Foto:
Barão do Rio Branco*
A primeira constatação que se pode fazer a propósito da provável
política externa do futuro governo do presidente Luís Inácio
Lula da Silva é a de que se tratará de uma diplomacia evolutiva,
tanto em seus contornos conceituais como em seu modus
operandi. No dia seguinte à sua eleição consagradora no
segundo turno das eleições presidenciais, e não conhecido ainda
o nome que integrará seu futuro governo na qualidade de chanceler
– que poderia ser tanto um representante da diplomacia profissional,
como um “civil” com conhecimento da área –, pode-se dizer que
o PT percorreu um longo caminho de construção tentativa de um
pensamento em política externa, desde o programa de cunho socializante
do partido criado mais de duas décadas atrás, até o programa
da campanha presidencial de 2002 e, mais importante, o primeiro
pronunciamento oficial do presidente eleito, em 28 de outubro
de 2002.
Com efeito, o programa fundacional do PT previa uma “política
internacional de solidariedade entre os povos oprimidos e de
respeito mútuo entre as nações que aprofunde a cooperação e
sirva à paz mundial. O PT apresenta com clareza sua solidariedade
aos movimentos de libertação nacional...” Não constava, do primeiro
programa, menção explícita à “política externa”, mas, o “plano
de ação” contemplava os seguintes pontos em seu item “VI- Independência
Nacional: contra a dominação imperialista; política externa
independente; combate a espoliação pelo capital internacional;
respeito à autodeterminação dos povos e solidariedade aos povos
oprimidos”. Como se vê, uma plataforma típica dos partidos
esquerdistas da América Latina no período clássico da Guerra
Fria e dos “movimentos de libertação nacional”.
Desde então, o partido e seus dirigentes evoluíram sensivelmente,
mas o itinerário não deixou de ser algo errático, ou pelo menos
hesitante (ou relutante) na adesão a princípios consagrados
da política externa brasileira, como poderia ser observado mediante
um exame perfunctório dos principais temas de relações internacionais
do Brasil selecionados como plataforma de campanha nas eleições
presidenciais de 1989 até hoje. Vejamos rapidamente algumas
dessas posições.
Em 1989, a principal característica do candidato Lula era sua
identificação com a luta dos oprimidos da América Latina. O
candidato do PT apresentou um amplo e abrangente programa de
governo e, segundo se depreendia das resoluções políticas adotadas
pelo Partido em seu IV Encontro Nacional (junho de 1989), pretendia
propor uma “política externa independente e soberana, sem alinhamentos
automáticos, pautada pelos princípios de autodeterminação dos
povos, não-ingerência nos assuntos internos de outros países
e pelo estabelecimento de relações com governos e nações em
busca da cooperação à base de plena igualdade de direitos e
benefícios mútuos”.
Mesmo se esses princípios não diferiam muito da política externa
efetivamente seguida pelo Brasil, ainda assim uma vitória do
candidato-trabalhador, representaria uma reavaliação radical
das posturas brasileiras na área, já que a “Frente Brasil Popular”
prometia adotar uma “política antiimperialista, prestando solidariedade
irrestrita às lutas em defesa da autodeterminação e da soberania
nacional, e a todos os movimentos em favor da luta dos trabalhadores
pela democracia, pelo progresso social e pelo socialismo”. Um
hipotético Governo da Frente defenderia a “luta dos povos oprimidos
da América Latina” e Lula chegou mesmo a propor a “decretação
de uma moratória unilateral para ‘solucionar’ a questão da dívida
externa”. Aliás, na proposta que o PSB – um dos membros
da Frente – apresentou de um “programa mínimo” das esquerdas
para as eleições presidenciais de 1989, se defendia a “imediata
suspensão de qualquer pagamento relacionado com a dívida externa”,
a constituição de um “entendimento entre os diversos países
devedores com vistas a fortalecer o não-pagamento” e o estabelecimento
de “relações fraternas com todos os partidos que tenham como
objetivo a construção da democracia e do socialismo com o objetivo
de unir esforços na preparação de uma alternativa à crise do
modo de produção capitalista”.
Em 1994, o candidato do PT lançou-se em campanha à frente de
todos os demais, tendo preparado-se, aliás, para disputar novamente
a presidência praticamente desde o final das eleições de 1989.
Alguns meses depois dessas eleições, o líder do PT tinha com
efeito anunciado, em coalizão com alguns outros partidos de
esquerda, a formação de um “governo paralelo”, seguramente um
dos poucos exemplos de shadow
cabinet ao sul do Equador. Infelizmente, a experiência não
chegou realmente a frutificar, pelo menos no que se refere à
atividade de um “ministro paralelo” das relações exteriores.
Não se teve notícia de que o chanceler “paralelo” – designado
na pessoa do filósofo e professor Carlos Nelson Coutinho – tivesse
avançado um programa, ou sequer elementos, de uma “política
externa alternativa”, com propostas concretas para o relacionamento
internacional do Brasil.
Em todo caso, a partir desse período, Lula passou a viajar
bastante pelo Brasil e ao exterior e patrocinou em São Paulo
um “foro” de partidos de esquerda da América Latina, que depois
consolidou-se como reunião periódica de formações “progressistas”
da região e contrárias às supostas ou reais políticas “neoliberais”
de estabilização econômica no continente. A despeito de uma
condenação genérica do chamado “consenso de Washington”, o candidato
do PT também desenvolveu um maior conhecimento a respeito das
opções na frente externa, tendo chegado a posições definidas,
embora nem todas explícitas, em relação aos grandes problemas
internacionais enfrentados pelo Brasil.
O PT foi também o que primeiro definiu um programa de Governo
para as eleições de 1994, com propostas bem articuladas, mas
por vezes contraditórias, que refletiam um intenso debate interno
entre as diversas correntes do partido. Alguns grupos representativos
de “minorias” (negros, ecologistas, homossexuais e outros grupos
de “excluídos” ou “marginalizados”) lograram incluir suas reivindicações
específicas nesse programa. Com base no programa do Partido
e em texto assinado pelo próprio candidato, quais foram, em
todo caso, os principais elementos da agenda do PT em relação
à política externa nacional e às relações internacionais nesse
ano do Plano Real (definido pelo PT como um “estelionato eleitoral”)?
O problema básico da política externa brasileira, tal como
detectado no programa, foi designado como sendo a ausência,
“há mais de quinze anos, de um projeto nacional de desenvolvimento”,
opinião reafirmada pelo candidato em artigo publicado no Boletim
da Associação dos Diplomatas Brasileiros. Lula reconhecia, também em acordo com o programa,
que “durante os governos militares, mais particularmente no
período do general Geisel, existia um projeto nacional, politicamente
autoritário e socialmente excludente” que, a despeito das críticas
que seu partido pode fazer, “abriu brechas para que o Brasil
reorientasse sua política externa”. Em 1994, segundo o programa,
persistia “inercialmente a política externa daquele período,
adequada empiricamente às novas realidades...”. Mas, em face
do quadro de mudanças, o “Governo Democrático e Popular deveria
desenvolver uma política externa que buscará simultaneamente
uma inserção soberana do Brasil na mundo e a alteração das relações de força internacionais
contribuindo para a construção de ordem mundial justa e democrática”.
O programa de então destacava como áreas prioritárias da “nova
política externa” a América Latina e o Mercosul, referindo-se
aqui, de forma equivocada, ao “Merconorte”. Ele não deixava
tampouco de dar ênfase às “relações de cooperação econômica
e nos domínios científico e tecnológico, com uma correspondente
agenda política”, na esfera Sul-Sul, com países como a China,
Índia, Rússia e África do Sul e com os países de língua portuguesa.
Algumas iniciativas internacionais eram listadas, como, por
exemplo, a “rediscussão dos problemas das dívidas externas dos
países periféricos”, propostas sobre a fome e a miséria no mundo
ou ainda a convocação de uma conferência internacional – “de
porte semelhante à ECO-92” – para discutir a situação do trabalho
no mundo e medidas efetivas contra o desemprego. O programa
também prometia recuperar o Ministério das Relações Exteriores,
“cuja estrutura foi sucateada nos últimos anos”.
Em seu artigo assinado, depois de listar algumas das transformações
por que passou o mundo no período recente, o candidato Lula
indicava alguns elementos para a formulação da “nova política
externa para o Brasil”. “Em primeiro lugar, o Brasil só poderá
ter uma política externa consistente se tiver um claro projeto
nacional de desenvolvimento, com o correspondente fortalecimento
da democracia, o que significa universalização da cidadania,
do respeito aos direitos humanos, reforma e democratização do
Estado”. Esse projeto nacional de desenvolvimento compreende
um “modelo de crescimento que favoreça a criação de um gigantesco
mercado de bens de consumo de massas que permita redefinir globalmente
a economia, dando-lhe, inclusive, novas condições de inserção
e de cooperatividade internacionais”. “Em segundo lugar, o Brasil
não pode sofrer passivamente a atual (des)ordem mundial. Ele
tem de atuar no sentido de buscar uma nova ordem política e
econômica internacional justa e democrática”.
Considerando que a política externa é, antes de mais nada,
uma questão de política interna, o candidato reafirmava seus
pressupostos de atuação: “A política externa não vem depois
da definição de um projeto nacional. Ela faz parte deste projeto
nacional”. Parafraseando Clausewitz, o candidato do PT, portanto,
também poderia hipoteticamente dizer: “A política externa é
a continuação da política interna por outros meios”.
Em 1998, já em sua terceira candidatura, desta vez por uma
coligação ¾ a “União do Povo Muda Brasil”, com
PT/PDT/PCdoB/PSB/PCB ¾ Lula
esforçou-se por colocá-la sob o signo da continuidade e da inovação,
este último aspecto apresentando-se, desde o início da campanha,
sob a forma de uma aliança política privilegiada com seu concorrente
trabalhista das experiências anteriores, o líder do PDT Leonel
Brizola. Este antigo líder da história política brasileira chegou
a causar constrangimentos para o então relativamente moderado
candidato “dos trabalhadores”, ao defender uma postura intransigente
em relação ao capital estrangeiro e às privatizações de empresas
públicas, chegando mesmo a declarar que não só esse processo
seria interrompido mas que algumas das leiloadas seriam suscetíveis
de reversão ao domínio estatal num eventual governo da coligação.
O próprio candidato à presidência defendeu uma
redução das importações por via de medidas governamentais, embora
de caráter tarifário, o que garantiria a transparência da política
comercial de um Governo do PT e seus aliados partidários. As
“Diretrizes do Programa de Governo” da coalizão popular acusavam
o Governo FHC de ter praticado uma abertura “irresponsável”
da economia e de ter desnacionalizado a “nossa indústria e nossa
agricultura, provocando desemprego e exclusão social”. A ênfase
na perda de soberania econômica do País era aliás o ponto forte
da campanha de Lula na área internacional, elemento combinado
a uma política externa de tipo voluntarístico que se propunha
mudar a forma de inserção do Brasil no mundo a partir da manifestação
da vontade política, aqui ignorando aparentemente as linhas
de força nas instituições internacionais e nas relações com
os demais países, parceiros ou “adversários” na atual ordem
econômica mundial.
O Ponto 12 dessas diretrizes, “Presença soberana no mundo”, defendia,
de forma conseqüente, uma “política externa, fundada nos princípios
da autodeterminação”, que faria — segundo o texto, “expressará
nosso desejo” de ver — o Brasil atuar “com decisão visando alterar
as relações desiguais e injustas que se estabeleceram internacionalmente”.
Ainda nessa mesmo linha, um eventual Governo liderado pelo PT
lutaria “por mudanças profundas nos organismos políticos e econômicos
mundiais, sobretudo a ONU, o FMI e a OMC”. Com efeito, documento
liberado quando do agravamento da crise financeira, em princípios
de setembro de 1998, avançava a proposta de “participar da construção
de novas instituições financeiras internacionais”, uma vez que
“as atualmente existentes — FMI, OMC, BIRD — são incapazes de
enfrentar a crise”. De forma ainda mais explícita, a coalizão
de Lula pretendia combater o Acordo Multilateral de Investimentos
em fase de negociação na OCDE, considerado como “atentatório
à soberania nacional”.
De maneira mais positiva, o programa enfatizava a intenção
de fortalecer as relações do Brasil com os outros países do
Sul, “em especial com os da América Latina, da África meridional
e aos de expressão portuguesa”. O processo de integração subregional,
finalmente, era visto muito positivamente, mas ficava claro
o desejo de efetuar uma “ampliação e reforma do Mercosul que
reforce sua capacidade de implementar políticas ativas comuns
de desenvolvimento e de solução dos graves problemas sociais
da região”. Depreendia-se, contudo, das declarações de diversos
membros da coalizão que o Mercosul era considerado como uma
espécie de “bastião antiimperialista”, em contraposição ao projetos
norte-americanos de diluir esse esquema num vasto empreendimento
livre-cambista do Alasca à Terra do Fogo. De forma geral, a
ALCA se apresentava como um anátema na política externa de um
Governo liderado pelo PT, perdendo apenas em importância na
escala de inimigos ideológicos para o neoliberalismo e a globalização
selvagem promovida pelas grandes empresas multinacionais.
Já em 2002, o cenário mudou substancialmente, com a expressão
inédita de um novo realismo diplomático, a começar pela política
de alianças buscada pelo candidato Lula, desta vez não unicamente
à esquerda, mas envolvendo em especial o Partido Liberal, que
forneceu seu candidato a vice. Ainda que partindo na frente
de todos os demais candidatos, tanto em termos de candidatura
oficiosa como no que se refere aos índices de aceitação eleitoral,
o candidato do PT e o próprio partido foram desta vez extremamente
cautelosos na formulação das bases da campanha política, a começar
pelas alianças contraídas com vistas a viabilizar um apoio “centrista”
ao candidato. Lula foi também bastante cauteloso na exposição
de sua idéias, ainda que algumas delas, ainda no início da campanha,
tenham sido exploradas por seus adversários (como por exemplo
o apoio às políticas subvencionistas da agricultura européia
ou a proposta de que o Brasil deveria deixar de exportar alimentos
até que todos os brasileiros pudessem se alimentar de maneira
conveniente). Nessa fase, ele ainda repetia alguns dos velhos
bordões do passado (contra o FMI e a Alca, por exemplo), que
depois foram sendo corrigidos ou alterados moderadamente para
acomodar as novas realidades e a coalizão de forças com grupos
nacionais moderados que se pensava constituir de forma inédita.
Em matéria de política externa, mais especificamente, a intenção
– aliás partilhada com os demais candidatos e, de certa forma,
implementada pelo governo FHC – era a de ampliar as relações
do Brasil com outros grandes países em desenvolvimento, sendo
invariavelmente citados a China, a Índia e a Rússia. No plano
econômico, o compromisso – também expresso pelos demais candidatos
– era o de diminuir o grau de dependência financeira externa
do Brasil, mobilizando para tal uma política de promoção comercial
ativa, com novos instrumentos para esse efeito (possivelmente
uma secretaria ou ministério de comércio exterior). Segundo
a “Carta ao Povo Brasileiro”, divulgada por Lula em 22 de junho,
o povo brasileiro quer “trilhar o caminho da redução de nossa vulnerabilidade externa pelo
esforço conjugado de exportar mais e de criar um amplo mercado
interno de consumo de massas”. De maneira ainda mais enfática,
nesse documento, Lula afirmou claramente que a “premissa dessa
transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações
do País”.
Depois de algumas ameaças iniciais de se retirar das negociações
da Alca (que seria “mais um projeto de anexação [aos EUA] do
que de integração”), Lula passou a não mais rejeitar os pressupostos
do livre-comércio, exigindo apenas que ele fosse pelo menos
equilibrado, e não distorcido em favor do parceiro mais poderoso,
o que constituiu notável evolução em relação a afirmações de
poucas semanas antes. O principal assessor econômico do candidato,
deputado Aloízio Mercadante foi bastante cauteloso na qualificação
das eventuais vantagens da Alca: “Esta
não deve ser vista como uma questão ideológica ou de posicionamento
pró ou contra os Estados Unidos, mas sim como um instrumento
que pode ou não servir aos interesses estratégicos brasileiros”
(Valor Econômico, 15.07.02). Os contatos mantidos pela cúpula do PT
com industriais, banqueiros e investidores estrangeiros tendiam todos a confirmar esse novo realismo
diplomático, e sobretudo econômico, do candidato.
De fato, os principais dirigentes do PT começaram, em plena
campanha, a se afastar cautelosamente das propostas tendentes
a realizar um plebiscito nacional sobre a Alca (organizado pela
CUT, pelo MST e pela CNBB), uma vez que ele teria resultados
mais do que previsíveis, todos negativos para a continuidade
dessas negociações. De modo ambíguo, porém, o assessor Mercadante
parecia acreditar na possibilidade de um acordo bilateral com
os EUA, sem explicar como e em que condições ele poderia ser
mais favorável do que o processo hemisférico: “é
importante que, independentemente da Alca, o Brasil e os Estados
Unidos iniciem um processo de negociação bilateral direcionado
para a ampliação do seu intercâmbio comercial e a distribuição
mais justa de seus benefícios”. O PT parecia assim ter
iniciado, ainda que de maneira hesitante, o caminho em direção
ao reformismo moderado.
O programa divulgado pelo candidato em 23 de julho de 2002
era bastante ambicioso quanto aos objetivos de “sua” política
externa, uma vez que prometia convertê-la num dos esteios do
processo de desenvolvimento nacional: “A
política externa será um meio fundamental para que o governo
implante um projeto de desenvolvimento nacional alternativo,
procurando superar a vulnerabilidade do País diante da instabilidade
dos mercados financeiros globais. Nos marcos de um comércio
internacional que também vem sofrendo restrições em face do
crescente protecionismo, a política externa será indispensável
para garantir a presença soberana do Brasil no mundo.” Parece
ter ocorrido aqui, ao contrário das ocasiões anteriores, uma
espécie de sobrevalorização da política externa, ou em todo
caso, uma esperança exagerada em suas virtudes transformadoras.
Com efeito, o candidato Lula pretendia, nada mais nada menos
que reorganizar o mundo e o continente sul-americano a partir
de suas propostas diplomáticas, o que denota ou excesso de otimismo
ou desconhecimento quanto aos limites impostos pela realidade
internacional a esses grandes projetos mudancistas no cenário
externo, sobretudo vindos de um país dotado de recursos externos
limitados como o Brasil. “Uma nova política externa deverá igualmente contribuir para reduzir tensões
internacionais e buscar um mundo com mais equilíbrio econômico,
social e político, com respeito às diferenças culturais, étnicas
e religiosas. A formação de um governo comprometido com os interesses
da grande maioria da sociedade, capaz de promover um projeto
de desenvolvimento nacional, terá forte impacto mundial, sobretudo
em nosso Continente. Levando em conta essa realidade, o Brasil
deverá propor um pacto regional de integração, especialmente
na América do Sul. Na busca desse entendimento, também estaremos
abertos a um relacionamento especial com todos os países da
América Latina.”
Em contraposição ao candidato governista, supostamente herdeiro
da política de integração do presidente FHC mas de fato cético
quanto a suas vantagens para o Brasil, o candidato Lula era
o mais entusiástico promotor do Mercosul, mas ainda aqui com
pouco realismo em relação às chances de uma moeda comum no curto
prazo ou a implantação de instituições mais avançadas: “É
necessário revigorar o Mercosul, transformando-o em uma zona
de convergência de políticas industriais, agrícolas, comerciais,
científicas e tecnológicas, educacionais e culturais. Reconstruído,
o Mercosul estará apto para enfrentar desafios macroeconômicos,
como os de uma política monetária comum. Também terá melhores
condições para enfrentar os desafios do mundo globalizado. Para
tanto, é fundamental que o bloco construa instituições políticas
e jurídicas e desenvolva uma política externa comum.”
Persistia, igualmente, no programa, a atitude de princípio
contrária à Alca e um certo equívoco quanto aos objetivos de
uma zona de livre-comércio, pois que se via nesse processo a
necessidade do estabelecimento de políticas compensatórias,
quando são raros os exemplos de acordos de simples liberalização
de comércio que contemplem tais tipos de medidas corretivas:
“Essa política em relação aos países
vizinhos é fundamental para fazer frente ao tema da Área de
Livre Comércio das Américas (ALCA). O governo brasileiro não
poderá assinar o acordo da ALCA se persistirem as medidas protecionistas
extra-alfandegárias, impostas há muitos anos pelos Estados Unidos.
(…) A política de livre
comércio, inviabilizada pelo governo norte-americano com todas
essas decisões, é sempre problemática quando envolve países
que têm Produto Interno Bruto muito diferentes e desníveis imensos
de produtividade industrial, como ocorre hoje nas relações dos
Estados Unidos com os demais países da América Latina, inclusive
o Brasil. A persistirem essas condições a ALCA não será um acordo
de livre comércio, mas um processo de anexação econômica do
Continente, com gravíssimas conseqüências para a estrutura produtiva
de nossos países, especialmente para o Brasil, que tem uma economia
mais complexa. Processos de integração regional exigem mecanismos
de compensação que permitam às economias menos estruturadas
poder tirar proveito do livre comércio, e não sucumbir com sua
adoção. As negociações da ALCA não serão conduzidas em um clima
de debate ideológico, mas levarão em conta essencialmente o
interesse nacional do Brasil.”
Um certo idealismo mudancista se insinua igualmente no programa,
ao pretender um eventual governo do PT conduzir uma “aproximação com países de importância
regional, como África do Sul, Índia, China e Rússia”, com o
objetivo de “construir sólidas relações bilaterais e articular
esforços a fim de democratizar as relações internacionais e
os organismos multilaterais como a Organização das Nações Unidas
(ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização
Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial”. Por outro
lado, a antiga desconfiança em relação ao capital estrangeiro
cedeu lugar a uma postura mais equilibrada, uma vez que se afirmou
no programa de 2002 que o Brasil “não deve prescindir das empresas,
da tecnologia e do capital estrangeiro”, alertando então que
os “países que hoje tratam de desenvolver seus mercados internos,
como a Índia e a China, não o fazem de costas para o mundo,
dispensando capitais e mercados externos”. Mas, se advertia
também que as “nações que deram prioridade ao mercado externo,
como o Japão e a Coréia, também não descuidaram de desenvolver
suas potencialidades internas, a qualidade de vida de seu povo
e as formas mais elementares de pequenos negócios agrícolas,
comerciais, industriais e de serviços.”
O excessivo viés em favor do mercado interno foi corrigido
no programa, que tende por outro lado a esquecer a ênfase atribuída
pelo governo FHC ao crescimento das exportações: “Sem crescimento dificilmente estaremos imunes à espiral
viciosa do desemprego crescente, do desarranjo fiscal, de déficits
externos e da incapacidade de honrar os compromissos internos
e internacionais. O primeiro passo para crescer é reduzir a
atual fragilidade externa. (…) Para combater essa fragilidade,
nosso governo vai montar um sistema combinado de crédito e de
políticas industriais e tributárias. O objetivo é viabilizar
o incremento das exportações, a substituição competitiva de
importações e a melhoria da infra-estrutura. Isso deve ser feito
tanto por causa da fragilidade das contas externas como porque
o Brasil precisa conquistar uma participação mais significativa
no comércio mundial, o que o atual governo menosprezou por um
longo período”.
Em suma, o candidato do PT
realizou um notável percurso em direção de uma postura mais
realista no campo da política externa, assim como no terreno
mais geral das políticas econômicas, notadamente no que se refere
ao relacionamento com o capital estrangeiro e com as instituições
financeiras internacionais. Cabe registro, em todo caso, a seu
acolhimento, não totalmente desfavorável, em relação ao acordo
anunciado pelo governo de mais um pacote de sustentação financeira
por parte do FMI, desta vez pela soma inédita de 30 bilhões
de dólares. A nota divulgada pela campanha de Lula na ocasião
foi bastante cautelosa no que se refere ao cumprimento das obrigações
externas, ainda que registrando negativamente o encargo passado
ao governo futuro de manter um superávit primário na faixa de
pelo menos 3,75% do PIB até 2004. Ao encontrar-se com o presidente
FHC, a pedido deste, para tratar da questão do acordo com o
FMI, em 19 de agosto, o candidato do PT reiterava seu entendimento
de que as dificuldades decorriam do “esgotamento do atual modelo
econômico”, confirmando também, com franqueza, seu compromisso
afirmado na “Carta ao Povo Brasileiro”: o de que, “se vencermos
as eleições começaremos a mudar a política econômica desde o
primeiro dia”.
Não obstante, Lula oferecia
uma série de sugestões para, no seu entendimento, “ajudar o
País a sair da crise”, muitas delas medidas de administração
financeira, de política comercial e de reativação da economia.
O PT e seu candidato das três disputas anteriores se esforçavam,
dessa forma, em provar aos interlocutores sociais – eleitores
brasileiros – e aos observadores externos – capitalistas estrangeiros
e analistas de Wall Street – que o partido e seus aliados estavam
plenamente habilitados a assumir as responsabilidades governamentais
e a representar os interesses externos do País com maior dose
de realismo econômico e diplomático do que tinha sido o caso
nas experiências precedentes.
Essa evolução moderada foi
confirmada, finalmente, no primeiro pronunciamento do presidente
eleito, em 28 de outubro de 2002. Nesse texto, consciente da
gravidade da crise econômica e dos focos de tensão externa remanescente,
Lula advertiu: “O Brasil fará a sua parte para superar
a crise, mas é essencial que além do apoio de organismos multilaterais,
como o FMI, o BID e o BIRD, se restabeleçam as linhas de financiamento
para as empresas e para o comércio internacional. Igualmente
relevante é avançar nas negociações comerciais internacionais,
nas quais os países ricos efetivamente retirem as barreiras
protecionistas e os subsídios que penalizam as nossas exportações,
principalmente na agricultura.” A segunda frase, particularmente, poderia, sem qualquer mudança, ter sido
pronunciada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, por seu
chanceler ou por seu ministro da economia.
Também, diferentemente da “ameaça” de cessar as exportações
de alimentos até que todos os brasileiros pudessem se alimentar
de maneira conveniente, Lula traçou um retrato convincente das
possibilidades nessa área: “Nos últimos três anos, com o fim
da âncora cambial, aumentamos em mais de 20 milhões de toneladas
a nossa safra agrícola. Temos imenso potencial nesse setor para
desencadear um amplo programa de combate à fome e exportarmos
alimentos que continuam encontrando no protecionismo injusto
das grandes potências econômicas um obstáculo que não pouparemos
esforços para remover.” Igualmente, não há nada aqui que não
poderia receber o endosso – e de fato já integra o discurso
– da administração atuante até o final de 2002.
De modo geral, a “nova diplomacia” não parece afastar-se muito
da “velha”, com talvez uma afirmação mais enfática dos “interesses
nacionais” e da defesa da soberania: “É uma boa hora para reafirmar
um compromisso de defesa corajosa de nossa soberania regional.
E o faremos buscando construir uma cultura de paz entre as nações,
aprofundando a integração econômica e comercial entre os países,
resgatando e ampliando o Mercosul como instrumento de integração
nacional e implementando uma negociação soberana frente à proposta
da ALCA. Vamos fomentar os acordos comerciais bilaterais e lutar
para que uma nova ordem econômica internacional diminua as injustiças,
a distância crescente entre países ricos e pobres, bem como
a instabilidade financeira internacional que tantos prejuízos
tem imposto aos países em desenvolvimento Nosso governo será
um guardião da Amazônia e da sua biodiversidade. Nosso programa
de desenvolvimento, em especial para essa região, será marcada
pela responsabilidade ambiental.” Em outros termos, abandonou-se
a tese da Alca “anexacionista” em favor de uma negociação séria
dos interesses brasileiros nesses acordos de liberalização comercial.
A defesa do multilateralismo não destoa, em praticamente ponto
nenhum, das conhecidas posições defendidas tradicionalmente
pela diplomacia brasileira: “Queremos impulsionar todas as formas
de integração da América Latina que fortaleçam a nossa identidade
histórica, social e cultural. Particularmente relevante é buscar
parcerias que permitam um combate implacável ao narcotráfico
que alicia uma parte da juventude e alimenta o crime organizado.
Nosso governo respeitará e procurará fortalecer os organismos
internacionais, em particular a ONU e os acordos internacionais
relevantes, como o protocolo de Quioto, e o Tribunal Penal Internacional,
bem como os acordos de não proliferação de armas nucleares e
químicas. Estimularemos a idéia de uma globalização solidária
e humanista, na qual os povos dos países pobres possam reverter
essa estrutura internacional injusta e excludente.”
Em suma, atendidas algumas ênfases conceituais e a defesa afirmada
da soberania nacional, a política externa do governo que inicia
seu termo em janeiro de 2003 não destoará, substancialmente,
da diplomacia conduzida de maneira bastante profissional pelo
Itamaraty no período recente, conformando aliás uma concordância
de princípio com a tradicional “diplomacia do desenvolvimento”
impulsionada pelo Brasil desde largos anos. No plano operacional,
parece inevitável o aumento do diálogo do Itamaraty com o Congresso
e outras forças organizadas da sociedade civil, como os sindicatos,
as organizações não-governamentais e representantes do mundo
acadêmico. Trata-se, em todo caso, de uma saudável inovação
para uma instituição cujo moto organizador parece consubstanciar-se
na frase “renovar-se na continuidade”. Com talvez alguma surpresas
verbais, naturais em momentos de mudança paradigmática como
a que vive o Brasil, tanto a inovação como a continuidade parecem
garantidas no futuro governo sob a hegemonia do novo centro
político brasileiro. As gerações mais jovens do Itamaraty certamente
receberam com bastante satisfação a confirmação da mudança política
no cenário eleitoral e parecem animadas com as perspectivas
de mudança – talvez até geracional – que podem operar-se na
Casa de Rio Branco. A confirmar-se a “continuidade da renovação”,
o Itamaraty tem todas as condições de emergir, nos próximos
quatro anos, com uma nova legitimidade no plano societal interno,
ao ser implementada a nova diretriz de colocar, de maneira mais
afirmada, a política externa a serviço de um projeto nacional
de desenvolvimento econômico e social.