Foto:
Marcio Fernandes/AE
Os democratas
de São Paulo e do restante do País não podem
senão se rejubilar com a última derrota eleitoral
de Paulo Maluf. Desde o lançamento de sua candidatura,
sua vitória ao governo do estado de São Paulo era
tida como favas contadas... Na reta final, contudo, foi ele suplantado
pelos outros dois candidatos que ocupavam a segunda e a terceira
posições - respectivamente, o governador em exercício,
Geraldo Alckmin (PSDB), e o deputado federal José Genoino
(PT). Para alívio dos eleitores de São Paulo, Maluf,
o eterno candidato, não chegou ao segundo turno.
Criado no
cenário casuístico e sombrio do regime militar,
Maluf, das eleições diretas de que participou, foi
apenas vitorioso em 1982 e em 1992 - para a Câmara Federal
e para a prefeitura do município de São Paulo. Coleciona,
no entanto, sucessivos reveses - a começar pelo Colégio
eleitoral, em 1985, que escolheu a dupla Tancredo/Sarney; a eleição
presidencial de 1989 (vitória de seu afilhado Collor);
os pleitos na cidade de São Paulo em 1988 (derrota para
Luiza Erundina) e em 2000 (derrota para Marta Suplicy) e as três
eleições ao governo do estado de São Paulo
em 1990, 1996 e a atual de 2002. Invejável curriculum para
um profissional da política: duas vitórias e sete
derrotas eleitorais. (Uma questão adjetiva aqui seria:
realizando sempre campanhas políticas vultosas e caras,
de onde proviriam os inesgotáveis recursos que as financiam?)
O que significaria
então esta nova derrota de Maluf? Teria o eleitorado do
estado de São Paulo - responsável pela emergência
e/ou reabilitação de típicos populistas de
direita como Adhemar de Barros, Jânio Quadros e Paulo Maluf
e, em grande medida, pela vitória do aventureiro Collor,
em 1989 - agora amadurecido e desenvolvido uma consciência
democrática numa direção progressista ou
anticonservadora? Reconhecendo que o malufismo sofreu um abalo
profundo, é prematuro, no entanto, concluir que ele está
em vias de extinção. Análises mais elaboradas
e refinadas da cultura política e de mudanças no
imaginário ideológico do eleitorado do estado de
São Paulo ainda estão para serem feitas a fim de
se conhecer o futuro imediato e a sorte do malufismo.
Se entendermos
por malufismo o ideário que consiste na afirmação
de valores e aspirações conservadores e na prática
de políticas discriminatórias, preconceituosas,
não-igualitárias e descomprometidas com o republicanismo
de caráter democrático, pois autoritárias
e antipopulares, então sua existência ainda é
evidente, consistente e significativa em setores importantes do
eleitorado e da população do estado de São
Paulo. Não se pode esquecer que, há menos de dois
meses, as pesquisas - feitas antes do início da propaganda
gratuita pelo rádio e TV - davam ampla vantagem (cerca
de 43% de intenção de votos no primeiro turno e
vitória no segundo turno) para o chefe nacional do PPB.
Manipulando, de forma simplista e estridente, um discurso alarmista
e aterrorizador sobre a grave realidade da insegurança
pública, Maluf conseguiu sensibilizar os corações
e as mentes da população, assustada e amedrontada
com a dinâmica e dimensões da criminalidade em São
Paulo. Crítico implacável da política de
defesa dos direitos humanos, Maluf cunhou uma frase que, em linhas
gerais, prescreve o seguinte: em matéria de direitos, deve-se
adotar políticas que defendam os humanos direitos... Na
definição malufista, que penetra fundo a consciência
de parcelas significativas das classes médias e setores
populares, "bandido bom é bandido morto".
Uma das hipóteses
do naufrágio político-eleitoral de Maluf foi a de
ter ele perdido a exclusividade do controle de duas importantes
bandeiras eleitorais que sempre lhe garantiram votos: a de "tocador
de (grandes) obras" e a da política de "mão
dura e forte" contra a delinqüência e a criminalidade.
Ora, o governador-candidato de São Paulo - com as inaugurações
de obras em pleno período eleitoral (moradia popular, metrô,
estradas, hospitais etc) e com a exaltação dos "notáveis"
feitos da repressão policial (aumento e modernização
da frota da PM e dos armamentos, novos presídios, diminuição
do número de seqüestros etc) - roubou de Maluf a posse
e o privilégio dessas bandeiras do discurso conservador.
Sobre o tema específico da segurança, observou o
prof. da UFSCar, M. Antônio Villa, (Folha, 7/10/2002), que
o candidato do PT, também "(...) assumiu um discurso
duro, como o eleitorado paulista gosta". Embora criticado
por setores democráticos, dentro e fora do PT , José
Genoino, no mesmo diapasão da retórica malufista,
conclamou enfaticamente a necessidade de se colocar a "Rota
na rua" para combater o crime e prender os bandidos. Num
debate na rede Globo, o candidato do PT fez questão de
enfatizar, entre suas maiores qualidades, a de expert em matéria
de política de segurança pública. Os candidatos
do PSDB e do PT, assim, também falaram grosso contra o
crime e a delinqüência, discurso que sensibiliza, em
particular, os setores conservadores. De outro lado, Alckmin e
Genoino se beneficiaram do crescente desgaste da imagem de Maluf
que, afastado algum tempo do controle e da administração
dos recursos públicos, não conseguiu apagar a pecha
do político que "rouba, mas faz", além
da desvantagem adicional de hoje não poder propagandear
novas (e faraônicas) realizações de cimento
armado...
As razões
do populismo conservador e de direita, expressas pelo janismo,
ademarismo e malufismo, no estado de São Paulo, ainda desafiam
os pesquisadores. (Para o bem ou para o mal, é digno de
nota que, ao contrário de outros estados da federação,
São Paulo nunca teve um importante político populista
com bases eleitorais de esquerda.) Maluf pode ter encontrado,
nestas eleições, seu fim de carreira. Os democratas
progressistas de todo o país terão, assim, sobradas
razões para comemorar esse virtuoso dia. No entanto, obstinado
e determinado, Maluf continua declarando que não vai desistir
da vida política. Como os felinos que, segundo o senso
comum, têm sete vidas, Maluf, apesar da sétima derrota,
talvez venha a se aventurar em uma nova campanha política.
Os resultados
eleitorais na cidade de São Paulo, apesar da derrota malufista
no primeiro turno, revelam um crescimento absoluto da votação
da liderança maior da direita paulista em relação
ao ano de 2000 (quando foi superado pela atual prefeita da capital).
Este significativo dado é um forte argumento para uma nova
candidatura. Apostando no fracasso da administração
de Marta Suplicy, Paulo Maluf poderá se candidatar à
prefeitura municipal de São Paulo em 2004. Apesar da crescente
rejeição que desperta na maioria do eleitorado,
seu nome se imporia novamente a menos que surja, a curto prazo,
uma alternativa de direita consistente e representativa em São
Paulo.
O reacionarismo
político e conservadorismo social certamente não
morreram em São Paulo, como também no restante do
País. Embora uma de suas mais emblemáticas figuras
tenha sido derrotada, alguns resultados eleitorais são
reveladores acerca da extensa presença da direita no estado
industrialmente mais desenvolvido do País. Podem ser citados,
entre outros, a vitória esmagadora do chefe do Prona, o
chamado dr. Enéas - loquaz defensor de um nacionalismo
ultradireitista -, com mais de 1,6 milhões de votos para
a Câmara Federal; a notável votação
de sua estridente pupila, Dra. Havanir (com cerca mais de 670
mil votos), e as eleições de vários parlamentares
que têm como bandeira a ação enérgica
da polícia contra os "bandidos" e a crítica
feroz da política dos direitos humanos - entre eles, Conte
Lopes e Afanásio Jazadji (estes dois e a deputada, foram
os mais votados da Assembléia Legislativa de São
Paulo); a reeleição do senador da segurança,
Romeu Tuma (cuja propaganda eleitoral ostentava uma luzidia estrela
de xerife), que prestou relevantes serviços à ditadura
militar. Esse contingente eleitoral em nada desprezível
não teria dúvidas em adotar como seu slogan aquele
que Delfim Netto, malufista de todas as horas, fez circular numa
de suas campanhas políticas para a Câmara Federal.
Num adesivo que as classes médias exibiam em seus autos,
o ex-czar da economia brasileira referia-se aos (bons) tempos
da ditadura militar com a seguinte expressão "éramos
felizes, mas não sabíamos"...
A democracia
política é um regime que precisa ser energicamente
defendido. Não apenas no Brasil, pois é preocupante
o ressurgimento e o fortalecimento da direita em várias
partes do mundo atual: as recentes vitórias eleitorais
da direita na Europa e a hegemonia da política norte-americana
de direita, representada pela ascensão do beligerante Bush
filho, são evidências eloqüentes desta realidade.
No Brasil, os valores democráticos longe estão de
se constituírem em cláusulas (e realidades) pétreas
no interior de nosso capitalismo selvagem e subalterno. A devastação
social e o aprofundamento das desigualdades no país podem
se constituir em terreno fértil para ao desenvolvimento
de ideários reacionários e o surgimento de lideranças
que têm no fascismo uma inspiração permanente.
Com ou sem
Maluf, a direita continuará ativa, presente e sempre alerta.
No estado de São Paulo, a sorte do malufismo, infelizmente,
ainda não se constitui numa crônica da morte anunciada.