Ele nos sorriu quando nos aproximamos,
colocando a flauta de lado. “Want to buy floota?” ele perguntou,
num inglês quebrado. Não, nós não queríamos comprar uma flauta.
A gente tinha que ir à tal aldeia, e voltar ao hotel em Kirkagaanga
antes que escurecesse. Agradecemos ao velhinho, e recomeçamos
a andar. Ele nos chamou de volta, dizendo, “Cut your hair?”
e fez sinal com a tesoura, pra cortar o cabelo. Mais uma vez
agradecemos, fizemos umas mesuras, e continuamos o caminho.
Ele sorriu e fez um gesto de bênção com a mão, se despedindo
de nós. O dia estava muito quente, eu estava com sede, e queria
achar logo um lugar com água, e ir descansar na sombra. Quando
voltamos pela mesma estrada, de tardezinha, o velhinho tinha
desaparecido, e só se viam os arrozais que cobriam os patamares
cavados nas colinas. Tudo um mar de verde, só interrompido
pelas casinhas de bambu aqui e ali, cada uma delas um pequeno
oratório a um deus que toma conta daquela parte do arrozal.
Bali é uma terra cheia de deuses, e
a cultura é o resultado de uma longa convivência entre budismo
e hinduismo, que foram se moldando um ou outro, emprestando
daqui, emprestando ali, e chegaram a uma religião e forma
de vida que é um modelo de tolerância e beleza. Cada balinês
é um crente, cada balinês é um artista. Cada um faz alguma
coisa bonita, seja com madeira, pedra, fios, grama, flores,
comida, cabelo, tudo. Beleza, bondade, tolerância: estas
parecem ser as diretrizes do povo de Bali. Logicamente, os
turistas que começaram a vir à ilha aos milhares desde os
anos 40, acabaram influenciando bastante na infra-estrutura
financeira da ilha, mudando algumas coisas importantes tais
como a quase total monocultura (o arroz). Mas o povo de Bali
continua fundamentalmente o mesmo, com a mesma maneira de
receber ao visitante com carinho. No aeroporto em Denpasar,
no meio da correria dos motoristas de táxi tentando conseguir
passageiros, eles sempre têm tempo de sorrir, perguntar se
o recém chegado fez boa viagem, e se se sente bem.
Durante as três semanas que passamos
em Bali, meu marido e eu tivemos o privilégio de conhecer
pessoas de várias regiões da ilha. Começamos nossa viagem
em Kuta Beach, que fica perto do único aeroporto de Bali,
em Denpasar. De Kuta fomos a Ubud, que é considerada o coração
artístico de Bali, e fica nas montanhas. Ubud é também um
centro comercial e turístico desde que artistas do ocidente
descobriram a arte—escultura, pintura, dança, música—dos habitantes
da cidade, no começo do século XX. De Ubud fizemos várias
viagens curtas a locais próximos, templos, montanhas, vilarejos.
Durante estas viagens, conhecemos Made, um jovem balinês de
20 anos, órfão de pai e mãe, que trabalha como guia turístico
e motorista para os turistas que o contratam. Nós o contratamos
para várias pequenas viagens, e afinal para nossa ida até
Kirkagaanga, que uma vez, há muitos anos, foi um reino separado,
com seu palácio e família imperial. De Kirkagaanga fomos a
Lovina, uma série de praias de areias negras e golfinhos que
nadavam perto da praia. De Lovina voltamos a Kuta, onde tomamos
o avião de volta ao Japão. Me lembro, na noite anterior à
nossa saída de Bali, que eu senti uma grande saudade antecipada,
como se estivesse deixando um amigo, um parente, um irmão.
Não é de se estranhar. O povo de Bali
é, talvez, o povo mais doce do mundo. Os balineses cantam
na rua. Os balineses sorriem pra todo mundo, mesmo os que
não estão comprando nada na loja deles. Os balineses lhe dão
flores, só porque você está ali, e eles têm uma flor na mão.
Os balineses saúdam você com um “namaste” — “eu saúdo o deus
em você” — e eu suspeito que eles realmente acreditam que
cada um de nós leva um deus dentro de si. A literatura de
Bali é uma mistura de histórias tomadas dos textos sagrados
hindus e budistas, e os artistas que fazem o teatro de bonecos
são considerados uma espécie mensageiros dos deuses, porque
eles ensinam as histórias antigas, e pregam o respeito mútuo
e a caridade para com todos.
Em nossas conversas com nosso motorista,
Made, soubemos que na ilha todos têm um dos quatro nomes disponíveis.
Made é o nome do segundo filho: em todas famílias o segundo
filho ou filha é chamado Made. E se os pais têm mais que quatro
filhos? Simples: recomeçam com a lista mais uma vez. Então
Made pode ser o nome do segundo e do sexto filho ou filha,
e assim por diante. Mas nosso jovem amigo tinha perdido toda
a família, e agora morava com os tios. Sua grande esperança:
juntar dinheiro suficiente para poder fazer o corte dos dentes, o primeiro passo a ser tomado para uma pessoa
(homem ou mulher) poder se casar. Os balineses acreditam que
o casamento é uma situação que exige muita gentileza, muito
cuidado, então a cerimônia do corte dos dentes (que são serrados
ligeiramente) indica que a pessoa está disposta a aceitar
as dificuldades e acomodações necessárias para a vida conjugal.
Esta é uma cerimônia da qual participam a família e a comunidade,
e é como um ritual de reconhecimento da maturidade, e, logicamente,
uma ocasião em que a família e a comunidade reforçam seus
laços culturais. O casamento é outra ocasião importante, assim
como a apresentação dos recém-nascidos, e o funeral.
Antes de ir a Bali, eu li em um guia
turístico que as coisas mais bonitas em Bali não estão à venda.
Isso pode parecer um exagero, se consideramos as delicadas
estatuetas esculpidas em madeira e pedra, e as lindas tapeçarias
tecidas em algumas partes da ilha. Mas é verdade: as coisas
mais bonitas feitas em Bali são aquelas que as mulheres e
meninas fazem com grama e folhas e flores, para oferecer aos
deuses em pequenas cerimônias que acontecem várias vezes ao
dia. Estas pequenas cestas, tramadas rapidamente, são de uma
leveza e complexidade, que parece incrível que a sua única
função seja acomodar uma flor, uma vela, um pedaço de incenso,
e ser colocadas no chão, numa encruzilhada, num rodapé, para
agradecer aos deuses (e são tantos!) que vivem diariamente
com os balineses. Estas oferendas são biodegradáveis, e acabam
sendo re-incorporadas à natureza. As meninas cantam enquanto
seguem as mães ou irmãs mais velhas durante as cerimônias,
uma aprendendo com a outra.
E foi neste lugar que sanguinários
terroristas da Indonésia resolveram semear a morte. Também
não é de se estranhar. Embora a Indonésia seja um país fabuloso,
um universo em si mesmo, aquele é um país extremamente complexo.
Não é possível esquecermos que foi a própria Indonésia que
torturou e matou crianças nas ruas de cidades do Timor Leste,
por muitos anos, até que a comunidade mundial, alertada especialmente
pela Austrália, resolveu intervir na barbaridade sendo cometida
contra os Timorenses. Mais tarde, foi a Indonésia que teve
a “brilhante” idéia de forçar moradores de algumas ilhas a
emigrarem a outras, dizendo que assim haveria mais equilíbrio
populacional. Os recém chegados foram mortos a machadadas
pelo grupo étnico da ilha “hospedeira,” que não queriam aceitar
estes “estranhos” no seu meio. A idéia de um país, para a
Indonésia, é basicamente uma imposição do governo central,
porque cada ilha tem sua cultura, suas características étnicas,
sua língua. Os desastres ecológicos são freqüentes no país,
e no final do século passado seus vizinhos mais próximos —
Singapura e a costa oeste da Malásia — sofreram meses de fumaça
causada pela queima de florestas inteiras na Indonésia. E
agora vieram de lá os assassinos
que se escondem debaixo do nome da religião muçulmana
e fizeram este ataque covarde em Bali. Porque o ataque, embora
tenha atingido diretamente os jovens turistas que estavam
se divertindo, atingiu talvez mais profundamente a própria
Bali. Logicamente, para os que acreditam em uma religião intolerante,
de um só deus (e deus masculino), que tem horror a estátuas,
a existência de Bali, com seus muitos deuses, suas muitas
imagens, deve ser uma afronta. E assim os assassinos da Indonésia
mataram vários coelhos com uma paulada só: se vingaram
da Austrália, que tinha “se intrometido” na questão do Timor
Leste, e destroçaram a economia de Bali. Além do mais, os
terroristas atacaram uma atividade mundial, o turismo. Mas,
o pior de tudo que este ataque fez foi contaminar uma idéia
primordial, a do paraíso.
No dia depois do ataque em Kuta Beach,
recebi um email de meu amigo Made, com quem tenho estado em
contacto por email e carta desde a viagem a Bali. No email,
ele diz que está muito triste pelos que morreram, que está
muito envergonhado porque isso aconteceu em Bali. E depois,
numa última sentença, ele faz a pergunta que todos que amamos
Bali nos fazemos: “o que vai acontecer com Bali?”
E o que vai acontecer com aqueles que
estão sofrendo as conseqüências do ataque no próprio corpo?
Recentemente o New York Times mostrou a foto de uma mocinha
tentando consolar uma amiga, que havia sido horrivelmente
queimada. Esta moça, cujo nome não conta entre os mortos,
está condenada a uma morte em vida, completamente deformada.
O que justifica tal coisa?
E eu volto àquela tarde quente em Kirkagaanga,
ao velhinho que tentou nos vender flautas, e cortar nosso
cabelo, mas não se zangou porque não pudemos aceitar nenhuma
das ofertas. Aquele último momento, dele nos abençoando enquanto
continuamos nossa caminhada no sol, vai ficar na minha memória.
Se é verdade que em Bali há deuses em todas as coisas, talvez
nós tivemos a sorte de nos depararmos com um, ali na beira
daquela estrada. As notícias mais recentes de Bali nos informam
que, de fato, a economia da ilha está em péssima situação,
mas que as pessoas estão tentando se manter com dignidade,
e continuam com esperanças que logo os visitantes voltarão.
Os deuses de Bali, presentes em cada balinês – “namaste!”
— continuam com eles. A comunidade mundial deve fazer o mesmo,
e não permitir que assassinos da Indonésia façam com Bali
o que fizeram com o Timor Leste.