Nós,
mestiços, como sujeitos culturalmente híbridos que compõem a
maioria dos cidadãos deste país multiétnico e multirracial,
muitas vezes nos sentimos agredidos com a proposta do estabelecimento
de cotas para os afro-descendentes que possuem a cor da pele
mais escura, talvez porque ela contrarie duas importantes formas
de ideologia que fundamentam a nossa “razão de viver” e nos
motiva na construção de nossas trajetórias. Estou me referindo
à “ideologia do mérito” combinada com a “ideologia do branqueamento”.
Uso
aqui o termo ideologia como sinônimo de “ilusão necessária”,
ou seja, como uma visão distorcida das relações sociais, mas
que nasce da própria dinâmica das relações sociais, na convivência
entre indivíduos, classes sociais, grupos étnicos e raciais,
e encobre a reprodução da hierarquia econômica, entre proprietários
e não proprietários; da hierarquia social, entre burgueses,
camadas médias e trabalhadores braçais; da hierarquia política,
entre governantes e governados; e da hierarquia racial, entre
brancos e negros, presente nas formas de hierarquia citadas
anteriormente, através de formas de seleção pretensamente democráticas,
mas que negam na prática a possibilidade de ascensão social
para os negros no Brasil.
O
que fundamenta a ideologia meritocrática é a idéia segundo a
qual todos aqueles que se empenham e que são competentes acabam
aproveitando as oportunidades que surgem em suas vidas. Transformando
as dificuldades em desafios o portador do mérito vence a competição
pelas posições mais vantajosas no sistema sócio-econômico. Esse
é o sonho que anima as chamadas classes médias a uma emulação
sem limites, a um esforço sobre-humano, em busca da ascensão
social.
Uma
pergunta simples atesta a falsidade da ideologia meritocrática:
todos aqueles que possuem o mérito alcançam as posições hierárquicas
que desejam? Um interlocutor meritocrático poderia objetar:
quem não consegue a posição desejada é porque não possui realmente
o mérito.
Operando
desta maneira, como ideologia, o mérito serve para responsabilizar
o próprio indivíduo pela sua posição na hierarquia social, culpando-o
por um fracasso que só é produzido porque a estrutura social
é hierarquizada.
Como
a maioria da população brasileira possui ancestrais negros,
e como sobre os negros pesam preconceitos seculares que atribuem
a eles as características mais depreciadas pela cultura hegemônica
de origem européia, somando-se a isso o fato de que a maioria
dos negros se encontra nas posições mais desprestigiadas do
mercado de trabalho, para ascender socialmente o mestiço tenta
se afastar do polo negro de sua origem biológica, cultural e
sócio-econômica. Este mecanismo é denominado pelos estudiosos
das relações raciais no Brasil como “ideologia do branqueamento”.
Em
síntese, o mestiço que incorpora a ideologia do branqueamento
quer se esquecer de sua origem negra, desenvolvendo uma identidade
que torne possível a sua assimilação ao mundo dos brancos, considerado
mais prestigioso, elegante e próspero. A idéia de que na sociedade
brasileira vence quem possui o mérito é abraçada pelo mestiço,
que é levado a acreditar que a origem étnica e racial não é
tão relevante, afinal, somos todos iguais e é preciso ter competência
para vencer.
Combinadas,
as ideologias do mérito e do branqueamento encobrem a existência
de mecanismos discriminatórios, irracionais e muitas vezes inconscientes,
que dificultam o acesso às oportunidades de ascensão social
para os cidadãos negros que não podem passar por brancos, como
podem os mestiços de pele clara.
O
que fica escondido por essas ideologias do esforço individual
e da assimilação cultural é o fato de que quem não se “branqueia”
acaba discriminado. Com pouca ou nenhuma oportunidade, um cidadão
negro dificilmente desenvolve o mérito que permite a ascensão
social. É exatamente para atender às demandas de tal segmento
da população brasileira que está sendo proposta a implementação
de uma política que incentive o seu ingresso no ensino superior,
com um adequado acompanhamento pedagógico durante o curso –
as famosas cotas -, que tanta polêmica estão gerando.
Enquanto
não pudermos acabar com todas as formas de hierarquia que tornam
explosivas as relações sociais, é recomendável, ao menos, que
um cidadão não seja impedido de ocupar determinadas posições
sociais em virtude de sua origem étnica ou racial.
Através
do mecanismo emergencial das cotas espera-se que o acesso ao
ensino superior torne possível que muitos negros desenvolvam
as suas potencialidades. Os efeitos desta mudança sobre a condição
de vida da população negra só podem ser benéficos. Já sobre
o imaginário racista da maioria da população brasileira é imprevisível.
Dos
mestiços como eu, acredito que um pouco de solidariedade com
os que sofrem mais com os efeitos do racismo é o mínimo que
se pode esperar. Mas talvez não haja argumento capaz de convencer
quem possui um ponto de vista fundado em um pressuposto inconsciente
e que faz questão de mantê-lo devidamente esquecido.