A
chegada do PT ao governo federal tem sido interpretada, por
muitos analistas e estudiosos da política brasileira, como
sendo a resultante de uma firme guinada rumo ao centro. Não
falta mesmo quem veja, na trajetória recente deste partido,
uma aceitação, mais ou menos explícita, mais ou menos dissimulada,
das teses da social-democracia, a mais moderada das correntes
socialistas que se vincularam historicamente ao movimento
operário. Nesta visão,
o PT expressaria o reencontro da social-democracia com a classe
operária, uma espécie de reposição purificada do particular
tipo de socialismo praticado por esta corrente.
Creio que
deveríamos aceitar com mais reservas esta opinião. Não porque
não se possa vislumbrar, nos últimos anos, uma firme e clara
opção do PT pela moderação, pelo realismo e pelo pragmatismo.
Houve tudo isso, com certeza. O partido avançou rumo à vitória
eleitoral demonstrando uma inequívoca disposição de passar
em revista muitas de suas opções programáticas e particularmente
o seu modo de fazer e viver a política. Ainda não temos como
saber se esta disposição já se converteu numa nova cultura
para todo o universo petista, mas é um fato que ela passou
a orientar os passos da direção do partido.
As relações da esquerda com o centro
não são simples, nem lineares. A opção pelo entendimento com
determinadas forças de centro seria mesmo prova de “reformismo”
e moderação? Trairia seus ideais o partido que se dispusesse
a dilatar os tempos de seu programa máximo (as reformas socialistas)
e a fazer concessões a uma ampla coalizão política para conseguir
governar ou para pavimentar a estrada que levaria a uma investida
radical no futuro? Que condições seriam indispensáveis para
que um diálogo com o centro não se traduza em paralisia e
descaracterização para a esquerda?
É evidente
que o PT correrá riscos se for ao centro em nome da governabilidade
ou da mera constituição de um “capitalismo humanizado”. Na
verdade, a busca do centro necessita de um pólo esquerdo claro
e forte para servir de referência. O diálogo da esquerda com
o centro só fará sentido se for pensado em termos substantivos,
distante de casuísmos eleitorais ou daquele amor pela tática
que tantos tropeços propicia às forças progressistas. Para
a esquerda, o centro existe como algo a ser interpelado, tendo
em vista uma progressiva alteração dos equilíbrios políticos,
uma nova hegemonia.
É por isso
que o melhor modo de retratar a realidade do PT não é seguindo
o caminho que leva da esquerda para o centro. O que estamos
assistindo hoje é a transfiguração de um partido que se inseria
de modo quase exclusivo nos movimentos e nas lutas sociais
em um partido que se dispõe a deitar raízes consistentes no
Estado e no conjunto das instituições políticas. Tal transfiguração
contém um elemento inevitável de “moderação”: sua própria
progressão significa o reconhecimento da importância estratégica
do campo organizado pelas instituições, pelas normas, pelas
exigências da governabilidade, pelos tempos mais longos da
negociação política, e assim por diante. Há, portanto, nesta
operação, um risco efetivo de que se acabe por converter o
institucional no único horizonte possível, com o conseqüente
abandono do reformismo social.
A questão
que estaria posta hoje, portanto, é a de saber de que modo
o PT está passando do social para o institucional: se avança
perdendo os movimentos sociais que lhe estão no sangue ou
se avança deixando-se contagiar por eles, se atua para “domesticar”
o social, tirando-lhe a espontaneidade e a radicalidade, ou
se atua para imprimir ao social uma nova qualidade, fazendo
com que supere sua dispersão, seu corporativismo e se projete
como força efetivamente transformadora.
A opção da esquerda pelo institucional
não precisa se traduzir necessariamente em falta de combatividade
e moderação, mas isso é inevitável na medida em que ela perde
suas raízes sociais. O social e o institucional funcionam,
para a esquerda, não tanto como os dois lados de uma mesma
moeda, mas como as duas faces de um único rosto. A “esquerda
positiva” de que fala o cientista político Gildo Marçal Brandão
não pode se afirmar se for devorada por uma ou por outra destas
suas duas faces constitutivas.
Uma “esquerda de governo” não tem como
se erguer sem uma “esquerda de valores” ou sobre as cinzas
de uma “esquerda de luta”.