Qual é o objetivo da política?

 

Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor da Universidade Estadual de Maringá; doutorando na Faculdade de Educação (USP); autor de História das Tendências no Brasil. .


Em pauta: a política. O conceito em si é polêmico. Não poderia ser diferente: a política expressa os diversos interesses em conflito na sociedade. O "árbitro" deste jogo é – ou deveria ser – o povo (essa entidade abstrata que significa tudo e nada).

A política nutre-se da polêmica: os vários interesses econômicos, sociais etc., se manifestam através da disputa de idéias e propostas em permanente colisão e negociação. Já Aristóteles, em sua obra Política, afirmou que "o fim da política não é viver, mas viver bem". A idéia que temos hoje de que a política é a luta constante pelo bem comum, pela justiça, o bom governo etc., remonta à tradição aristotélica, à filosofia política de Platão e ao pensamento cristão medieval.

Observamos, por exemplo, que estas idéias fundamentam a ação pastoral da Igreja em diversos setores. Em teoria, esta maneira de conceber a política é prescritiva, isto é, indica o ideal (como deveria ser bom governo, uma sociedade justa e igualitária etc.).

Esta é uma bela idéia que alicerça a ação de milhares de pessoas por este Brasil afora. Militam em movimentos sociais, associações, sindicatos, partidos e pastorais. Estas pessoas constroem uma utopia, dedicam sua vida à construção de um ideal traduzido na busca incessante do bem-comum. Como vemos, nem tudo cheira a podridão no reino da política. Devemos reconhecer que, concordemos ou não com suas ações idéias e propostas, ainda existem os idealistas, os que consagram boa parte do seu precioso tempo (pois que na vida, o que passou, passou!) à coletividade.

É verdade que muitos são animados por necessidades prementes e bem concretas (como por exemplo, comer, morar, trabalhar na terra etc.). Mas também é verdade que sonham um sonho: o sonho de uma sociedade onde as mazelas sociais presentes em nosso no cotidiano e que ferem as nossas mentes e corações, sejam superadas.

Pois que, em meio à insensibilidade de nossos governantes e da elite brasileira diante das questões sociais, ainda há pessoas que se sensibilizam com o olhar desesperançado do trabalhador consternado ante a falta de perspectivas. Estes idealistas são os que ainda se sensibilizam diante do olhar de uma criança num acampamento de trabalhadores sem-terra, ou numa rua qualquer do espaço urbano, pedinte ou em grupo cheirando cola ou utilizando drogas, com suas energias vitais esvaindo-se, num cortejo fúnebre à morte antecipada.

Deixemos as chagas que a nossa sociedade alimenta momentaneamente de lado. Afinal, esse quadro sombrio, que teimamos em perpetuar, é para muitos, natural, sem qualquer relação com a política. Voltemos ao idealismo dos que buscam o bem-comum em sua práxis política. Embora sejam imprescindíveis, esses homens e mulheres padecem de uma teoria ingênua sobre a política.

Se a política é, como afirmamos, essencialmente a oposição e luta entre interesses diferenciados e antagônicos, então, a idéia de política como a busca incessante do bem-comum é um projeto irrealizável nos marcos da própria existência da política. Como nos ensinou o florentino renascentista Maquiavel, política é sobretudo a arte de conquistar, dominar e manter o poder político.

Pensar na superação dos interesses econômicos particularistas, individualistas e egoístas, ou seja, na predominância do coletivo sobre a lógica que anima nossa sociedade significa, em última instância, imaginar a utopia da não-política, em outra palavras, a sociedade onde a política e o Estado não sejam mais necessários.

Enquanto a política se fizer necessária, seus fins serão tantos quanto os objetivos que os grupos econômicos e políticos se coloquem. E isso, de acordo com a época histórica e as circunstâncias nas quais os sujeitos políticos representativos destes interesses atuam. A política não tem fins estáticos e perpetuamente definidos.

Nessa concepção, o bem comum, a justiça, o bom governo etc., são meios ideológicos ou pura retórica de que se servem tanto os idealistas quanto os grupos econômica e politicamente dominantes em nossa sociedade que, permanentemente, procuram nos fazer acreditar que seus interesses específicos são nossos interesses. Vivenciamos isto através da ilusão do Estado enquanto guardião dos interesses comuns, como se este fosse neutro no jogo político entre as classes e grupos sociais.

Desmistificar a ilusão democrática da política e do Estado como agentes do bem comum, parece-nos um bom começo. Polêmico, é verdade. Mas que seria da política se não pudéssemos polemizar! Suprimir o pensamento divergente foi – e ainda é – o sonho dos ditadores de ontem e dos que estão por aí, de plantão, disfarçados sob as máscaras de democratas de última hora.

 

ANTONIO OZAÍ DA SILVA

     

 


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