Iremos,
no presente texto, apresentar uma discussão acerca da relação
entre universidade e especialização, isto é, entre as instituições
de ensino superior e o processo de especialização profissional
e intelectual. Para realizar isto iremos colocar o caráter da
divisão social do trabalho em nossa sociedade e discutir a divisão
do trabalho intelectual derivada dela e os problemas gerados por
ambas no sentido de se ter uma compreensão da totalidade dos fenômenos,
o que significa realizar uma discussão epistemológica. Também
abordaremos a inserção da universidade no interior desta problemática
e o que pode ser feito diante do quadro apresentado.
A Importância
da Categoria da Totalidade
A compreensão da realidade social
e natural é um processo que requer que procedimento intelectual?
Sem dúvida, a categoria de totalidade e a visão do todo são fundamentais.
Hegel destacou isto através de sua célebre frase: ao ver a árvore
pode se perder de vista a floresta. “O verdadeiro é o todo”, disse
Hegel (1992, p. 31), mas a totalidade em Hegel ainda é metafísica,
o que não lhe retira o mérito de ter destacado sua importância
para a consciência humana.
Marx irá considerar a totalidade
da forma mais adequada, colocando-a como uma das categorias fundamentais
de seu método dialético, que ele também chama, em algumas passagens,
de concreto (Marx, 1983) e é daí que alguns pensadores
irão falar de “totalidade concreta” (Kosik, 1989). Mas Marx vai
além disso, pois não só enfatiza a necessidade de chegarmos a
uma totalidade concreta, de reconstituirmos o fenômeno pela mediação
da abstração e descobrir as suas determinações, e assim compreendermos
sua manifestação concreta, histórica, determinada, como também
apontou as raízes históricas do abandono da visão da totalidade
concreta.
A divisão social do trabalho é a
chave para compreender a visão parcial e limitada da realidade.
Não é sem motivo que Marx e Engels (1992) identificaram o nascimento
da ideologia com o surgimento da divisão entre trabalho intelectual
e trabalho manual. É somente com esta divisão social que os trabalhadores
intelectuais poderão pensar que as idéias, a consciência, são
autônomas, independentes. É o caso da filosofia, que só se torna
possível quando a produção material permite que alguns indivíduos
se dediquem tão-somente ao trabalho intelectual (Viana, 2000a).
Daí a importância das idéias na filosofia platônica. Assim, a
divisão social do trabalho faz nascer uma visão limitada da realidade,
pois o indivíduo envolvido nestas relações passa a ver o mundo
a partir de seu modo de vida, de seus valores e relações sociais
oriundos daí. As representações cotidianas são expressões das
relações sociais que os indivíduos travam em sua existência, o
que significa que relações sociais limitadas (submetidas à divisão
social do trabalho) produziram representações limitadas, ilusórias.
Na sociedade capitalista isto se
agrava. Com o processo de ampliação cada vez maior da divisão
social do trabalho, temos um indivíduo cada vez mais especializado.
Na sociedade capitalista temos não só uma divisão entre trabalho
intelectual e manual como uma divisão no interior do próprio trabalho
intelectual. A divisão social do trabalho intelectual significa
a formação de trabalhadores intelectuais que se dedicam apenas
a determinados fenômenos, utilizando determinadas teorias, métodos
e técnicas. Estes trabalhadores intelectuais formam categorias
profissionais, com interesses próprios, com modos de vida próprios.
Assim, a divisão social do trabalho intelectual possui uma base
social, a categoria profissional, e uma base intelectual, a tradição
da ciência na qual se fundamentam os profissionais de uma determinada
área (abrimos um parêntesis aqui para explicar que entendemos
por tradição científica uma determinada ciência particular – a
biologia, a química, a física, a sociologia, a economia, a psicologia,
a lingüística etc.). Esta dupla base acaba reforçando a especialização.
O intelectual perde a visão do todo, vê apenas a árvore e nunca
a floresta.
A primeira grande divisão do trabalho
intelectual ocorre entre ciências naturais e ciências humanas
e estas acabam se subdividindo em inúmeras outras ciências particulares.
As ciências sociais se dividem em História, Sociologia, Antropologia,
Geografia, Ciência Política, Economia, Psicologia, etc. e acabam
produzindo, em seus extremos, os determinismos científicos (geográfico,
econômico, etc.), e visão limitada da realidade social (Viana,
2000b). Mas isto também ocorre nas ciências naturais, o que leva,
em seu extremo, a outro tipo de determinismo (biológico, genético,
etc.).
O valor da categoria da totalidade,
destacada também por Lukács (1989) é desconsiderado devido ao
próprio desenvolvimento da divisão social do trabalho. Isto vai
gerar inúmeros problemas em matéria de compreensão da realidade.
A especialização se aprofunda de tal modo que ela se reproduz
no interior de uma mesma ciência. Um médico cardiologista é um
especialista limitado se não ultrapassar os limites de sua formação
especializada. Os problemas cardíacos são orgânicos, sem dúvida,
mas sua origem pode ser social, e isto poderia ser descoberto
por um médico que tivesse acesso à psicossomática e psicanálise,
bem como à sociologia. Além disso, é preciso uma visão global
do organismo, que nem sempre os especialistas de algumas áreas
da medicina possuem. Qual é o papel do médico e da medicina na
sociedade? Prevenir ou curar? Atuar na doença já constituída ou
evitar sua constituição? Ser um especialista restrito, apolítico,
ou um pesquisador adisciplinar e com uma visão ampla da realidade?
Obviamente que os interesses de uma categoria profissional é um
obstáculo para certos posicionamentos, que, no entanto, seriam
benéficos para a população e para o desenvolvimento do saber.
Este é apenas um exemplo. Milhares de outros poderiam ser desenvolvidos.
Do ponto de vista metodológico, a
totalidade é fundamental porque não é possível compreender as
partes sem uma visão do todo. Não é possível compreender a dinâmica
populacional sem compreender os processos culturais de casamento
e procriação, sem compreender o processo de deslocamento da força
de trabalho e da oferta de emprego, sem compreender o processo
de desenvolvimento dos serviços de saúde, avanços da medicina,
políticas estatais, etc. Enfim, sem uma visão do todo se vê apenas
partes isoladas e ideologicamente “explicadas”. Não é preciso
dizer que isto não só é uma necessidade teórica como também prática.
A resolução de problemas sociais, ambientais, entre outros, requer
sua compreensão, e, portanto, a visão da totalidade.
A visão parcelar da realidade, principalmente
quando provoca o isolamento de suas partes, produz não somente
idéias falsas, mas práticas equivocadas. Por isso, a categoria
de totalidade assume importância fundamental.
Assim, a divisão social do trabalho
cria e amplia a divisão social do trabalho intelectual. Sem dúvida,
esta última é uma parte da primeira, ou seja, a divisão social
do trabalho intelectual é uma forma assumida pela divisão social
do trabalho, pois ela possui uma base social (as categorias profissionais)
e uma base intelectual (a tradição científica ou técnica, incluindo
também a filosofia). Mas quando falamos em divisão do trabalho
intelectual estamos falando de uma conseqüência da divisão social
do trabalho. A divisão social do trabalho é um elemento do modo
de produção capitalista. No entanto, a divisão social do trabalho
se manifesta como divisão do trabalho intelectual em algumas categorias
profissionais, que são as compostas por trabalhadores intelectuais
e técnicos especializados, além dos filósofos e teólogos, embora
estes, principalmente os últimos, não estejam tão sincronizados
com a sociedade moderna, sendo mais resquícios anacrônicos de
sociedades pré-capitalistas. A divisão do trabalho intelectual,
por sua vez, produz uma visão limitada da realidade, pois cada
categoria profissional constitui sua tradição científica própria,
que não apenas recorta uma esfera da realidade e a elege como
seu objeto de estudo como também cria métodos, técnicas, teorias
que fornecem uma visão condicional da realidade. Cada tradição
científica, com o peso que possui a palavra tradição (entendemos
por este termo o conjunto de valores e idéias que são transmitidos
de geração em geração, criando vínculos arraigados e fortes, dificilmente
superados pelos que são socializados no seu interior), produz
os seus precursores, seus clássicos, sua linguagem etc. Isto tudo
gera uma “armadura ideológica”, isto é, uma visão condicional
da realidade. Tal visão se caracteriza pelo fato de que ela não
pode ultrapassar determinadas condições, oriundas da tradição
científica em questão.
Historicamente, cada tradição científica
busca sua própria consolidação e legitimação e isto abre espaço
para a posterior competição entre as diversas tradições científicas
visando atingir o cume da hierarquia no sistema das ciências (Viana,
2000b), incluindo também outras formas de saber, tais como os
técnicos, filosóficos etc. Por detrás de tudo isto existem interesses
originados na base social da divisão do trabalho intelectual:
as categorias profissionais. Estas buscam se organizar e defender
seus interesses corporativos, tanto através de associações e conselhos
quanto de ações no interior das instituições de ensino superior
e do discurso sobre a importância de sua tradição científica.
A competição entre as categorias profissionais possui como determinação
fundamental o caráter competitivo da sociedade capitalista. A
questão da competição como elemento constituinte das relações
sociais no capitalismo foi analisada por diversos pesquisadores
(Fromm, 1976; Mills, 1970). Mas além da competição também o processo
crescente de burocratização e mercantilização das relações sociais
reforçam esta tendência e fazem parte da totalidade da sociabilidade
capitalista. O processo de mercantilização e burocratização das
relações sociais torna a ascensão social, status, riqueza
e poder, valores fundamentais na sociedade moderna (Viana, 2002).
Por conseguinte, a valoração de uma tradição científica reforça
a valoração de uma categoria profissional e vice-versa. Tudo isto
reforça a especialização e a visão parcelar da realidade. Cada
pesquisador passa a ver a realidade de acordo com sua tradição
científica. Assim, a crítica que Marx fez ao “idiotismo da especialização”
adquire relevância para a compreensão da formação intelectual
em nossa sociedade e também a crítica que Karl Korsch (1977) realiza
às diversas tradições científicas submetidas à divisão do trabalho
intelectual ganha força e radicalidade que devem nos fazer repensar
o trabalho intelectual na sociedade capitalista.
O especialista vive em relações sociais
limitadas (e todos somos especialistas, pois possuímos um espaço
reservado na divisão social do trabalho, através da categoria
profissional) mas o trabalhador intelectual, por se dedicar a
analisar tais relações, ou outros fenômenos relacionados a elas,
fazendo um corte temático (o “objeto de estudo” de sua ciência)
e, muitas das vezes, isolando-as das demais relações sociais,
acaba criando sua naturalização e universalização, produzindo
uma sistematização de uma falsa consciência, isto é, uma ideologia.
Universidade
e Divisão do Trabalho Intelectual
As universidades são instituições
que possuem como principal objetivo formar força de trabalho especializada,
ou seja, especialistas. Ela se organiza institucionalmente a partir
da divisão do trabalho intelectual e a reproduz. O próprio processo
de seleção daqueles que irão ingressar nela já tem como pressuposto
a opção de especialização, ou seja, através da escolha do curso,
que significa, escolha da especialidade a ser seguida, isto é,
escolha da categoria profissional ao qual o estudante, após o
término do curso, irá pertencer. A divisão da Universidade em
Faculdades, Institutos, Departamentos etc. é mero reflexo da divisão
social do trabalho. Existem as grandes divisões: exatas, biológicas,
humanas, agrárias... depois aparecem as subdivisões, até chegar
ao curso, onde se forma o estudante, que será biólogo, agrônomo,
matemático, sociólogo, psicólogo, médico, advogado, físico, químico,
farmacêutico, bibliotecário, geógrafo, historiador etc.
Ao entrar na universidade o estudante
já fez, em muitos casos, uma “escolha vocacional”, e isto lhe
predispõe a aderir à tradição científica da qual fará parte. O
processo de formação significa, no fundo, um lento processo de
internalização de valores, linguagem, idéias etc. de sua tradição
científica. Isto cria, simultaneamente, uma resistência às demais
tradições científicas, umas por serem consideradas “inúteis” para
sua formação profissional, outras por colocarem claramente a competição
pela hierarquia no sistema de ciências. Mesmo quando não há resistência,
geralmente, toma-se as demais tradições científicas como “disciplinas
auxiliares”, meros apêndices da tradição científica na qual se
forma. Isto é apenas produto de todo um sistema de ensino fundamentado
na divisão social do trabalho.
Mas o grande problema gerado por
tal divisão do trabalho intelectual não se encontra apenas nisto.
O “ovo da serpente” choca noutro lugar. Ele se encontra na prática
derivada desta formação. A ideologia não só é falsa consciência,
não somente legitima o status quo, como também é mobilizadora,
é constituinte de técnicas, ações, práticas, políticas estatais
etc. Vejamos alguns exemplos para perceber a amplitude das conseqüências
da divisão do trabalho intelectual. Em certas ciências ou categorias
profissionais ela gera ideologias. A forma mais visível destas
se encontra nos chamados determinismos: geográfico, biológico,
genético, econômico etc. Assim nasce o biologismo, o sociologismo,
o economicismo etc. Mas elas também se manifestam sob formas mais
amenas. Esta ideologia, por sua vez, além de ser uma forma de
falsa consciência, também gera outras conseqüências. A falsa consciência
pode legitimar o status
quo, desmobilizar os movimentos de contestação social, corroer
a crítica e a percepção da totalidade da vida social etc. Mas
uma vez existindo, pode se tornar uma fonte de ações, práticas,
políticas estatais e técnicas extremamente nocivas, seja ao conjunto
da população ou a parte dela. Tomemos um caso extremo como exemplo:
a sociobiologia. A sociobiologia – um derivado contemporâneo do
darwinismo – vem dizer que a violência, o egoísmo etc. são genéticos...
(Viana, 2001a). Outro exemplo: as ideologias do cérebro (Viana,
2001b). Tomemos apenas um exemplo, o da ideologia do cérebro enquanto
substância química nos diz que um problema emocional tem raiz
puramente orgânica. São formas de falsa consciência mas geram
ações prejudiciais à população: a sociobiologia pode justificar
e incentivar políticas estatais repressivas sobre parte da população
e a ideologia do cérebro como substância química provoca tratamento
de problemas emocionais através de drogas, muitas vezes na “moda”,
e de acordo com os interesses das indústrias farmacêuticas, gerando
diversos problemas aos seus usuários – por exemplo, o chamado
“efeito colateral” (Kamim, Lewontin e Rose, 1987).
Universidade
e Intelectual Coletivo
Neste contexto, que fazer? Alguns
dos sintomas dos problemas gerados pela especialização já foram
há muito tempo identificados, mas as soluções propostas são paliativos
que nada resolvem. Uma das soluções propostas se encontra na chamada
interdisciplinaridade, que, além de ser mais uma solução discursiva
do que realizada na prática, apenas propõe juntar disciplinas
ao invés de abolir a divisão imaginária que elas representam.
Também há a discussão entre a formação do “generalista” em contraposição
a do “especialista”, mas esta é uma questão bem mais restrita,
pois se refere aos profissionais de uma mesma área (por exemplo,
se o médico é “generalista” ou “especialista”, clínico geral ou
especialista em alguma área).
Estas e outras propostas não resolvem
a questão. Qual seria uma possível solução para este problema?
Devemos reconhecer que a base social da especialização (a inserção
numa categoria profissional), não pode ser removida no contexto
da sociedade moderna. Isto só seria possível com uma profunda
transformação social, o que pode constituir num objetivo, mas
não numa prática imediata. Apesar disto, é possível superar a
divisão do trabalho intelectual através de uma formação mais ampla.
Em primeiro lugar, seria necessário abandonar os valores constituídos
no interior das categorias profissionais (valorar a própria profissão,
colocar sua tradição científica como a fundamental, a mais importante
etc.); em segundo lugar, superar a visão condicional da realidade
oriunda de uma determinada tradição científica; em terceiro lugar,
buscando viabilizar isto, constituir coletivos de trabalho intelectual,
a formação de um intelectual coletivo, no interior das instituições
do ensino superior. Junto com isso e viabilizando sua concretização,
mudanças curriculares, rompendo com a discriminação de outras
tradições científicas e integrando-as na focalização temática
(por exemplo, num curso de psicologia, o que a antropologia e
as demais ciências apresentadas como “disciplinas auxiliares”
poderiam contribuir nos temas – objetos de estudo – psicológicos?
Ou seja, não se trata de estudar a antropologia pela antropologia
mas sim demonstrar em que pode contribuir com a compreensão, por
exemplo, da questão da “normalidade e anormalidade”, entre outros
exemplos possíveis), o que já existe em matéria de tentativas
mas que não são praticadas eficazmente e encontram resistências.
Também o estudo da história da ciência seria fundamental. Ao lado
dela, a filosofia e sociologia das ciências seriam importantes
neste contexto. Estas disciplinas forneceriam uma visão mais abrangente
das tradições científicas e possibilitariam uma visão mais ampla
(social, história, epistemológica) delas. Outro elemento seria
a formação epistemológica que trabalhe com um método universal
(no caso das ciências humanas, um método que possua eficácia em
todas elas), recuperando a tese da unificação das ciências humanas
via método, mas agora num sentido de busca da superação de sua
divisão imaginária, o que já pressupõe uma opção metodológica.
Tal opção metodológica, obviamente, requer a visão da totalidade
enquanto princípio, o que simplesmente significa que é impossível
se pensar, tal como prega o positivismo, em neutralidade de valores.
E junto com este método, teorias e técnicas de pesquisa. A formação
epistemológica também mereceria destaque na estrutura curricular,
possibilitando uma constituição de um pesquisador não especialista,
mas sim dedicado a determinados temas e com possibilidade, devido
a tal formação, de passar de um domínio temático para outro. Isto
tudo junto com outras mudanças (curriculares, de percepção da
totalidade, de formação epistemológica) formariam alguns elementos
que permitiriam diminuir os males da especialização. Também a
formação de coletivos adisciplinares (para utilizar um
neologismo), constituídos por associações, grupos de estudos e
trabalho etc., voltados para pesquisas e ações no sentido de concretizar
as mudanças propostas e elaborar novas formas de combate à divisão
do trabalho intelectual, completariam o quadro de um projeto de
questionamento da especialização. Portanto, tanto a predisposição
individual dos pesquisadores como ações coletivas podem contribuir
com o processo de questionamento da divisão do trabalho intelectual
e buscar formas de superá-la. Assim, algumas serpentes não irão
nascer e iremos contribuir para que as universidades deixem de
ser um ninho de serpentes e passem a ser semente de um mundo novo.