|
A
favor das cotas para negros
|
|
Por ROSÂNGELA
ROSA PRAXEDES & WALTER PRAXEDES
A
autora é ativista da Associação União e Consciência
Negra de Maringá, graduada em Ciências Sociais pela USP, coordenadora
do Curso Preparatório Milton Santos;
o autor é Doutor em Educação (USP, Sociólogo
e Professor da Universidade Estadual de Maringá e Faculdades
Nobel.
|
|
Desembarque
de Escravos (RJ) - Desenho de Johann
Moritz Rugendas
1.
Quando
o assunto é cotas para cidadãos negros nas instituições públicas
de ensino superior, ainda não conseguimos entender porque muitos
intelectuais desprezam o estudo daquilo que Marx chamava de “múltiplas
determinações do concreto”, e se contentam com os argumentos contrários
presentes no mais suspeito senso comum meritocrático.
2.
Para
defender a implementação de políticas educacionais de combate
à discriminação racial no Brasil, vamos iniciar a nossa argumentação
apresentando um quadro que correlaciona as variáveis: a) escolaridade
dos pais; e b) escolaridade dos filhos:
Quadro
– Dados referentes à correlação entre as variáveis “Educação dos
pais” e “Escolaridade média dos filhos” – Brasil
|
Nível Educacional dos pais
|
Anos de estudo dos filhos
|
|
Nunca
freqüentou escola
|
3,2
|
|
Elementar
incompleto
|
5,7
|
|
Elementar
completo
|
8,3
|
|
1º
Grau incompleto
|
9,1
|
|
1º
Grau completo
|
10,5
|
|
2º
Grau incompleto
|
11,3
|
|
2º
Grau completo
|
11,8
|
|
Superior
incompleto
|
11,7
|
|
Superior
completo
|
13,1
|
|
Mestrado
ou Doutorado
|
14,0
|
|
Total
|
5,7
|
Fonte:
PASTORE, José: VALLE SILVA, Nelson. Mobilidade social no Brasil. SãoPaulo,
Makron Books, 2000, p. 41 (Dados referentes ao ano de 1996).
3.
Como
vimos, o quadro elaborado pelos professores Pastore e Valle Silva
indica que quanto maior é a escolaridade dos pais, maior tende
a ser a escolaridade dos filhos.
4.
Em
uma escola democrática as duas variáveis – a) escolaridade dos
pais e b) escolaridade dos filhos – não devem apresentar correlação,
uma vez que por mais desiguais que sejam as crianças, do ponto
de vista de sua origem social, cultural e econômica, a educação
escolar conseguiria neutralizar as diferenças iniciais dando uma
formação adequada para os educandos.
5.
Entre
as maiores contribuições da sociologia da educação de Pierre Bourdieu
está a de ter-nos ensinado que é a família que realiza os investimentos
educativos que transmitem para a criança um determinado quantum de capital cultural durante o seu processo de socialização,
que inclui saberes, valores, práticas, expectativas quanto ao
futuro profissional, a atitude da família em relação à escola
etc.
6.
O
sistema escolar, ao possibilitar o sucesso para aqueles que chegam
com uma maior soma de capital cultural, legitima as desigualdades
sociais entre as famílias. Posteriormente, após a passagem pelo
sistema de ensino “o rendimento econômico e social do certificado
escolar depende do capital social – também herdado – que pode
ser colocado ao ser serviço”. (BOURDIEU, 1998: 74).*
7.
O
sistema escolar contribui para manter e legitimar as situações
de desigualdade social e cultural entre os indivíduos e classes
sociais, uma vez que
“para
que sejam favorecidos os mais favorecidos e desfavorecidos os
mais desfavorecidos, é necessário e suficiente que a escola ignore,
no âmbito dos conteúdos do ensino que transmite, os métodos e
técnicas de transmissão e dos critérios de avaliação, as desigualdades
culturais entre as crianças das diferentes classes sociais. Em
outras palavras, tratando todos os educandos, por mais desiguais
que sejam eles de fato, como iguais em direitos e deveres, o sistema
escolar é levado a dar sua sanção às desigualdades iniciais diante
da cultura” (BOURDIEU, 1998: 53).
8.
Para
levarmos em consideração apenas as taxas de analfabetismo entre
os brasileiros, comparando-se
os dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios do IBGE
(PNAD) de 1992 e 1999, “as taxas de analfabetismo tiveram redução
em todos os grupos de cor, mas entre negros e pardos ainda
são quase três vezes maiores do que entre brancos... Em 1992
10,6% dos brancos eram analfabetos, 28,7% dos pretos (nomenclatura
oficial do IBGE) e 25,2% dos pardos. Em 1999, 8,3% dos brancos,
21% dos pretos e 19,6% dos pardos eram analfabetos” (Folha de
São Paulo, 5/04/2001).
9.
Caso
as políticas públicas do setor de educação e a ação educativa
no interior de escolas e universidades não levem em consideração
esta situação de desigualdade quanto à escolarização, existente
entre as famílias de negros e não-negros, continuarão a contribuir
para a reprodução da situação que condena a maior parcela dos
jovens negros à evasão escolar, à marginalização ou à realização
das mesmas atividades profissionais menos qualificadas e remuneradas
dos seus pais.
10.
As
cotas para alunos negros nas universidades públicas podem compor
um conjunto de medidas práticas, efetivas e imediatas que apontem
para o fim das desigualdades raciais na sociedade brasileira.
Conclusão
As
políticas públicas em favor do igualitarismo social e econômico,
que visam a atender a todos os excluídos de forma universalista,
não podem servir mais para dissimular a irresponsabilidade em
relação ao combate às formas de discriminação que não se fundam
só no econômico, como é o caso da discriminação contra mulheres,
homossexuais, deficientes físicos, índios e negros.
ROSÂNGELA
ROSA PRAXEDES E WALTER PRAXEDES
|
|
|
|
|
NOTAS
*
Bourdieu
chama de capital social o “conjunto de recursos atuais ou potenciais
que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou
menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento
ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de
agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis
de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos),
mas também são unidos por ligações permantentes e úteis.” (BOURDIEU,
1998: 67).
BIBLIOGRAFIA
BOURDIEU,
Pierre. Questões de sociologia.
Rio de Janeiro, Marco Zero, 1983.
______.
Pierre Bourdieu. Coleção
Grandes Cientistas Sociais. São Paulo, Ática, 1994.
______.
Escritos de educação.
Petrópolis, Vozes, 1998.
______.
O poder simbólico. Rio
de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001.
FORACCHI,
M.M. e MARTINS, J.S. - (Orgs.) - Sociologia
e Sociedade. São Paulo, Livros Técnicos e Científicos, 1975.
LEFEBVRE,
H. “Estrutura social: a reprodução das relações sociais”. In.
FORACCHI e MARTINS, Op. cit., pp. 219-252.
PASTORE,
José: VALLE SILVA, Nelson. Mobilidade
social no Brasil. SãoPaulo, Makron Books, 2000.
|
|
|