Observe estas duas palavras:
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Fmneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito
Fpneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
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Escola
municipal da Paraíba - Foto: Sergio Dutti
Agora, responda, se puder, as perguntas abaixo para avaliar sua consciência fonológica:
qual das duas palavras acima você pronuncia mais rapidamente?
qual delas você poderia dar alguma noção ou aproximação de
significado?
Se disser que encontrou dificuldade de pronunciar as duas palavras,
você tem, realmente, razão. Ambas, é verdade, possuem 46 letras. Se
encontrou dificuldade de encontrar algum grau de significação
no item a, também tem razão: a palavra mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito
não é palavra, não tem significado nenhum na língua portuguesa.
Em todo caso, como podemos analisar são duas palavras esdrúxulas,
esquisitas, extravagantes, mas apenas uma delas, isto, pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
, opção b, realmente, é palavra e está registrada no novo
dicionário houaiss da língua portuguesa, tendo por
definição “estado de quem é acometido de uma doença rara provocada
pela aspiração de cinzas vulcânicas “.
A outra palavra, isto é, mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito,
a rigor, do ponto lingüístico, não é palavra, não significa nada,
foi inventada por mim, no processo de elaboração deste texto,
de tal modo que é uma palavra fictícia, ou tem forma ou aparência de palavra, que se
assemelha, em configuração grafêmica ou fonêmica, a palavras da
língua portuguesa.
Para a lingüística tradicional,
palavra é um elemento lingüístico significativo, composto de um
ou mais fonemas. No caso da palavra Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico,
ela é significativa, tem
significado cultural, ainda que chegue a ter, 46 letras.
Pois bem. Para nós, investigadores
dos processos de lectoescrita, psicopedagogos, fonoaudiólogos,
neurologistas, psicolingüistas
ou psicólogos cognitivos, pais, professores, enfim, podemos, a
partir do caso acima, ilustrar como podemos descobrir indício
de uma dificuldade de leitura ou dislexia.
Não obstante, você pode indagar: qual das palavras acima citadas, poderia ser a “isca”, importante
indício, no diagnóstico e processo
de avaliação leitora?” Por incrível que pareça, para um diagnóstico preliminar ou básico, em sala
de sala, feito por um educador, sem que o aluno precise ir a uma
clínica psicopedagógica, a
palavra que, surpreendemente, nos é útil, e, portanto,
serve-nos como parâmetro
para diagnóstico, é mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito,
a falsa palavra.
Uma criança ou um adulto pode ser considerado uma leitor hábil,
competente na decodificação e compreensão leitoras, no processo de aquisição da linguagem, quando
é capaz não apenas de ler palavras não-familiares como em pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico,
que já é registrada no dicionário brasileiro, mas é capaz de ler,
também, palavras fictícias, inventadas pelos examinadores, professores,
pais ou reeducadores lingüistas, quando submetido a um processo
avaliativo de sua competência leitora.
Para Andrew W. Ellis, em seu livro Leitura, escrita e
dislexia: uma analise cognitiva, a familiaridade é um fator que determina, influencia
e afeta a facilidade ou dificuldade do
reconhecimento de palavras na leitura hábil, isto é, a leitura
em voz alta. (Artes Médicas, p.20)
2. O valor da consciência fonológica
A palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
é esdrúxula, esquisita, excêntrica ou, numa expressão, é uma palavra
não-familiar. Sem embargo,
é uma palavra. Uma pessoa que tem consciência fonológica, ou seja, capaz de reconhecer as letras e discriminar
os fonemas, será capaz de gerar o que chamo de lectogenia
(o neologismo é meu), uma decodificação, manifesta na pronúncia
corrente ou escorreita da palavra, seguida da compreensão, ou
seja, da assimilação do significado que o signo encerra na sua
forma lingüística.
Uma das tarefas dos psicopedagogos, fonoaudiólogos, psicólogos,
ou psicolingüistas, na avaliação da compreensão leitora, é comparar
o reconhecimento de palavras familiares com o reconhecimento de
palavras não-familiares.
Para uma criança, na educação infantil ou alfabetização ou
ainda no primeiro ciclo do ensino fundamental, situando-se na
etapa que os investigadores chamam de leitura inicial,
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico é uma palavra não-familiar, esquisita; mas para um adulto, ou leitor competente, curioso,
pode ser uma palavra familiar, isto é, uma palavra em que o bom
leitor é capaz de decompor em seus morfemas (radicais, sufixos,
por exemplo) e fonemas (vogais, consoantes ).
Quando o leitor principiante
aprende que pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico traz, na
sua estrutura lingüística, formas que estão presentes no mundo
vocabular, o seu ou o revelado pela cultura do meio em que vive, encontrará níveis de contigüidade semântica da palavra não-familiar
com outras palavras familiares
como no caso pneumonia, ultramar , microscópio, vulcão,
cone, ouvido, sulfúrico, de modo a fazer,
também, a identificação rápida e fácil da forma, da pronúncia
e do significado apropriado, viável, de
uma palavra encontrada no texto escrito ou ouvido na mídia.
A aprendizagem
da palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico ou de qualquer
outra palavra esdrúxula ou não-familiar ou mesmo uma não-palavra
requer da criança, durante o processo de leitura, pelo menos,
três “representações internas” : a) aparência,
b) significado e c) som, presentes na estrutura da palavra
e a ligação dessas representações umas às outras. A aparência
lingüística leva o leitor hábil ao reconhecimento da palavra.
O significado e o som de uma palavra, por seu turno, são revelados pela consciência fonológica,
alcançada no processo de aquisição da habilidade lectoescritora
na escola.
3. O reconhecimento das palavras
Por fim, uma pergunta pode
agora advir: quando a palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
tornar-se-á familiar para a comunidade brasileira ou lusófona? Responderei assim: uma palavra torna-se familiar
para os educandos e para os já escolarizados, quando ela , a palavra, realmente, é percebida, isto é, a comunidade
lingüística é capaz de fazer a identificação visual ou auditiva
da palavra e pode lhe atribuir algum grau de significado.
Para as crianças que vêem e lêem palavras ou não-palavras,
no mundo da leitura, fora ou dentro da escola, tendem, quase sempre,
a ter facilidade de identificar as formas lingüísticas
que são verdadeiramente palavras, isto é, signos lingüísticos,
dotados de significado (conceito, idéia) e significante (estrutura
fônica).
Quando estão diante de palavras fictícias ou pseudo-palavras,
não apenas encontram dificuldade de pronunciá-las mas de reconhecer
sua estrutura lingüística, uma vez que as não-palavras são dotadas
apenas de significantes da língua, mas que nada representam
no mundo da leitura ou na fala das pessoas.
Por excelência, os fonemas são os significantes mais discretos
de uma língua, as menores unidades sonoras distintivas da palavra,
mas isoladas, são abstratas, nada significam. Os morfemas, ao
contrário, unidades significativas, como os radicais e sufixos
que formam a palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico,
são elementos que ajudam na compreensão da mesma, ainda que a
palavra tenha um processo de formação derivacional
tão complexo ou ainda que tenha, na sua aparência ou representação
grafêmica, 46 letras, sendo, definitivamente, a maior da língua
portuguesa.
Pode-se, então, nessas alturas, indagar: Se uma criança ou adulto, após exercício de
soletração, pode pronunciar, em voz alta, a palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
não encontrando a mesma “ facilidade” na falsa palavra mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito,
justificar-se-ia tal comportamento lingüístico porque a palavra
escrita pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
é uma combinação não familiar de letras, ou porque a não-palavra
“mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito" é
uma combinação não familiar de fonemas, mais difícil de pronunciar?
A pergunta acima é longa e complexa, mas tem uma resposta curta
e simples. É a velocidade
de leitura da palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico,
que tem a mesmas letras
e praticamente os mesmos fonemas da falsa palavra , é
viável e familiar, ou
melhor, é virtualmente familiar, em sua forma
escrita. Depois
de alguns minutos alguém pode, com certa dose de brincadeira ou
ludidicidade, guardar, em sua memória de longo prazo, a palavra
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, como uma
nova e esdrúxula palavra no seu universo semântico ou vocabulário
individual. Não encontraremos a mesma destreza lingüística para
as palavras falsas.
4. Uma luz importante
Em substância, diria o seguinte: quem adquire consciência
fonológica no decorrer da aquisição de linguagem pode não
apenas ler palavras esdrúxulas, familiares ou “não-palavras, como mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito,
que nada diz, que nada revela, nem na sua forma nem sua configuração
lingüística. O leitor hábil decodifica e compreende palavras que
têm significado e desconfia de palavras que, mesmo podendo ser
decodificadas, não têm significado nenhum no seu mundo cultural.
Uma criança com dislexia fonológica, com deficiência na sua
consciência fonológica, por exemplo, pode lentamente pronunciar
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, e no decorrer
do tempo, ganhar destreza na decodificação, mas sua pronúncia será sofrível quando
tentar pronunciar mneupotruramiscolcopicosislicoculvanonociócito.
A aprendizagem da leitura, tendo, por base, o método fônico,
levará à aprendizagem
da pronúncia de palavra pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
ou anticonstitucionalissimamente, de modo que deixa
de ser estranha e sem sentido quando realmente lida(decodificada
e compreendida) e torna-se algo que parece familiar, dela se extraindo
um significado e levando
o emissor ou receptor a uma emissão viável ou a recepção produtiva.
Esta reflexão metralingüística, a partir da maior palavra da
língua brasileira, é uma verdadeira epifania para os que
atuam na Psicopedagogia e Psicolingüística e um achado excêntrico,
mas luz importante, para os estudiosos dos processos de
aquisição de leitura e escrita da comunidade lusófona.