Os
programas oficiais e das ONGs encaram o problema da exclusão de
modo parcial, privilegiando ora a geração de renda (bolsa de escola,
cesta básica etc.), ora a questão de emprego via frentes de trabalho,
particularmente no Nordeste flagelado pelas secas recorrentes.
Nenhum desses programas atinge o objetivo de inclusão social,
no sentido mais lato e profundo da palavra, por omitir
a dimensão central do fenômeno – a perda de auto-estima e de identidade
de pertencer a um grupo social organizado.
A inclusão torna-se viável somente
quando, através da participação em ações coletivas, os excluídos
são capazes de recuperar sua dignidade e conseguem - além de emprego
e renda - acesso à moradia decente, facilidades culturais e serviços
sociais, como educação e saúde.
Esta tarefa ultrapassa o âmbito estreito
dos programas de filantropia desenvolvidos por ONGs e exige o
engajamento contínuo do poder público através de políticas pró-ativas
e preventivas, sobretudo na área econômica, em nível federal que
permeiem as ações dos governos estaduais e municipais.
As políticas ao nível macro executadas
pelas diversas instâncias do poder público não devem ser concebidas
como competitivas ou substitutivas dos programas e projetos realizados
pelas ONGs e outras entidades da sociedade civil. Ambos são necessários
e complementares, à condição de que não haja cooptação ou aproveitamento
dos programas desenvolvidos para fins político-partidários.
Em retrospectiva, nas últimas décadas
percebe-se o avanço gradual da sociedade civil nas disputas sobre
sua admissão nas esferas de decisão, inclusive com a alocação
de recursos dos orçamentos governamentais.
Assim, é possível prever um longo período
de poder dual em que as autoridades e instituições tradicionais
procurem manter o status quo na defesa dos interesses das
classes proprietárias e da tecnocracia a elas aliada. Por outro
lado, as múltiplas organizações da sociedade civil, adquirindo
saber e experiência no manejo e na defesa das causas públicas,
conquistam maior autonomia e autoconfiança na sua capacidade de
gerir o próprio destino no processo de transformação social e
política.
Tradicionalmente, os cientistas sociais
têm se dividido em três correntes quanto às prescrições para uma
intervenção transformadora das estruturas sociais. No início do
século XX, predominava a corrente marxista-revolucionária que
preconizava a tomada de poder mediante a insurreição armada. Cem
anos depois, com o desmoronamento da União Soviética e o fracasso
do “socialismo em um país só”, computados os custos sociais da
coletivização forçada e dos estragos ambientais da “industrialização
de choque”, impõe-se uma revisão crítica do conceito e suas aplicações,
sobretudo, à luz das transformações profundas das estruturas econômicas
e políticas no mundo e, particularmente, na América Latina.
Outro grupo, de tendência mais reformista
e avesso à mobilização de movimentos sociais, preconiza a mudança
social pela educação das massas para que possam se beneficiar
das oportunidades de mobilidade social ascendente. Em que pese
a conjuntura econômica desfavorável e a própria dinâmica “perversa”
da acumulação e reprodução do capital, fica evidente o caráter
ilusório desta proposta, sobretudo quando apresentada de modo
descolado da evolução do mercado de trabalho, do progresso técnico
e de uma visão mais integrada sobre o futuro “desejável” da sociedade.
Uma terceira proposta que tem conquistado
adesões, até surpreendentes, nos últimos tempos, inclusive a do
próprio Presidente FHC, privilegia o sistema de tributação progressiva,
particularmente as operações financeiras de natureza especulativa.
Enquanto nos países ricos uma alíquota de 50% ou mais de imposto
de renda é considerada normal, no Brasil continuamos atados aos
27,5%, mesmo depois de muitos debates no Congresso. Ressuscitou-se
a Taxa Tobin (uma espécie de CPMF), cobrada sobre transações financeiras
internacionais, cujos rendimentos serviriam para financiar projetos
de desenvolvimento nos países mais pobres e problemáticos.
Esta proposta, tal como a anterior,
esbarra na questão do poder, na capacidade e vontade do Estado
em absorver as pressões da sociedade para implantar um regime
de tributação e distribuição mais eqüitativo dos recursos públicos.
Diante da complexidade do desafio de
transformação social e a multiplicidade de fatores intervenientes,
não existe uma solução única e milagrosa. O processo de construção
de uma sociedade democrática universal, apesar dos avanços indubitáveis
já realizados, será longo e árduo, devido às resistências das
forças autoritárias e conservadoras em cada uma das sociedades
nacionais e na estrutura de poder internacional.
Como enfrentar as condições estruturais
adversas da economia que levam à exclusão social, vedando aos
pobres o acesso ao mercado de trabalho, à moradia decente e aos
serviços coletivos de saúde, educação e lazer?
Um número crescente de administrações
municipais tem logrado melhoramentos no atendimento da demanda,
mediante a integração de vários programas que visam o resgate
da dívida social.
Políticas habitacionais realistas são
associadas a programas de geração de renda e de trabalho com base
em cooperativas financiadas com
microcrédito e acompanhadas por ciclos sucessivos de capacitação
profissional. Ao mesmo tempo, os grupos-alvo desses projetos são
estimulados a assumir sua cidadania, através de campanhas de alfabetização
de adultos e a formação de grupos de atividades artesanais e recreativas.
Como definir as nossas tarefas nesse processo histórico?
Saber e fazer constituem duas dimensões
complementares e interdependentes que permeiam todas as nossas
atividades. Postulamos a busca contínua de conhecimentos e sua
tradução em ações construtivas, sempre ancoradas na compaixão,
na ética da responsabilidade e do compromisso com o bem-estar
coletivo e a justiça social.
O “saber” abrange o estudo e debates
dos grandes temas da sociedade contemporânea, para os quais o
conhecimento da História é fundamental para
transmitir e refletir a dinâmica da criação e recriação
permanentes da cultura e seus impactos na formação da personalidade
dos membros da sociedade.
Não basta pesquisar e construir teorias
para induzir ações transformadoras. Os eventuais resultados terão
que ser combinados com um aprendizado social que incorpore elementos
de ação coletiva, experimentação social e políticas públicas inovadoras.
Os projetos serão estendidos a todos os grupos sociais a fim de
melhor compreender como eles elaboram a construção de conhecimentos
e valores nas práticas sociais. Outro componente importante será
a avaliação das respostas do poder público às pressões crescentes
por participação democrática e a demanda universal pelos direitos
da cidadania.
A
ênfase no conhecimento e na ação coletivos deve imprimir os rumos
dos programas de inclusão social. Ultrapassando o ensino e os
estudos fragmentados e setorizados, propomos uma abordagem lastrada
no pensamento sistêmico mediante equipes interdisciplinares e
o diálogo com os profissionais de outras áreas que devem habilitar
os participantes de nossos programas para a atuação em conselhos,
fóruns, grupos de trabalho, parcerias, enfim, em todas as formas
de organização social com potencial de mobilizar e motivar a população
a assumir suas responsabilidades.
Em termos concretos, propomos:
§
ampliar e fortalecer os canais de participação social,
apostando no contínuo esforço dos excluídos para prosseguir na
construção de uma sociedade que reconheça seu direito a ter direitos
– os direitos humanos em toda sua plenitude – civis, políticos
e sociais;
§
investir fortemente na qualificação e emancipação dos
movimentos sociais, ONGs e de outros setores da sociedade civil
para que desenvolvam ações propositivas e capazes de fazê-los
participar eficazmente de negociações e deliberações;
§
qualificar agentes governamentais, em todos os níveis,
a fim de transmitir e fortalecer neles uma cultura democrática,
participativa e solidária;
§
capacitar lideranças para implementar políticas inovadoras
quanto à melhoria das condições de vida de toda a população e
à democratização dos processos de trabalho e de gestão;
§
inspirar e potencializar ações políticas institucionais
em todos os setores da sociedade, para difundir práticas democráticas
ampliadoras da cidadania.
Vislumbramos como tarefa inadiável
à reconstrução do capital social destroçado pelo avanço impetuoso
da “modernidade”.
O problema central da humanidade nesta
era de incertezas é a busca, às vezes desesperada, da identidade,
do sentimento de pertencer e de compartilhar com o grupo, sem
o qual os indivíduos não conseguem encontrar o “sentido da vida”.
HENRIQUE
RATTNER