Euclides da Cunha e o Brasil dos Excluídos

 

Por LÁZARO CURVÊLO CHAVES
Sociólogo e profesor de história; webmaster do site Cultura Brasileira.

Antonio Conselhiro (Museu Histórico Nacional)

“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega!” Albert Einstein

“O importante não é o que um homem diz de sua fé, mas o que essa fé faz esse homem realizar”. Roger Garaudy

“Uma teoria só se concretiza num povo na medida em que é a concretização de suas necessidades”. Karl Marx

 

O dom da Graça

Weber toma de empréstimo à teologia cristã a expressão “carisma”, literalmente “dom da graça” e informa que os líderes carismáticos são aqueles que conseguem, por demonstrar qualidades sobre-humanas (exagerada capacidade bélica, de liderança, oratória ou outra qualidade superior ao comum dos mortais), conglomerar em torno de si grupos significativos de pessoas que passam a nele crer e, dentro do grupo, a palavra do líder carismático transforma-se na mais plena expressão da verdade (magister dixit, como no medioevo...)

Entre os líderes carismáticos que conhecemos ou de que ouvimos falar podemos citar, a título de mero exemplo e guardadas as suas devidas proporções de espaço, tempo, missão e propósitos – e sem julgamento ético ou valorativo – os Profetas Bíblicos, Maomé, Lênin, Mahatma Gandhi, Hitler, Stálin, Mussolini, Luís Carlos Prestes, Antônio Conselheiro, Getúlio Vargas, Fidel Castro, Muammar Khadafi, Saddam Hussein e por aí vai.

José Carlos Mariátegui informa em O Homem e o Mito que a revolução científico-racionalista do Ocidente deixou um grande vazio no homem, uma vez que, tanto a razão quanto a ciência não podem constituir-se em mitos, não têm o poder de mover as massas à ação. Na modernidade, pensadores como Joseph Campbell, anseiam pelo surgimento de um mito novo, de uma nova religião mesmo que, como todas as outras surgidas no mundo, possa dar conta dos aspectos mais avançados de nosso tempo, sejam eles o ético, o jurídico, o científico... A nova religião, da qual ouvimos notícias embrionárias aqui e ali, precisa ser, como o foram todas as outras em seu tempo, de ponta em todos os aspectos do conhecimento e da vivência humana, com particular ênfase à dimensão ética.

Em todos os tempos há pessoas que surgem com pregações diferentes ou inovadoras, nem sempre encontrando eco às suas prédicas. Quando o que dizem e principalmente o que fazem está em sintonia com a situação prática da vida das pessoas, surge fulgurante o fenômeno do messianismo. Há os que surgem com pregações em nada ou quase nada sincronizadas com a vida do povo. Estes, normalmente, são tidos e havidos como tresloucados, lunáticos, coisas assim, não passando muitas vezes de verdadeiros alienados mentais.

Quando em momentos de crise em qualquer comunidade humana, surgem estas tentativas desesperadas de ver alguma ordem no caos que ameaça imperar ou já impera. No Brasil, por exemplo, quando ainda o chamavam de Pindorama, os Tupinambás, segundo nos relata Pierre Clastres em A Sociedade Contra o Estado, viviam uma situação de superpopulação, carências materiais e crise de autoridade. Muitos seguiam verdadeiros “messias” - na acepção antropológica do termo - saindo do litoral em direção ao interior, onde haveria “uma terra sem mal”. Vale lembrar que os Tupinambás há muito deixaram de existir, exterminados pelos colonizadores portugueses, nossos ancestrais.

Antônio Conselheiro

Douglas Teixeira Monteiro em Um Confronto Entre Juazeiro, Canudos e o Contestado menciona que, na segunda metade do século XIX houve por um lado uma grave crise no sertão nordestino e, por outro, um estímulo do Vaticano a um revivescer da fé católica, com o apoio institucional da Igreja, mesmo, vários leigos eram levados a aproximar-se mais da religião e, dentro dos rudimentos de sua capacidade de compreensão, assim como daquela gente simples a quem se dirigiam, a mensagem evangélica era retransmitida.

Neste contexto surgem pregadores os mais diversos, dentre os quais Antônio Vicente Mendes Maciel, o “Conselheiro”, “um gnóstico bronco”, “um heresiarca do século II em plena idade moderna”, “um monstro”, “um bufão com delírios de apocalipse” segundo juízo valorativo de Euclides da Cunha em Os Sertões. Na verdade, tratava-se de um homem do povo que, falando na língua do povo, dizia o que o povo queria e precisava ouvir e fazia o possível para suplantar o caos em seu tempo pelo menos até onde chegava sua esfera de influência.

Conglomerando milhares de adeptos ao seu redor, tentando construir um projeto civilizatório diferente, atraiu a si a fúria, em primeiro lugar dos “coronéis” das redondezas privados da mão-de-obra barata que, evidentemente, preferia ir para o Belo Monte com toda a beleza poética e profética que a circundava a trabalhar em condições muito pouco satisfatórias. Isso, claro, quando havia serviço no sertão... Por outro lado, bastante ligado às tradições católicas, Antônio Vicente Mendes Maciel protesta e luta contra a república - não que tivesse qualquer contato ou vínculo com os Orleans e Bragança, sua pregação era Sebastianista! Com efeito, o orgulhoso positivismo republicano tirou da Igreja uma série de prerrogativas, particularmente com a criação do casamento civil e a laicização dos cemitérios... Lutando com dificuldade - e conseguindo - melhorias existenciais para sua gente, o Conselheiro acaba por atrair a repressão brutal de uma república incipiente, assim como a ira fanática daqueles que o julgavam (ou assim faziam crer através de maciça propaganda) “um monarquista disposto a lutar pela restauração do império de Pedro II” quando na verdade o que ele queria mesmo era ver o império da “lei de Deus” contra a “lei do Cão” da república velha.

Como várias outras tentativas de construção utópica na concretude, é brutalmente combatido – ao lermos a Obra máxima de Euclides da Cunha percebemos que fica estarrecido com a barbárie de que é capaz a tropa republicana; não menos, aliás, que o fica com o “fanatismo” dos conselheiristas...

No Brasil inúmeros foram os casos de tentativas de implantação de um projeto civilizatório diferente, todos implacavelmente massacrados pela sociedade afluente: Palmares, Colônia Cecília, a República Comunista Cristã dos Guaranis, Canudos, o Contestado... Somente os episódios que tiveram evento em Canudos contaram com a cobertura de alguém do porte genial de Euclides da Cunha legando esta memória para a posteridade com riqueza de detalhes.

A eleição de Luís Inácio Lula da Silva para a presidência da república do Brasil suscita-nos uma série de reflexões. Trata-se, na acepção weberiana do termo, de uma liderança de tipo “burocrático-formal” ou “legal”, pois que legitimada pelo processo eleitoral e não conduzido a seu posto por um movimento que desafie a legalidade (o que nos permitiria, tranqüilamente, dada inclusive a popularidade de que goza hoje) tratá-lo como um líder “carismático”.

Os oprimidos, no Brasil, aprenderam muito e hoje ensinam algumas lições ao mundo. Até o início do século XX ainda se pensava e praticava, à esquerda, norteados pelo mote “a violência é a parteira da história”, a tomada violenta do poder como única via possível de conduzir efetivamente os oprimidos ao poder e que, assim, deixassem de o ser. Assim foi de fato na então URSS e em Cuba.

Desafios do mundo contemporâneo

O início do século XXI faz-nos encontrar um mundo que guindou para a direita em praticamente todos os campos. Fatores novos, portanto não previstos nas obras tradicionais de norteamento à atuação da luta dos oprimidos desta terra têm de ser considerados e explicam-nos os motivos que tornam hoje impraticável a violência como caminho conducente ao poder político:

1) A inquestionável superioridade de poder de fogo dos defensores da chamada “ordem” tradicional, burguesa, capitalista.

2) A questão, sem precedentes históricos, da valorização dos “direitos humanos” no mundo.

3) Diversificação nos interesses das classes trabalhadoras: Como bem o enfatiza Fidel Castro, não se pode mais falar numa única “Classe Trabalhadora” ou num único partido que represente os trabalhadores. Os interesses dos funcionários da elite operária das Montadoras do ABCD paulista são completamente diferentes daqueles dos cortadores de cana-de-açúcar do agreste pernambucano, por exemplo.

4) Criminosos comuns utilizando linguajar revolucionário. As décadas de 60 e 70, particularmente na América Latina, trouxeram regimes de exceção, as ditaduras militares que optaram por conduzir prisioneiros políticos, comunistas, a cadeias onde jaziam criminosos comuns, o que os politizou. Hoje, traficantes, ladrões e seqüestradores aqui no Brasil como na Colômbia e em outros pontos da América, utilizam um linguajar que, naquelas décadas, seria considerado muito similar ao discurso marxista. A lógica aristotélica do capital trouxe-nos esta perversão, esta perversidade: se o comunista é um criminoso comum os criminosos comuns serão comunistas... Caso similar conduziu à ascensão do nazismo na Alemanha. Um retrocesso à ditadura militar na América Latina seria difícil, quase inimaginável, dado o desprezo por ela demonstrada com relação aos direitos humanos.

5) Perseguições indiscriminadas. A ditadura militar equiparou, para seus fins persecutórios, comunistas, liberais e corruptos, assemelhando-os a criminosos comuns. Assim, gente de esquerda lutou, foi presa, torturada e morta pela ditadura, alguns criminosos, corruptos de colarinho branco foram cassados e os liberais, contrários às nacionalizações promovidas pela ditadura transformaram-se todos em “perseguidos políticos”. Hoje sabemos que a esquerda política, representada, por exemplo, por Lula, Zé Dirceu e Genoino, foram perseguidos e aprisionados porque lutavam ao lado do povo por melhores condições existenciais para a classe trabalhadora (o que era proibido por lei) e que liberais como FHC e  José Serra foram “perseguidos” (sem que chegassem a ser presos, bastou-lhes auto-exilar-se no exterior) porque tinham mais comprometimentos com o capital internacional do que com a Soberania Nacional Brasileira, cara aos militares. Deploravelmente, em nome da defesa da soberania e da segurança nacionais muitas arbitrariedades se cometeram, mas o mais grave mesmo foi equiparar o comunista, o liberal e o corrupto ao criminoso comum. Criou-se com isso uma mistura pseudo-ideológica de difícil decomposição. E uma mediocrização da cultura, absolutamente pavorosa: é o “tchutchuca”, o “funk”, o “rap”, a toxicomania e a violência desmedidas como tentativas baldadas de escapar de uma realidade cada vez mais insuportável. Não se lêem mais os clássicos... Em verdade quase não se lê mais e ponto final! Crianças passam de ano nas escolas de hoje sem que saibam sequer desenhar as letras do alfabeto, num completo desvirtuamento das idéias originais de Paulo Freire na direção da “Progressão Continuada”.

A luta burguesa a favor dos direitos humanos desde o momento em que os EUA decidiram-se a defender estes valores para reforçar e valorizar suas diferenças em relação aos países do bloco socialista até os dias de hoje, ressalte-se, embora importante, circunscreve-se a defender a não implantação ou proliferação da tortura ou de tratamentos ou penas “cruéis, desumanos e degradantes”. Infelizmente, ainda não se consideram ou se tratam como governos assassinos e desrespeitosos para com os direitos humanos aqueles que condenam povos inteiros à morte ou a uma vida miserável (freqüentemente mesmo conducente à criminalidade) pela exploração cruel a que se vêem submetidos.

Lula faz de sua meta empírica, existencial mesmo, o fim da fome no Brasil, o que já chamou a atenção da ONU e se ele, como eu imagino, demonstrar na prática que é possível garantir a todos os brasileiros três refeições por dia, teremos um ponto inegável de inflexão na história do mundo. Sempre lembrando, como Frei Betto faz Lula repetir: “o povo tem fome de pão e de beleza...”

O PSDB e o neoliberalismo distante da realidade

Os neoliberais, no poder até o final deste ano (embora se auto-proclamem “social-democratas”) faz com que sejam incapazes de ver o Brasil verdadeiro, este que nós vemos estampado nos jornais diários ou viagens pelo Brasil real e não pelo Brasil idílico visto da “Ilha da Fantasia” do Planalto ou mesmo do exterior. Arrolo apenas alguns dos itens do Brasil caótico e enlouquecido que o PT, Lula e nossos aliados herdaremos de dez anos de desgoverno tucano:

§         Miséria e fome em praticamente toda a Nação, não apenas no “polígono das secas”. Mesmo nos grandes centros habitacionais encontram-se casos concretos de gente que vive (quando consegue...) da caridade pública ou privada; o assistencialismo ao invés de ter sido erradicado foi reforçado nestes últimos anos.

§         Salários praticamente congelados e preços em alta constante há dez anos. O salário mínimo, por exemplo, sofreu uma perda real de 30% de seu poder aquisitivo neste período, enquanto a gasolina e o gás de cozinha tiveram majoração – nestes dez anos – de 589% segundo a própria FGV; “economia estabilizada” como propaganda e à custa do poder aquisitivo da classe trabalhadora, mas a inflação crescente e galopante já de volta.

§         Desemprego em níveis inéditos na história do Brasil: mais de doze milhões de chefes de família desta nação encontram-se hoje sem emprego.

§         No início da década de 90 o Brasil estava em oitavo lugar dentre as economias do mundo. Todos devem recordar-se de que um dos projetos do então recém-eleito ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco era colocar o Brasil no Conselho de Segurança da ONU com base na força da sua economia e importância estratégica. Éramos então o oitavo PIB do planeta. Hoje caímos de 14º a 15º segundo dados do próprio governo que entra em seu ocaso.

§         Uma economia tão fragilizada que, a continuarmos a seguir o receituário do FMI, como desejam os neoliberais do PSDB, tal qual o faz a Argentina e o Paraguai, nosso futuro não promete ser muito diferente do deles.

 

A Esperança vence o medo

A luta dos oprimidos acontece e, por vezes é vitoriosa, no mundo da política concreta, possível, mas começa bem antes, com um engajamento corajoso na direção da conquista da Utopia. Como os seguidores de Antônio Conselheiro fizeram as margens do rio Vaza-Barris se transformar em cuscuz e com que o próprio rio tivesse suas águas transformadas em leite (claro que há muito trabalho humano concreto nestes processos de transformação, mas o discurso metafórico segue imbatível!) a luta dos excluídos precisa ocorrer antes e acima de qualquer coisa no campo da Utopia. É preciso puxar o Real para a esquerda, para a direção do humano, do sonho e da utopia para, ao fim e ao cabo, conquistarmos melhores realizações no campo da vida concreta.

Os construtores do amanhã, da Sociedade do Futuro são aqueles que, esperançosos, desenham as maquetes que servirão de base à concretização das propostas que serão colocadas em prática. Se sabemos para onde vamos, se temos uma meta, um ideal a atingir, chegar lá será mais simples. Se não sabemos sequer para onde vamos, se não temos meta ou ideal utópico concreto, como havemos de chegar onde quer que seja?

 

LÁZARO CURVÊLO CHAVES

     

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Referências Bibliográficas:

Campbell, Joseph – O Poder do Mito (Entrevistas a Bill Moyers) – Ed. Palas Athena, 1992

Clastres, Pierre – A Sociedade Contra o Estado – Ed. Francisco Alves, 1978

Cunha, Euclides da – Os Sertões – Ed. Abril Cultural, 1979

Furter, Pierre – Dialética da Esperança – Ed. Paz e Terra, 1974

Garaudy, Roger – Promessas do Islã – Ed. Nova Fronteira, 1981

Mariátegui, José Carlos – O Homem e o Mito, in Mariátegui, Vol. 27 da coleção “Grandes Cientistas Sociais” – Ed. Ática, 1982

Marx, Karl – Critique de La Philosophie du droit de Hegel – Ed. Aubier, 1971

Ridenti, Marcelo – Política pra quê? – Ed. Atual, 1992

Teixeira Monteiro, Douglas – Um Confronto entre Juazeiro, Canudos e o Contestado – Ed. Ática, 1981

Weber, Max – A Política como Vocação, in Ensaios de Sociologia – Ed. Guanabara, 1982

Internet:

IBGE – http://www.ibge.gov.br/

República Federativa do Brasil - Portal Oficial do Governo Brasileiro - http://www.brasil.gov.br/

PT Net – Partido dos Trabalhadores – http://www.pt.org.br/

VERMELHO . A esquerda bem informada  - http://www.vermelho.org.br/

 


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