A
grandeza da vitória de Lula para a presidência da República
não pode servir de refúgio para o PT gaúcho se eximir de
uma profunda crítica e autocrítica sobre os erros que conduziram
à derrota em 27 de outubro de 2002, inviabilizando a continuidade
do Governo Democrático e Popular do RS.
Evidente que não se pode desconsiderar que o outro lado também
joga e que armou muito bem o seu contra-ataque à esquerda
no RS. Entretanto, nessa hora de avaliação, é mais importante
debruçar-se sobre os desacertos do PT do que sobre os acertos
do inimigo, haja vista que, em grande medida, a eficácia
destes decorreu da vigência daqueles.
A derrota eleitoral, e política,
do PT/RS pode ser pensada à luz da combinação de, pelo menos,
dois fatores fundamentais, que se articulam entre si: 1)
o desgaste do Governo Democrático e Popular, imposto pelo
cerco da RBS e por uma dura oposição social, política e
parlamentar, que corroboraram o fenômeno ideológico do antipetismo;
2) a disputa interna ao partido, que culminou com a derrota
do governador nas prévias e influenciou sobremaneira a linha
da campanha, cuja candidatura, já derivada de uma postura
crítica ao governo, vacilou na ênfase de sua defesa.
Olívio Dutra venceu a eleição em 1998 com 2.844.767 votos,
ou 49,49% dos votantes. A diferença entre ele e Britto foi
de 1,5%, ou 87.366 votos. Esses números dão a dimensão do
grau de polarização existente no Estado. Passado o pleito,
o lado derrotado estabeleceu imediatamente a sua estratégia:
unir todos contra o PT e derrotá-lo, em dois anos, para
as prefeituras e, em dois anos mais, para o governo do Estado.
Logo entenderam, até melhor do que muitos petistas, que
a força da estratégia democrática e popular estava justamente
na sua concepção: articular as lutas sociais e populares
a avanços e conquistas no plano institucional. Por isso,
trataram de interpor uma cunha entre as propostas do governo
e as demandas dos setores sociais que apoiaram a eleição
de Olívio, em especial os servidores públicos. A falta de
habilidade política de setores do governo, e de compreensão
do significado estratégico do Governo Olívio, por parte
de alguns dirigentes do movimento social, levaram a confrontos
duríssimos dentro do campo democrático e popular, enquanto
o campo opositor se fortalecia.
Enquanto isso, o governo estadual se isolava na disputa com
o governo federal, perdia a condução do fórum de governadores
e não conseguiu implementar a nova matriz tributária, derrotada
três vezes na Assembléia. Foi um governo de confronto não
porque fosse de concepção belicosa, mas porque não teve
trégua um só minuto de parte da direita, que contou sempre
com as manchetes da RBS.
Nesse contexto, a Democracia Socialista adotou uma postura
de autoproteção, tomando quase exclusivamente para si as
responsabilidades de governo e rebatendo toda e qualquer
crítica a sua postura enquanto corrente como se fosse uma
crítica ao governo como um todo. Com isso, afastou o governo
do partido e dos movimentos, criando uma situação que em
alguns casos colocou em risco a estratégia democrático-popular.
A Articulação de Esquerda, quando hegemonizada pelo grupo
que veio a formar o Pólo de Esquerda, também colaborou para
esta situação, fomentando, na sua base, um conflito de baixa
intensidade com o executivo, cujas questões eram, em boa
medida, derivadas das dificuldades da corrente coordenar
o trabalho de suas secretarias para a intervenção no centro
e nos rumos do governo. A AE e a DS foram mutuamente incapazes
de estabelecerem uma plataforma mínima de acordo para a
condução do governo. Isso se refletiu, primeiramente, no
resultado das prévias e, depois, na eleição.
Já a disputa pelo Diretório Estadual anunciava tal dificuldade
do período. Deste processo, o PT saiu mais fragmentado,
sem que nenhuma corrente política, sozinha, tivesse condições
de coordenar qualquer reaglutinação interna. Mas, como o
PT havia conquistado as prefeituras de quatro dos cinco
maiores colégios eleitorais do Estado, a nova direção estadual
e, com ela, boa parte da militância do partido, acreditaram
que a estratégia da direita estava derrotada.
Esse quadro positivo favoreceu a idéia de que o PT estava suficientemente
forte a ponto de se dar ao luxo de querelas internas que
cada vez mais tomavam as páginas da imprensa, colocando
– mesmo com a tentativa de se repactuar internamente o governo
– em curso o processo de disputa acerca de quem representaria
o PT na eleição de 2002. Para parte do campo moderado do
PT tratava-se, então, de fazer com que o governo não se
saísse tão mal a ponto de comprometer a reeleição e, no
sentido inverso, de não se sair tão bem que pudesse permitir
a vitória de Olívio nas prévias.
A vitória de Tarso nas prévias para governador não seria problemática
se não decorresse de toda uma escalada temerária que percorreu
desde 1998, o que o desgastou internamente e na sociedade.
Em 1998, após a vitória de Olívio nas prévias, o PT conclamou
Tarso a compor na vice ou na vaga ao senado, tarefas das
quais se esquivou, preferindo compor a coordenação nacional
da campanha Lula. Com a vitória de Olívio nas eleições,
Tarso procurou voltar à cena política defendendo o impeachment
de Fernando Henrique, tese que não sustentou no Encontro
Nacional do PT. Depois, rompeu com José Fortunatti, que
seria o candidato “natural” do PT Amplo à prefeitura de
Porto Alegre. Tarso foi às prévias municipais e venceu Fortunatti
e o prefeito Raul Pont prometendo, publicamente, na campanha
eleitoral, que não abandonaria a prefeitura para concorrer
ao governo do Estado. Menos de dois anos depois, renunciou
à prefeitura para derrotar o governador Olívio Dutra nas
prévias estaduais e se tornar o candidato do PT ao Palácio
Piratini. Assim, completava um arriscado percurso para compensar
o erro da recusa de 1998, que o afastara da chapa majoritária
e do governo da Frente Popular no RS.
No processo de debate sobre as prévias para o governo do Estado,
muitos pensaram que a proposição do nome de Tarso visava
apenas garantir um reequilíbrio das forças internas, abrindo
mais espaço para o campo moderado no próximo governo do
PT. Poucos acreditavam, pelos riscos embutidos no processo
– para o PT e para Tarso – que as prévias aconteceriam para
valer. Hoje, não é possível minimizar o impacto que teve
em Porto Alegre a renúncia do prefeito para se candidatar
a governador, fato que se tornou peça-chave da campanha
da oposição na cidade. As urnas mostraram que a renúncia
foi um grave erro, que contribuiu não só para a derrota
estadual, como também expôs o PT ao perigo de perder as
próximas eleições no município. Tarso “venceu” Rigotto,
na capital, por apenas 3.327 votos, enquanto, em 2000, para
a prefeitura, derrotou Collares por 209.200, ao passo que,
em 1998, para o governo do Estado, Olívio superou Britto
em Porto Alegre por 182.452 votos.
Igualmente, não é possível tergiversar sobre a linha de campanha
adotada que, em vários momentos, na sua operação, não seguiu
adequadamente resoluções do Diretório Estadual. Por exemplo,
aprovou-se no Diretório, por consenso, que a disputa no
RS era plebiscitária em relação ao governo da Frente Popular,
sendo uma eleição polarizada entre projetos, exigindo o
ataque aos inimigos de classe, etc. A marca “Sim ao Rio
Grande” incorporou o espírito da resolução, mas os discursos
do candidato e o programa de rádio e TV não souberam fazer
a ligação entre o que era e o que seria um futuro governo
da Frente Popular.
Enquanto Britto caía e Rigotto subia, Tarso passou semanas
estagnado nos 32% e só subiu no segundo turno, quando a
campanha começou a enfatizar mais a defesa do Governo Olívio,
coisa que não fez devidamente no primeiro, fragilizando
um símbolo importante para a mobilização da militância da
Frente Popular. E tanto este era um elemento tático importante
das eleições que, tão logo foi usado, José Serra dedicou
um programa nacional seu para atacar violentamente o governo
do RS. Razões pelas quais torna-se inaceitável que aqueles
que não defenderam o governo da Frente Popular tal como
deveriam, queiram agora explicar a derrota política agravando
ainda mais a sua avaliação sobre esse governo – que cometeu
erros, é verdade, mas que tem virtudes sociais suficientes
para ser apresentado, sem exagero, como o melhor governo
da história do RS. Não é à toa que a direita se esforça
para vender a vitória de Rigotto como fracasso geral do
Governo Olívio.
A decisão de atacar Britto foi correta, mas a operação dessa
tática exagerou no tom e no tempo (ela iniciou em julho
e foi até setembro). A tônica dos discursos e panfletos
de campanha concentrou-se demasiadamente no ataque a Britto,
quando o PT havia decidido afirmar o governo atual e apresentar
os projetos para o novo governo. Como uma parte da coordenação
de campanha já tinha “escolhido” o adversário do segundo
turno (Britto) e os aliados (PMDB), operaram a tática de
bater em Britto e poupar Rigotto como potencial aliado,
uma vez que Britto havia rompido com o PMDB. De outra parte,
inimigos de classe, como a RBS, faziam a disputa diária
sem resposta efetiva da campanha da Frente. A manipulação
da RBS foi tão grosseira que o seu presidente, Nelson Sirotsky,
julgou necessário vir a público, em editorial do jornal
Zero Hora de 03/11/02,
para se desculpar com a sociedade gaúcha, prometendo rever
os “excessos” cometidos na divulgação de pesquisas. Contudo,
a realidade é que na campanha o contraponto com a RBS não
apareceu como elemento da disputa de projetos, até porque
se centrou boa parte da tática numa aposta nas qualidades
políticas do candidato.
Por fim, dentre as tantas razões que podem explicar a derrota
do PT no RS, vem junto um aviso: além do fracasso em Porto
Alegre, o PT perdeu em 22 das 35 prefeituras que governa,
dentre elas Caxias do Sul, Santa Maria e Pelotas, que estão
entre os cinco maiores colégios eleitorais do Estado. Ou
seja, ou o PT, onde administra, se fortalece enquanto partido
e na sua presença nos movimentos sociais, fazendo avançar
a consciência popular, ou reduz-se à burocracia, ficando
refém das crises impostas pelos limites do capitalismo e
das ofensivas ideológicas da direita.