Governar e educar

 

Por MARCO AURÉLIO NOGUEIRA
Professor de Teoria Política na UNESP (Campus de Araraquara - SP) e um dos editores do site Gramsci e o Brasil


À memória de Evaldo Sintoni, que ajudaria muito

 

Manifestação de professores na Avenida Paulista *

Encerradas as eleições, vive-se a expectativa de abertura de um novo tempo no Brasil.

A oportunidade efetivamente existe e não há porque duvidar que possa vir a ser aproveitada. Há obstáculos enormes pela frente e as inúmeras dificuldades objetivas farão sentir certamente sua presença, pressionando e desafiando a argúcia dos sujeitos. Mas o novo governo poderá se beneficiar do que parece ser nosso “destino” mais imediato: a concentração de energias na invenção de saídas e na recomposição social.

Se olharmos as coisas por este ângulo – otimista, mas não infundado –, daremos de cara com um tema central, sempre reiterado pelos democratas: o da educação para a cidadania. Antes de tudo, porque o governo eleito terá de organizar e orientar as esperanças populares para que elas não se convertam em sonhos vãos, fanatismo e frustração. Terá portanto de agir pedagogicamente. Além do mais, irá se deparar com uma sociedade complexa, heterogênea, cortada por tensões e precariamente unificada. Terá de ser educador e organizador aqui também. Em suma, se quisermos tirar proveito da concentração de energias sociais, teremos de nos preparar para viver e agir de modo mais cívico, mais crítico e inteligente, sob pena de não conseguirmos extrair, das energias concentradas, nenhuma nova qualidade. No próximo ciclo, o governar terá de se confundir muito mais com o educar que com o administrar ou o mandar.

Voltam assim à cena, com vigor redobrado, as escolas e os professores.

Não aceleraremos a recomposição social sem boas escolas e sem um bom sistema público de ensino, do primeiro ao terceiro grau e também em termos de educação continuada. É evidente que não chegaremos a isto sem boas leis, boas políticas e boas estruturas. Mas também é evidente que não reformaremos a escola se não reformarmos nosso modo de pensar: se não promovermos diálogos e interações entre disciplinas e especializações, se não avançarmos na articulação entre o saber humanista e o saber técnico-científico, entre a razão crítica e a razão instrumental, entre ciência e cultura. A escola é prioritária, mas a instrução não pode apontar exclusivamente para a especialização e o mercado de trabalho: sua grande tarefa é impulsionar a formação de uma consciência crítica da realidade.

É aqui que se insere o professor, esta figura tão admirada e tão maltratada, tão estratégica e tão pouco valorizada. O professor tornou-se um personagem controvertido, a ponto de algumas pessoas chegarem mesmo a projetar sua progressiva substituição por “máquinas didáticas”. Cercado por todos os lados, pressionado por um contexto pragmatista que faz o elogio da escola mas lhe rouba sentido, que acelera precocemente o processo de aprendizado, que transforma a rapidez num valor e num incentivo ao faz-de-conta, o professor fica desnorteado. Alguns desistem, desiludidos. Outros se mantêm no posto, mas perdem a paixão e se burocratizam. Outros, ainda, se deixam levar pela excitação inovadora e passam a fazer “tudo diferente”, deixando de lado até mesmo as aulas e os cursos bem estruturados. Há quem, em nome da democracia, transfere aos alunos a responsabilidade pelo sucesso ou pelo fracasso de um curso. E há também quem se deixe simplesmente corromper.

Neste cenário, o bom professor se sobressai e mostra sua extraordinária relevância. Não porque seja “amigo” ou camarada, mas porque faz o que dele se espera. Ele ensina e educa: organiza informações e conhecimentos, instiga, faz pensar, fixa novos hábitos intelectuais, reitera valores e procedimentos. Atua para ajudar o estudante a ser livre e autônomo, a caminhar com as próprias pernas, tropeçando e levantando tantas vezes quanto necessário, num esforço ininterrupto para se inserir no mundo e tentar modificá-lo.

O bom professor é um poderoso recurso cívico, democrático, crítico. Se quisermos mesmo recompor o país, precisaremos jogar muitas fichas nesta figura emblemática da vida civilizada. Daqui para frente, teremos todos – governantes e governados, partidos, empresas e sindicatos, cidadãos de modo geral –, cada um a seu modo, de concentrar energias para descobrir uma maneira de reanimar o universo da docência e o ofício de professor, ajudando a que os verdadeiros mestres prevaleçam e se multipliquem. Na escola, na vida e na política.

 

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

     

* Foto: Andre Penner

 


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