A língua da travessia:

o Português no Timor Leste

 

Por EVA PAULINO BUENO
Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo - EDUEM, 2000.

No romance histórico de Nélida Piñon, A república dos sonhos,  uma personagen reflete sobre a possível morte de uma língua, e até propõe que uma tal morte havia sido presenciada uma vez,  saindo pela boca de uma velhinha moribunda, última falante de uma língua que vai se extinguir com ela. A personagem que faz esta reflexão, uma brasileira neta de imigrantes Galegos, é apresentada como a que, em toda a família, é  a que professa o maior apego à peculiar música e beleza da língua portuguesa. É como se ela, cujos avós falavam uma língua minoritária da família das línguas descendentes do Latim, sentisse na pele, e na ponta da língua, o peso que o Português tem. Em Crónica de Uma Travessia, Luís Cardoso — nascido e criado no Timor Leste - nos apresenta, entre outras coisas, a questão da língua portuguesa no contexto do seu país de origem, e reflete como esta língua servia de ponte entre os diferentes grupos culturais e lingüísticos.

Logicamente, atualmente o Timor do Leste  é  mais conhecido nos países europeus e americanos como East Timor devido à cobertura jornalística dos horrores da luta entre os guerrilheiros lutando pela liberdade contra as forças da Indonésia, que tentavam manter a pequena localidade sob sua tutela política e cultural. Mas o Timor Leste que Cardoso nos apresenta é um muito mais antigo, datando do tempo em que  esta pequena localidade era colônia de Portugal. O Timor Leste tem, apesar da distância geográfica, e da proximidade com a fabulosa cultura das ilhas indonésias, uma cultura híbrida latina. Ligado administrativa e politicamente a Portugal por quase quinhentos anos, este pequeno país comparte com o Brasil, assim como com outras antigas colônias portuguesas na África, a cultura lusa, tanto os lados bons como os ruins dessa herança. Apesar das agruras políticas, das dificuldades econômicas, e da situação de colônia muito longe da metrópole, a influência da cultura portuguesa continuou, e em contacto constante com as culturas locais, e  o Timor Leste desenvolveu uma cultura especial. A parte inicial de Crónica de uma Travessia nos mostra uma comunidade que tem suas festas, seus costumes, e naturalmente, seus problemas, mas especialmente, o livro nos mostra como este pequeno país vivia em paz, e existia harmonia entre os diversos grupos étnicos e lingüísticos.

Mas ultimamente bem poucos de nós sabemos sobre o Timor Leste qualquer coisa  que não seja o que tem sido mostrado nos noticiários, os horrores sofridos por civis que foram torturados e mortos em praça pública por se oporem ao regime da Indonésia. Por que o Timor Leste chegou a aquele estado? Além de distante, o país é muito pequeno, e, como Cardoso mesmo aponta, por um tempo, até Portugal parecia ter se esquecido da pequena colônia, que foi deixada ao léu, presa fácil para a Indonésia, que certamente achava uma afronta ter em seu meio este pequeno país recalcitrante.

O livro de Cardoso, um timorense exilado em Portugal desde 1979, nos apresenta uma realidade cultural riquíssima, em que vários grupos étnicos e lingüísticos co-habitam o espaço social e político. O pai de Cardoso, enfermeiro contratado pelas autoridades da metrópole, levou a numerosa família a várias localidades de Timor, e  tais mudanças propiciaram ao menino Luís a oportunidade de conviver com  diferentes grupos, participar de diferentes realidades, reconhecer diversas línguas. Destinado à carreira eclesiástica pelo pai, Luís acabou não sendo aceito para padre, e foi enviado a Portugal com uma bolsa de estudos, já quando a revolução na “mãe  pátria” indicava que as colônias portuguesas seriam deixadas ao léu, condenadas a defenderem-se a si próprias, separadas de qualquer ajuda econômica ou militar. Então, por uma casualidade da sorte, Luís Cardoso não viveu m Timor Leste os últimos tempos em que sua terra natal passou sem guerra e sem guerrilha. Mas assim que os ataques da Indonésia começaram, mesmo desde  Portugal, ele seguiu, em agonia, as notícias das perdas, das atrocidades, dos horrores cometidos pelas forças indonésias contra os habitantes do Timor Leste. Ao mesmo tempo, ele seguia um calvário mais pessoal, de saber que seu pai se encontrava foragido, tentando escapar da perseguição dos militares, e provavelmente correndo grande perigo.

Quando o pai finalmente saiu de seu esconderijo e foi enviado como exilado a Portugal, Luís Cardoso se viu forçado a admitir que seu pai, aquele mesmo homem que durante tantos anos lhe havia inculcado amor e respeito a uma Portugal idealizada, agora, ao chegar ao Portugal real,  se encontrava perdido pelos labirintos da memória, todos eles povoados dos sons, imagens, cheiros e pessoas do Timor do Leste.

Diante deste quadro, Luís Cardoso também reconhece, dolorosamente, que até seu próprio pai, o real, humano, que está diante dele em Portugal, não é exatamente o pai que ele se lembrava, o pai que existia dentro do ambiente de Timor. Cardoso escreve sobre esta dor do encontro/ desencontro, e faz o leitor—mesmo aquele que nunca saiu de sua terra natal—sentir o sabor amargo do exílio, e perceber os profundos efeitos emocionais que estão associados com a terra natal. Este livro não diz que somos melhores dentro da nossa terra natal, mas diz que somos mais autênticos, mais reais, quando estamos envoltos pelo som da língua que ouvimos deste o berço, sentindo os perfumes das flores cujos nomes aprendemos quando crianças.

Este livro, escrito com a emoção daqueles que sabem que ninguém jamais volta para casa, é um documento para a compreensão não só da importância da língua portuguesa como fator de coesão política e cultural no Timor do Leste. Luís Cardoso, com um ouvido afinado para as nuances lingüísticas de sua terra, nos dá delicados testemunhos de outras línguas que co-existiam com o Português, indicativas de cerimônias e rituais diferentes dos cristãos e europeus. Talvez, para muitas dessas línguas, este livro funciona como um  testamento, uma tentativa de não desaparecer totalmente. Como não poderia deixar de ser, Crónica de uma Travessia também nos dá a oportunidade de examinar as conseqüências do colonialismo europeu  em suas várias facetas.  O que é fascinante é que, depois que O Timor do Leste afinal conseguiu se liberar da Indonésia, e agora tem a oportunidade de decidir qual entre todas as línguas existentes no país vai ser a língua oficial, o Português está sendo recuperado, não como a língua de opressão, mas como a língua de coesão nacional, uma espécie de língua franca que vai facilitar a comunicação entre os falantes de diversos idiomas.

E o Português tem a oportunidade, mais uma vez, de ser o que o poeta Olavo Bilac chamou, há muitos anos, a “última flor do Lácio, inculta e bela.” Esta língua, continua Bilac, é ao mesmo tempo “esplendor e sepultura.” Esperemos que, para O Timor Leste, sua retomada seja o sinal do esplendor, do renascimento, e que ajude a sepultar os anos de sofrimento de seu povo.

 

EVA PAULINO BUENO

     

Obras Citadas

Cardoso, Luís. Crónica de Uma Travessia. A Época do Ai-Dik-Funam. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1997.

Piñon, Nélida. A república dos sonhos. Rio de Janeiro: Alves, 1984.


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