À memória
de Evaldo Sintoni, que ajudaria muito
Manifestação
de professores na Avenida Paulista *
Encerradas
as eleições, vive-se a expectativa de abertura de um novo tempo
no Brasil.
A oportunidade
efetivamente existe e não há porque duvidar que possa vir a
ser aproveitada. Há obstáculos enormes pela frente e as inúmeras
dificuldades objetivas farão sentir certamente sua presença,
pressionando e desafiando a argúcia dos sujeitos. Mas o novo
governo poderá se beneficiar do que parece ser nosso “destino”
mais imediato: a concentração de energias na invenção de saídas
e na recomposição social.
Se olharmos
as coisas por este ângulo – otimista, mas não infundado –, daremos
de cara com um tema central, sempre reiterado pelos democratas:
o da educação para a cidadania. Antes de tudo, porque o governo
eleito terá de organizar e orientar as esperanças populares
para que elas não se convertam em sonhos vãos, fanatismo e frustração.
Terá portanto de agir pedagogicamente. Além do mais, irá se
deparar com uma sociedade complexa, heterogênea, cortada por
tensões e precariamente unificada. Terá de ser educador e organizador
aqui também. Em suma, se quisermos tirar proveito da concentração
de energias sociais, teremos de nos preparar para viver e agir
de modo mais cívico, mais crítico e inteligente, sob pena de
não conseguirmos extrair, das energias concentradas, nenhuma
nova qualidade. No próximo ciclo, o governar terá de se confundir
muito mais com o educar que com o administrar ou o mandar.
Voltam
assim à cena, com vigor redobrado, as escolas e os professores.
Não
aceleraremos a recomposição social sem boas escolas e sem um
bom sistema público de ensino, do primeiro ao terceiro grau
e também em termos de educação continuada. É evidente que não
chegaremos a isto sem boas leis, boas políticas e boas estruturas.
Mas também é evidente que não reformaremos a escola se não reformarmos
nosso modo de pensar: se não promovermos diálogos e interações
entre disciplinas e especializações, se não avançarmos na articulação
entre o saber humanista e o saber técnico-científico, entre
a razão crítica e a razão instrumental, entre ciência e cultura.
A escola é prioritária, mas a instrução não pode apontar exclusivamente
para a especialização e o mercado de trabalho: sua grande tarefa
é impulsionar a formação de uma consciência crítica da realidade.
É aqui
que se insere o professor, esta figura tão admirada e tão maltratada,
tão estratégica e tão pouco valorizada. O professor tornou-se
um personagem controvertido, a ponto de algumas pessoas chegarem
mesmo a projetar sua progressiva substituição por “máquinas
didáticas”. Cercado por todos os lados, pressionado por um contexto
pragmatista que faz o elogio da escola mas lhe rouba sentido,
que acelera precocemente o processo de aprendizado, que transforma
a rapidez num valor e num incentivo ao faz-de-conta, o professor
fica desnorteado. Alguns desistem, desiludidos. Outros se mantêm
no posto, mas perdem a paixão e se burocratizam. Outros, ainda,
se deixam levar pela excitação inovadora e passam a fazer “tudo
diferente”, deixando de lado até mesmo as aulas e os cursos
bem estruturados. Há quem, em nome da democracia, transfere
aos alunos a responsabilidade pelo sucesso ou pelo fracasso
de um curso. E há também quem se deixe simplesmente corromper.
Neste
cenário, o bom professor se sobressai e mostra sua extraordinária
relevância. Não porque seja “amigo” ou camarada, mas porque
faz o que dele se espera. Ele ensina e educa: organiza informações
e conhecimentos, instiga, faz pensar, fixa novos hábitos intelectuais,
reitera valores e procedimentos. Atua para ajudar o estudante
a ser livre e autônomo, a caminhar com as próprias pernas, tropeçando
e levantando tantas vezes quanto necessário, num esforço ininterrupto
para se inserir no mundo e tentar modificá-lo.
O bom
professor é um poderoso recurso cívico, democrático, crítico.
Se quisermos mesmo recompor o país, precisaremos jogar muitas
fichas nesta figura emblemática da vida civilizada. Daqui para
frente, teremos todos – governantes e governados, partidos,
empresas e sindicatos, cidadãos de modo geral –, cada um a seu
modo, de concentrar energias para descobrir uma maneira de reanimar
o universo da docência e o ofício de professor, ajudando a que
os verdadeiros mestres prevaleçam e se multipliquem. Na escola,
na vida e na política.