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Mídia
e política: a metamorfose do poder
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Por DAVYS SLEMAN DE NEGREIROS
Mestre em Sociologia Política pela
Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Pesquisador NEMP-UFSCar
- Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política.
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Resumo:
Nada,
portanto, é mais revelador do fato de a mídia não ser
apenas um poder auxiliar, conforme pensa quem a chama
de quarto poder. Pelo contrário, a mídia não age apenas
como mediadora entre os poderes, mas como um dispositivo
de produção do próprio poder de nomeação e, no limite,
também de funcionamento da própria esfera política.
Palavras-Chaves:
Mídia
e política; Modernização das campanhas; Eleições midiatizadas;
midiatização da política.
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Pode-se
aceitar o argumento de que a propaganda/marketing, os
mídias e as estatísticas (as polêmicas pesquisas
de opinião) impõem-se na medida em que se retrai a cena
tradicional da política. Na cena
brasileira, faltam principalmente os partidos, pelo menos
quando se pensa teoricamente. Estes, desde o final dos anos 50, entraram
em crise de representatividade, acelerada pelo Movimento de
1964. A reabertura política reencontrou, com o nome de partidos
políticos, máquinas burocráticas que giram na órbita de
seus interesses, ou, então, pequenas agremiações com palanques
despolitizados, francamente televisivas. Esse fato torna-se
compreendido, no caso brasileiro, quando realizamos uma retrospectiva
de todo o movimento dos partidos políticos no Brasil que, demonstrando
todas as dificuldades políticas e institucionais da nossa acidentada
trajetória republicana: originalmente oligárquica (1889/1930),
oscilou historicamente entre a ditadura (1937/1945 e 1964/1985)
e o populismo (1946/1964), até chegar ao atual experimento democrático.
Neste processo histórico foram experimentados nada menos do
que seis sistemas partidários distintos sem praticamente nenhuma
continuidade formal ou política entre eles, o que impediu não
só a existência de partidos fortes, como também inibiu a formação
de uma cultura cívica aberta e receptiva à ação dos partidos
e favorável à constituição de identidades partidárias estáveis
e consistentes ao longo do tempo. Só para se ter uma idéia da
falta de tranquilidade e de continuidade do sistema republicano
brasileiro, do “período compreendido de 1930 a 1990, tivemos
1(um) golpe ou tentativa de golpe a cada 3 (três) anos”.
Assim
podemos afirmar que há um vácuo de representatividade e que
num determinado momento foi preenchido pelos mídias, tendo como
conseqüência, segundo Muniz Sodré, que
“(...)
nesses espaços mediados, trava-se uma novíssima disputa eleitoral:
em vez de plataformas marcantes, vantagens percentuais nas pesquisas,
em vez de posições ideológicas, rostos fotogênicos ou telegênicos,
em vez de representação, simulação”.
De modo geral, persiste a preocupação
de que, no espaço público configurado pela mídia, a política
tende a perder o seu conteúdo próprio e os partidos políticos,
sua identidade como mediadores de interesses entre a sociedade
e o Estado. Como destaca Garcia Canclíni, ao ocupar o lugar das mediações que seria
próprio da política, os mídias estabeleceriam uma nova diagramação
dos espaços e intercâmbios urbanos. A contaminação da política
pela comunicação não se esgota no deslocamento de poder ocasional
pelo monopólio tendencial do ato de publicizar ou na criação
de temas/atores/cenários. A questão da adequação da política
às regras e à gramática da mídia, de imediato, coloca-se no
centro da análise. Ao aceitar a premissa de incorporação da
comunicação como componente e momento da política contemporânea,
uma vez que a mídia monopoliza tendencialmente a enunciação
pública, pode-se considerar que a política para incorporar
a comunicação (midiática) deve resignar-se às regras e formatações
derivadas da mídia, posto que isso não só facilita sua realização,
como até se torna inevitável.
Longe de ser homogêneo quanto às
avaliações e prescrições, o resultado das pesquisas desenvolvidas
convergem, porém, para um aspecto: a centralidade da mídia e
sua influência no cenário da política que passaram a caracterizar
as novas democracias latino-americanas a partir da década de
oitenta.
A Midiatização da Política
Ao afirmarmos a centralidade da mídia,
tanto no Brasil como em outras
democracias latino-americanas da década de oitenta, os estudos
corroboram o fenômeno cunhado por Sartori, de videopolítica, definido pela introdução da cultura
audiovisual nas relações sociais e, particularmente, nas de
poder. Do ponto de vista institucional, a importância da
videopolítica dependeria
diretamente de seu contrapeso, os partidos políticos: quanto
menor o grau de institucionalização partidária, maior o espaço
aberto para a expansão e penetração da videopolítica.
É possível concluir que, mesmo nas sociedades fortemente institucionalizadas,
a videopolítica, em
grau mais ou menos acentuado, é presença certa sem limite de
fronteiras no cenário “espetacularizado” da contemporaneidade
ocidental (DEBORD, 1997). Landi (1990; 1992) aprofundou a discussão
sobre a vídeopolítica
na América Latina introduzindo o debate sobre a presença de
diversos tipos e graus de intervenção sobre a cultura política,
que vão além de uma campanha eleitoral e incluem jornais, entrevistas,
debate, publicidade, horário gratuito político eleitoral (HGPE)
e os comentários. Critica ele as velhas e esquemáticas teorias
da manipulação informativa, para
as quais todo o poder e o sentido da mensagem estão contidos
no projeto do emissor. A sua
perspectiva adota, em suma, o caminho inverso das análises
maniqueístas, advertindo que a tendência colonizadora da tv na política
encontra tensões e contrapesos que compõem um quadro mais complexo
do que aquele das profecias apocalípticas (LANDI, 1990:46).
Contra os males da “satanização” da mídia, afirma que a presença da televisão mantém-se nas transformações
profundas da cultura e em certas características do sistema
político (LANDI, 1990:38) e chama a atenção para a necessidade
do estabelecimento de novas políticas voltadas para a inovação
na utilização da técnica como desafio aos comunicadores:
“(...)
está también en nuestras propias manos subvertir y domesticar
aparatos creados para la opresión, a fin de
convertirlos en herramientas de liberación... Aunque
ya sea un lugar común, conviene recordar que estamos en un cambio
de época y no sólo en una época de cambios”(RONCAGLIOLO, 1998:31).
Em decorrência desses fatores, Landi
entende que a televisão garante sua presença devido às transformações
profundas na cultura e no sistema político. A videopolítica
gera um espaço aberto, em que o poder da TV se espraia sem contrapoderes
visíveis, colocando em jogo as estruturas e as formas de ação
da política. Nos países da América Latina, atua de maneira diferente
daquela dos Estados Unidos e de forma peculiar em cada País.
Mas algumas alterações comuns podem ser notadas nas campanhas
eleitorais, como a introdução do marketing político e
das pesquisas de opinião, a diminuição da militância voluntária
e a necessidade de volumoso capital. A primazia do aparecer
e a personalização da imagem possibilitam trazer à cena políticos
de fora dos tradicionais centros urbanos. Outra consequência
da videopolítica é o desenvolvimento de partidos de baixo
tono ideológico, de agregação pragmática de reinvidicações e
interesses. Aqui se consideram os partidos políticos
culturalmente despreparados para absorver as mudanças
trazidas com a introdução da mídia, particularmente da televisão
na política. Um analista das relações entre os novos espaços
culturais e a democracia,
Roncagliolo, considera que
“las
crisis de representatividad y de los partidos, un tema tan en
boga, no se reduce a las llamadas crisis de los paradigmas,
sino que se enmarcan en la modificación sustantiva de los espacios
culturales. La política de antes estaba tejida en mercados físicos
de bienes culturales (local partidario, cédula, plaza pública).
Hoy se ha ‘mediatizado’, y el ciudadano no necesita trasladarse
al acto político para semblantear al candidato. Quizás, la crisis
de la politica y de los políticos tenga que ver con sus limitaciones
para actuar (y pensar) en estos nuevos escenarios o espacios
culturales de la política”(RONCAGLIOLO, 1998:54).
Seguindo nesta mesma trilha, Bernard
Manin na obra “As metamorfoses do governo representativo”,
elabora uma arqueologia do governo representativo, dividindo-o
em três momentos: Parlamentarismo; Democracia dos partidos
e Democracia do público. Por meio da análise de cada
um destes momentos, contribuiu não somente para a discussão
das transformações sofridas pela forma da representação ao longo
de sua constituição, mas também com informações sobre o papel
exercido pelos meios de comunicação para o (re)desenho da representação.
No Parlamentarismo, segundo
o autor, a escolha do representante estava relacionada à confiança
e aos vínculos locais do candidato, sendo que os eleitos eram
sempre os “Notáveis”. O representante eleito votava na Assembléia
conforme sua consciência. Não existia uma relação direta entre
a opinião pública e a expressão eleitoral. As discussões entre
os representantes estavam restritas ao Parlamento. Este modelo
se esgotou a partir da ampliação do corpo eleitoral e de um
vasto número de cidadãos que passaram a ter o direito do voto.
Por outro lado, a denominada Democracia
dos Partidos surgiu em decorrência do aumento do eleitorado,
gerado pela extensão do direito de voto, que impediu, assim,
o povo de manter relações pessoais com seus representantes.
Os cidadãos passavam a votar não mais em quem conheciam, mas
em um candidato que carregasse as “cores” de um partido. Os
partidos políticos, juntamente com as suas burocracias e sua
rede de militantes, surgiram exatamente para mobilizarem esse
eleitorado mais numeroso. Este tipo de representação era o governo
do ativista e líder partidário, ou do “chefe político”.
Nessa forma de governo, também há
outra característica singular, o povo vota em um partido e não
em uma pessoa. O fenômeno da estabilidade do comportamento eleitoral
é uma prova disso.
“As
pessoas não só se inclinam a votar constantemente no mesmo partido,
como também as preferências partidárias são transferidas de
uma geração para a outra: os filhos votam como os pais, e os
habitantes de uma localidade votam no mesmo partido durante
décadas.” (MANIN, 1995:34)
Por outro lado, essa estabilidade
eleitoral deriva, em grande medida, da determinação das preferências
políticas por fatores socioeconômicos. Neste tipo de governo
as clivagens eleitorais refletem as divisões de classe, até
porque os setores sociais que se manifestam por meio das eleições
estão em conflito entre si, em conseqüência de uma realidade
social existente antes da política. Assim, a representação, fundamentalmente, passa a ser uma conseqüência
da estrutura social.
Outro aspecto que também influencia
a estabilidade do comportamento dos eleitores é o fato de, nesse
tipo de governo representativo, serem os partidos que organizam
tanto a disputa eleitoral quanto os modos de expressão da opinião
pública (manifestações de rua, petições, campanhas pelos jornais).
Todas essas formas de expressão são estruturadas ao longo das
clivagens partidárias. Os vários órgãos de imprensa mantêm laços
com um dos partidos políticos, gerando assim, uma imprensa politicamente
orientada, o que faz com que as pessoas escolham a sua fonte
de informação de acordo com as suas inclinações partidárias.
Como conseqüência, os fatos ou assuntos são percebidos pela
ótica do partido em que votam.
Concluindo, o autor sugere que o
que está em declínio “são as relações de identificação entre
representantes e representados e a determinação da política
pública por parte do eleitorado” (MANIN, 1995:07). São
estas modificações no próprio campo político que geram uma nova
metamorfose do modelo de governo representativo, constituindo
um novo “tipo-ideal”, elaborado por Manin, denominado de Democracia
do Público.
Porém, nos últimos anos, a partir
dos anos 70 principalmente,
tem-se observado uma nítida modificação nas interpretações
dos resultados eleitorais. Antes as preferências políticas podiam
ser explicadas pelas características sociais, econômicas e culturais
dos eleitores, neste momento a do governo do público, os resultados
eleitorais tendem a variar significativamente de uma eleição
para a outra, ainda que se mantenham inalteradas as condições
socioeconômicas e culturais dos eleitores. Nesta etapa, diz
ele, observa-se o declínio dos partidos e dos programas partidários,
pois se transferiu a posição de principal fórum de debates do
partido e do Parlamento para os meios de comunicação e, nesse processo, os candidatos passaram
a cortejar o eleitor diretamente por meio dos meios de comunicação
de massa, dispensando a mediação da rede de militantes do partido
e estabelecendo uma nova relação entre políticos e eleitores
por meio do uso intensivo de técnicas de comunicação que enfatizam
a personalidade do candidato.
A personalidade dos candidatos parece
ser um dos fatores essenciais na explicação dessas variações:
a existência de um eleitor sem vínculos partidários e que tende
a votar de acordo com os problemas e questões postas em jogo
em cada eleição e não em programas político/partidários acabou
gerando o que se caracteriza como “volatilidade do voto”, ou
seja, as pessoas tendem a votar de modo diferente de uma eleição
para outra, dependendo da personalidade dos candidatos e dos
temas importantes postos em debate. Cada vez mais os eleitores
tendem a votar em uma pessoa, e não em um partido, em decorrência
da presença dos mídias no campo político, o que tem aumentando,
conseqüentemente, a importância dos fatores pessoais no relacionamento
entre o representante e o seu eleitorado. Podemos notar esse
aspecto no seguinte relato:
“(...)
através de várias pesquisas que se vem realizando nos Estados
Unidos, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa
sobre os eleitores americanos, diferentemente dos anos 40 e
60, nota-se claramente que a identificação partidária não apresenta
hoje muita importância como determinante do voto. O número de
pessoas que se identifica com partidos políticos atualmente
é menor e mesmo essas são muito mais propensas a mudar de lado
em eleições presidenciais”.(GLASS,1987:525)
Nessas novas
circunstâncias, de eleitores volúveis orientados pelos assuntos,
há maior necessidade de informação acurada sobre a agenda programática
dos representantes. A dependência do noticiário de TV tem sido
acusada de ter ajudado a erodir o sistema eleitoral, pois os
candidatos estariam sendo forçados às banalidades da política
da imagem, pelo aspecto de corrida de cavalos (horse race) da campanha, realçado pelo noticiário de televisão, ou seja,
a mídia (em especial a TV) contaminou a política impondo sua organização e dinâmica.
Outra característica da Democracia
do Público é que os canais (jornal, televisão, rádio e institutos
de sondagem), onde se forma a opinião pública, são relativamente neutros, no sentido
de não estarem diretamente ligados a partidos políticos em competição,
embora possam apresentar preferências políticas. A neutralidade
relativa dos mídias na democracia do público é um contraponto
para a falta de neutralidade na democracia dos partidos, em
que os meios de informação estavam atrelados aos partidos. Manin
argumenta que atualmente isto não acontece, pois as informações
são veiculadas pelos diferentes meios de forma homogênea, não
existindo uma diferença gritante entre o que é noticiado em
um ou outro veículo. O elemento novo aqui é que, embora os indivíduos
formem opiniões divergentes sobre os objetos políticos, estas
opiniões são construídas sobre elementos identicamente apresentados
a todos e são percebidas de forma relativamente homogênea. Isso
permite que a identificação entre eleitor e candidato se forme
a partir de preferências sobre os objetos e não a partir de
preferências partidárias. Uma conseqüência desta relativa neutralidade
na divulgação de informações é a volatilidade do voto, a existência
de um novo eleitor indeciso: o sujeito informado, interessado
pela política e relativamente instruído. Em função da amplitude
do número de eleitores e de temas, os representantes ou candidatos
têm que debater no público, constituindo, desse modo, um novo
local para a apresentação dos políticos e para o debate: os
mídias. Assim, as Assembléias deixam de ser o local por excelência
da discussão do político e passam a dividir este espaço com
as mídias. Observe-se, no entanto, que, para Manin, ao contrário
de outros autores, estes dados indicam uma alteração na prática
política, que não significa, porém, uma crise de representação,
uma vez que:
“quando se
reconhece a existência de uma diferença fundamental entre governo
representativo e autogoverno do povo, o fenômeno atual deixa
de ser visto como sinalizador de uma crise de representação
e passa a ser interpretado como um deslocamento e um rearranjo
da mesma combinação de elementos que sempre esteve presente
desde o final do século XVIII” (MANIN, 1995:33).
Em suma, observa-se o deslocamento dos partidos políticos como
sujeitos da democracia. Apesar do registro da fragilização dos
partidos políticos, excepcionalmente, nesta abordagem vislumbra-se
uma perspectiva favorável a seu desempenho, sob a condição de
que estes consigam adaptar-se aos novos tempos.
“El
partido de masas, que según los prognósticos emitidos hasta
la posguerra sería la forma dominante de organización política
en el mundo contemporáneo, está a punto de ser un recuerdo del
pasado más que un espejo del futuro”. (MOUCHON, 1999:107)
A singularidade desta perspectiva
é, portanto, a ênfase na necessidade de aperfeiçoamento dos
mecanismos políticos de mediação e agregação de interesses nas
sociedades complexas nas quais vivemos, em que pese a centralidade
da mídia e a fragilidade institucional dos partidos políticos
tanto no Brasil como na América Latina.
A influência dos mídias no campo
político, especificamente nas campanhas eleitorais, até porque
estas são um dos objetos desta Dissertação, tem sido item recente
de estudos comparativos internacionais;
as campanhas eleitorais são descritas por parte da literatura
mais informada ora como uma processo de “americanização”,
ora como um processo de “modernização”.
De acordo com os autores Paolo Mancini
& David Swanson, as campanhas eleitorais são assuntos difíceis
de se estudar e o que acontece com elas reflete, oportunidades,
tradição, personalidades, cultura política e outras coisas.
Além disso, nenhuma campanha é exatamente como outra, e, certamente,
nenhuma campanha eleitoral de uma Nação é exatamente igual a
outras de outros países, assim como os métodos e práticas usados
nas campanhas eleitorais vêm mudando constantemente. Porém,
“(...) o resultado
desta literatura recente é o que poderia parecer um fenômeno
curioso: ao redor do mundo, muitas das mudanças recentes nas
campanhas eleitorais dividem temas em comum apesar das grandes
diferenças de cultura política, histórica e instituições dos
países nas quais elas ocorreram” (MANCINI & SWANSON, 1996:12).
Os autores acreditavam, desse modo,
que as práticas de campanha mereciam ser examinadas, em parte,
como ponto inicial para considerar as mudanças fundamentais
que poderiam estar ocorrendo nas democracias ao redor do mundo.
Nesse sentido supunham que a adoção de métodos de campanha americanizada
poderia refletir em um amplo e não parcial processo que estaria
produzindo mudanças em muitas sociedades, mudanças que seriam
difíceis de se atribuir a uma simples causa e que iriam além
da política e da comunicação. Dessa forma,
“(...)
estamos interessados (diz os autores) na Americanização,
na exportação e na adaptação local das técnicas particulares
de campanha, na modernização, no mais amplo e fundamental
processo de mudanças que supomos conduzir para a adaptação destas
técnicas nos diferentes contextos nacionais” (MANCINI &
SWANSON, 1996:16).
Desse modo, as inovações nas campanhas
eleitorais dos últimos anos, que parecem ser práticas que foram
primeiramente desenvolvidas nos Estados Unidos, resultam fundamentalmente,
como já foi notado por Manin, em outra parte deste trabalho, da transformação
da estrutura social e da forma das democracias nos países onde
as inovações têm sido adotadas. Estas transformações fazem parte
do processo de modernização. Então, quanto mais avançado
esteja o processo de modernização em um País, mais provável
será encontrarmos inovações nas campanhas eleitorais sendo adotadas
e adaptadas. Por tudo isso, faz-se necessário, neste momento,
definirmos os conceitos de americanização e de modernização,
de acordo com Mancini & Swanson.
O conceito de “americanização”
é usado para referir-se descritivamente a elementos das campanhas
eleitorais e a atividade profissional conectada a elas. Isso
foi primeiramente desenvolvido nos Estados Unidos e agora está
sendo aplicado e adaptado de várias formas em outros países.
Esse fato tem ocorrido por duas razões: primeiro, devido ao
grande interesse que as campanhas americanas recebem da cobertura
jornalística de todo o mundo; segundo, pelo grande número de
especialistas de campanhas que visitam os Estados Unidos para
estudar e conhecer o processo eleitoral. Além disso, a publicação
de livros e manuais sobre o assunto tem ajudado a espalhar os
métodos das campanhas americanas para outros países; como também,
essa profissionalização é apoiada pelo freqüente envolvimento
de consultores políticos americanos em campanhas de outros países.
Em decorrência, a disseminação destes elementos tem naturalmente
sido descrita como campanha política americanizada em
outros Países.
Já o conceito de “modernização”
diz respeito a um contexto de mudanças mais amplas e induzidas
por variáveis que vão muito além da esfera política ou da esfera
da comunicação e que dizem respeito à transformação estrutural
da sociedade e das formas da democracia. Deste modo, colocando
os dois conceitos defronte, a americanização das campanhas
eleitorais deve ser entendida restritivamente como um conjunto
de indicadores específicos de um processo mais geral de modernização
da sociedade, cuja difusão vem sendo notavelmente acelerada
pelo fenômeno da globalização dos mídias que, malgrado as diferenças
nacionais de cultura política, vêm crescentemente unificando
e estabelecendo agendas e comportamentos políticos, econômicos
e culturais em escala mundial.
Entre as principais características
apontadas por aqueles dois autores no processo de modernização
das campanhas eleitorais e a sua americanização estão
a:
1) personalização
da política: expressa pelo predomínio da relação entre
os eleitores e os candidatos individuais em detrimento aos laços
tradicionais de confiança e de ideologia entre os partidos que,
desta forma, perdem substância enquanto agregação simbólica
e estrutura organizada.
“Los
paradestinatarios empezaron a aumentar en las mediciones de
las campañas subsiguientes y el índice de indecisos comprobó
el fin de una era de lealtades y compromisos partidarios con
el consiguiente nascimiento de un pragmatismo individualista.
Del mismo modo, la incorporación de las herramientas de la ingeniería
política: encuestas de intención de voto, a boca de urna, tendencias
de imagem positiva, porcentajens de crerdibilidad, personalización
y dramatización de las campañas, complejizaron los sistemas
de comunicación de los políticos con sus potenciales electores”.(MURARO,
1997:23)
Os candidatos, nesse caso, parecem
competir por eles mesmos ao mesmo tempo em que sua imagem pessoal,
construída pela mass media, toma o lugar das ligações
simbólicas que antes eram asseguradas pelos partidos políticos,
ou seja, não existindo mais uma identificação do candidato com
o partido;
2) cientifização
da política: o conceito elaborado por Habermas (HABERMAS, 1984),
é usado neste contexto para exprimir a crescente preponderância
nas campanhas modernas do time da campanha formado
por especialistas e técnicos que cada vez mais controlam não
só a produção de informações, como também sua interpretação
com vistas à tomada de decisões críticas no desenvolvimento
da campanha.
“A expansão
da função dos técnicos (experts) nas campanhas reflete, por
um lado, os métodos sofisticados e as habilidades que são dadas
como necessárias para a condução de uma campanha na política
contemporânea dentro do ambiente da mídia (incluindo as habilidades
associadas com as pesquisas de opinião pública e outros métodos
para monitorar os desejos e as vontades dos eleitores, criando
fortes propagandas de televisão, cobertura favorável, positiva
e freqüente da mídia para o candidato e obtenção de fundos financeiros)
e, por outro lado, o grande enfraquecimento do papel dos partidos,
que não são mais capazes, por exemplo, de suprir as necessidades
de fundos e de pessoal competente”.(WATTENBERG, 1984:131)
Assim, os publicitários, marqueteiros,
pesquisadores, cientistas políticos, relações públicas e jornalistas
ganham crescente relevo no interior da campanha e tomam decisões
que antes eram processadas dentro do aparato dos partidos pelas
lideranças políticas e executadas por entusiastas e militantes.
Dessa forma, o objetivo da “cientifização” é simplesmente
a vitória eleitoral, e não encontrar alternativas úteis à política
pública. Este objetivo parece resultar do inevitável enfraquecimento
das organizações partidárias e das mudanças que podemos notar
nos sistemas políticos;
3) estrutura
autônoma da comunicação: um dos traços mais salientes
da modernização é o desenvolvimento de uma poderosa e autônoma
comunicação de massa, cuja influência penetra em todas as dimensões
da vida social, política, econômica e cultural.
No caso brasileiro, a concentração
oligopolista da Rede Globo tem sido enfatizada com especial
destaque pela sua influência na política no período da transição
democrática, firmando uma tradição de estudos de mídia e política
que passou a conferir centralidade à presença dos mídias, especialmente
da televisão no cenário político da representação contemporânea.
“De fevereiro de 84, quando se deflagrou a campanha das ‘Diretas já’,
a abril de 85, morte de Tancredo, são 14 meses de imensa efervescência
política, durante os quais os meios de comunicação — em especial
a TV Globo, protagonista principal — desempenharam papel inédito
em sua história e se destacaram por sua capacidade de intervir
no quotidiano extraordinariamente rico de uma crise de transição.
Aparato criado pelo regime autoritário, e com
ele complemente identificado, a TV Globo exerce o inesperado
papel de protagonista das oposições, com isso ampliando um arco
de alianças inesperadas. Na medida em que legitimava o regime
emergente, legitimava-se também junto à opinião pública. Uma
nova TV Globo surgia com uma Nova República.” (GUIMARÃES, 1998:28)
A mídia, em conseqüência, tende a
assumir funções políticas antes exclusivas de organizações partidárias
ou de órgãos de imprensa controlados por partidos ou governos,
tais como a socialização política e a divulgação de informação
para o público sobre política e ação governamental. A autonomia
da comunicação de massa torna os políticos mais dependentes da
mídia e provoca, em conseqüência, a profissionalização da comunicação
política dos partidos e líderes políticos, bem como do próprio
governo na tentativa de manipular a mídia independente;
4) distanciamento
dos partidos em relação aos cidadãos: nas sociedades
contemporâneas a fragmentação social e a diferenciação dos interesses
políticos impedem ou dificultam a relação direta entre líderes
e partidos políticos e os seus eleitores, assim como a apreensão
de suas preocupações e demandas correntes por meio do contato
pessoal. Entre os efeitos deletérios desta nova situação encontra-se
o progressivo declínio da rede de militantes e ativistas e a
perda do sistema de comunicação interpessoal que articulava
os eleitores às organizações partidárias.
“A
pasteurização que nivela a política pela descaracterização
do discurso, tem sido apontada como um dos resultados reveladores
da submersão das identidades partidárias no universo unificador
da mídia, no qual é próprio que políticos não se destaquem por
sua experiência, pelo programa de seu partido nem mesmo por
sua capacidade de liderança no processo político, mas, pela
simpatia que seus marketeiros conseguem suscitar nos grandes auditórios”.(TREJO,
1995:117)
Por outro lado, com a ascendência
crescente dos especialistas de campanha os partidos programáticos
foram compelidos a abandonar suas bases ideológicas pelas
bases de opinião que, obviamente, são aferidas através
de sondagens e pesquisas sob a responsabilidade de empresas
especializadas. O resultado final destas mudanças é o crescente
distanciamento dos partidos da vida cotidiana e dos seus eleitores;
5) transformação
do cidadão em espectador: finalmente, com a centralidade
da televisão nas campanhas políticas modernas – seja em países
onde o acesso a TV é paga pelos partidos (como nos Estados Unidos)
ou onde é regulado, gratuito e igualitário ou proporcional à
força do partido na Câmara (Brasil, França e Inglaterra) – o
evento político deslocou-se das ruas e praças públicas para
a sala dos eleitores. Podemos ter um exemplo deste fato neste
relato sobre o caso da Argentina.
Sin
embargo, el balcón, que tuvo preponderancia a lo largo de toda
la historia en la comunicación de los gobernantes con las masas
en la Argentina, sería, dentro del gobierno del mismo Alfonsín,
dejado de lado por la utilización de los medios electrónicos.
Por otra parte, la ciudadania, hizo abandono de la Plaza de
Mayo como espacio de legitimación del poder y de lugar de las
representaciones que vinculaban al dirigente de turno, através
del uso de una enunciación pedagógica, con una masa todavía
inmadura que esperaba de él todas las respuestas”.(GONZÁLEZ
REQUENA, 1989:17)
Nada, portanto, é mais revelador
do fato de a mídia não ser apenas um poder auxiliar,
conforme pensa quem a chama de quarto poder. Pelo contrário,
a mídia não só fornece os temas sobre os quais os públicos/eleitores
devem pensar, colocando-os em categorias semantizadoras determinadas;
como também, não age apenas como mediadora entre os poderes,
mas como um dispositivo de produção do próprio poder de nomeação
e, no limite, também de funcionamento da própria esfera política.
Assim, parece estar havendo um consenso de que a antiga fórmula
da centralidade política das comunicações foi substituída por
uma proposta de centralização das comunicações na atividade
política. Dessa forma, tanto no nível do intercâmbio político
como no do simbólico, o funcionamento do sistema político nas
democracias da sociedade moderna está sendo cada vez mais determinado
pela mídia.
DAVYS
SLEMAN DE NEGREIROS
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parties”, Cambridge, Harvard University Press, 1984.
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