A derrota no pampa gaúcho*

 

Por FRANCISCO XARÃO* e PAULO DENISAR FRAGA**
* Pró-reitor de Ensino da UERGS; ** Professor do Dep. de Filosofia e Psicologia da Unijuí

A grandeza da vitória de Lula para a presidência da República não pode servir de refúgio para o PT gaúcho se eximir de uma profunda crítica e autocrítica sobre os erros que conduziram à derrota em 27 de outubro de 2002, inviabilizando a continuidade do Governo Democrático e Popular do RS.

Evidente que não se pode desconsiderar que o outro lado também joga e que armou muito bem o seu contra-ataque à esquerda no RS. Entretanto, nessa hora de avaliação, é mais importante debruçar-se sobre os desacertos do PT do que sobre os acertos do inimigo, haja vista que, em grande medida, a eficácia destes decorreu da vigência daqueles.

A derrota eleitoral, e política, do PT/RS pode ser pensada à luz da combinação de, pelo menos, dois fatores fundamentais, que se articulam entre si: 1) o desgaste do Governo Democrático e Popular, imposto pelo cerco da RBS e por uma dura oposição social, política e parlamentar, que corroboraram o fenômeno ideológico do antipetismo; 2) a disputa interna ao partido, que culminou com a derrota do governador nas prévias e influenciou sobremaneira a linha da campanha, cuja candidatura, já derivada de uma postura crítica ao governo, vacilou na ênfase de sua defesa.

Olívio Dutra venceu a eleição em 1998 com 2.844.767 votos, ou 49,49% dos votantes. A diferença entre ele e Britto foi de 1,5%, ou 87.366 votos. Esses números dão a dimensão do grau de polarização existente no Estado. Passado o pleito, o lado derrotado estabeleceu imediatamente a sua estratégia: unir todos contra o PT e derrotá-lo, em dois anos, para as prefeituras e, em dois anos mais, para o governo do Estado. Logo entenderam, até melhor do que muitos petistas, que a força da estratégia democrática e popular estava justamente na sua concepção: articular as lutas sociais e populares a avanços e conquistas no plano institucional. Por isso, trataram de interpor uma cunha entre as propostas do governo e as demandas dos setores sociais que apoiaram a eleição de Olívio, em especial os servidores públicos. A falta de habilidade política de setores do governo, e de compreensão do significado estratégico do Governo Olívio, por parte de alguns dirigentes do movimento social, levaram a confrontos duríssimos dentro do campo democrático e popular, enquanto o campo opositor se fortalecia.

Enquanto isso, o governo estadual se isolava na disputa com o governo federal, perdia a condução do fórum de governadores e não conseguiu implementar a nova matriz tributária, derrotada três vezes na Assembléia. Foi um governo de confronto não porque fosse de concepção belicosa, mas porque não teve trégua um só minuto de parte da direita, que contou sempre com as manchetes da RBS.

Nesse contexto, a Democracia Socialista adotou uma postura de autoproteção, tomando quase exclusivamente para si as responsabilidades de governo e rebatendo toda e qualquer crítica a sua postura enquanto corrente como se fosse uma crítica ao governo como um todo. Com isso, afastou o governo do partido e dos movimentos, criando uma situação que em alguns casos colocou em risco a estratégia democrático-popular. A Articulação de Esquerda, quando hegemonizada pelo grupo que veio a formar o Pólo de Esquerda, também colaborou para esta situação, fomentando, na sua base, um conflito de baixa intensidade com o executivo, cujas questões eram, em boa medida, derivadas das dificuldades da corrente coordenar o trabalho de suas secretarias para a intervenção no centro e nos rumos do governo. A AE e a DS foram mutuamente incapazes de estabelecerem uma plataforma mínima de acordo para a condução do governo. Isso se refletiu, primeiramente, no resultado das prévias e, depois, na eleição.

Já a disputa pelo Diretório Estadual anunciava tal dificuldade do período. Deste processo, o PT saiu mais fragmentado, sem que nenhuma corrente política, sozinha, tivesse condições de coordenar qualquer reaglutinação interna. Mas, como o PT havia conquistado as prefeituras de quatro dos cinco maiores colégios eleitorais do Estado, a nova direção estadual e, com ela, boa parte da militância do partido, acreditaram que a estratégia da direita estava derrotada.

Esse quadro positivo favoreceu a idéia de que o PT estava suficientemente forte a ponto de se dar ao luxo de querelas internas que cada vez mais tomavam as páginas da imprensa, colocando – mesmo com a tentativa de se repactuar internamente o governo – em curso o processo de disputa acerca de quem representaria o PT na eleição de 2002. Para parte do campo moderado do PT tratava-se, então, de fazer com que o governo não se saísse tão mal a ponto de comprometer a reeleição e, no sentido inverso, de não se sair tão bem que pudesse permitir a vitória de Olívio nas prévias.

A vitória de Tarso nas prévias para governador não seria problemática se não decorresse de toda uma escalada temerária que percorreu desde 1998, o que o desgastou internamente e na sociedade. Em 1998, após a vitória de Olívio nas prévias, o PT conclamou Tarso a compor na vice ou na vaga ao senado, tarefas das quais se esquivou, preferindo compor a coordenação nacional da campanha Lula. Com a vitória de Olívio nas eleições, Tarso procurou voltar à cena política defendendo o impeachment de Fernando Henrique, tese que não sustentou no Encontro Nacional do PT. Depois, rompeu com José Fortunatti, que seria o candidato “natural” do PT Amplo à prefeitura de Porto Alegre. Tarso foi às prévias municipais e venceu Fortunatti e o prefeito Raul Pont prometendo, publicamente, na campanha eleitoral, que não abandonaria a prefeitura para concorrer ao governo do Estado. Menos de dois anos depois, renunciou à prefeitura para derrotar o governador Olívio Dutra nas prévias estaduais e se tornar o candidato do PT ao Palácio Piratini. Assim, completava um arriscado percurso para compensar o erro da recusa de 1998, que o afastara da chapa majoritária e do governo da Frente Popular no RS.

No processo de debate sobre as prévias para o governo do Estado, muitos pensaram que a proposição do nome de Tarso visava apenas garantir um reequilíbrio das forças internas, abrindo mais espaço para o campo moderado no próximo governo do PT. Poucos acreditavam, pelos riscos embutidos no processo – para o PT e para Tarso – que as prévias aconteceriam para valer. Hoje, não é possível minimizar o impacto que teve em Porto Alegre a renúncia do prefeito para se candidatar a governador, fato que se tornou peça-chave da campanha da oposição na cidade. As urnas mostraram que a renúncia foi um grave erro, que contribuiu não só para a derrota estadual, como também expôs o PT ao perigo de perder as próximas eleições no município. Tarso “venceu” Rigotto, na capital, por apenas 3.327 votos, enquanto, em 2000, para a prefeitura, derrotou Collares por 209.200, ao passo que, em 1998, para o governo do Estado, Olívio superou Britto em Porto Alegre por 182.452 votos.

Igualmente, não é possível tergiversar sobre a linha de campanha adotada que, em vários momentos, na sua operação, não seguiu adequadamente resoluções do Diretório Estadual. Por exemplo, aprovou-se no Diretório, por consenso, que a disputa no RS era plebiscitária em relação ao governo da Frente Popular, sendo uma eleição polarizada entre projetos, exigindo o ataque aos inimigos de classe, etc. A marca “Sim ao Rio Grande” incorporou o espírito da resolução, mas os discursos do candidato e o programa de rádio e TV não souberam fazer a ligação entre o que era e o que seria um futuro governo da Frente Popular.

Enquanto Britto caía e Rigotto subia, Tarso passou semanas estagnado nos 32% e só subiu no segundo turno, quando a campanha começou a enfatizar mais a defesa do Governo Olívio, coisa que não fez devidamente no primeiro, fragilizando um símbolo importante para a mobilização da militância da Frente Popular. E tanto este era um elemento tático importante das eleições que, tão logo foi usado, José Serra dedicou um programa nacional seu para atacar violentamente o governo do RS. Razões pelas quais torna-se inaceitável que aqueles que não defenderam o governo da Frente Popular tal como deveriam, queiram agora explicar a derrota política agravando ainda mais a sua avaliação sobre esse governo – que cometeu erros, é verdade, mas que tem virtudes sociais suficientes para ser apresentado, sem exagero, como o melhor governo da história do RS. Não é à toa que a direita se esforça para vender a vitória de Rigotto como fracasso geral do Governo Olívio.

A decisão de atacar Britto foi correta, mas a operação dessa tática exagerou no tom e no tempo (ela iniciou em julho e foi até setembro). A tônica dos discursos e panfletos de campanha concentrou-se demasiadamente no ataque a Britto, quando o PT havia decidido afirmar o governo atual e apresentar os projetos para o novo governo. Como uma parte da coordenação de campanha já tinha “escolhido” o adversário do segundo turno (Britto) e os aliados (PMDB), operaram a tática de bater em Britto e poupar Rigotto como potencial aliado, uma vez que Britto havia rompido com o PMDB. De outra parte, inimigos de classe, como a RBS, faziam a disputa diária sem resposta efetiva da campanha da Frente. A manipulação da RBS foi tão grosseira que o seu presidente, Nelson Sirotsky, julgou necessário vir a público, em editorial do jornal Zero Hora de 03/11/02, para se desculpar com a sociedade gaúcha, prometendo rever os “excessos” cometidos na divulgação de pesquisas. Contudo, a realidade é que na campanha o contraponto com a RBS não apareceu como elemento da disputa de projetos, até porque se centrou boa parte da tática numa aposta nas qualidades políticas do candidato.

Por fim, dentre as tantas razões que podem explicar a derrota do PT no RS, vem junto um aviso: além do fracasso em Porto Alegre, o PT perdeu em 22 das 35 prefeituras que governa, dentre elas Caxias do Sul, Santa Maria e Pelotas, que estão entre os cinco maiores colégios eleitorais do Estado. Ou seja, ou o PT, onde administra, se fortalece enquanto partido e na sua presença nos movimentos sociais, fazendo avançar a consciência popular, ou reduz-se à burocracia, ficando refém das crises impostas pelos limites do capitalismo e das ofensivas ideológicas da direita.


FRANCISCO XARÃO E PAULO DENISAR FRAGA

     


* Publicado no jornal Página 13, São Paulo, dezembro de 2002, p. 9-10. O Página 13 é órgão da Articulação de Esquerda, tendência interna do PT.


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