"O namorado chega antes da hora,
na hora ou depois da hora, conforme que ama, ainda ama ou
não mais ama". (Condessa Diane, apud Mansour Challita)
Qual é o melhor posicionamento do pai
ou mãe quando a filha adolescente começa a namorar? Que
fazer quando eles dizem que estão na fase do "ficar"?
Proibir ou liberar? Se você conhece e gosta do rapaz ou
da moça simplesmente deixa as coisas acontecerem? E se você
não sabe quem é a pessoa ou suspeita que ela não serve para
sua filho (a), deve ou não se render a paixão amorosa dela?
Pior mesmo é quanto você tem indícios
de que o rapaz com quem sua filha está saindo usa drogas,
não estuda, nem trabalha e tem o corpo todo tatuado. Suzane
Richthofen que assassinou brutalmente os próprios pais,
teve o namoro proibido por eles. Paixão tóxica e drogas
parece ser uma combinação perigosa podendo levar a atos
trágicos como o "crime do Brooklin".
Sem querer sair em defesa dos pais,
também não pretendo acusá-los de terem indiretamente causado
o próprio assassinato como tem insinuado parte da grande
imprensa. É oportuno se estabelecer uma distinção entre
a função "profissional" e a função "pai"
e "mãe". Mesmo
sendo uma psiquiatra, alguém que trata da mente das pessoas,
tal como era a mãe de Suzane, em casa, naquela família,
seu posicionamento era sobretudo de "mãe" igualzinha
como as outras. O fato de ser formado numa faculdade, em
qualquer curso de Humanidades, não capacita a pessoa para
a função cada vez mais complexa e difícil, quase impossível,
de ser mãe e pai em nossa época. Como analisou E. Badinter
(1985), ser mãe não é uma função instintiva; implica sim
em reconhecer o seu desejo para esse papel confrontada ou orientada pelo “ideal de ego”,
que consiste em identificar-se
com sua própria mãe, avós, tias, vizinhas, enfim, pela via
da tradição, geração pós geração. Ora, estamos vivendo uma
ruptura desse aprendizado de sabedoria
popular resultando algumas conseqüências psíquicas
e sociais nada sadias, porque o montante de conhecimentos científicos e de informação
sobre como educar são insuficientes e vazias na prática.
Sabemos pela imprensa que os pais de
Suzane haviam perdido o controle sobre a filha duplamente
apaixonada pelo "cara" e pelas drogas. O pai teria
batido na filha adulta como se fosse uma criança, talvez
como um último recurso de impor limites a atitude dela que
teimava em continuar namorando um rapaz viciado em drogas,
que não estudava e nem trabalhava. Já consideramos em artigo
que o castigo físico pode levar um filho se sentir humilhado,
com raiva, e ressentido pode levá-lo a reações imprevisíveis
contra os próprios pais que passam a serem vistos como repressores
de seus impulsos e sabotadores de sua felicidade.
O "ficar",
o namoro e a paixão
Namoro sempre implica em paixão, sentimentos
ternos e desejo. No namoro e muito menos no "ficar"
não existe amor, propriamente dito, que é um sentimento
mais duradouro, harmonioso e construtivo. Parece que o "ficar"
nem chega a ser paixão, mas apenas impulso desejante do
momento, logo, ele tem um "contrato" de duração
curtíssima. O "ficar" é apenas para "ficar"
um momento, passar um tempo, preencher uma determinada ocasião,
trocar carícias ou até algo mais, portanto, tem um sentido
puramente pragmático. Já o namoro implica em estar apaixonado,
em querer algo mais. Estar apaixonado é como que virar as
costas para a razão.
Paixão significa sofrimento, desrazão
e egoísmo. A paixão tanto pode virar amor como também pode
virar "patologia" ou doença, que, sempre tem o poder de consumir a subjetividade
e o tempo da pessoa. Quanto mais impera a paixão, maior é
a possibilidade da pessoa cometer loucuras. Por isso que
Erasmo de Roterdan dizia que a paixões são reguladas pela
loucura. Hélio Pellegrino (1988), gostava de se referir
ao amor como "chão de liberdade". Liberdade que
necessita da Lei, não para aniquilar o desejo, nem para
reprimí-lo ou degradá-lo, mas para lhe dar sentido de existencia.
"A Lei é produto de Eros - não de Tânatos (...) ela
disciplina o desejo para guardar a vida, introduzindo, na
espessura do corpo e da carne, o clarão do Logos" (Pellegrino,
p. 313-4). A paixão "louca" nega tudo isso, instaurando
uma negação da Lei, da civilidade e da existência.
Por que a paixão implica em egoísmo? Porque "cada um só ama o
outro a partir de
si, não do outro. Sua infelicidade alimenta-se assim
de uma falsa reciprocidade, máscara de um duplo narcisismo.
A tal ponto que em certos momentos sentimos transparecer
no excesso da paixão [também um certo] ódio do amado..." (Rougemont: 42-3). Enfim, se a paixão não evoluir para o amor, sua tendência é destruir o seu objeto,
para satisfazer pulsões primitivas como o egoísmo.
A paixão na fase da adolescência é potencialmente
perigosa porque o sujeito está vivendo um momento de "vir-a-ser",
de vazio, de perversão, na qual tudo pode acontecer sem
o domínio da razão e da ética. Mas, há também uma dimensão positiva
da paixão: ela é um movimento da alma (psique)
em busca da ascese. Ou seja, o desenvolvimento da grandiosidade
do ser, de seu potencial criativo transformado em realização,
necessita das paixões – não apenas da paixão amorosa, mas
de todas: a raiva, a inveja, a ambição, etc. Por isso, Hegel
dizia que "nada de grande se faz sem paixão".
Que fazer com as paixões?
O problema da paixão é ela levar o sujeito
a perder o controle de si próprio. Desde os filósofos gregos
existe um certo preconceito em relação as paixões em estado
puro, como se realmente fosse
"impossível viver uma paixão sem ser totalmente dominado por ela".
Ou seja, mesmo “educada”, sempre há um real perigo de se
ficar cego...de paixão (não de amor), de "perder a
razão", ela não deixa o sujeito raciocinar direito,
obriga a pessoa a só pensar na pessoa "objeto da paixão"
e a fazer bobagens por ela, a rastejar se for preciso para
ter totalmente aquele amor, enfim, a paixão implica um "vale
tudo" para se "preencher a falta" alucinada
no Outro.
Rougemont (1972) recomenda um tratamento
da paixão: confrontar o sujeito apaixonado com a realidade.
Ou seja, apaixonado deveria ser forçado a ver o outro como
ele realmente é. E é isso o que o louco de paixão se nega
a fazer. Além disso, deveria fazê-lo reconhecer que na paixão
há gozo das pulsões, mas não o prazer do desejo. O choque
da realidade costuma vir quando os apaixonados se vêem vivendo
juntos, a paixão vai esfriando ou se transforma em amor,
que dizem ser mais duradouro.
Espinoza (2000) entendia que a única
maneira de educar uma paixão é despertar na pessoa outra
paixão mais forte e se possível “civilizada”. Enganam-se
aqueles que acham que uma paixão pode ser controlada totalmente
pela razão. Ou, que a "lei moral" pode "educar"
as paixões. G. Lebrun sinaliza que "em nome da lei
[moral] só se pode reprimir" as paixões. Mas, se o
caminho não é investir no discernimento racional ou na repressão
moral, se o melhor caminho é o de "criar" outra
paixão, surge uma inevitável pergunta: como despertar no
sujeito uma outra paixão mais forte? Como reforçá-la?
Uma das fortes paixões que poderiam
ser despertadas – se já existe - é entre pais e filhos,
entre irmãos, ou o que chamamos de "familidade".
O sentimento de "familidade" é o que faz dos membros
de uma família se sentirem "pertencentes" a essa
estrutura, do contrário seria apenas o agrupamento de desconhecidos
que vivem sob o mesmo teto. Ao contrário da familia conservadora
e repressora que criticava
W. Reich como a causadora das neuroses , o sentimento
de "familidade" faz parte do conjunto das paixões
que movem seus membros rumo a estudar, trabalhar, fazer
projetos, lutar pela sobrevivência da própria família, etc.
É algo que leva os indivíduos a se verem em "gestalt",
um todo dinâmico e diferenciado, algo de deve ter sido construído
desde o início de uma família. Alguns acham que antes dos
filhos nascerem, já deveria existir todos eles elementos
como projeto.
A relação pais e filhos nascida de um
projeto de "familidade" se alimenta primeiramente
no reconhecimento da existência e no carinho entre corpos,
depois é adicionado no reconhecimento das diferenças através
do diálogo e dos testes de vinculação e da confiança mútua
renovadas a cada situação nova. Não existe vínculo afetivo
sem carinho e respeito. Carinho é algo comunicativo (um
"agir comunicativo") que faz bem para o corpo
e para a alma. O carinho é uma manifestação de nosso
íntimo primitivo mas é o solo onde vai se desenvolver o
diálogo que implica em palavras, escuta, enfim, dialética
entre o eu e o outro. O diálogo pode substituir algumas
pulsões primitivas, não todas. Só existe verdadeiro diálogo
entre pais e filhos adultos se este foi construído na história
de ambos. O diálogo com os filhos desde pequenos é uma expressão
de um forte vínculo de amor entre as partes, formando um
todo que pode ser uma "garantia" para o adolescente
e o adulto autocontrolar as paixões "loucas".
Ou seja, na linha espinozista-aristotélica, uma paixão anteriormente
exercitada tende a ser mais forte diante de paixões imaturas
e "loucas" do presente.
Quando os pais são frios de paixão-amor
pelos filhos, o "tudo" material que eles dão tem
efeito de "nada". Os pais de hoje estão compensando
a sua ausência física e afetiva com coisas. Ouvi um zoologista
dizer que os pais urbanos já não sabem qual é o cheiro de
seus filhos porque apesar de viverem num mesmo espaço, pouco
se encontram e uma vez juntos, continuam nos seus mundos
particulares quase autistas, se esquecendo de dar e receber
carinho. Se entre os animais o toque e o cheiro são muito
importantes para a saúde, será que não fazem falta no ser
humano "civilizado"? Disse a advogada de Suzane
que a falta de carinho e diálogo que sentia com os pais,
era compensada na família do namorado. Argumenta ainda que
a repressão dos Richthofen a impedia de levar para sua casa
os amigos e o namorado (Folha SP, 24/11/02).
Evidentemente que irão ser considerados
durante o processo outros fatos da verdade da relação familiar.
Afinal, milhares de filhos pelo mundo afora não tiveram
carinho suficiente de seus pais repressores e nem por isso
passaram ao ato matando-os ou cometendo qualquer desatino.
Porém, os especialistas em relações humanas em geral, estão
de acordo que a presentificação dos pais, o carinho, o diálogo,
boas conversas constantes, são imprescindíveis tanto na
formação da personalidade dos filhos como na manutenção
da estrutura existencial da família.
Observa-se também que não basta aos
pais "con-versar", monologar, sobre assuntos como namoro, drogas,
sexo, etc. É preciso dialogar. E o que é dialogar? É você se posicionar
de pronto a também falar de si, trocar com o outro suas
próprias experiências, seus sentimentos, dizer como lidou
com eles? Como você se saiu como "pessoa", antes
de ser mãe ou pai? O diálogo é uma conquista cuja iniciativa
e manutenção deve partir dos pais. Silêncio e atitudes de
brabeza só tendem a agravar as coisas entre pais e filhos.
A autoridade dos pais (a Lei), em vez
de ser uma posição repressiva, tem a função de regular os limites da paixão
e da razão, conquista imprescindível no processo de educação.
Se os pais não
estiverem abertos, predispostos e preparados ao diálogo, combinados com
os atos
que delimitam a atitude dos filhos desde pequenos, é como
deixá-los abandonados à própria sorte de seus hormônios,
das paixões, das frustrações e das influências dos "amigos" de turma.
Relações verticais e
horizontais na pós modernidade
Apesar de alguns exageros, a psicóloga
norte-americana, Judith Harris, parece ter razão ao considerar
que a relação "vertical" dos pais-filhos hoje
foi substituída pela influência das relações "horizontal"
dos amigos, dos namoros, ou de outra família mais aberta
ou anárquica. Na verdade, com ou sem vínculos com os pais,
eles afirmam que "os amigos lhes são tudo". Os
jovens aboliram a família como valor de referência, a Lei-do-Pai
não vale mais nada. Em vez da Lei, surge um vazio de referências
que na emergência faz surgir um "vale tudo" sem
limites das parcerias "horizontais", com a vantagem
de se sustentar com a rede do sistema. Zizek (1999), analisa
que na pós modernidade não é o desejo que manda, mas o "vale
tudo" das pulsões. Ao contrário do que muita gente
pensa, vivemos numa sociedade que aparenta ser hedonista
e permissiva, mas é regida mas por um "superego pós
moderno"(sic!)
que nos obriga a gozar segundo as leis de mercado, a
ideologia do consumo e os imperativos narcísicos de aparecer
sendo um artista, um herói ou um criminoso.
Atualmente o jovem urbano parece preferir
"suas amizades" do que "suas relações familiares"
talvez porque a família se esgotou no repertório de valores
tradicionais que nada tem a dizer para os novos tempos,
talvez porque o jovem encontra mais sentido e acolhimento
junto aos seus pares do que a família que perdeu o sentido
de "familidade". Parece que um garoto "desgarrado"
tende a aceitar mais facilmente ser "adotado"
por um "pai" narcotraficante do que acredita que
pode melhorar a relação com seu próprio pai. Os chamados
"pais tóxicos" ou as "famílias disfuncionais",
são as que mais causam nos filhos a sensação de abandono,
de mal estar, de auto-estima em baixa, de falta de sentido
de viver, e que na maioria das vezes termina por levá-lo
a viver uma vida "autônoma" fora de casa e fora
da Lei. (É curioso observar que numa época em que tudo é
facilmente descartável, os casais também não se agüentam
muito tempo juntos e facilmente se separam. Os filhos que
vivem em família convencional invariavelmente são discriminados
pelas demais de pais separados).
Tenho dúvidas se os pais de Suzane eram
“tóxicos” (parece que tinham um bom relacionamento de casal
e familiar, considerando o geral), porém
sou obrigado a suspeitar que Suzane e seu namorado formavam
um “casal tóxico”, não só porque usavam drogas, mas porque
juntos provavelmente nem conseguiam ser felizes
e nem infelizes, na verdade, somente quando juntos se autorizam
a “serem maus e infelizes”; provavelmente se estivessem longe um
do outro jamais cometeriam crime, muito menos parricídio.
Concordo com Maria Rita Kehl, que vê nessa relação um "Folie
à deux."[loucura a dois], ou seja, pessoas que, fora
do laço da paixão amorosa pareciam mais ou menos "normais".
No entanto, discordo que nesse caso “a paixão correspondida
deixa os sujeitos mais em paz com seu próprio superego”.
Ora, uma paixão entorpecida não deixa um casal em paz com
seu superego. Um “casal tóxico” as pessoas são unidas pelo
laço ode se funda uma perversão capaz de tudo, desde loucurinhas
"normais" da paixão à insanidades extremas que
sozinhos não cometeriam. O laço passional-amoroso perverso
jamais deixava-os tranqüilos e satisfeitos, muito pelo contrário,
funcionava como uma droga, os entorpeciam, ficavam alterados,
agitados, ansiosos em limpar o caminho a qualquer preço
para enfim serem felizes com o dinheiro dos pais. A “loucura
a dois”, que não é loucura (psicose) mas "perversão
a dois", tal como o sistema que estamos inseridos,
materialista, estetista, consumista, fabrica algumas estruturas
psíquicas mais vulneráveis do que outras. Enquanto que a
maioria neurótica fica só na "fantasia" de eliminar
aqueles que atrapalham nosso caminho, outros passam
ao ato "mais ou menos criminoso", fanatizados
pela ideologia de que “vale tudo” para chegar lá.
Início do namoro, que
fazer?
Quando surge "o ficar", os
primeiros namoros, é preciso que os pais se ofereçam aos
seus filhos como depositários de confiança. Um bonito presente
de confiança é quando um de nós (mãe ou pai) é escolhido
pelo filha (o) para contar o que ela (e) está "ficando"
ou está apaixonada (o) por alguém. Em vez dos pais responderem
com monólogos moralistas, dar pitos, surras, é momento deles
demonstrarem maturidade, primeiro se posicionando em lugar
de "escuta", saber como ela (e) está vivendo o
sentimento, quem é a pessoa, sua família, como vai na escola,
o que pretende estudar no futuro, bem como as conseqüências
dessa relação na vida da (o) filha (o). Segundo, proceder
tal como o estilo do governo Lula: é hora de chamar as partes
para um reconhecimento e conversar; é preciso negociar algumas
regras de namoro (limites), sinalizando-lhes o fato de que
ainda são menores, logo, ainda estão sob a responsabilidade
dos pais... Alguns princípios e regras são negociáveis,
porém outros são inegociáveis, de acordo os princípios e valores daquela estrutura
familiar que pertence a moça ou o rapaz.
Os pais de hoje são mais abertos do
que seus próprios pais para conversar temas importantes,
mas ainda existe resistência e despreparo em estabelecer
um dialogo autêntico, respeitando os sentimentos e a escolhas
deles. Segundo uma pesquisa só
34 % dos pais conseguem na prática dialogar com os filhos.
O namoro dos filhos é um momento muito
especial, delicado, de alto risco, e por isso mesmo é mais
prudente acolher
em vez de simplesmente reprimir. É preciso adubar esse terreno
com diálogo fértil, tendo cuidado com os sentimentos
envolvidos e inserir atos firmes, mas com prudência,
como se fosse uma coisa diplomática.