Filhos namorando: perigo à vista?

O parricídio [1] do Brooklin de São Paulo nos obriga a uma profunda reflexão sobre as amizades e o namoro dos filhos, a paixão "louca" e as drogas.

 

Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP).


"O namorado chega antes da hora, na hora ou depois da hora, conforme que ama, ainda ama ou não mais ama". (Condessa Diane, apud Mansour Challita)

 

Qual é o melhor posicionamento do pai ou mãe quando a filha adolescente começa a namorar? Que fazer quando eles dizem que estão na fase do "ficar"? Proibir ou liberar? Se você conhece e gosta do rapaz ou da moça simplesmente deixa as coisas acontecerem? E se você não sabe quem é a pessoa ou suspeita que ela não serve para sua filho (a), deve ou não se render a paixão amorosa dela?

Pior mesmo é quanto você tem indícios de que o rapaz com quem sua filha está saindo usa drogas, não estuda, nem trabalha e tem o corpo todo tatuado. Suzane Richthofen que assassinou brutalmente os próprios pais, teve o namoro proibido por eles. Paixão tóxica e drogas parece ser uma combinação perigosa podendo levar a atos trágicos como o "crime do Brooklin".

Sem querer sair em defesa dos pais, também não pretendo acusá-los de terem indiretamente causado o próprio assassinato como tem insinuado parte da grande imprensa. É oportuno se estabelecer uma distinção entre a função "profissional" e a função "pai" e "mãe".  Mesmo sendo uma psiquiatra, alguém que trata da mente das pessoas, tal como era a mãe de Suzane, em casa, naquela família, seu posicionamento era sobretudo de "mãe" igualzinha como as outras. O fato de ser formado numa faculdade, em qualquer curso de Humanidades, não capacita a pessoa para a função cada vez mais complexa e difícil, quase impossível, de ser mãe e pai em nossa época. Como analisou E. Badinter (1985), ser mãe não é uma função instintiva; implica sim em reconhecer o seu desejo para esse papel confrontada ou orientada pelo “ideal de ego”, que consiste em identificar-se com sua própria mãe, avós, tias, vizinhas, enfim, pela via da tradição, geração pós geração. Ora, estamos vivendo uma ruptura desse aprendizado de sabedoria popular resultando algumas conseqüências psíquicas e sociais nada sadias, porque o montante de conhecimentos científicos e de informação sobre como educar são insuficientes e vazias na prática.

Sabemos pela imprensa que os pais de Suzane haviam perdido o controle sobre a filha duplamente apaixonada pelo "cara" e pelas drogas. O pai teria batido na filha adulta como se fosse uma criança, talvez como um último recurso de impor limites a atitude dela que teimava em continuar namorando um rapaz viciado em drogas, que não estudava e nem trabalhava. Já consideramos em artigo que o castigo físico pode levar um filho se sentir humilhado, com raiva, e ressentido pode levá-lo a reações imprevisíveis contra os próprios pais que passam a serem vistos como repressores de seus impulsos e sabotadores de sua felicidade.

O "ficar", o namoro e a paixão

Namoro sempre implica em paixão, sentimentos ternos e desejo. No namoro e muito menos no "ficar" não existe amor, propriamente dito, que é um sentimento mais duradouro, harmonioso e construtivo. Parece que o "ficar" nem chega a ser paixão, mas apenas impulso desejante do momento, logo, ele tem um "contrato" de duração curtíssima. O "ficar" é apenas para "ficar" um momento, passar um tempo, preencher uma determinada ocasião, trocar carícias ou até algo mais, portanto, tem um sentido puramente pragmático. Já o namoro implica em estar apaixonado, em querer algo mais. Estar apaixonado é como que virar as costas para a razão [2] .

Paixão significa sofrimento, desrazão e egoísmo. A paixão tanto pode virar amor como também pode virar "patologia" ou doença,  que, sempre tem o poder de consumir a subjetividade e o tempo da pessoa [3] . Quanto mais impera a paixão, maior é a possibilidade da pessoa cometer loucuras. Por isso que Erasmo de Roterdan dizia que a paixões são reguladas pela loucura. Hélio Pellegrino (1988), gostava de se referir ao amor como "chão de liberdade". Liberdade que necessita da Lei, não para aniquilar o desejo, nem para reprimí-lo ou degradá-lo, mas para lhe dar sentido de existencia. "A Lei é produto de Eros - não de Tânatos (...) ela disciplina o desejo para guardar a vida, introduzindo, na espessura do corpo e da carne, o clarão do Logos" (Pellegrino, p. 313-4). A paixão "louca" nega tudo isso, instaurando uma negação da Lei, da civilidade e da existência.

Por que a paixão implica em egoísmo? Porque "cada um só ama o outro a partir de si, não do outro. Sua infelicidade alimenta-se assim de uma falsa reciprocidade, máscara de um duplo narcisismo. A tal ponto que em certos momentos sentimos transparecer no excesso da paixão [também um certo] ódio do amado..." (Rougemont: 42-3). Enfim, se a paixão não evoluir para o amor [4] , sua tendência é destruir o seu objeto, para satisfazer pulsões primitivas como o egoísmo.

A paixão na fase da adolescência é potencialmente perigosa porque o sujeito está vivendo um momento de "vir-a-ser", de vazio, de perversão, na qual tudo pode acontecer sem o domínio da razão e da ética [5] . Mas, há também uma dimensão positiva da paixão: ela é um movimento da alma (psique) em busca da ascese. Ou seja, o desenvolvimento da grandiosidade do ser, de seu potencial criativo transformado em realização, necessita das paixões – não apenas da paixão amorosa, mas de todas: a raiva, a inveja, a ambição, etc. Por isso, Hegel dizia que "nada de grande se faz sem paixão".

Que fazer com as paixões?

O problema da paixão é ela levar o sujeito a perder o controle de si próprio. Desde os filósofos gregos existe um certo preconceito em relação as paixões em estado puro, como se realmente fosse  "impossível viver uma paixão sem ser totalmente dominado por ela". Ou seja, mesmo “educada”, sempre há um real perigo de se ficar cego...de paixão (não de amor), de "perder a razão", ela não deixa o sujeito raciocinar direito, obriga a pessoa a só pensar na pessoa "objeto da paixão" e a fazer bobagens por ela, a rastejar se for preciso para ter totalmente aquele amor, enfim, a paixão implica um "vale tudo" para se "preencher a falta" alucinada no Outro.

Rougemont (1972) recomenda um tratamento da paixão: confrontar o sujeito apaixonado com a realidade. Ou seja, apaixonado deveria ser forçado a ver o outro como ele realmente é. E é isso o que o louco de paixão se nega a fazer. Além disso, deveria fazê-lo reconhecer que na paixão há gozo das pulsões, mas não o prazer do desejo. O choque da realidade costuma vir quando os apaixonados se vêem vivendo juntos, a paixão vai esfriando ou se transforma em amor, que dizem ser mais duradouro. 

Espinoza (2000) entendia que a única maneira de educar uma paixão é despertar na pessoa outra paixão mais forte e se possível “civilizada”. Enganam-se aqueles que acham que uma paixão pode ser controlada totalmente pela razão. Ou, que a "lei moral" pode "educar" as paixões. G. Lebrun sinaliza que "em nome da lei [moral] só se pode reprimir" as paixões. Mas, se o caminho não é investir no discernimento racional ou na repressão moral, se o melhor caminho é o de "criar" outra paixão, surge uma inevitável pergunta: como despertar no sujeito uma outra paixão mais forte? Como reforçá-la?

Uma das fortes paixões que poderiam ser despertadas – se já existe - é entre pais e filhos, entre irmãos, ou o que chamamos de "familidade". O sentimento de "familidade" é o que faz dos membros de uma família se sentirem "pertencentes" a essa estrutura, do contrário seria apenas o agrupamento de desconhecidos que vivem sob o mesmo teto. Ao contrário da familia conservadora e repressora que criticava  W. Reich como a causadora das neuroses , o sentimento de "familidade" faz parte do conjunto das paixões que movem seus membros rumo a estudar, trabalhar, fazer projetos, lutar pela sobrevivência da própria família, etc. É algo que leva os indivíduos a se verem em "gestalt", um todo dinâmico e diferenciado, algo de deve ter sido construído desde o início de uma família. Alguns acham que antes dos filhos nascerem, já deveria existir todos eles elementos como projeto.

A relação pais e filhos nascida de um projeto de "familidade" se alimenta primeiramente no reconhecimento da existência e no carinho entre corpos, depois é adicionado no reconhecimento das diferenças através do diálogo e dos testes de vinculação e da confiança mútua renovadas a cada situação nova. Não existe vínculo afetivo sem carinho e respeito. Carinho é algo comunicativo (um "agir comunicativo") que faz bem para o corpo e para a alma [6] . O carinho é uma manifestação de nosso íntimo primitivo mas é o solo onde vai se desenvolver o diálogo que implica em palavras, escuta, enfim, dialética entre o eu e o outro. O diálogo pode substituir algumas pulsões primitivas, não todas. Só existe verdadeiro diálogo entre pais e filhos adultos se este foi construído na história de ambos. O diálogo com os filhos desde pequenos é uma expressão de um forte vínculo de amor entre as partes, formando um todo que pode ser uma "garantia" para o adolescente e o adulto autocontrolar as paixões "loucas". Ou seja, na linha espinozista-aristotélica, uma paixão anteriormente exercitada tende a ser mais forte diante de paixões imaturas e "loucas" do presente.

Quando os pais são frios de paixão-amor pelos filhos, o "tudo" material que eles dão tem efeito de "nada". Os pais de hoje estão compensando a sua ausência física e afetiva com coisas. Ouvi um zoologista dizer que os pais urbanos já não sabem qual é o cheiro de seus filhos porque apesar de viverem num mesmo espaço, pouco se encontram e uma vez juntos, continuam nos seus mundos particulares quase autistas, se esquecendo de dar e receber carinho. Se entre os animais o toque e o cheiro são muito importantes para a saúde, será que não fazem falta no ser humano "civilizado"? Disse a advogada de Suzane que a falta de carinho e diálogo que sentia com os pais, era compensada na família do namorado. Argumenta ainda que a repressão dos Richthofen a impedia de levar para sua casa os amigos e o namorado (Folha SP, 24/11/02).

Evidentemente que irão ser considerados durante o processo outros fatos da verdade da relação familiar. Afinal, milhares de filhos pelo mundo afora não tiveram carinho suficiente de seus pais repressores e nem por isso passaram ao ato matando-os ou cometendo qualquer desatino. Porém, os especialistas em relações humanas em geral, estão de acordo que a presentificação dos pais, o carinho, o diálogo, boas conversas constantes, são imprescindíveis tanto na formação da personalidade dos filhos como na manutenção da estrutura existencial da família.

Observa-se também que não basta aos pais "con-versar", monologar, sobre assuntos como namoro, drogas, sexo, etc. É preciso dialogar. E o que é dialogar? É você se posicionar de pronto a também falar de si, trocar com o outro suas próprias experiências, seus sentimentos, dizer como lidou com eles? Como você se saiu como "pessoa", antes de ser mãe ou pai? O diálogo é uma conquista cuja iniciativa e manutenção deve partir dos pais. Silêncio e atitudes de brabeza só tendem a agravar as coisas entre pais e filhos.

A autoridade dos pais (a Lei), em vez de ser uma posição repressiva, tem a função de regular os limites da paixão e da razão, conquista imprescindível no processo de educação. Se os pais não estiverem abertos, predispostos e preparados ao diálogo, combinados com os atos que delimitam a atitude dos filhos desde pequenos, é como deixá-los abandonados à própria sorte de seus hormônios, das paixões, das frustrações e das  influências dos "amigos" de turma.

Relações verticais e horizontais na pós modernidade

Apesar de alguns exageros, a psicóloga norte-americana, Judith Harris, parece ter razão ao considerar que a relação "vertical" dos pais-filhos hoje foi substituída pela influência das relações "horizontal" dos amigos, dos namoros, ou de outra família mais aberta ou anárquica. Na verdade, com ou sem vínculos com os pais, eles afirmam que "os amigos lhes são tudo". Os jovens aboliram a família como valor de referência, a Lei-do-Pai não vale mais nada. Em vez da Lei, surge um vazio de referências que na emergência faz surgir um "vale tudo" sem limites das parcerias "horizontais", com a vantagem de se sustentar com a rede do sistema. Zizek (1999), analisa que na pós modernidade não é o desejo que manda, mas o "vale tudo" das pulsões. Ao contrário do que muita gente pensa, vivemos numa sociedade que aparenta ser hedonista e permissiva, mas é regida mas por um "superego pós moderno"(sic!) que nos obriga a gozar segundo as leis de mercado, a ideologia do consumo e os imperativos narcísicos de aparecer sendo um artista, um herói ou um criminoso.

Atualmente o jovem urbano parece preferir "suas amizades" do que "suas relações familiares" talvez porque a família se esgotou no repertório de valores tradicionais que nada tem a dizer para os novos tempos, talvez porque o jovem encontra mais sentido e acolhimento junto aos seus pares do que a família que perdeu o sentido de "familidade". Parece que um garoto "desgarrado" tende a aceitar mais facilmente ser "adotado" por um "pai" narcotraficante do que acredita que pode melhorar a relação com seu próprio pai. Os chamados "pais tóxicos" [7] ou as "famílias disfuncionais", são as que mais causam nos filhos a sensação de abandono, de mal estar, de auto-estima em baixa, de falta de sentido de viver, e que na maioria das vezes termina por levá-lo a viver uma vida "autônoma" fora de casa e fora da Lei. (É curioso observar que numa época em que tudo é facilmente descartável, os casais também não se agüentam muito tempo juntos e facilmente se separam. Os filhos que vivem em família convencional invariavelmente são discriminados pelas demais de pais separados).

Tenho dúvidas se os pais de Suzane eram “tóxicos” (parece que tinham um bom relacionamento de casal e familiar, considerando o geral), porém sou obrigado a suspeitar que Suzane e seu namorado formavam um “casal tóxico”, não só porque usavam drogas, mas porque juntos provavelmente nem conseguiam ser felizes e nem infelizes, na verdade, somente quando juntos se autorizam a “serem maus e infelizes” [8] ; provavelmente se estivessem longe um do outro jamais cometeriam crime, muito menos parricídio. Concordo com Maria Rita Kehl, que vê nessa relação um "Folie à deux."[loucura a dois], ou seja, pessoas que, fora do laço da paixão amorosa pareciam mais ou menos "normais". No entanto, discordo que nesse caso “a paixão correspondida deixa os sujeitos mais em paz com seu próprio superego”. Ora, uma paixão entorpecida não deixa um casal em paz com seu superego. Um “casal tóxico” as pessoas são unidas pelo laço ode se funda uma perversão capaz de tudo, desde loucurinhas "normais" da paixão à insanidades extremas que sozinhos não cometeriam. O laço passional-amoroso perverso jamais deixava-os tranqüilos e satisfeitos, muito pelo contrário, funcionava como uma droga, os entorpeciam, ficavam alterados, agitados, ansiosos em limpar o caminho a qualquer preço para enfim serem felizes com o dinheiro dos pais. A “loucura a dois”, que não é loucura (psicose) mas "perversão a dois", tal como o sistema que estamos inseridos, materialista, estetista, consumista, fabrica algumas estruturas psíquicas mais vulneráveis do que outras. Enquanto que a maioria neurótica fica só na "fantasia" de eliminar aqueles que atrapalham nosso caminho, outros passam ao ato "mais ou menos criminoso", fanatizados pela ideologia de que “vale tudo” para chegar lá.

Início do namoro, que fazer?

Quando surge "o ficar", os primeiros namoros, é preciso que os pais se ofereçam aos seus filhos como depositários de confiança. Um bonito presente de confiança é quando um de nós (mãe ou pai) é escolhido pelo filha (o) para contar o que ela (e) está "ficando" ou está apaixonada (o) por alguém. Em vez dos pais responderem com monólogos moralistas, dar pitos, surras, é momento deles demonstrarem maturidade, primeiro se posicionando em lugar de "escuta", saber como ela (e) está vivendo o sentimento, quem é a pessoa, sua família, como vai na escola, o que pretende estudar no futuro, bem como as conseqüências dessa relação na vida da (o) filha (o). Segundo, proceder tal como o estilo do governo Lula: é hora de chamar as partes para um reconhecimento e conversar; é preciso negociar algumas regras de namoro (limites), sinalizando-lhes o fato de que ainda são menores, logo, ainda estão sob a responsabilidade dos pais... Alguns princípios e regras são negociáveis, porém outros são inegociáveis, de acordo os princípios e valores daquela estrutura familiar que pertence a moça ou o rapaz. 

Os pais de hoje são mais abertos do que seus próprios pais para conversar temas importantes, mas ainda  existe resistência e despreparo em estabelecer um dialogo autêntico, respeitando os sentimentos e a escolhas deles. Segundo uma pesquisa só 34 % dos pais conseguem na prática dialogar com os filhos.

O namoro dos filhos é um momento muito especial, delicado, de alto risco, e por isso mesmo é mais prudente acolher em vez de simplesmente reprimir. É preciso adubar esse terreno com diálogo fértil, tendo cuidado com os sentimentos  envolvidos e inserir atos firmes, mas com prudência, como se fosse uma coisa diplomática.

 

RAYMUNDO DE LIMA

     

[1] O parricídio sendo mitológico nos coloca um enígma sobre o destino, a vida, a escolha do caminho ético, etc. Na mitologia grega, Édipo mata o pai (Laio) e desposa sua mãe (Jocasta), mas um detalhe importante: ele não sabia que Laio e Jocasta eram seus pais verdadeiros, pois tinha sido criado pensando que fosse filho legítimo do casal de camponeses, Políbio e Mérope. No crime do Brooklin, Suzane evidentemente tanto sabia como ajudou a planejar o assassinato de seus pais verdadeiros. Outra análise a ser feita deveria distinguir o simbolismo implicado na "tragédia" do acontecimento "trágico". Sinalizo que esse artigo, apesar de tomar o crime do Brooklin  como ponto de partida para pensar os riscos de namoro, de paixão, potencializados com a droga, não tem a pretensão de "psicanalisar" os envolvidos no crime.

[2] "O apaixonado não é simplesmente um estouvado que comete um engano; é um desvairado que deu as costas (apostrophé) à razão". (Lebrun, G. O conceito de paixão. In: Os sentidos da paixão. São Paulo: C. Letras, 1988).

[3] Conferir matéria "Cientista desvenda lado doentio da paixão", publicado na Folha de S. Paulo-Cad. Cotidiano, 15/ 08/ 1999.

[4] Muitos ousaram distinguir a "paixão amorosa" do "amor", propriamente dito. Rougemont distingue ambos a partir de seus sintomas: Enquanto que uma reação "normal" do amor é dar carinho ao outro, fazer amor ou se entregar ao "ato sexual", a reação da paixão se assemelha a alergia, em que o apaixonado é subitamente acometido de uma reação excessiva a um agente externo que é normalmente inofensivo, mas que se repete, por razões que todos desconhecem, provoca em quem foi sensibilizado por um primeiro contato por uma supercompensação violenta, um mal estar, "uma febre quase mortal em alguns casos ou de um delírio que ora faz gritar de dor, ora conduz ao êxtase, ora leva ao crime, ora induz ao suicídio, ora transfigura o mundo, ora o devasta aos olhos do doente que geme, porém receia cursar-se e recusa o tratamento" (p. 267-8).

[5] Os psicanalistas argentinos, nos anos 70, se referiam a Síndrome Normal da Adolescência (M. Knobel e A. Aberastury), em que havia predominância de "psicopatia normal", caracterizada pela insensibilidade, ausência de vergonha e culpa principalmente quando em pares, atitudes de oposição aos pais e a sociedade, etc.

[7] "Pais tóxicos" é um conceito forjado pela psicóloga norte-americana Susan Forward, para pessoas exageradamente críticas, despóticas, individualistas ou imprevisíveis que solapam a auto-estima ou a autonomia dos filhos ou lhes dão autonomia demais muito cedo, dando-lhes a sensação de que estão abandonados no mundo, é quando os adolescentes buscam mais ainda fortalecer os vínculos "horizontais" com os colegas. Até porque, na prática, na falta de vínculo de amor ou amizade em casa, só resta compensar com uma prótese afetiva fora de casa. "Pais disfuncionais" é usado por Judith Harris, quase com o mesmo sentido. Como diz a autora, “não é divertido visitá-las e você não gostaria de morar nas casas delas”(p. 372). (Ver: Harris, J. Digas com quem andas... Rio de Janeiro: Objetiva, 1999).

[8] ‘Sou mau porque sou infeliz’ . Tenho a impressão de que a maioria dos supostos “maus” que estão pelo mundo , poderiam dizer o mesmo, se fossem sinceros. (Savater, F, Ética para o meu filho, p. 126).

Bibliografia

Batinter, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio: Nova Fronteira, 1985.

Blanco, A. Cientista desvenda lado doentio da paixão. In: Folha de S. Paulo-Cad. Cotidiano, 15/ 08/ 1999.

Espinoza, apud  Durant, W. História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural. 2000.

Harris, J. Digas com quem andas... Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.

Khel, M. R. Banalidade do mal e fantasia telenovelesca. In: Folha de S. Paulo-cad. Mais! 24/11/2002.

Lebrun, G. O conceito de paixão. In: Os sentidos da paixão. São Paulo: C. Letras, 1988

Lima, R. Pais e filhos:  carinho faz bem. In: Revista Espaço Acadêmico, Ano 2, nº 11, abril de 2002.

Pellegrino, H. Édipo e paixão. In: Os sentidos da Paixão: C. Letras, 1988, p. 307-327.

Rougemont, D. O amor e o ocidente. Rio: Guanabara, 1972.

Savater, F. Ética para o meu filho. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Zizek, S. O superego pós-moderno. In: Folha d S. Paulo, cad. Mais!, 23/ 05/ 1999

 


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