São
Paulo, novembro de 2002. Um crime choca o país. Um casal de
classe média alta, morador da região dos jardins são encontrados
mortos. A imprensa cria todo um clima de comoção nacional,
através de notícias e reportagens, pois o crime apresenta
sinais de extrema crueldade. O homem e a mulher foram encontrados
mortos com vários golpes recebidos na cabeça e no rosto. Policiais
chegam a comentar que o crime fora cometido com muita raiva,
de que havia muito ódio naquele que cometera tal assassinato.
Rapidamente começa a aparecer na imprensa e também entre a
população, opiniões acerca de quem teria cometido aquele crime
brutal, com requintes de perversidade. Chegam a falar de uma
empregada, que havia tido um atrito com a patroa, revelando
já um certo preconceito presente na sociedade brasileira.
Desconfiar sempre de alguém que provém das camadas sociais
mais baixas. Uma lógica de ver a prática de crimes tão brutais
como obra de gente que não tem “boa formação”, de pessoas
que não “têm dignidade”.
Com o decorrer do tempo, descobre-se finalmente quem eram os
autores do homicídio. Uma jovem de 19 anos, filha do casal,
com a ajuda do namorado e do irmão haviam cometido o assassinato.
A partir dessa constatação que deixa o país estarrecido, pessoas
comuns e profissionais das mais diferentes áreas começam a
dar opiniões sobre os motivos que levam uma jovem bem nascida
a cometer tal atrocidade. Uns falam que a moça tem distúrbio
de personalidade, outros que ela não tem caráter; há aqueles
que dizem que somente pessoas ingratas, que não respeitam
os pais, podem fazer uma barbaridade dessa. Outros ainda vaticinam
que isso é sinal dos tempos, que a sociedade está perdendo
seus valores morais, que redunda em desunião familiar, no
aumento da violência e no consumo de drogas. A “Minha Revista”,
periódico semanal, destaca em manchete de capa: “É o fim do
mundo – filha planeja a morte dos seus pais por amor ao namorado.
Um crime bárbaro que choca o país”.
Diante disso, cabe indagarmos se esse episódio pode ser explicado
em termos isolados ou precisamos entendê-lo de uma forma ampla.
Para ficar mais claro, será que esse ato cometido por essa
jovem foi único ou tem acontecido outro similar? Nossa hipótese
é de que isso não é um fenômeno isolado. Vamos dar alguns
exemplos, de que isso vem ocorrendo com uma certa freqüência:
vários jovens colocaram fogo num índio em Brasília, outros
espancaram um garçom em Porto Seguro, levando-o à morte e,
há uns oito anos atrás, uma estudante de direito em Santos,
com o auxílio do namorado, matou os pais. Em Maringá-PR, recentemente
um mendigo teve um pedaço de madeira cravado em um dos olhos,
que o levou a cegueira. Isso, para não falarmos de outros
crime menores que vem sendo cometido por jovens, como por
exemplo, agressões e assassinatos de homossexuais de forma
covarde em várias partes do país, constantemente denunciado
por entidades que os representa, mas que não recebem a devida
cobertura da imprensa. Talvez avaliando que esse tipo de notícia
não deve entrar na pauta, já que a percepção é de que são
“pessoas anormais”.
Portanto, são evidências claras de que o ato cometido por essa
jovem da classe média alta paulistana não foi isolado. Pesquisadores
têm demonstrado que cada vez mais, os jovens brasileiros estão
tendo comportamentos agressivos, violentos e cruéis. Clara
demonstração que não respeitam qualquer lei ou limite, quando
pretendem ou querem fazer alguma coisa. Poderíamos até falar
que crescem achando normal tal comportamento. Aliás, alguns
trabalhos demonstram que quando se trata de justiça no Brasil,
as crianças lembram do juiz com um martelo sobre a mesa, revelando
que conhecem mais o modelo norte-americano do que o brasileiro.
Na verdade, esse exemplo ilustra a desinformação a respeito
da lei e da justiça entre nós, conforme destaca Gisálio Cerqueira
Filho.
Quando esses jovens cometem esses crimes e são descobertos,
são assistidos pelos melhores advogados e, geralmente, com
o argumento de que não tinham a intenção de fazer tal coisa,
que foi um momento de fraqueza, forjando com isso, a legitimação
do ato ilícito cometido. Cria-se uma rede, composta pelo círculo
familiar e por outras pessoas que fazem parte dessa comunidade
dos “bens nascidos”, para proteger o jovem ou adolescente
que praticou o crime. Contudo, quando isso acontece no interior
da família ou entre os iguais, as coisas ficam mais complicadas.
Neste caso, a melhor forma de enfrentar a situação é explicá-la
em termos individuais, como se fosse um ato isolado, cometido
por alguém que tem uma mente psicótica, perturbada. Tal como
a revista se refere a notícia como mencionei anteriormente.
Consideramos que estaríamos justamente agindo como um avestruz,
ou para usarmos outro ditado popular, tapando o sol com a
peneira, se encararmos o problema dessa forma. Na realidade,
precisamos é começar a enfrentar o problema de frente, que
se refere justamente aos limites ou lei que devemos estabelecer
quando estamos socializando ou educando uma criança, sob pena
dela crescer não sabendo o que seja isso. Para usarmos outros
termos, ninguém pode crescer sem ter noção do que pode e do
que não pode fazer. É fundamental para o psiquismo, que haja
a internalização da instância da lei, tanto no nível subjetivo
como no coletivo.
Nesse processo de constituição de subjetividades, de representação
simbólica da lei, não se pode ser pai de mais e anular seu
filho, tornando-o a sua sombra, impedindo com isto, que ele
tenha uma vida autônoma quando estiver adulto, mas também
não pode ser pai de menos, pois ele pode crescer acreditando
que pode cometer qualquer ato. Com isso, estamos querendo
dizer que no processo de socialização da criança é necessário
que alguém a interdite, que alguém lhe mostre os limites,
atribuição da função paterna, que pode ser desempenhada também
pela mãe.
Convém lembrar que estamos falando de função paterna no sentido
simbólico, ou seja, daquele que tem a função de interditar,
de ser o Terceiro Absoluto. Essa tarefa inclusive, pode ser
desempenhada por pais biológicos ou não. Não pode ser autoritária,
pois aí, ao invés de instituir o respeito, acaba gerando o
medo. Ainda mais, um pai extremamente autoritário, fica muito
distante da criança, pois cria inúmeras barreiras que impede
o diálogo com o filho. Em suma, nessa relação pai/filho, não
pode haver falta e nem excesso. Pendendo para um lado ou para
o outro, a criança pode crescer na lógica “Eu, mim e eu mesmo”,
ou para usar a expressão do humor inglês: “I, me, myself”.
Portanto, o exercício da cidadania, começa a ser constituído
no interior das famílias, pois é justamente neste espaço que
começa a se aprender a noção de limite que, em última instância,
é o respeito à lei. Em outros termos, as pessoas não podem
se socializar na lógica do self-service normativo, utilizando
a norma conforme o poder que possuem ou em sua validade relativa
- norma que vale e que não vale; quando vale e quando não
vale.
A partir dessas considerações gostaria de trabalhar com a hipótese
de que vários atos cometidos por jovens em todo o país, devem-se
ao fato de que eles estão sendo educados ou socializados com
a sensação de que eles podem fazer tudo. Com a ilusão de tudo
querer, de tudo poder, enfim, de um narcisismo absoluto. Sem
essa referência tornamo-nos todos mini-Estados, conforme destaca
o cineasta Wim Wenders. Quanto a isso, é exemplar, uma propaganda
veiculada em vários canais de televisão em todo o país, onde
uma mãe flagra o filho quebrando o vidro de um carro e, para
surpresa geral, ela demonstra preocupação porque o filho não
estava usando uma blusa, que poderia deixá-lo doente. Ou seja,
ela está mais preocupada com o seu pequeno Rei, que criou
desde pequeno, e não com os danos materiais provocados pelo
seu “lindo filhinho”. Logicamente, que a propaganda está chamando
a atenção justamente para o fato de que se você achar normal
tudo o que o filho faz, ele poderá acabar fazendo coisas muitos
piores. Matar, por exemplo.
Nesse caso, será que as mães daqueles garotos que mataram o
índio Pataxó em Brasília, quando ficaram sabendo do que eles
haviam feito se preocuparam mais com seus “belos reizinhos”,
ou com o ato cometido? Um dos garotos chegou a falar que pensou
que fosse um mendigo, sinal claro do preconceito existente
na sociedade brasileira daqueles bem nascidos em relação à
população pobre. Sintoma também de um certo sentido histórico
da crueldade, como pondera Roberto Scharwz, ao analisar a
obra de Machado de Assis, ou quando Gilberto Freyre diz que
não há brasileiro de classe mais elevada, nascido e criado
depois de oficialmente abolida a escravidão, que não se sinta
aparentado ao menino Brás Cuba naquele mórbido deleite em
ser mau com os inferiores.
E quanto àqueles que mataram o garçom a pancadas em Porto Seguro,
será que novamente vai ser criada uma rede de proteção familiar
ou de grupos mais próximos, dizendo que eles cometeram tal
ato sem pensar, de que são atitudes tomadas devido aos arroubos
da juventude? Será que a tese de defesa vai ser no sentido
de que o sistema judiciário deve fazer justiça e não se vingar
de um garoto bem nascido, que cometeu apenas um “pequeno”
erro ou deslize na vida e que não pode ser crucificado? Os
advogados vão argumentar que não poderíamos pegá-lo como bode
expiatório das injustiças que acontecem no país? Não estou
com isso defendendo a pena de morte ou de que a justiça deva
voltar aos tempos da vingança, mas simplesmente mostrar a
existência de dois pesos e de duas medidas.
E se eles matassem à pancadas uma pessoa próxima, como seria
resolvido? E se um garoto de rua roubasse uma casa, as justificativas
seriam também as mesmas? Será que alguém ficaria sensibilizado
se a mãe de um garoto, que geralmente mora numa favela dessas
grandes cidades, falasse: “Coitado do meu filhinho”? Será
que a tese de defesa também seria feita no sentido de dizer
que ele sempre foi bom, que cometeu somente um “pequeno” deslize,
como roubar uma carteira, e não merece ser preso?
Temos a impressão de que estamos passando por uma situação,
na qual devemos mergulhar com mais afinco nos problemas da
formação das crianças no país, e que se tornarão os cidadãos
no futuro. No caso de Suzane em São Paulo, não poderíamos
conjeturar de que seja um sintoma da educação de nossos filhos.
Presumimos, de que ela cresceu podendo fazer tudo, que não
se falou para ela que existia limites, de que determinadas
coisas ela não podia fazer. Por conta disso, quando o pai
e a mãe disseram não, ela simplesmente não aceitou esse limite,
e a solução foi matá-los.
Poderíamos dizer, que é o retorno da criança onipotente, que
pode tudo, e quando os impedimentos aparecem, eles são simplesmente
eliminados. No caso de Suzane, com a morte dos pais, no exemplo
de Porto Seguro, com a morte do garçom. O fato é, esses jovens
ou adolescentes não aceitam um não como resposta, eles ignoram
a lei ou o limite. Mais ainda, crescem com a sensação de impunidade,
já que sempre foram tratados como pequenos reis no interior
de suas casas. Até lembra um personagem criado pelo humorista
Jô Soares, no qual um garoto ao perguntar para as pessoas
se poderia fazer tal coisa, a resposta era sempre “Sois rei!
Sois rei! Sois rei!”. Para um sujeito-rei, os únicos limites
são o próprio sujeito-rei, que tem poder de vida e de morte.
Gostaria de finalizar com uma indagação: Será que não teremos
de começar a pensar quais tipos de educação estamos dando
às nossas crianças? Não somente aquela formal, fornecida pela
escola, mas no seio das próprias famílias, para que nossas
crianças não cresçam com a percepção de que tem o “rei na
barriga”, para recorremos a um ditado popular.