Jorge
Amado
Nesses
últimos anos, os velhos livros de culinária, antes simples elenco
de orientação para os cozinheiros, vêm tomando novos tons e galgando
um novo espaço de gênero. Sofisticando-se em sua apresentação
visual, além disso, eles inovam na sua estrutura e trazem todo
um relato sobre a história dos ingredientes das receitas que apresentam,
despertando o interesse dos gourmets.
Levam o leitor aos prazeres não só do paladar, mas ao gosto da
história e ao conhecimento das origens e qualidades das especiarias,
que integram uma nova concepção da culinária enquanto gênero.
Nessa linha, a interface entre a literatura e a culinária se agudiza.
A
problemática cultural da sociedade contemporânea faz instalar
uma nova cultura globalizada (Featherstone: 1999), provocada por
imagens televisivas, navegação eletrônica ou trânsito de pessoas,
dentre outros fatores que,
de certo modo, valorizam, no mesmo movimento do tempo/espaço,
as culturas locais e as diferenças culturais (étnicas, regionais,
de nação, etc).
Essa
globalização, ao provocar um repensar o tempo do trabalho e as
formas do ócio, faz emergir a questão do lazer. Tal realidade
é marcada por crescente incremento da atividade turística, na qual
se faz necessário analisar “o consumo como um aspecto de estratégias
culturais mais amplas de autodefinição e de automação” (Friedman:
1999, 330). O turismo instala-se como eixo articulador dessa intersecção
e vem se configurando cada vez mais como uma atividade que, por
um lado, oferece oportunidades de empregos e é vendida como mercadoria;
por outro, suscita as diferenças culturais. Evidencia-se a necessidade
de fazer com que o turista mais crítico, aquele que tem em consideração
as distintas culturas (ou seja, o cosmopolita, no dizer de Hannerz:
1999, 254), venha a ser elo na cadeia de transmissão sobre as
qualidades da sociedade visitada; de interpretação e respeito à cultura de cada local.
Essas
considerações, que tomam como objeto a literatura, são suscitadas
pela necessidade que tenho de pensar políticas culturais que venham
a contribuir para uma ação de turismo que atente para as questões
identitárias, para o respeito às culturas locais.
Pode
ser qualquer um o local desse tipo de preocupação, respeitadas
as respectivas peculiaridades, claro. Mas para essa minha reflexão,
destaco a Região Sul do Estado da Bahia de excepcionais peculiaridades
no panorama sócio-cultural brasileiro, situado no berço
do Brasil, no coração da Mata Atlântica,
num litoral de excepcional beleza, de aspectos oceanográficos inexplorados e onde existe um
dos maiores índices de biodiversidade
do planeta. Uma região na qual o sol, o mar, a vida selvagem,
constituem-se atração incontestável para o turismo do tipo home plus (Hannerz: 1999, 251), mas que, além disso, oferece aspectos
culturais únicos, que permitem afirmar a vocação turística da
Região e ressaltar a ênfase e os investimentos que se vem fazendo
nessa área.
A
Região é sabidamente prevalecente de influências de negros, sergipanos
e turcos (termo genêrico para as origens síria, libanesa e turca,
propriamente dita), presenças singulares na formação e desenvolvimento
das cidades, principalmente Itabuna, antes Tabocas. Povoada por
escritores como Jorge Amado, Adonias Filho, dentre muitos outros,
a literatura regional, com repercussão nacional e internacional,
marcada por essas presenças, constitui-se manancial inquestionável
para as reflexões sobre
entre-lugares, ou seja “momentos ou processos
que são produzidos na articulação de diferenças culturais” (Bhabha:
1998, 20). É necessário, portanto, observar que esse potencial
turístico se deve também ao foco cultural, especialmente histórico
e literário, e da sua divulgação por várias linguagens através
da midia (telenovelas, mini-séries, cinema, teatro, romances), relevantes
para as discussões identitárias (Simões: 1998, 119) e de expansão
cultural.
Tendo
em conta essas considerações gerais, é que pretendo estabelecer
as relações entre a literatura e a culinária.. Nesse caso, do
seu interesse para o turismo da Costa do Cacau da Bahia, tomo
a obra de Jorge Amado e a sua ressonância no livro de Paloma J.
Amado Costa (A Comida Baiana
de Jorge Amado - 1994), como possíveis elementos culturais provocadores do incremento do turismo na região
das terras-do-sem-fim, do escritor baiano.
Se
antes tínhamos alguns
romances que inseriam receitas na sua narrativa, agora, também,
a culinária vai buscar nos romances o seu sumário. E a leitura
da receita remete ao imaginário que a originou, devido à presença
de trechos da obra ficcional inspiradora. Muito oportuna, para
este momento quando a palavra de ordem é a multiculturalidade,
a leitura cruzada desses livros, conduz o leitor a considerações
histórico-geográficas, para o conhecimento de causas e efeitos,
de influências e de interferências, até mesmo, de poder. A culinária
mais característica de uma determinada
região, necessariamente, tem a ver com a sua história,
com o processo de dominação (ou não) pelo qual eventualmente
essa região passou; com o respeito a uma cultura local
ou a uma cultura imposta pelo colonizador, pelo conquistador,
pelo coronel. Não é à toa que Edward Said ressalta o lugar do
romance de ficção na história, fazendo a sua tese básica a de
que "as histórias estão no cerne daquilo que dizem os exploradores
e os romancistas acerca das regiões estranhas do mundo; elas se
tornam o método usado pelos povos colonizados para afirmar a sua
identidade e a existência de uma história própria deles."
(1995: 13).
Como
é fácil depreender, a miscigenação racial, acentuada na Bahia
e peculiar na Região Cacaueira, contribui de forma singular para
a culinária do território da nação grapiúna. O dendê africano, a mandioca do índio e o
azeite do branco português são elementos indispensáveis na cozinha
regional, sem esquecer o trigo do árabe e as raízes e farinhas
do sergipano.
Na
literatura regional sul baiana, é possível
apontar textos
que, na sua abordagem do social, fazem referência a comidas e
temperos característicos. Ou citam caça ou plantas característicos
do seu ambiente. Tais textos, no entanto, não são temáticos, mas
fazem parte do cenário cultural da região ou são tomadas para
evidenciar ironias. Das ocorrências existentes, é fundamental
para compor a compreensão da região do ponto de
vista sócio-cultural, a forma singular como Jorge Amado trata
o assunto. Em verdade, não se pode dizer que haja um escritor
dessa região que tenha tanta relação com temperos, cheiros, paladar,
o prazer de comer, como
o autor de Gabriela.
Não é à toa que a sua obra inspirou o referido livro de culinária
de Paloma Amado, que se estrutura com base nas referências culinárias
e hábitos alimentares pontuadas pelo escritor baiano em relação
aos seus personagens.
Nos
romances de Jorge Amado - esse ficcionista grapiúna que levou
para o mundo o imaginário baiano, e mais especificamente das terras
do Cacau - tais referências sinalizam os hábitos culturais e alimentares
das suas personagens, presentes praticamente em
todos os livros do autor. Em casos mais específicos, revelam um fazer ficcional
ligado à arte culinária,
como é o caso de personagens como Gabriela (Gabriela,
Cravo e Canela, 1958) e D. Flor (D.
Flor e seus dois maridos, 1966). A primeira, em Ilhéus; a
segunda, em Salvador, notabilizam-se romanescamente por seus quitutes.
Na medida em que a história alimenta a literatura e a literatura
interfere na história, esses romances traduzem o imaginário do
escritor grapiúna enriquecido das vivências do povo baiano e contagiam
leitores do mundo inteiro, eventualmente turistas, que vão a Ilhéus
para comer o bolinho da Gabriela; ou vêm a Salvador conhecer o
Pelourinho, lugar onde D. Flor fez manjares para Vadinho.
Nas
referências amadianas sobre culinária, as especiarias canela e
cravo têm presença mais freqüente e significativa. Envoltas em
mitos vindos do oriente de tempos imemoriais, foi certamente pelo
aroma que Jorge Amado os tomou para caracterizar a sensualidade
e faceirice da sua Gabriela. Tomando a obra do ficcionista baiano,
Paloma Amado faz um exaustivo levantamento no seu livro de culinária, inclusive com citações e referências
acompanhadas das respectivas receitas. Na introdução intitulada
"De como o romancista baiano, romântico e sensual, deu de
comer a seus personagens" (xix - xxx), faz o trajeto do escritor
desde 1930, com O País do Carnaval, quando aos 18 anos o então jovem escritor fala
de acarajés e mingaus até o seu recente livro o "romancinho
dos turcos do sul da Bahia" (1994: xxx), enfatizando a cozinha
árabe. Conclui a introdução, enfatizando "todo um universo
de encantamento, cor, cheiro e sabor" presente na obra de
Jorge Amado através do "ouro do dendê, a doçura da jaca,
afeto e violência; o ardor da pimenta-de-cheiro, a sensualidade
das mulheres" (idem).
O
azeite de dendê, condimento tipicamente baiano, evidencia a nossa
origem negra - óleo de palma, como é chamado em África - está
presente nos pratos típicos, "na pobre cozinha, Gabriela
fabricava riqueza: acarajés de cobre, abarás de prata, o mistério
de ouro do vatapá" (Amado: 1975, 123). A cor é indicativa
do condimento. Paloma Amado Costa
oferece a receita do abará - "feijão fradinho 1kg,
cebola e Kg, camarão seco 300g, sal a gosto, azeite de dendê 1
xícara, folhas de bananeira 2" (COSTA: 1994, 8) - e ensina
o leitor a servi-lo. Coentro, pimentão, alho, gengibre, pimenta-de-cheiro,
pimenta-malagueta (piripiri, para os africanos), pimenta-cominho,
pimenta-do-reino, azeite de oliva, sal são alguns dos tradicionais
condimentos mais comuns e constantes. Mas há, ainda, outros elementos
que são transformados em condimentos típicos nessa cozinha singular:
camarão seco [sic], amendoim, castanha de caju, leite de coco.
Passam a ser presença obrigatória não somente na maioria os pratos
regionais, ou mesmo nos molhos. São apreciados nos pratos mais
variados: "comera uma moqueca de siris realmente divina em
casa de Maria Machadão e descobrira aquela novata, a Risoleta.
(Amado: 1975, 52). O turista tem especial curiosidade em conhecer
essa cozinha e esse ambiente.
Também
conhecidos da leitura do ficcionista grapiúna, suscitam o interesse
do turista os pratos árabes feitos por Gabriela, por influência,
claro, de Nacib: "esse brasileiro nascido na Síria, [que]
sentia-se estrangeiro ante qualquer prato não baiano, à exceção
de quibe." (1975, 63) . Em Tocaia Grande, outros pratos árabes são saboreados pelo turco Fadul:
"o sublime sabor do araife, pastel de amêndoa com calda de
mel, seu doce predileto" (1986, 34). Para fazer os seus famosos
bolinhos de carne, Gabriela utilizava especiarias à gosto: pimenta
do reino e pimenta malagueta: "os bolinhos da carne, picantes,
eram cantados em prosa e verso - em verso, porque o professor
Josué a eles dedicara uma quadra, onde rimava frigideira com abrideira,
cozinheira com faceira" (1975, 154) Além desses, tinham ressalto a salsa
e a cebolinha. Paloma Costa, mostra isso em receita, "para servir
8 pessoas: carne moída (chã ou alcatra) ½, pão dormido 1, ovos
2, sal a gosto, pimenta-do-reino a gosto, salsa e cebolinha ½
molho, cebola grande 1, pimenta-malagueta a gosto, alho 3 dentes,
farinha de rosca 1 xícara, óleo suficiente para fritar" (Costa:
1994, 15). Em A Descoberta da América pelos Turcos: esfihas e quibes são apreciados.
Todos esses pratos apontam a presença árabe na miscigenação grapiúna.
A
cozinha típica do nordeste trazida, para a Região pelos sergipanos
(outro elemento fundamental na
formação da identidade regional), é encontrada principalmente
em Tocaia Grande livro que se ocupa dos chegantes que vieram trabalhar
nas roças de cacau: "Siá Leocádia explicava: - Gosto de comer
um cozido de sustância... - costumes de Sergipe, influindo na
mesa grapiúna, marcando gosto e preferência" (Amado: 1986,
76). Dessa influência sergipana, há a presença da carne-seca e das raízes: aipim,
inhame, batatas-doce. A receita de Paloma Amado Costa para o cozido
referido em Tocaia Grande
é rica em legumes, carnes e raízes (COSTA: 1994, 98-99).
As
caças, cujo preparo típico foi também introduzido pelos sergipanos,
têm singular sabor para os turistas. J. Amado diz em Tocaia Grande que: "o próprio Boaventura Andrade, manda-chuva
daquelas sesmarias, patrão e compadre, provou o sal da mesa de
Zilda, repetiu os quitutes e os gabou, lambendo os beiços; a galinha
de molho pardo, o teiú moqueado, o frito de capote, os doces de
banana de caju, o creme de abacate." (Amado: 1986, 96).
Mingaus
e sobremesas possuem características bem peculiares e são vendidos
nas feiras e alguns locais turísticos. Mingau de puba, pamonha,
mingau de milho, tapioca, mungunzá, xerém.
De todos, a canjica é o mais típico dos mingaus, típico
das festas juninas, que acontecem principalmente no interior do
Nordeste. Em Tocaia Grande
é manjar feito pelo povo vindo de Sergipe: " - Tu quer mesmo
saber? Nunca na minha vida passei um São João sem pular fogueira,
sem assar milho, sem comer canjica, sem dançar quadrilha."
(1986, 132) . A banana-da-terra frita, servida com canela
em pó e açúcar é um prato especial no café da manhã servido por
Gabriela: "A verdade é que já sentia saudade dela, de sua
limpeza, do café da manhã com cuscuz de milho, batata-doce, banana
da terra frita, beijus..." (1975, 163).
Conhecendo
as peculiaridades regionais, fica fácil concordar que se o turista
é atraído à Região pela notícia da sua beleza, pelo que pinta
a sua literatura, pelo que conta a sua história, é também atraído
por sua culinária. No caso sul baiano, vem para comer o acarajé
de Irene, ou experimentar a moqueca de pitu de Lourdinha.
Vem para sentar no bar Vesúvio e comer o quibe
da Gabriela. Carrear para a atividade turística esses aspectos
culturais da literatura e da culinária se, por um lado, contribui
para a nossa economia, por outro lado, é forma de fazer uma atividade
turística de valorização do cultural, estratégia de preservação
da nossa cultura, da nossa identidade.