A fera na barriga
Na barriga da fera

 

Por REZA FIYOUZAT
Leciona língua inglesa no Center for Language Education da Josai International University, em Togane city, Chiba prefecture, Japan.


Quando eu tinha quatro anos, uma infecção de rins levou a outros problemas mais sérios, que não puderam ser resolvidos pelos cirurgiões que me operaram muitas vezes. Isto aconteceu em Abadan, a cidade onde eu nasci, no sudoeste do Iran, na fronteira com o Iraque. Esta era uma cidade conhecida não pelo que ela era antes, mas por causa da gigantesca refinaria de pretróleo construída pela British Petroleum, que também construiu a cidadezinha que acompanhava a refinaria. Mais tarde, uma indústria petroquímica também foi adicionada a este parque industrial, para garantir a impecável qualidade do ar que somenta a indústria britânica podia proporcionar. Havia ocasiões em que os ingleses proibiam os iranianos de entrarem em certas partes da cidadezinha, que era protegida por tropas indianas e soldados ingleses. Um dos bairros desta cidade era chamado Sikh Lane, quando nós ainda vivíamos lá. Ao que tudo indica, ali ficavam os alojamentos dos soldados indianos do grupo Sikh.

Depois de várias operações por cirurgiões incompetentes, meus pais, alarmados, decidiram fazer um empréstimo bancário, voar para Londres comigo, me colocar num hospital de crianças que tinha sido recomendado, e deixar que os médicos ingleses usassem um bisturi ou dois, na esperança que isso tivesse melhor efeito. E, felizmente, os ingleses tiveram sucesso onde os meus compatriotas iranianos tinham falhado e quase me matado no processo.

As crianças têm habilidades incríveis de suprimir o sofrimento, e se acostumarem com condições anormais como as de passar meses num hospital, e de acabarem se concentrando nas coisas boas. Eu adorava os sorvetes, os bolos, e eu tinha um grupo sem fim de amiguinhos com quem brincar! E muito menos adultos. Eu brincava com as outras crianças, raramente sentindo qualquer problema de comunicação que parassem nossos jogos. A vida e a brincadeira continuavam.

2

Alguns momentos na vida de uma pessoa se tornam definitivos pela faísca da compreensão, a qual leva a uma crise, que desemboca numa resolução ou numa falha total, ou, por outro lado, que pode levar ao sucesso, ou a uma profunda confusão. Eu tive um desses momentos luminosos na minha primeira estadia de 6 meses. A faxineira estava limpando o assoalho do nosso quarto. Enquanto ela limpava, eu lutava com uma idéia. Esta foi a primeira vez em que senti as frustrações de lidar com outro sistema de sons e signos, e eu examinei a a idéia de "outra língua." Nestas alturas, eu já tinha aceitado a idéia que outras línguas existiam e algumas pessoas as praticavam, mas eu ainda não sabia que a minha língua não era uma língua universal. Este foi o momento em que eu percebi que os problemas de comunicação que eu tinha às vezes quando estava brincando eram de natureza diferente do que eu tinha pensado.

A faxineira deve ter pensado que eu estaba balbuciando sons enquanto brincava. Ela continuou seu trabalho. Eu estava falando comigo mesmo em voz bem alta, testando as hipóteses que ninguém ia entender, e então eu não precisava manter meus pensamentos dentro da minha cabeça. Eu estava dizendo, em farsi, "Como é que vocês idiotas não me compreendem? Eu estou falando numa linguagem muito simples e fácil e todo mundo entende. Vocês são os que estão falando esta bobagem que só vocês entendem. Por que vocês não páram de me ignorar e falam minha língua? Olha vocês! Vocês e suas mãos tão tontas!!" Neste momento, a faxineira estava perto da minha cama, parou seu trabalho e me olhou, e disse alguma coisa que eu não entendi naquele momento. Eu imediatamente me calei e gelei, em choque, envergonhado. "Ela deve ter me entendido, e o meu insulto também!!" Eu pensei. Mas eu ainda não entendi o que ela tinha dito. Eu me desculpei, muito confuso, e tratei de manter meus maus pensamentos dentro da cabeça dali em diante.

3

Então, existiam outras línguas! Eu tinha descoberto isso, pra minha surpresa. Existiam mundos paralelos, isso também eu descbri. Estas outras línguas têm uma sensação differente. Elas não só tem um som diferente, mas dão uma sensação diferente. Às vezes elas até têm um cheiro próprio. Depois de duas estadias de 6 meses na Inglaterra, principalmente em hospitais, a língua inglesa cheirava a álcool de farmácia.

Depois que eu me recuperei completamente, e através dos anos escolares, meus pais constantemente se certificaram que eu mantive minha educação em língua inglesa em alguma forma extracurricular ou outra: eu tomava aulas, ou meu pai estudava comigo e com minhas irmãs nos instruindo desde ortografia a vocabulário, de leitura a tradução.

A motivação de meus pais era, logicamente, econômica. Eles seguiam a crença que a habilidade na língua inglesa é uma das ferramentas para a mobilidade social e o sucesso no mundo contemporâneo. Além dessa motivação vocacional, uma outra que foi igualmente forte, se bem que enigmaticamente ideológica, foi a presença dos produtos de Hollywood. Quem, no nosso mundo de hoje, pode dizer que não viu um filme de Hollywood desde os anos cinqüenta?

4

Em 1980, eu saí do Iran, na metade do meu primeiro ano na Universidade de Shiraz. Por uma feliz coincidência, minha saída aconteceu duas semanas antes que os vigilantes da Hizbollahi atacaram todas as universidades do Iran simultaneamente, como parte de um plano dos fundamentalistas religiosos. Este foi o grupo que teminaria por fechar todas as universidades do Iran por dois, e em alguns casos, três anos, para destroçar os democratas de esquerda, os socialistas, os comunistas, os quais tinham se estabelecido nas universidades.

As facções religiosas levaram um ano antes de estarem prontas para executarem seus planos de estabelecer um monopólio completo sobre o aparato estatal. Primeiro, eles se livraram dos partidos associados a eles, com os quais eles formaram o primeiro governo revolucionário. Em seguida, eles atacaram o povo e suas organizações autônomas. Nestas alturas, os estudantes universitários estavam em cima da lista dos que iam ser perseguidos.

Durante aquele ano, a Hisbollahi trabalhou duro e rápido para organizar suas turbas, re-armar, e se aprontar para a o ataque geral. Este ataque, que culminou em execuções em massa de milhares de civis, obteve mais cobertura jornalística no oeste somente na parte relacionada à tomada de reféns na embaixada americana. Enquanto tudo isso acontecia em meu país, eu estava em Londres, em uma parada de dois anos, antes que os reféns americanos fossem libertados e eu pudesse continuar minha jornada mais pra o oste, para a barriga da fera maior.

Embora eu estivesse contente de estar longe dos valentões que estavam estuprando o país, eu sentia que eu tinha cometido o maior ato de egoísmo. Por estas alturas, o cheiro de álcool de farmácia que eu associava à língua inglesa agora se misturava ao cheiro da culpa. Eu sentia, a cada momento, que eu estava traindo meu país por não estar lá na sua hora mais negra. Mas eu também sentia, a cada dia, que com cada palavra inglesa que eu falava, eu estava me distanciando mais de mim mesmo. Esta outra língua estava me engolindo.

5

Eu levei um longo tempo para aprender e aceitar que não havia nada que eu poderia fazer, porque tentar forçar a minha entrada de volta ao Iran seria suicídio. Este conhecimento e esta aceitação só vieram depois de muitas negacões, inúmeras transformações, suficientes para me levar de volta a um sentimento geral daquela força ou convicção inicial, ou visão que me propeliam a continuar. Não de volta para onde eu havia começado, porque isto nunca acontece para ninguém. Transpondo esta compreensão pessoal para uma idéia mais geral: mesmo que você viva no mesmo pedaço de terra neste planeta por toda a sua vida, você simplesmente não "mantém" um "ser" imaginário.

6

Eu comecei meus estudos universitários em ciências exatas, mas terminei em ciências políticas, e depois fui fazer mestrado em lingüística. Meus pais não conseguiam compreender minhas escolhas. Eles queriam que eu fosse um médico, ou pelo menos um farmacêutico! Mas eu tinha outros planos. A política (do Iran) tinha mudado nossas vidas. Eu sentia que eu tinha, primeiro, que estudar política, e depois compreendê-la o melhor possível, para que eu pudesse reaver um sentido mais coerente da minha vida.

Depois de terminar meus estudos graduados, eu trabalhei principalmente em trabalhos que não requeriam treino profissional. Então, quando chegou a hora de crescer e achar um trabalho de verdade, eu olhei à minha volta, e pensei: alguns profissionais se tornam funcionários no gerenciamento de capital, ou se tornam engenheiros e adicionam valor ao capital. Outros se tornam médicos e adicionam capital principalmente a eles mesmo, enquanto logicamente fazem algum bem. Outros se tornam cientistas e ajudam a criar tecnologias mortais que sempre dão a melhor margem de lucro. E ainda há outros que tentam ajudar o FMI e o World Bank, ou usam suas proezas mentais para beneficiar o mão política do capital fazendo pesquisa sobre qualquer país, no que quer que seja que pague melhor e que auxilie a causa de ajudar o Tio Sam a dar um aperto naquele país.

Eu não queria que os melhores anos da minha vida e criatividade (não importa o quão pouco ou possa ter) beneficiassem os desígnios deste ou daquele cartel comercial, ou de qualquer aparato de governo que proteje estupro e roubo. Então, eu escolhi o magistério e o estudo da língua inglesa; não a literatura, não sociologia, história, economia, ou antropologia. Nenhuma ideologia. Eu ensino a língua, para que aqueles que desejam usá-la para seu benefício possam fazê-lo.

7

Felipe Guaman Poma foi um cidadão peruano de origem nobre, que nos inícios dos 1600 escreveu uma carta de protesto ao Rei Felipe III da Espanha, contando ao rei sobre a história dos peruanos que ele governava tão brutalmente, e ensinando ao rei os princípios de uma administração ética. Esta carta, chamada Nueva coronica y buen gobierto, que nunca foi entregue ao rei, usa uma mistura imaginativa de formas literárias européias, iconografia cristã ocidental, formas semióticas dos Andes, línguas diferentes, incluindo o espanhol e três dialetos quechua, assim também recusando aceitar a autoridade da língua do opressor, enquando demonstrando as múltiplas capacidades de ler e escrever dominadas pelo compositor da carta.

Se pelo menos um aluno com o qual eu trabalhei no passado, ou trabalharei no futuro, em algum lugar, algum dia, decidir seguir o exemplo de Guaman Poma, e se naquele momento aquele estudante se lembrar de mim como uma força (não importa que ínfima) que o/a preparou para alcançar aquele momento, o meu espírito, onde quer que esteja, se regozijará.

* Tradução do texto inglês por EVA PAULINO BUENO

 

     
Leia a versão original em inglês


http://www.espacoacademico.com.br/18creza_trad.htm - Copyright © 2001-2002 - Todos os direitos reservados