O abismo do Inglês

 

Por TERRY P. CAESAR
Professor de literatura norte americana na Mukogawa Women’s University em Nishinomiya, Japão, e autor de vários livros, incluindo estudos críticos do sistema universitário nos Estados Unidos.


Eu não posso escrever em português. Então minhas palavras têm que ser traduzidas para poderem alcançar uma audiência brasileira. Mas eu posso ensinar inglês. Minhas palavras não têm que ser traduzidas para alcançar uma audiência japonesa; se tivessem, então o que eu estaria fazendo não seria ensinar, ou pelo menos não ensinar inglês.

Ensinar não é o mesmo que escrever. Os alunos em uma sala de aula não são leitores solitários em seus quartos. Entretando, apesar disso, o professor de inglês no Japão, se ele é um falante nativo do inglês, se encontra freqüentemente em uma condição na qual a sua língua constantemente desaparece. Como caracterizar o espaço em que ela desaparece? De uma forma: o inglês desaparece na língua japonesa. De outra forma: num abismo, no nada.

As razões históricas e culturais para este desaparecimento nos levariam longe. Elas vão desde o fato que o Japão esteve separado do resto do mundo por mais de duzentos anos, passando pelas maneiras que o estudo do inglês foi primeiramente introduzido seguindo o modelo de aprendizagem do Chinês, e chegando ao eterno sistema de exames, no qual a língua inglesa aparece como um assunto a ser estudado para o avanço educacional e vocacional, e não como uma língua a ser falada. Centenas de japoneses, apesar de tudo, conseguem aprender a falar inglês, especialmente depois que eles saem do Japão. Outros milhões, porém, nunca aprendem. Estes são aqueles para os quais a possibilidade do inglês em qualquer forma - personificado em um falante nativo, ou em um item no programa de um curso - surge ameaçador como, bem, como o espectro do Abismo.

Mas os japoneses têm uma cultura para cobrir este abismo, começando pela maneira pela qual o Inlglês é ensinado no Japão. Os professores japoneses de inglês ensinam japonês, exclusivamente. Isto é, eles ensinam em Japonês, e, ainda mais decisivamente, eles ensinam como se o inglês fosse japonês. Em conseqüência, a maioria absoluta dos professores japoneses de inglês falam exclusivamente em japonês nas salas de aula, e passam todo o tempo tranduzindo textos do inglês ao japonês, enquanto os alunos escrevem palavras equivalentes nas margens ou copiam sentenças inteiras nos seus cadernos. O estudo do inglês é descrito desta maneira em todos os níveis, da escola elementar aos programas de doutorado. Eu leciono em um programa de pós graduação em um departamento de inglês no Japão há mais de três anos. Posso afirmar que na minha opinião as crianças da escola primária no país provavelmente estão mais vivas para a língua inglesa.

Como descrever quão totalmente mortos os alunos universitários japoneses estão para o estudo do inglês? Alguns dias eu deixo a sala de aula quase não acreditando no que testemunhei. Eu incluo nesta situação meus colegas e meus alunos. A última vez que eu visitei o Brasil, eu estava conversando com uma professora de inglês para a universidade, e ela a uma certa altura expressou sua curiosidade sobre o equivalente, em inglês, da palavra carinhoso. Parece que nem "sweet" nem "tender" captura uma qualidade especial, "carinhosa," desta palavra no português. Como eu tinha recém chegado do Japão, eu fiquei chocado. Eu nunca tinha ouvido um professor japonês indagar em voz alta sobre um ponto fino como este. As duas línguas, o inglês e o iaponês, são mantidas rigorosamente à parte uma da outra - sempre. A única razão pela qual elas são colocados juntas é para que uma seja traduzida pela outra, e ponto final. Assim, o inglês se transforma em um tipo de variante exótica do japonês.

O espaço vazio entre o japonês e o inglês pode ser localizado nas comparações que os japoneses nunca fazem, ou no jogo entre as respectivas línguas, que eles nunca apreciam. Por que estudar outra língua se você não pode transformar palavras individuais dentro e fora de sua própria língua, saboreando as diferenças ou apreendendo as respectivas nuanças? Tenho que admitir, claro, que quase nenhum professor japonês que eu conheço fala inglês tão bem como a professora brasileira a que me referi acima. Mas ela aprendeu Inglês tão bem pelas razões exibidas naquele momento casual. Ela tem um "sentimento" pelo Inglês porque ela se sente atraída pela sua poesia, mais do que pela sua gramática e sua sintaxe. A razão pela qual os japoneses aprendem o Inglês tão mal é porque a lógica histórica, cultural, e social através da qual eles aprendem esta língua é completamente despida de poesia.

O ensino do inglês no Japão? Para um falante nativo da língua inglesa - a idolatria dos japoneses a esta figura é outra maneira de manterem distância do inglês - a experiencia se transforma numa repetição daquele famoso ditado Zen sobre o som de uma mão aplaudindo sozinha. Se você é falante nativo do inglês no Japão, só tem uma pessoa que fala - você. Os outros escutam, geralmente com uma admiração que é virtualmente audível. Mas naturalmente eles nunca falam entre si. Eles não podem. (Exceto em situações que facilitam o consenso, ocasionadas por perguntas tais como "qual é seu nome?" que acabam por transformar a situação em pura comédia. ) Eles nao ousam. (Assim como o estudante não presume assumir o lugar do mestre) Eles nao devem. (Falar inglês arruinaria a disciplina espiritual necessária para a pessoa se submeter ao aprendizado do Inglês.) Em termos pedagógicos, o som de uma mão aplaudindo sozinha numa sala! de aula de Inglês é exatamente o que é, ou quer ser, no templo Zen: uma percepção direta do involvente Nada, pelo menos em relacao a qualquer outro contexto - pra não dizer metafisica - exterior, em relacao a tudo que se refere ao inglês.

Talvez tão bem conhecido como o dito Zen é a frase de Nietzsche, que se voce olhar o nada por tempo longo suficiente, o nada vai encarar você de volta. Como isto funciona em relação ao ensino de inglês no Japão? Primeiramente, significa que, se você é um falante nativo de inglês, ou você começa a aprender japonês ou começa a falar Inglês como um japonês. Os estrangeiros que salpicam sua língua nativa com palavras e frases japonesas são reflexos dos japoneses que fazem a mesma coisa com o inglês. Mas leva tempo pra pessoa aprender a fazer isso. Por outro lado, leva menos tempo para os falantes nativos de inglês começarem a falar mais devagar, evitar contrações, se livrarem de expressões, e começarem a usar sentenças inglesas na mesma forma deliberada, paciente e formal com que eles falam com seus estudantes, ou que seus estudantes (geralmente depois que a classe terminou) falam com eles.

Eu disse que o inglês desaparece? Uma percepção ou intuição do nada, como aprendemos dos monges e filósofos, é quase impossível de manter nas circunstâncias da vida normal; de fato, a vida pode ser "normal" até o ponto, mais do que qualquer outra coisa, em que o nada é suprimido - por não dizer reprimido - com palavras. O inglês que é falado nos países em que ele é considerado nativo rapidamente começa a parecer brusco, petulante, ou, em outras palavras, vulgar, quando comparado ao inglês falado, ou praticado, no Japão. A maneira japonesa com línguas, assim como com tudo mais, é formulaica, cerimonial, e hierárquica. Não é de se admirar, portanto, que o inglês existe aqui para ser examinado, e não falado. Também não é de se admirar que o inglês deve ser mantido separado do japonês, ou transformado num equivalente do japonês através do exercício da tradução. E nem devemos nos admirar que, como um falante nativo de Inglês, nas suas lides diárias nas suas salas de aula, nos seus contactos com outras pessoas, e mesmo nas conversas com seus amigos, você acabe se esquecendo de como seu inglês sofre seus próprios momentos de desvanescimento, e se torne duro, sem molejo, ou extremamente literal.

Mas naturalmente nem mesmo o inglês desaparece completamente no Japão. Sua vida social, a que existe, tem menos intimidade com o Abismo que a vida pedagógica. Por exemplo, o outro dia na academia onde eu vou fazer exercícios. No primeiro dia, eu conheci uma falante genuína (ainda que limitada) do inglês! Como explicar este milagre? simples: a aluna, que é recém-formada, tinha passado oito meses em Nova Zelândia. Mas os efeitos deste período estavam se desgastando, pelo menos com relação à sua habilidade de falar inglês. Talvez ela ficou mais feliz - lingüisticamente - em me ver na academia do que eu fiquei em vê-la. Desde então, eu tenho entando não somente falar com ela, mas de introduzir preciosas novas palavras em nossas conversas. Há uns dias atrás, enquanto cada membro do grupo se apresentava para levantar pesos, o resto do time de esqui cantava em coro, "gambatte!" Seiko traduziu esta expressão como "cheer up!" - "ânimo!". Mas esta expressão parecia muito leve para a estrenuosa ocasião. Eu perguntei a Seiko se o slogan pop Americano "Go for it" - "Vá em frente" - não seria uma traduçao melhor. Seiko não tinha certeza. Mas ela adorou esta partícula de inglês vivo, real. Eu tentei ensiná-la a usar o tom correto, ao mesmo tempo casual e entusiástico. "Go for It," ela entoou, como um coro.

Mais tarde, eu tentei verificar a tradução com um par de colegas. Parece que "gambatte" pode ter muitas possibilidades em inglês. "Go for it" é aceitável, os dois opinaram. Mas nenhum deles teve o mínimo interesse de olhar mais de perto as nuanças – tanto aquelas substituídas pela frase inglesa como aquelas perdidas na tradução ao japonês. Então porque eu fiquei tão interessado por estas mesmas nuanças? Porque, afinal, elas nem eram tão profundas. Poderia ser precisamente porque não há nenhum contexto cultural ou social para compará-las no Japão. Este era mais um exemplo do Nada – tanto eu olhando para ele como ele olhando para mim. O som de uma mão aplaudindo? De uma certa forma, Seiko e eu ouvimos os ecos juntos. Moça de garra! Se pelo menos ela tivesse algum contexto no qual falar inglês. (O Japão apenas oferece ocasiões rituais, concursos de discursos e grupos de discussão "internacionais."). Mas ela não tem nenhum destes contextos à sua disposição no momento. O som do inglês no Japão é, no fim das contas, o som de uma palavra que é falada, e seguida de outra, e mais outra, e mais outra. Elas não se juntam para fazer o discurso, e cada uma delas se refere, mais do que a qualquer outra coisa, ao silêncio que as circunda.

 

Texto traduzido do inglês por EVA PAULINO BUENO

     
Leia a versão original, em inglês


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