No
romance histórico de Nélida Piñon, A república dos sonhos, uma personagen reflete sobre a possível morte
de uma língua, e até propõe que uma tal morte havia sido presenciada
uma vez, saindo pela boca
de uma velhinha moribunda, última falante de uma língua que vai
se extinguir com ela. A personagem que faz esta reflexão, uma
brasileira neta de imigrantes Galegos, é apresentada como a que,
em toda a família, é a
que professa o maior apego à peculiar música e beleza da língua
portuguesa. É como se ela, cujos avós falavam uma língua minoritária
da família das línguas descendentes do Latim, sentisse na pele,
e na ponta da língua, o peso que o Português tem. Em Crónica
de Uma Travessia, Luís Cardoso — nascido e criado no Timor
Leste - nos apresenta, entre outras coisas, a questão da língua
portuguesa no contexto do seu país de origem, e reflete como esta
língua servia de ponte entre os diferentes grupos culturais e
lingüísticos.
Logicamente,
atualmente o Timor do Leste é mais conhecido nos países europeus e americanos
como East Timor devido à cobertura jornalística dos horrores da
luta entre os guerrilheiros lutando pela liberdade contra as forças
da Indonésia, que tentavam manter a pequena localidade sob sua
tutela política e cultural. Mas o Timor Leste que Cardoso nos
apresenta é um muito mais antigo, datando do tempo em que
esta pequena localidade era colônia de Portugal. O Timor
Leste tem, apesar da distância geográfica, e da proximidade com
a fabulosa cultura das ilhas indonésias, uma cultura híbrida latina.
Ligado administrativa e politicamente a Portugal por quase quinhentos
anos, este pequeno país comparte com o Brasil, assim como com
outras antigas colônias portuguesas na África, a cultura lusa,
tanto os lados bons como os ruins dessa herança. Apesar das agruras
políticas, das dificuldades econômicas, e da situação de colônia
muito longe da metrópole, a influência da cultura portuguesa continuou,
e em contacto constante com as culturas locais, e o Timor Leste desenvolveu uma cultura especial.
A parte inicial de Crónica de uma Travessia nos
mostra uma comunidade que tem suas festas, seus costumes, e naturalmente,
seus problemas, mas especialmente, o livro nos mostra como este
pequeno país vivia em paz, e existia harmonia entre os diversos
grupos étnicos e lingüísticos.
Mas
ultimamente bem poucos de nós sabemos sobre o Timor Leste qualquer
coisa que não seja o que tem sido mostrado nos noticiários,
os horrores sofridos por civis que foram torturados e mortos em
praça pública por se oporem ao regime da Indonésia. Por que o
Timor Leste chegou a aquele estado? Além de distante, o país é
muito pequeno, e, como Cardoso mesmo aponta, por um tempo, até
Portugal parecia ter se esquecido da pequena colônia, que foi
deixada ao léu, presa fácil para a Indonésia, que certamente achava
uma afronta ter em seu meio este pequeno país recalcitrante.
O
livro de Cardoso, um timorense exilado em Portugal desde 1979,
nos apresenta uma realidade cultural riquíssima, em que vários
grupos étnicos e lingüísticos co-habitam o espaço social e político.
O pai de Cardoso, enfermeiro contratado pelas autoridades da metrópole,
levou a numerosa família a várias localidades de Timor, e
tais mudanças propiciaram ao menino Luís a oportunidade
de conviver com diferentes
grupos, participar de diferentes realidades, reconhecer diversas
línguas. Destinado à carreira
eclesiástica pelo pai, Luís acabou não sendo aceito para padre,
e foi enviado a Portugal com uma bolsa de estudos, já quando a
revolução na “mãe pátria” indicava que as colônias portuguesas
seriam deixadas ao léu, condenadas a defenderem-se a si próprias,
separadas de qualquer ajuda econômica ou militar. Então, por uma
casualidade da sorte, Luís Cardoso não viveu m Timor Leste os
últimos tempos em que sua terra natal passou sem guerra e sem
guerrilha. Mas assim que os ataques da Indonésia começaram, mesmo
desde Portugal, ele seguiu,
em agonia, as notícias das perdas, das atrocidades, dos horrores
cometidos pelas forças indonésias contra os habitantes do Timor
Leste. Ao mesmo tempo, ele seguia um calvário mais pessoal, de
saber que seu pai se encontrava foragido, tentando escapar da
perseguição dos militares, e provavelmente correndo grande perigo.
Quando
o pai finalmente saiu de seu esconderijo e foi enviado como exilado
a Portugal, Luís Cardoso se viu forçado a admitir que seu pai,
aquele mesmo homem que durante tantos anos lhe havia inculcado
amor e respeito a uma Portugal idealizada, agora, ao chegar ao
Portugal real, se encontrava
perdido pelos labirintos da memória, todos eles povoados dos sons,
imagens, cheiros e pessoas do Timor do Leste.
Diante
deste quadro, Luís Cardoso também reconhece, dolorosamente, que
até seu próprio pai, o real, humano, que está diante dele em Portugal,
não é exatamente o pai que ele se lembrava, o pai que existia
dentro do ambiente de Timor. Cardoso escreve sobre esta dor do
encontro/ desencontro, e faz o leitor—mesmo aquele que nunca saiu
de sua terra natal—sentir o sabor amargo do exílio, e perceber
os profundos efeitos emocionais que estão associados com a terra
natal. Este livro não diz que somos melhores dentro da nossa terra
natal, mas diz que somos mais autênticos, mais reais, quando estamos
envoltos pelo som da língua que ouvimos deste o berço, sentindo
os perfumes das flores cujos nomes aprendemos quando crianças.
Este
livro, escrito com a emoção daqueles que sabem que ninguém jamais
volta para casa, é um documento para a compreensão não só da importância
da língua portuguesa como fator de coesão política e cultural
no Timor do Leste. Luís Cardoso, com um ouvido afinado para as
nuances lingüísticas de sua terra, nos dá delicados testemunhos
de outras línguas que co-existiam com o Português, indicativas
de cerimônias e rituais diferentes dos cristãos e europeus. Talvez,
para muitas dessas línguas, este livro funciona como um
testamento, uma tentativa de não desaparecer totalmente.
Como não poderia deixar de ser, Crónica de uma Travessia
também nos dá a oportunidade de examinar as conseqüências do colonialismo
europeu em suas várias facetas. O que é fascinante é que, depois que O Timor
do Leste afinal conseguiu se liberar da Indonésia, e agora tem
a oportunidade de decidir qual entre todas as línguas existentes
no país vai ser a língua oficial, o Português está sendo recuperado,
não como a língua de opressão, mas como a língua de coesão nacional,
uma espécie de língua franca que vai facilitar a comunicação entre
os falantes de diversos idiomas.
E
o Português tem a oportunidade, mais uma vez, de ser o que o poeta
Olavo Bilac chamou, há muitos anos, a “última flor do Lácio, inculta
e bela.” Esta língua, continua Bilac, é ao mesmo tempo “esplendor
e sepultura.” Esperemos que, para O Timor Leste, sua retomada
seja o sinal do esplendor, do renascimento, e que ajude a sepultar
os anos de sofrimento de seu povo.