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Por MÁRIO MAESTRI
54, historiador, vive no Rio Grande do Sul.
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A
vitória do ex-metalúrgico Luís Inácio
Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, e do grande empresário
têxtil José Alencar, do Partido Liberal, candidatos
respectivamente à presidência e à vice-presidência
do Brasil pela Frente Popular, deixaram na sombra acontecimento
de singular importância da vida política nacional brasileira.
Em
27 de outubro, enquanto Lula da Silva vencia o pleito presidencial
por larga maioria, após três derrotas, em 90, para
Collor de Mello, e em 94 e 98, para Henrique Cardoso, a Frente Popular
era derrotada, no sul do Brasil, governado em 1999-2002 pelo ex-sindicalista
Olívio Dutra, companheiro de Lula na fundação
do PT, em 1980.
A
importância da derrota eleitoral da Frente Popular no Rio
Grande do Sul [RS] assume singular importância sobretudo porque
aquela administração constituiu eventual antecipação
tendencial do próximo governo da Frente Popular no Brasil.
Na administração do Rio Grande do Sul, o PT aplicou
o programa e os procedimentos que pretende implementar na gestão
do Brasil.
Pequenos
proprietários
Com
mais de 280.000 km2, dez milhões de habitantes e uma economia
dominantemente industrial, fortemente apoiada na produção
agro-pastoril, o Rio Grande do Sul é, social, política
e economicamente, uma das regiões mais desenvolvidas do Brasil.
A
posição relativa do RS deve-se em parte à distribuição
gratuita e financiada de terra, sobretudo a camponeses pobres alemães,
italianos e poloneses, realizadas a partir de 1824. Esse processo
gerou uma produção artesanal, manufatureira e industrial
regional apoiada na pequena e média empresa e numa exploração
intensiva da mão-de-obra.
A
cidade de Porto Alegre, capital do RS, conhecida internacionalmente
como sede dos Fóruns Sociais Mundiais, foi uma das primeiras
grandes capitais brasileiras a ser controlada pelo PT, em 1989.
Após a eleição de Olívio Dutra como
prefeito de Porto Alegre, o PT se manteve na sua direção,
por 14 anos, fato único no Brasil. Hoje, o PT controla seis
das dez maiores cidades gaúchas.
É
também no RS que o PT possui sua melhor, mais organizado
e mais coesa organização partidária. É
igualmente ali que os setores da "esquerda petista" possuem
as mais amplas e sólidas posições, com destaque
para a Democracia Socialista [DS], grupo brasileiro associado ao
Secretariado Unificado da IV Internacional [trotskista].
Vitória
histórica
Em
fins de 1998, a esquerda brasileira conhecia cenário político
difícil. Apoiado pelo grande capital e pela mídia,
Fernando Henrique Cardoso reelegeu-se, no primeiro turno, derrotando
Lula e a Frente Popular. Pesou fortemente na vitória o controle
da inflação; a sobre-valorização cambial;
os recursos das privatizações, etc.
No
Sul, no mesmo cenário inóspito, em duro segundo turno,
Olívio Dutra dobrou a tentativa de reeleição
de Antônio Britto, do PMDB, que implementara a ferro e fogo
a desorganização neo-liberal do RS. Em boa parte,
a vitória deveu-se à mobilização maciça
dos professores públicos estaduais, uma das espinhas dorsais
do sindicalismo sulino.
O
novo governo da Frente Popular despertou grandes expectativas no
Rio Grande do Sul e no Brasil. Em verdade, a população
sulina pedia pouco do novo governo. Queria avanços reais
na educação, na saúde, no emprego, na reforma
agrária, na qualidade de vida.
Exigia
estradas estaduais desprivatizadas; o fim da indústria das
multas automobilísticas; um aumento real para os professores
e para o funcionalismo. Mais esperançosos, alguns sonhavam
com o início da recuperação do privatizado
e com a fundação de uma sólida universidade
estadual.
Vitrine
do Brasil
O
governo Olívio Dutra pretendia ser a vitrine do PT no Brasil
e no mundo. A capacidade petista de administrar um grande estado
consagraria também Olívio Dutra como direção
política nacional. O sucesso do governo petista no Sul desequilibraria
para a esquerda um PT que, nos últimos anos, vinha deslizando
fortemente para a direita.
Para
satisfazer as reivindicações populares, a Frente Popular
devia deslocar recursos tradicionalmente alocados às elites
regionais. Sobretudo, impunha-se a interrupção do
pagamento da dívida estadual, que abocanhava vorazmente a
poupança regional. Essa medida determinaria confronto direto
com o governo FHC, preposto do grande capital.
Sob
o argumento da defesa da "governabilidade", a Frente Popular
embocou o caminho menos conflitivo. Respeitou as privatizações.
Pagou religiosamente a dívida.. Apoiou frouxamente a reforma
agrária. Pouco investiu na área social. Implantou
um fantasma de universidade estadual. Manteve o financiamento público
dos interesses privados.
Ao
ver prosseguir o seu arrocho salarial, após esperar, com
paciência de Jó, o prometido resgate do ensino público,
o magistério estadual entrou em greve em inícios de
2000. A derrota do movimento por um governo que se dizia popular
desmoralizou profundamente o professorado público.
Vestindo
as bombachas
A
prática sócio-econômica conservadora ensejou
igualmente uma intervenção governamental ideológico-cultural
conservadora. Não houve potenciação dos meios
de comunicação estatais e populares, mantendo-se o
monopólio pleno da grande mídia privada.
Não
houve sequer tentativa e interesse em apoiar novas visões
da realidade, sustentadas pelo mundo do trabalho, que concorressem
e corroessem a hegemonia das interpretações de mundo
regionais da grande propriedade.
Nesse
sentido, foi emblemática o esforço de oportunista
recuperação dos mitos latifundiários fundadores
do Rio Grande, durante a Semana Farroupilha, tradicional celebração
anual da revolta senhorial escravista, latifundiária e separatista
sulina, em 1835-45, contra o governo central brasileiro.
De
substancial e positivo, nos quatro anos de gestão, apenas
a negativa à concessão milionária à
Ford, acordada pelo governo anterior, e a tardia elevação
do salário mínimo regional, com restrições,
medida tomada anteriormente por Antoni Garotinho, governador populista
do Rio de Janeiro.
Fechando
o cofre
O
comportamento da Frente Popular no Sul torna-se ainda mais emblemático
considerando-se a posição central que desempenhou
na administração a tendência Democracia Socialista
[DS], apontada como localizada no centro-esquerda da constelação
petista.
O
influente vice-governador do Estado, Miguel Rosseto, e o poderoso
Secretário da Fazenda, Arno Augustin, eram apenas as duas
maiores expressões da DS no governo. Por manter os cofres
estatais trancados aos gastos e investimentos públicos, assegurando
o pagamento da dívida e o financiamento de interesses privados,
Augustin foi elogiado por associações patronais, regionais,
nacionais e internacionais.
Em
2002, tão melancólico era a conclusão da gestão
administrativa, que o PT preferiu concorrer com Tarso Genro, com
maior apoio dos segmentos sociais altos e médios-altos gaúchos.
A preterição de Olívio Dutra, o mais expressivo
representante das lutas sindicais sulinas nos anos 1970 e 1980,
registrava inexoravelmente a avaliação negativa do
PT do seu próprio governo.
A
Frente Popular não propôs correção ou
avanços programáticos. Apenas baseou sua campanha
na proposta do menor mal, apontando o perigo de maior retrocesso,
no caso da eleição de Antônio Britto. Nesse
pleito, o ex-governador apresentava-se pela legenda do PPS, o antigo
PCB, que se vem prestando a aventuras eleitorais de todo tido, desde
que conservadoras.
Nem
um nem outro
Apoiado
pelo capital e pela grande mídia, Antônio Britto jurou
diante dos eleitores que pusera fim à sua fase liberal-privatista.
Agora, o neo-comunista prometia não privatizar o que escapara
ao seu leilão dos bens públicos. Prometia, também,
não repetir o ataque geral que promovera ao funcionalismo
público, em 1995-1998.
Aproveitando
o hiato existente entre a rejeição aos governos Antônio
Britto e Olívio Dutra, Germano Rigotto, candidato azarão
do PMDB e ex-líder de FHC na Câmara Federal, arrancou
da terceira posição, terminando o primeiro turno com
41,2% dos sufrágios, contra 37,3%, da Frente Popular.
Germano
Rigotto era candidato de pouca expressão regional, já
vencido pelo petista Pepe Vargas na disputa da prefeitura de Caxias,
capital industrial da Região Colonial Italiana do RS, seu
grande reduto eleitoral. Também por isso a demonização
eleitoral de Germano Rigotto tornava-se mais complexa, apesar de
sua gestão parlamentar anti-popular.
No
dia 27, no contexto da maré de votos que Lula recebeu, a
Frente Popular foi derrotada pela aliança de todos os partidos
de direita e centro-direita sulinos - PMDB, PSDB, PFL, PPS, PPB,
PTB, PDT -, assinalando claro retrocesso eleitoral em relação
a 1998. No pleito, 3.148.788 votos [50,15%] foram para Germano Rigotto;
2.829.527 [45,07%] para Tarso Genro; 3,09% foram de votos nulos;
1,68% de votos brancos. As abstenções ficaram em 14,61%.
Bons
ventos
Torna
ainda mais paradoxal a derrota da Frente Popular o fato de que,
nos últimos anos, o RS conheceu conjuntura econômica
relativamente positiva, em relação aos anos anteriores
e ao resto do Brasil, em boa parte devido à desvalorização
cambial de 1999, que favoreceu a expansão das exportações
e da produção industrial e agro-pastoril do Estado.
Os
cenários nacional e mundial sugerem que, na presidência
do Brasil, a Frente Popular não conhecerá a mesma
bonança que conheceu no governo do RS. E as reivindicações
e necessidades da sociedade nacional são mais amplas e mais
dramáticas do que as da comunidade sul-rio-grandense.
Estima-se
para 2003 um desenvolvimento do PIB brasileiro muito acanhado. Somente
a manutenção do compromisso com o FMI de superavit
público primário de 3,75% do Produto Interno Bruto
brasileiro - receita menos gastos estatais - comprometerá
nada menos que 53 bilhões de reais com o pagamento da "dívida
pública".
Terra,
salário e emprego
Nesse
caso, não será sequer possível realizar, em
2003, um real combate ao desemprego e uma efetiva melhoria do salário
mínimo nacional. Já prevendo isso, os planos governamentais
da Frente Popular propõem substituir a recomposição
salarial e a ampliação do emprego por medidas compensatórias.
Inspirado
em antiga prática norte-americana, o Programa Fome Zero da
Frente Popular, definido por Lula como a principal prioridade inicial
de seu governo, promete distribuir, em 2003, cupões alimentares
para 25% dos estimados 57 milhões de brasileiros vivendo
na pobreza. Pouco custoso, o projeto exigiria uns cinco bilhões
de reais.
Em
artigo à Folha de São Paulo [29.10], o geógrafo
humano Demétrio Magnoli lembrava que, no Brasil, "não
existe fome", mas "subalimentação e má
nutrição", nascidas de "desigualdade sociais
e regionais extremas". E, nesse caso, a distribuição
de "cupons e cestas" alimentares poucos resultados teria,
além de fortalecer o controle paternalista de população
faminta de trabalho, salário e terra.
MÁRIO
MAESTRI
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