|
Por RUDÁ
RICCI
Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor
da PUC-Minas e Diretor da CPP
(Consultoria em Políticas Públicas).
|
|
Na
manhã da segunda-feira, dia 28 de outubro, todos os filhos
de operários brasileiros, ao se levantarem, sabiam que poderiam
um dia, se merecerem a confiança política dos cidadãos,
chegar à Presidência da República. Este, em
meu entender, é o impacto mais significativo da vitória
de Luiz Inácio Lula da Silva: uma profunda alteração
na cultura política brasileira. O patrimonialismo nacional
sofreu um revés histórico em virtude da quebra da
cultura estamental de nossa política. Inauguramos, talvez,
a possibilidade da construção de um espaço
público real em nosso país, em que a hierarquia social
baseada nas tradições familiar e no status começa
a ceder. Tantos autores, como Raimundo Faoro, insistiram em seus
estudos que a cultura política nacional transmutava a noção
de espaço público em espaço privado. O direito
cedia ao privilégio. Os homens não eram iguais, enfim,
mas superiores ou inferiores na escala política e social.
A vitória de Lula tem este significado simbólico.
Mas há
ainda um segundo impacto político significativo. A vitória
petista poderá alterar a prática política das
esquerdas na América do Sul e, mais remotamente, na América
Central. É fato que os partidos de esquerda latino-americanos,
não possuem o enraizamento social do PT. São partidos
muito pequenos, que não conseguiram, na sua maioria, o amálgama
petista entre lideranças sindicais e de movimentos sociais
de base, expoentes de alas progressistas das igrejas católicas
e evangélicas, intelectuais e organizações
de esquerda (na sua maioria, trotskistas). Mas o PT já havia
causado certo impacto na esquerda do Paraguai e a FREPASO argentina
também espelhava-se na superação da ortodoxia
de esquerda. A vitória de Lula deverá alterar o modo
de organização e prática política pública
dessas organizações.
Esses são
os frutos mais positivos da vitória petista. Daí por
diante, começam os desafios. Enormes, por sinal. Comecemos
pelos dois pontos de preocupação de qualquer cientista
político: a governabilidade e a governança. O
governo Lula contará com uma articulação muito
frágil entre os governadores eleitos. Este fórum possui
especial relevância em virtude da necessária reestruturação
do pacto federativo. O PT elegeu três governadores e se destacou
- não vencendo - nos estados do Rio Grande do Sul, Ceará
e Distrito Federal. Também conta com aliados importantes,
como o governador eleito Roberto Requião, do Paraná.
Acredito, contudo, que a grande estrela deste fórum será
governador mineiro Aécio Neves. Poderá se constituir
no fiel da balança e, se assim for, poderá rearticular
todo a estrutura do PSDB. Alguns "balões de ensaio",
inclusive, já foram plantados na imprensa nos últimos
dias, como a possível aliança entre Ciro Gomes, Aécio
Neves e Tasso Jereissati, opondo-se à hegemonia paulista.
No Congresso
Nacional, as lideranças mais lúcidas do PT já
anunciam a discussão das emendas parlamentares ao orçamento
de 2003, procurando garantir um fundo de R$ 2 bilhões (a
partir, inclusive, da manutenção da alíquota
de 9% da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido)
para sustentação das emendas. Nasceria daí
uma base parlamentar mais ampla. Vale, ainda, registrar que as correntes
minoritárias do PT elegeram ao redor de 40% da bancada petista
na Câmara Federal, merecendo grande profissionalismo na definição
de acordos na própria bancada.
Lula anunciou,
ainda, a formação do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social, plural partidária e ideologicamente,
demonstrando grande preocupação com a governabilidade,
superando um indesejável cerco político.
O aspecto mais
delicado do início de governo, contudo, diz respeito a governança,
a capacidade de administrar a máquina pública. Esta
questão definirá o tom do primeiro ano de governo.
Arrisco dizer que 2003 será o ano dos acertos na área
econômica e administrativa, com uma única exceção.
Os principais assessores da área econômica do novo
Presidente estão afirmando que o projeto mais importante
e emergencial é a reforma tributária. Citam, inclusive,
o projeto de lei proposto pela bancada do PMDB como muito razoável.
A sinalização clara aponta para a diminuição
do ônus tributário sobre a produção.
Caso consigam, os economistas petistas traçam um cenário
econômico mais positivo que o atual, embora ainda muito restritivo:
dólar estabilizado em R$ 3,00; inflação entre
10% e 13% anuais; lenta queda de juros e crescimento do PIB ao redor
de 3%.
O cenário
acima sugere dois grandes pólos de poder no governo Lula:
a Casa Civil e o Banco Central. A Casa Civil deverá ficar
nas mãos de um petista de primeira hora, um hábil
articulador, um neo-Golbery. O Banco Central, por sua vez, deverá
ficar nas mãos de um técnico indicado pelo mercado.
Deverá ter plenos poderes, com grande margem de autonomia,
já que é a exigência mais acalentada dos grandes
agentes econômicos.
As ousadias no campo das políticas sociais deverão
surgir em 2004, se o cenário econômico suportá-las.
Lembremos que será o ano das eleições municipais.
Mas haverá uma exceção. Lula anunciou, em seu
primeiro pronunciamento como Presidente eleito, a constituição
de uma Secretaria de Emergência Social, que combaterá
a fome. Este deverá ser seu principal campo de atuação
social em 2003. Em relação ao emprego, este deverá
ser ampliado a partir do mercado informal ou da flexibilização
dos tributos sobre uma fatia mais vulnerável do mercado de
trabalho, o que redundará na mesma conseqüência.
O valor do salário mínimo e a abrangência da
política agrária são duas incógnitas.
A dimensão da reforma agrária foi um ponto de atrito
do PT com o MST ao longo da campanha que acabou resultando na retirada
de metas quantitativas no programa de governo.
Assim, no rescaldo
das eleições, o governo Lula poderá disseminar
uma mudança importante na nossa cultura política e
nas articulações latino-americanas. Mas estará
enredado, em especial no seu primeiro ano, como os dilemas econômicos.
Não será o "lobo em pele de cordeiro" que
os discursos reacionários e temerosos sopraram aos ventos.
É bem provável, aliás, que se revele o inverso.
Mas, como dizia minha avó: "na derrota, a nobreza; na
vitória, a atenção". O governo Lula deverá
ser muito atento. Não poderá improvisar. Por este
motivo, no seu discurso aos militantes petistas que se apinhavam
na Avenida Paulista, Lula começou afirmando: "o que
fizemos até agora foi mais fácil do que o que nós
temos para fazer." Que esteja atento às suas próprias
palavras.
RUDÁ
RICCI
|