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Escravos macerando mandioca *
Na revista
Espaço Acadêmico,
número 18, de novembro de 2002, Rosângela Rosa
Praxedes e Walter Praxedes apresentam um texto que defende a cota
de negros nas instituições de ensino. Tirando o
conjunto de argumentos sem muito fundamento para justificar as
cotas, dentre os quais destacamos a frase inicial absolutamente
deslocada e não tratada no texto, por meio da qual os autores
fazem menção a um aspecto do método marxista,
o restante é absolutamente generalista. Não se mira,
portanto, em argumentos que possam justificar cotas para negros.
No último parágrafo deixam subliminar que as cotas
devam ser para mulheres, homossexuais, deficientes físicos,
índios, além dos negros é claro. Certamente
que de 20% em 20% ou 30% em 30% acabar-se-ia as vagas. Pior que
isso é o seu fechamento que confunde universalização
com as cotas.
Proponho-me
então desenvolver um contra-ponto ao texto. Deixarei claro:
não haverá apego as linhas, palavras e letras que
desfilam no texto citado. O objetivo central da contribuição
que ora apresento busca contrapor as cotas à defesa da
universalização do ensino. Convicto de que este
é o desafio de todos que querem um mundo sem exploração,
opressão e desigualdades.
Universalização:
o desafio dos serviços públicos
A universalização
é a superação dos limites sociais, econômicos
e mercantilistas que existem hoje em todos os serviços
que ainda são públicos e estatais. A universalização
é a superação das relações
patrimonialistas que determinaram e determinam os aparelhos do
Estado que ainda possuem propriedade estatal. A universalização
é a absoluta garantia de acesso e atendimento aos serviços
públicos. Portanto, a universalização não
é para atender todos os excluídos ou mesmo todos
os explorados, mas sim para atender a todos que queiram ou precisem
dos serviços públicos. E, para isso, os serviços
devem ser construídos, planejados e administrados, fato
que exige uma absoluta revolução no modelo de administração
pública no Brasil.
Para isso
devemos ter claro o tratamento com os serviços. Vamos sim
utilizar o exemplo da educação. Para contratar profissionais
do ensino, professores ou trabalhadores de apoio à educação
(educadores diretos ou indiretos), é necessário
lançar mão do concurso público. O concurso,
neste caso, é um instrumento que iguala absolutamente todas
as pessoas para trabalhar no estado. Junto ao concurso se deve
garantir o aperfeiçoamento, a qualificação
permanente, a atualização do conhecimento, a construção
e superação coletiva de métodos e conceitos.
Também esse passa a ser responsabilidade do Serviço
Público de Educação para com os seus profissionais.
Condição fundamental que se agrega no conjunto de
fatores que possibilitam a universalização.
Para isso,
hoje, seria necessário reivindicar, não as cotas,
mas sim: a) a questão das carreiras; b) a abertura de concursos
permanentes adequando o número de profissionais à
quantidade de população; c) a formação
contínua dos profissionais; d) salários que permitam
a dedicação e o compromisso com a construção
educativa; e) revisões críticas e permanentes dos
conteúdos curriculares; enfim, uma série de medidas
que hoje estão absolutamente inexistentes nos serviços
públicos da educação seja em nível
federal, estadual ou municipal. É claro que tais iniciativas
demandam, necessariamente, romper com a lógica e a estrutura
do lucro e da mercantilização, o que exige que as
propriedade sejam estatais e que as verbas públicas sejam
concentradas nas instituições publicas estatais
e não repassadas para o setor privado ou mesmo para o chamado
"terceiro setor".
Essas ações,
que são fundamentais para o processo de universalização,
nos permitem falar do conjunto das segundas ações.
É necessário que o Estado garanta - sem a necessidade
dos concursos - educação de qualidade para todos
os que quiserem ou precisarem. Daí a questão não
é, e não pode ser, o privilégio por um tipo
de cor, raça, sexo, ou mesmo por questões físicas,
financeiras, classe, etc. Todos precisam ter acesso a educação
básica, fundamental e universitária. Sem mesmo discriminação
sobre os direitos de acesso ou condições que permitem
que alunos de escola pública tenham condições
adversas por conta de questões absolutamente subjetivas:
grupo de professores; local em que a escola está situada;
convênios com setores privados; propagandas de mercadorias;
etc.
Daí
as condições para a argumentação contra
as cotas. Quaisquer serviços Públicos, de quaisquer
dos níveis do executiva, devem, necessariamente atender,
de forma universalista, qualquer pessoa que viva no Brasil. A
garantia de atendimento é questão fundamental. Questão
que deve prevalecer por qualquer um que lute por uma sociedade
socialista, pois, a questão, em uma sociedade de classes,
não é estabelecer condições para atender
os filhos dos trabalhadores e não os filhos da burguesia.
Muito menos para atender negros, deficientes, mulheres, independente
das classes sociais as quais são vinculados. Mas, sim,
para atender a todos, sem absolutamente distinção.
Isso recoloca
o debate sobre a privatização dos serviços
em outra ordem. Não se trata de impedir ou não a
existência de instituições privadas de ensino.
Trata-se de garantir as condições esvaziando todas
as condições para que existam propriedades privadas
de ensino. Assim a questão não é o fundamento
só no econômico ou não, mesmo porque nem só
de econômico vivem as relações sociais de
produção e reprodução. A questão
central, neste caso, é sim de criar condições
reais para todos tenham acesso as bases e fundamentos da vida
humana. E, não podemos ter dúvidas, temos que cobrar
do Estado estes papel.
Mas quando
começamos a substituir a cobrança daquilo que é
fundamental para elementos que, aparentemente, garantiriam algum
tipo de justiça enquanto o estratégico não
chega, tomamos atalhos para caminhos sem volta. Isto existe em
vários aspectos e instâncias do Estado e continuará
a existir, também no caso das cotas. Vive-se assim de um
lado a banalização da luta contra a discriminação
racial e de outro o rebaixamento absoluto das bandeiras que devem
determinar a ação de qualquer um dos explorados
em relação ao Estado.
Sem dúvida
o discurso da universalização não interessa
à burguesia. Não interessa porque reforça
o espaço do público, da propriedade estatal, do
investimento da vaquinha social (os impostos) naquilo que deve
ser usado por todos e garantirão condições
dignas elementares de vida. Não interessa também
porque os filhos da burguesia podem estudar em qualquer lugar
e em qualquer escola, podendo disputar as vagas das melhores universidades,
que no Brasil e no mundo, ainda são as públicas
- e assim será durante muito e muito tempo (será?).
Ou seja, por mais um obstáculo para inibir o crescimento
da margem de lucro; ou mesmo por razões absolutamente próprios
a classe, pois, não possuem problemas de vagas em escolas,
a burguesia será sempre contrária a universalização.
No entanto
os capitalistas não poderão dizer, nunca, o porque
são contrários da universalização.
Mas também, não poderão dizer, que os trabalhadores
querem a escola pública só para eles, impedindo
o que é de todos seja para todos ou praticando um novo
modelo de patrimonialismo. Portanto, no que diz respeito aos serviços
públicos, não há maiores condições
de atender os negros ou qualquer outro setor que viva as desastrosas
conseqüências das discriminações ou opressões
sociais, que a luta conjunta e unitária, de todos nós,
pela universalização.
Na verdade
isso não terá fim. Os negros não são
só excluídos da educação, os são
também, por suas condições e formação
histórica, de uma raça que viveu os mais profundos
sacrifícios do atentado escravista, pagam até hoje
pela falta de acesso em moradia, emprego, saneamento, saúde,
etc. Será na universalização que a justiça
social encontrará seu eixo central, pois, os filhos dos
negros ricos, mesmo discriminados pela cor, não pagam por
falta de acesso de educação e de boa qualidade -
goste ou não o movimento negro de ouvir isso.
Portanto a
questão não é criando novas distorções
que serão resolvidas as distorções atuais,
mas sim as superando. E é uma besteira achar que isso só
será obra da sociedade comunista (das sociedades sem classes).
Mesmo porque a existência destas criará condições
nas quais a universalização será o aspecto
central da sociedade em quaisquer nível, até no
acesso das mercadorias de uso, que perderão absolutamente
seu conteúdo de troca, pois, esvaziar-se-á o lucro.
Por enquanto, a grande luta é não deixar que os
serviços se tornem mercadoria de troca, voltados na lógica
ou na prática para o lucro. Para isso, agora e não
no futuro, temos que criar condições para sua universalização
fazendo desta uma de nossas lutas estratégicas. Sem criar,
novos modelações patrimonialistas nas quais a contribuições
dos impostos privilegiem um ou outro setor.
Mesmo porque,
se a idéia de taxação das grandes riquezas
ou a idéia do imposto progressivo se tornar uma prática
real, não poderemos escutar os ricos dizer que eles têm
direito a mais pois colaboram com mais. Não podemos criar
argumentos que façam a realidade social viver em círculo.
Temos que apostar na progressão de superações,
em espirais sim, construindo condições absolutamente
adversas das atuais e superando de vez com a privatização
e o patrimonialismo que sufocam e impedem que negros, índios,
mulheres, deficientes, pobres, todos que não são
favorecidos, paguem em dobro: tanto na injustiça dos impostos
quanto na injustiça da utilização daquilo
que é sustentado pelos próprios impostos.