Recordo rostos, corpos, lugares e
momentos: símbolos de uma época distante na qual o futuro parecia
estar ao nosso alcance, uma época de sonhos. Nomes sem rostos,
rostos sem nomes: os anos são implacáveis e transformam as nítidas
imagens de ontem em penumbras, figuras quase indecifráveis,
como um quadro desgastado pela ação do tempo. Quantos se perderam
pelo caminho?
A erosão da memória causa melancolia.
Porém, as imagens na televisão me conduzem ao presente
e ajudam a lembrar dos nomes e rostos que permanecem, amizades
construídas que resistem ao tempo e à distância. O passado se
mantém presente: a alegria supera a tristeza.
A atenção volta-se para a TV: vejo
rostos metamorfoseados; cabelos e barbas grisalhas denunciam
a inexorabilidade do tempo. Com um sorriso quase imperceptível
recordo companheiros que, inabaláveis, anunciavam a boa nova
aos incrédulos e profetizavam o caráter inexorável do socialismo.
Ainda que suas certezas absolutas tenham sido abaladas pelo tempo e pelos muros que caíram; ainda que seus alicerces
tenham se mostrado frágeis e seus castelos de areia tenham sucumbido
ao turbilhão que assolou rígidas doutrinas e sectarismos imperantes;
eles também são os construtores do presente, os que plantaram
e cultivaram as árvores, cujos frutos, amargos ou doces, colhemos
hoje.
Lembro-me dos que ficaram pelo caminho
e dos rostos anônimos consumidos pelas misérias humanas. Uns
sucumbiram à única certeza absoluta que faz de nós humanos:
a finitude. Outros foram derrotados pelas fragilidades inerentes
à vida: vícios e tragédias. Há, é claro, os que se remediaram
como puderam – a vida lhes sorriu e se mostrou mais generosa.
Alguns venceram! Mas, as estrelas
não brilham acidentalmente: os aplausos merecidos aos que se
destacam, muitas vezes abafam o choro dos que carregam o piano
e não podem ouvir a melodia e compartilhar do show. Resta-lhes
o consolo de serem lembrados por outros de igual infortúnio
e de saberem que, a despeito dos dissabores da vida, são os
edificadores de líderes, sustentáculos dos edifícios que simbolizam
a esperança; resta-lhes a alegria de se identificarem com os
vencedores e de nutrirem a esperança.
É impossível não se deixar tomar
pelas recordações. As imagens sintetizam vidas, alegrias e tristezas.
A diplomação e a posse do Companheiro Presidente emociona
porque nos sentimos parte desse processo. Desmistifica-se o
ritualismo da educação formal e do cargo. As notáveis personalidades
da República, repletas de títulos e diplomas, curvam-se ao homem
que simboliza a gente simples, os que não tiveram acesso aos
bancos das universidades. Os narcísicos doutores são obrigados
a reconhecer que a educação informal também é importante.
Lula chora: é o seu primeiro diploma.
Quantos não se sentiram igualmente diplomados? Quantos não
choraram como ele? É impossível não se sensibilizar com essa
imagem. Nos emocionamos com a sua posse. Sua fala demonstra
consciência dos desafios que têm pela frente, sabe que não pode
decepcionar.
Seu discurso é esmiuçado pelos analistas
políticos. Uns enfatizam o grau de conservadorismo e o excesso
de pragmatismo. Os críticos apregoam a necessidade de rupturas
e os mais afoitos insinuam que o governo recém-empossado trai
seus eleitores e as perspectivas mudancistas vendidas como mercadoria
de campanha. Será que entre nós repete-se o episódio argentino
patrocinado por De La Rua?
Na verdade, Lula segue o rumo traçado
em plena campanha eleitoral e o PT consolida a política melhorista
iniciada com a tese da acumulação de forças, adotada pelo V
Encontro Nacional (1987). O que transparece na trajetória petista
é a capacidade histórica das forças que expressam mudanças,
ancoradas num maior ou menor radicalismo, metamorfosearem-se
em forças legitimamente reconhecidas como integrantes da ordem
social vigente e da sua conservação. Essa política traduziu-se,
em termos literários, na máxima lampedusiana: “Se quisermos
que tudo fique como está é preciso que tudo mude”. (LAMPEDUSA,
1974: 42)
Esse processo integracionista, que
nulifica antagonismos e transforma revolucionários de ontem
em conservadores de hoje, deita raízes em nossa formação social
e histórica. Manuel Bonfim, observou-o de forma exemplar:
“Parece
um paradoxo, tão estranho é: pouco importa a luta, os conflitos,
levantes e revoluções que tenham trazido o indivíduo ao poder,
uma vez ali, "sentindo as responsabilidades do governo”,
o verdadeiro homem se revela; tudo parou, o revolucionário de
ontem desaparece, as gentes ponderadas e graves podem aproximar-se
– ficarão encantadas de verificar que mundos de sensatez nele
se encerram ali; ávida vai continuar tal qual era; “o período
de agitação acabou, as responsabilidades, etc., impõem o dever
de não criar dificuldades novas”. Quer dizer: todo o esforço
agora é para impedir que se dê execução às reformas em nome
das quais se fez a revolução, e para defender os interesses
das classes conservadoras, a fim de acalmá-las.” (BONFIM,
2000: 735)
Mudam os nomes, a essência da política
continua a mesma: mudar para conservar... Esse paradoxo se repete
em vários momentos da nossa história – como a Independência,
a República etc. Agora, será diferente?! O Companheiro Presidente
reafirma seu compromisso com a mudança. Ele sabe-se depositário
da esperança de milhões de brasileiros. Também sabe que conta
com o apoio popular e que o povo, com as frustrações e desesperanças,
acumulou aprendizado. Aos apressados e voluntaristas, Lula alerta
que as mudanças obedecerão a ritmos próprios, determinados pelas
condições reais: tudo será feito dentro da ordem, com diálogo,
paz e amor.
Resta saber qual o limite da paciência
popular e até quando prevalecerá a lua de mel. De qualquer forma,
a leitura dos nossos clássicos e, em especial, da obra de Manuel
Bonfim, escrita há um século atrás, é uma enorme contribuição
para o entendimento dos novos-velhos tempos em que adentramos.