País sobre
diversos aspectos da nova realidade política.
Contado o resultado do pleito de
27, o vencedor não pertence mais a um partido ou a uma
coalizão, mas trata-se de um líder nacional. Por isso,
a primeira palavra não deve ser aos seus seguidores
mas à Nação, ainda que esse pronunciamento contenha
palavras de agradecimento a todos aqueles que tornaram
possível a vitória. Esta contudo já pertence ao passado
e à História e o que conta doravante é a construção
de algo novo, que não será a realização pura e simples
da agenda partidária – a Nação ainda está dividida,
lembre-se – mas a busca de um novo consenso em favor
do conjunto da coletividade. Esqueça por um momento
os grupos sociais e os problemas locais, com exceção
de uma menção ampla aos excluídos e marginalizados,
pois que os interesses começam justamente a divergir
quando se mencionam categorias específicas da população.
O discurso ao País deve ser unificador e consensualizador,
e todas as referências partidárias – de fato todas as
vinculações – devem ficar para trás ou em segundo plano.
O tom elevado deve ser mantido durante todo o exercício.
3) Dirigir-se ao mundo, seletivamente
Não cabe ao eleito dirigir mensagens
a quem quer que seja, e sim recebê-las e depois respondê-las,
em tom formal, cerimonioso, anódino, pois ninguém faz
política externa em mensagens de cumprimentos e agradecimentos,
salvo algumas referências óbvias à importância e relevância
das relações bilaterais e do direito internacional.
Cabe, sim, cuidadosamente, planejar eventual viagem
pré-posse, já que a teia da globalização e os compromissos
em curso não permitem uma espera passiva pela chegada
da agenda externa à sua mesa.
Não será possível cobrir todos os
pontos de interesse, ou mesmo aqueles ditos principais,
colocados burocraticamente no capítulo de relações exteriores
do programa, mas seria preciso ter uma visão clara de
onde estão as prioridades na frente externa, que não
são necessariamente os pontos que oferecem soluções
aos problemas, mas podem ser aqueles que representam
a própria fonte desses problemas, ou pelo menos
onde um início de solução pode ser encontrado e encaminhado.
De modo geral, contudo, a raiz de
nossos principais problemas encontra-se aqui mesmo no
País, são mazelas “Brazil-made” e auto-inflingidas,
estando sua solução inteiramente sob nosso controle
e responsabilidade, sendo não apenas derrisório como
francamente inútil buscar suas causas no estrangeiro.
O mundo vai aceitar o Brasil como uma grande democracia
consolidada, que está justamente dando enormes passos
no sentido de resolver internamente seus piores problemas
de injustiça social e de miséria residual, de corrupção
latente e de desigualdades gritantes no exercício e
no gozo dos mais elementares direitos da cidadania.
Se nos dedicarmos a isso de forma conseqüente, com ou
sem a cooperação internacional – pois que esta eventualmente
está voltada para os ainda mais carentes do que nós
– teremos o respeito e a consideração da comunidade
internacional. Todo o resto é secundário, inclusive
a política externa, que deve ser vista como o prolongamento
da política interna por outros meios. Nosso principal
problema é o de assegurar uma educação de qualidade
a todos os brasileiros? Que seja! Este deve ser também
o objetivo da política externa. O prestígio externo
será o resultado de termos alcançado aquele objetivo
na frente interna, não a conseqüência de qualquer novo
ativismo no plano externo.
4) Tranqüilizar os agentes econômicos
Não se pode negar um ambiente de
turbulência na frente econômica, o que é próprio de
todas as fases de transição, sobretudo as de nítido
sentido paradigmático como a que agora se empreende.
Por isso caberia fazer o máximo para restabelecer a
confiança dos agentes sociais, pois são eles que garantem,
em última instância, o comportamento da conjuntura econômica.
Por agentes deve-se entender todo mundo, não apenas
o banqueiro e o industrial, eventualmente o investidor
estrangeiro, mas também o assalariado e a dona de casa,
que se preocupa com sua poupança duramente adquirida,
a única garantia de uma velhice um pouco menos sofrida.
Provavelmente mais da metade da economia
é feita de uma mercadoria básica que se chama confiança
– na moeda, na capacidade de compra dos salários, no
retorno dos investimentos, mesmo aqueles mais arriscados
ou especulativos – e a confiança é um elemento terrivelmente
difícil de se adquirir e muito fácil de se perder. A
componente psicológica de qualquer programa econômica
é provavelmente maior do que a de seus elementos matemáticos
mais consistentemente lógicos, e de fato não há muita
lógica na reação dos agentes econômicos a qualquer fato
ou dito no terreno econômico. Cabe inteiramente aos
dirigentes econômicos e, em última instância, à liderança
política inspirar confiança nos cidadãos enquanto agentes
econômicos.
Essa confiança não cresce apenas
com a abertura ao diálogo, mas sobretudo com a capacidade
demonstrada de tomada de decisão. Há um momento, portanto,
em que as consultas precisam ser interrompidas e a decisão
anunciada. Ela não vai, não pode, satisfazer a todos
ao mesmo tempo, e de fato alguns serão mais sacrificados
do que outros. Mas a liderança se afirma, justamente,
no momento de explicar claramente a natureza do problema
e o sentido da decisão tomada, como sendo a de menor
custo social possível, da maneira mais transparente
e compreensível a todos os agentes econômicos, mesmo
os mais humildes.
5) Designar os principais assessores,
depois negociar
Trata-se de uma derivação da regra
anterior, especificamente voltada para a área econômica,
pois que uma máquina governamental não pode, pela sua
complexidade, emergir pronta de um embate eleitoral.
Sua construção é por vezes lenta e penosa, o que justamente
alimenta os focos de turbulência econômica, que caberia
extinguir em seu início. De todo modo, trata-se do núcleo
central de comando, que deve não só dispor da, como
corresponder à, confiança total do novo líder, sendo
junto a ele responsável, à exclusão de qualquer jogo
partidário ou congressual. Por isso caberia designar
a equipe econômica que vai começar a trabalhar na primeira
fase da transição, dando-lhe inteiro respaldo e preservando-a
das inevitáveis barganhas das demais escolhas.
Uma vez feito isso, pode-se sentar
para ouvir velhos aliados e novos amigos, antigos militantes
e apoiadores de última hora, sem negociar o que é essencial,
isto é, a capacidade governativa no núcleo central.
Há que preservar uma certa coerência na máquina governamental,
mas algumas concessões terão de ser feitas à esquerda
e à direita (sem esquecer o centro), literalmente. Ainda
que a montagem seja política, a competência técnica
deveria prevalecer sobre indicações meramente partidárias,
uma vez que a responsabilidade final sempre incumbe
ao presidente, não aos partidos da base aliada.
6) Recompor um programa de governo
Não se pode pensar que o calhamaço
de propostas contidas no programa de campanha (metade
do qual era aliás composto de críticas à situação corrente)
constitua uma base credível de ação governativa, ainda
que as sugestões ali contidas sejam um indicador razoável
da filosofia geral pela qual vai se pautar a nova maioria.
Mas cabe agora preparar um novo documento de diretrizes
executivas, nas quais ficam excluídas todas as considerações
(mais ou menos impressionísticas) sobre o quão deletéria
era a situação anterior. Algumas críticas nesses sentido
são até aceitáveis, inclusive como forma de transferir
responsabilidade pelas dificuldades encontradas no momento
mesmo da transição (“a herança recebida é pior do que
se esperava”, etc.), mas a idéia é que se tenha agora
não um manual completo de governo, mas uma agenda de
ações prioritárias para os primeiros seis meses de governo,
enquanto se faz o “balanço acurado” da situação e se
procede a elaborar um novo orçamento, levando em conta
essas novas prioridades, que não são necessariamente
as mesmas que as da fase mais imediata de governo.
O programa de governo é o que poderá
ser levado adiante com a nova maioria congressual, o
que vai ficar claro já nas primeiras conversações para
a formação da primeira equipe de governo – estaremos
vivendo uma situação semi-parlamentarista – e ele será
necessariamente menos ambicioso do que as grandes mudanças
prometidas no programa de campanha, sendo sobretudo
despojado do tom grandiloqüente – ainda que possa continuar
sendo tão vago quanto – que marcava aquele documento.
De preferência será curto, preciso, objetivo, sem adjetivos,
indicando claramente para onde vai dirigir-se a ação
governamental, numa primeira fase pelo menos. Lembre-se
de que não será possível contentar a todos e assim certos
problemas não serão necessariamente tocados. Isso não
deve ser motivo de angústia, pois ninguém espera, sobretudo
os mais esclarecidos, que a nova situação resolva tudo
em seis meses.
O essencial seria preservar a estabilidade
econômica – sem a qual a situação dos mais pobres estará
imediatamente comprometida – e iniciar um processo de
“reversão de expectativas” que confirme que, por uma
vez, o bem estar dos mais humildes será, sim, a preocupação
principal da nova maioria política. Não vai aqui nenhuma
recomendação em favor do assistencialismo, muito pelo
contrário, pois que medidas de cunho social podem ser
mobilizadas mediante políticas universalistas de investimentos
nos setores mais suscetíveis de alcançar a maioria da
população: educação, saúde, infra-estrutura social,
capacitação profissional, segurança pública. O emprego
será uma decorrência disso, não do favorecimento de
grupos de interesse mediante políticas ativas nos setores
industrial ou comercial.
Falou-se em “recompor”, não rescrever
um programa de governo, o que indica que sua essência
virá daquele primeiro documento, ainda que revisto por
uma maioria que não será mais exclusivamente partidária,
ou aliancista. Ainda assim, caberia rever certos cacoetes
de linguagem que se acumulam em longos anos de autismo
militante.
7) Atender a circunstâncias excepcionais
Não se pode negar que o Brasil vive
circunstâncias excepcionais, não apenas pela mudança
política em curso, mas também pelo nível anormalmente
alto de turbulência econômica, real e percebida, justamente
motivada em grande medida pelo caráter inédito da transição
na área política. Não apenas se deve evitar que a situação
se deteriore ainda mais na fase de transição como caberia
buscar ações conjuntas para restabelecer o precário
equilíbrio anteriormente prevalecente, antes de se pensar
em fatores mais permanentes de estabilidade macroeconômica.
O papel da liderança política e o
do discurso unificado são aqui essenciais, mas caberia
encerrar a “muralha da China” que até agora dividiu
“nós e eles” na área da administração econômica e passar
a trabalhar conjuntamente na solução de um problema
que é nacional, não político ou partidário. Determinados
bens públicos devem ser preservados além e acima das
querelas ideológicas e a situação econômica é um deles.
Eventualmente, medidas excepcionais serão necessárias,
antes mesmo da assunção ao poder, o que exige, antes
de mais nada, o abandono da postura do “eu não disse?”
em favor da adoção de uma atitude de responsabilidade
compartilhada no acolhimento dos custos – inclusive
políticos – derivados de medidas restritivas ou de ajuste
emergencial.
A liderança política se fortalece
em situações de comoção nacional, mas a margem de manobra
é muito estreita no terreno econômico, o que recomenda
uma avaliação cuidadosa das opções disponíveis e uma
corajosa defesa da decisão tomada nessas circunstâncias
excepcionais.
8) Indicar as linhas do discurso
de posse
As incertezas tendem a ocupar o espaço
político – e estender-se ao terreno econômico – por
isso seria recomendável não esperar até o dia da posse
para revelar algumas das grandes linhas de atuação da
futura administração. Isso ocupa os jornalistas e movimenta
as colunas de comentaristas, mas esta não deve ser a
principal motivação da nova liderança, e sim o próprio
fato de avançar para a sociedade alguns elementos da
ação governativa que estará sendo implementada no momento
devido. Essas indicações não precisam ser na linha das
“rupturas” e “continuidades”, mas podem retomar os pontos
principais do novo programa de governo, o que significaria
portanto destacar mais os elementos afirmativos da futura
ação governamental do que as críticas à herança recebida
(ainda que algum “exagero” seja aqui compreensível).
Uma coisa é certa: deve-se terminar
de uma vez por todas com aquelas entrevistas de porta
de carro ou de descida de avião, pois microfones agressivos
e perguntas confusas raramente resultam em boas exposições
de idéias. Não há mais improvisação possível e toda
declaração tem uma “massa atômica” específica e um peso
político próprio. Por isso, as poucas declarações gerais
dadas em caráter coletivo antes da posse deverão aproximar-se
o mais possível do próprio discurso de posse, para diminuir
as tensões naturais que emergem a partir das grandes
transições. Uma vez definida as linhas do novo tipo
de consenso tranqüilo, deve-se ater a esses elementos
conceituais na fase de transição.
9) Estruturar as bases do apoio congressual
Tarefa gigantesca, por certo, mas
não tão difícil quanto parece, pois parece haver um
natural adesismo – mais do que oposicionismo de princípio
– por parte de toda nova legislatura em situação de
inauguração presidencial. As ofertas de colaboração
virão dos redutos mais inesperados – alguns até suspeitos,
e que caberia descartar sem parecer grosseiro – e o
esforço deveria ser feito na direção da preservação
da plataforma de ação, mais do que na manutenção das
velhas trocas de favores da antiga situação política.
Ainda aqui caberia ter presente de
que o melhor para o Brasil seria não se ter um governo
de um partido, ou de uma coalizão, mas um governo nacional
que procuraria atuar a partir de suas bases naturais
de apoio no Congresso, com ampla latitude de meios e
muito pragmatismo, em função mais de resultados efetivos
do que de velhas bandeiras ideológicas. Afinal, o novo
governo, no executivo ou no legislativo, deve estar
primariamente interessado na eficácia de suas ações,
não na sua conformidade a qualquer cartilha política
do passado. A clareza de propósitos deve servir como
elemento de pressão do ponto de vista da opinião pública,
que por uma vez estará satisfeita de saber que velhas
práticas clientelísticas e fisiológicas da situação
anterior não estariam sendo herdadas – ou em todo caso
não serão privilegiadas – na nova situação.
Não custa nada lembrar que teremos
um presidencialismo congressual – falou-se anteriormente
em semi-parlamentarismo – ou pelo menos uma situação
na qual os dois poderes terão de trabalhar conjuntamente,
provavelmente mais do que em qualquer outra época da
história política brasileira, salvo na do próprio regime
parlamentarista de 1961-63 (mas se tratava de uma construção
artificial e de mero expediente). Essa situação não
é intrinsecamente perversa do ponto de vista da ação
administrativa, mas exigirá o abandono de alguns cacoetes
do passado, como aquelas situações em que o presidente
se dirige “diretamente ao povo”, passando por cima das
prerrogativas congressuais.
Melhor ter essa situação muito clara desde o
início, inclusive porque o Brasil ganharia em evoluir
para um tipo de regime no qual as maiorias presidenciais
deixem de se chocar com as maiorias congressuais (uma
das maiores fontes de instabilidade política em nossa
história).
10) Preparar-se para o pior, manter
a mensagem otimista
Não seria conveniente agitar de público
a gravidade da situação econômica, mas o Brasil parece
estar atravessando uma dessas conjunturas de turbulência
– típicas num passado não tão remoto – nas quais a mudança
política e as incertezas administrativas associadas
a maiorias divergentes no executivo e no legislativo
podem afetar a estabilidade econômica. Em todo caso,
qualquer mudança tem um custo, ainda que ele seja simplesmente
o da substituição de pessoas e o da descontinuidade
temporária da maior parte das atividades administrativas.
Neste caso específico, a sociedade
pretendeu a uma mudança de maior magnitude e ela tem
de saber que isso também tem um custo maior, o que geralmente
se traduz pela retração geral das atividades econômicas
e do investimento produtivo, quando não ocorre o fenômeno
do “desinvestimento” e o da fuga de capitais, ainda
que para “dentro” do País (mas para fora do sistema
bancário oficial). A desconfiança no valor da moeda
é o sinal mais claro desse desconforto com a mudança,
que não resulta necessariamente da obra de “especuladores”
ou outros conspiradores externos. Tudo isso precisa
ficar claro para a nova maioria, que não pode perder
o sangue frio e sair buscando “bodes expiatórios” e
culpados de ocasião. A instabilidade é intrínseca à
mudança, não um dado externo importado involuntariamente.
Por isso caberia preparar-se para
o pior, isto é, para uma deterioração ainda maior da
situação econômica nos próximos meses, ainda que mantendo
um discurso otimista – ou moderadamente realista – sobre
a superação da presente fase de turbulências. Seria
preciso estar pronto a adotar com coragem um conjunto
de medidas de distribuição de sacrifícios – pois que
é disso que se trata – que será inevitável implementar
caso essa hipótese pessimista se confirme. Mais uma
vez, unificação do discurso e capacidade de tomada de
decisões são os elementos-chave para a superação das
turbulências, além, é claro, de se ter uma idéia clara
do que se pretende resguardar: se a estabilidade econômica
ou se a passagem a um “novo modelo econômico”, que resta
largamente indefinido em seus contornos básicos.
Os verdadeiros líderes se formam
na hora da borrasca, não em situações de mares tranqüilos,
e eles são capazes de infundir tranqüilidade em seus
liderados mesmo nas horas mais sombrias do panorama
político ou econômico de um país. O Brasil não tem nenhuma
grande tragédia nacional, graves fontes de instabilidade
econômica ou algum manancial de constantes terremotos
políticos, mas ele tem uma miríade de pequenas-grandes
tragédias sociais que podem ser agravadas em caso de
rompimento de alguns consensos básicos. Mais uma vez
se adverte: o sentido da ação é nacional, não partidário
ou setorial.
A nova maioria tem todas as condições
de realizar uma transição bem sucedida para uma situação
de mudanças incrementais em favor de uma nova agenda
social, desde que ela não contribua para a erosão da
situação econômica ou pretenda modificar por fora e
por cima o tecido social. Ações voltadas para os excluídos
permitirão construir de modo imperceptível as bases
da mudança desejada, mais do que grandes discursos contra
os incluídos (aqui compreendidos não só banqueiros e
industriais, mas sindicalistas, funcionários públicos
e universitários em geral).
As maiores rupturas, na verdade,
não são aquelas contra a “velha ordem” – em grande medida
já vencida ou pelo menos acomodada à nova situação –,
mas contra as antigas formas de pensar e de conceber
políticas, que por vezes impedem a incorporação da imaginação
criadora ao novo modo de fazer política que agora se
pensa implementar.
Paulo Roberto de Almeida
Ver os outros trabalhos desta série
em: www.pralmeida.org,
em “Trabalhos Originais”:
Link: As conseqüências econômicas
da vitória
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PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA
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