Rousseau: o enciclopedista e compositor, contra a razão


Por LUIZ A. GIANI
Sociólogo, Professor adjunto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá; pianista; doutor em História pela UNESP/Assis


Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

O texto que se segue é, no essencial, o que foi dito na conferência inaugural da VIII Jornada de Estudos Franceses, na Universidade Estadual de Maringá. Foram apresentadas ao vivo a maioria das ilustrações musicais mencionadas no texto, como a canção Allons danser, da ópera Le devin du village, de Rousseau. Uma cópia desta partitura, obtida junto ao acervo da Escola de Comunicação e Artes da USP, possibilitou o ponto alto da conferência - o canto coletivo - quando todos os presentes puderam entoar Allons danser, seguindo a partitura, em uníssono com o violino, a flauta e o som (sintetizado) de cravo.   

Se Rousseau é um ilustre expoente do Iluminismo, do século das Luzes, o século da razão, como pode ele, então, colocar-se contra a razão? Rousseau coloca-se contra a razão, mas não de forma absoluta. Ele acredita que os caminhos da sociedade, conduzidos e corrompidos pela razão, possam ser corrigidos, conquanto a razão escute o coração, o sentimento, colocando em prática as virtudes do homem em estado de natureza. Hoje, parcela considerável da população letrada conhece Rousseau pelo já popularizado aforismo de que "o homem é bom por natureza, a sociedade é quem o corrompe". Colocando a razão em segundo plano, seu modelo ideal é o homem dos primeiros tempos, o homem em estado de natureza. Quando se pergunta: o que veio primeiro, a razão ou o sentimento?, ele responde: o sentimento. Na contribuição original de Rousseau, em todos os campos em que se expressou, desde a antropologia filosófica até o romance, a música, a educação e a política, o sentimento tem primazia sobre a razão.

Rousseau volta-se contra a razão, no exato momento em que a França atinge o apogeu do Iluminismo, o culto à supremacia da razão. Ele critica a ciência e o progresso que, na crença dos filósofos, como Voltaire, conduziriam a humanidade a uma forma de sociedade harmoniosa.

Rousseau volta-se contra a razão, no que ela tem de fundamento da maldade, de todos os vícios e formas de opressão e escravidão engendrados pela vida social, pela civilização. Ele é o primeiro mais eloquente adversário do mito da razão. Na forma como vem conduzindo a vida social, desde seus primórdios, a razão engendra os males sociais e, por isso, abafa os sentimentos naturais, como os que ele chama de "sentimento de piedade" e "amor de si". Sentimento de piedade, comiseração, compaixão, de pesar que nos causa o sofrimento alheio... O sentimento de piedade impedia que o homem em estado de natureza fizesse mal aos outros desnecessariamente. A natureza espiritual da espécie humana não é essencialmente agressiva, tal como pensava, Hobbes, o autor d' O Leviatã. Rousseau diz que a pretensão Hobbes é a de que "o homem é naturalmente intrépido e não procura senão atacar e combater" (ROUSSEAU, 1978: 239). A mesma pretensão está também presente em muitos escritores que, como Hobbes, vêem na força o fundamento natural da sociedade. A desigualdade natural entre fortes e fracos, no "verdadeiro estado de natureza", está "longe de ter tanta realidade e influência quanto pretendem nossos escritores" (ROUSSEAU, 1978: 257).

O próprio Rousseau não tinha certeza de que, um dia, tivesse realmente existido a sociedade em estado natural por ele imaginada. Na condição natural primitiva, o sentimento de autopreservação (incluindo o sentimento de existência, a fome, o sexo e o instinto de defesa) conduz o homem natural a ações agressivas. Porém, mais forte que o sentimento de autopreservação, no estado de natureza, é o sentimento natural de piedade, que tem uma base essencialmente natural, anterior à reflexão, à consciência. A consciência, por sua vez, engendra o amor-próprio, o luxo, a vaidade, a ociosidade e toda a falsa moral. Ela começou a engendrar a maldade, a corrupção, desde seu estado de origem, o estado de vida social em seus primórdios. 

O estágio dos povos "selvagens" encontrados pelos europeus, no período dos descobrimentos - entre eles os caraíbas de Martinica, onde aportou Colombo - é, para Rousseau, o exemplo de uma "verdadeira juventude do mundo". Tal estágio, embora muito distante do primeiro estado de natureza, ainda expressa uma condição de paz e felicidade para a espécie, anterior aos progressos que, nos primeiros desdobramentos da evolução, conduziram à propriedade privada e à escravidão:

O exemplo dos selvagens, que foram encontrados quase todos nesse ponto, parece confirmar que o gênero humano era feito para sempre nele permanecer, que esse estado é a verdadeira juventude do mundo e que todos os progressos ulteriores foram, aparentemente, outros tantos passos para a perfeição do indivíduo e, efetivamente, para a decrepitude da espécie. (ROUSSEAU, 1978: 264)

Ao evoluir para o estado de raciocínio, de vida social, civilizada, o homem engendra todas as formas de maldade, perversão e opressão. "O homem que pensa é um pervertido". Nesta linha de reflexão, Rousseau tira conclusões em torno de outro fundamento da civilização: a propriedade privada. Esta é a raiz principal dos males sociais. Isto se deve à instituição de uma sociedade mal conduzida, a formas de raciocínio sem as quais a propriedade privada e seus malefícios poderiam ter sido evitados:  

O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: "Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!" (ROUSSEAU,  1978: 259)

O fundamento da sociedade está na desigualdade de posses, sobre a qual está sentada a desigualdade de poder e a lei da propriedade: 

Tal foi ou deveu ser a origem da sociedade e das leis, que deram novos entraves ao fraco e novas forças ao rico, destruíram irremediavelmente a liberdade natural, fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade, fizeram de uma usurpação sagaz um direito irrevogável e, para lucro de alguns ambiciosos, daí por diante sujeitaram todo o gênero humano ao trabalho, à servidão e à miséria.(ROUSSEAU, 1978: 269-270)

A ambição e a inveja acompanham a falsa moralidade, sob a máscara da bondade, no intuito de se fazer fortuna às expensas dos outros. Tais males, entre muitos outros, constituem o primeiro efeito da propriedade e desigualdade nascente, na transição do homem natural para o homem civil:

...a ambição devoradora, o ardor de elevar sua fortuna relativa, menos por verdadeira necessidade do que para colocar-se acima dos outros, inspira a todos os homens uma negra tendência a prejudicarem-se mutuamente, uma inveja secreta tanto mais perigosa quanto, para dar seu golpe com maior segurança, frequentemente usa a máscara da bondade; em um palavra, há, de um lado, concorrência e rivalidade, de outro, oposição de interesses e, de ambos, o desejo oculto de alcançar lucros a expensas de outrem. (ROUSSEAU, 1978: 267)

De forma realmente genial, as intuições de Rousseau preparam o surgimento da sociologia, que será inaugurada no século XIX, especialmente a concepção da propriedade e desigualdade como resultado da evolução da sociedade. Da cultura de terras resultou necessariamente a sua partilha. A propriedade não poderia nascer de algo que não fosse o trabalho do cultivador:

Somente o trabalho, dando ao cultivador um direito sobre o produto da terra que ele trabalhou, dá-lhe consequentemente direito sobre a gleba pelo menos até a colheita, assim sendo cada ano; por determinar tal fato uma posse contínua, transforma-se facilmente em propriedade. (ROUSSEAU, 1978: 266)

A origem da desigualdade social não é natural mas, sim, social. Com o crescimento da desigualdade entre os homens, "uma série de males sociais passam a constituir o primeiro efeito da propriedade", formando um "cortejo inseparável da desigualdade nascente" (idem, 267). O Discurso sobre a desigualdade social, publicado em 1755, contem inspirações em teorias da época. A crença em uma religião natural, as idéias sobre o homem em estado de natureza, o "bom selvagem", têm como fontes, entre outros autores, o naturalista Buffon, precursor da teoria da evolução do homem, Dutertre, autor de uma História Geral das Antilhas habitadas pelos Franceses e História das viagens, e a obra Ensaios, de Montaigne, especialmente o capítulo Os canibais.

O nascimento de Rousseau, na próspera Suiça, ocorrera em um momento em que a França estava agonizante. Chegando a Paris, ele encontrou uma nação chafurdada na lama da corrupção e esbanjamentos da corte, da nobreza e do clero. Toda sorte de privilégios e opressões estão associados aos últimos grilhões feudais, ao capitalismo emergente e à política absolutista, de que Luís XIV é a encarnação suprema. Rousseau presencia o contraste entre a luxúria e a miséria. Registra a presença de um "natural sentimento de piedade" no modo de vida da populaça, no mercado, nas ruas, contrastando com o cortejo dos vícios, corrupções e todas as formas de falsa moralidade do homem civilizado, incluindo os filósofos. Premiado pela Academia de Dijon, em 1750, sua tese, sob o título Discurso sobre as ciências e as artes, é de que o restabelecimento das ciências e das artes, seja na Renascença, seja sob a proteção de Luís XIV - não contribuiu para melhorar os costumes. A Academia instituiu o concurso a partir da seguinte questão: "o restabelecimento das ciências e das artes terá contribuído para aprimorar os costumes?" Frente à eloquência e vigorosa crítica de Rousseau, os sábios da Academia estão agora convencidos, ao contrário do que esperavam, pela resposta negativa. Rousseau logra sucesso ao demonstrar que a maldade advém das "luzes", do progresso. As artes, como as ciências, estão intimamente associadas ao artificialismo, ao luxo, à falsa moral, aos vícios, à corrupção. Em sua sensibilidade revolucionária, Rousseau antevê um futuro de revoluções. Efetivamente, ele irá falecer em 1778, às portas da Revolução Francesa.

Enquanto Voltaire elogia a França de Luís XIV, como momento da história em que o espírito humano mais se aproxima da "perfeição", Rousseau, ao contrário, questiona a relação entre o renascimento das ciências e das artes e a condição da vida humana. De que valeram toda a glória da França, sob o reinado de Luís XIV, que ficou para a história como Le roi soleil, o protetor das letras, das artes e das ciências? De que valeram todo o esplendor da Academia Francesa e as inúmeras academias de belas-artes, de música, de arquitetura e de ciências fundadas e patrocinadas pelo "rei sol"?

Contra a supervalorização da razão, ele argumenta que a razão, a consciência, tornou-se um instrumento responsável pela má condução da sociedade, desde os primeiros momentos em que as primeiras relações sociais afastaram o homem de seu estado de natureza. À medida que se sucederam as idéias e sentimentos, na longa trajetória dos primeiros tempos de formação da vida social, o espírito e o coração do homem em estado de natureza entraram em atividade. A razão, formada através da longa sucessão dos acontecimentos, conduziu a sociedade para sucessivas etapas de progresso, que Rousseau chama de "novas luzes". As primeiras atividades do espírito, primeiras reflexões, primeiros atos de raciocínio, estão na origem das "luzes" e, simultaneamente, dos males sociais. Não fossem estas mesmas "luzes", não teriam surgido os males sociais.

Rousseau não acredita na ciência, no progresso, como caminho supremo da humanidade na conquista da felicidade. Seu paradigma é o sentimento, que está na essência do homem em estado de natureza e ao qual deve subordinar-se a razão.

Um século depois de Rousseau, a história da formação e exploração da classe operária já estará suficientemente efetivada e visível para se argumentar, com Karl Marx, que a desigualdade social não é natural, mas um resultado da história. Ao contrário, Comte e Durkheim edificarão os fundamentos da sociologia burguesa, pela teoria positivista, consagrando a desigualdade social como fato natural, impossível de ser eliminado pela história dos homens.

Karl Marx citará Rousseau para ilustrar seu estudo sobre a expulsão dos camponeses de suas terras, a expropriação dos trabalhadores independentes, a concentração dos meios de produção e a mais-valia (trabalho não pago), na gênese do capitalista industrial: "concedo-vos", diz o capitalista, "a honra de me servir desde que me deis o pouco que vos resta pelo trabalho que tenho de vos comandar" (ROUSSEAU, citado por MARX, 1975: 864). Esta citação, extraída do Discurso sobre a economia política, de Rousseau, é utilizada por Marx no momento em que ele fala do comando que o capitalista passa a exercer sobre os trabalhadores expropriados, agora reunidos nas "casernas de trabalho". Antes, quando ainda tinham a posse do solo, os camponeses repartiam entre si o linho que cultivavam e fiavam em pequenas porções com suas famílias. Agora, o linho concentra-se nas mãos de um capitalista. Os fusos e teares, antes espalhados pelos campos, concentram-se em algumas grandes casernas de trabalho, o mesmo ocorrendo com os trabalhadores e a matéria prima. "Os fusos, os teares e as matérias-primas se transformaram de meios de existência independente de fiandeiros e tecelões, em meios de comandá-los e de extrair deles trabalho não pago" (MARX, 1975: 863-4).

Uma parcela da humanidade, hoje, tem consciência da necessidade de novas formas de racionalidade, em que sejam dissipadas as práticas autoritárias e destrutivas inerentes à ciência, a tecnologia e o progresso. A crítica à razão transformada em instrumento de controle e dominação dos homens pelos próprios homens ocupa um lugar central no mundo contemporâneo. Tal racionalidade recebe o nome de "razão instrumental", assim designada pela Escola de Frankfurt. Percebe-se, hoje, que a longa luta do movimento racionalista contra a ditadura da Fé/Revelação, bem como o cientificismo herdado do século XIX, culminaram, em grande parte, em uma nova idéia, também absoluta, que converte a razão humana e o progresso em verdadeiros mitos, substitutos de Deus na explicação e condução dos destinos da humanidade.

Dois séculos e meio após Rousseau, na chamada "pós-modernidade", no suposto "fim da história", marcado pela chegada do tão esperado progresso, ainda persiste como problema central da humanidade o fato de que o processo científico-tecnológico de controle e dominação da natureza é o mesmo processo de controle e dominação dos homens pelos próprios homens.

 Hoje, temos clareza de que o tempo de Rousseau foi realmente um tempo em que a razão, através dos filósofos das "luzes", contribuiu para a libertação humana, na luta contra o absolutismo e o que restava do antigo regime feudal. O capitalismo emergente na França tentava explodir os últimos grilhões da velha sociedade. Mesmo desacreditando da razão, Rousseau é responsável por grande parte do ideário que será consagrado pela Revolução Francesa, ideário cuja expressão maior está contida no lema "liberdade, igualdade, fraternidade". No entanto, a nova sociedade, sob o capitalismo consolidado do século XIX, irá trair estes mesmos ideais que haviam legitimado sua instauração. Rousseau não viveu para presenciar como a nova sociedade, a mesma que levantara a bandeira da liberdade/igualdade/fraternidade, irá submeter os trabalhadores às condições mais infames, jamais vistas em toda a história da humanidade. 

Tentando contribuir para o resgate do sentimento de piedade, comiseração, humanidade, contra todos os males sociais, Rousseau propõe vários projetos de reforma: o da democracia, como exposto no Contrato social, o de educação, em Emílio, e o das artes, especialmente a literatura, a música e (contra) o teatro, como exposto em vários "Discursos", romances e cartas.

No projeto para a música, a melodia e o uníssono são os elementos essenciais da música mais natural. A música de Rousseau, introdutor da ópera bufa na França (Le devin du village, 1752), é, em grande parte, inspirada em melodias populares, como as romanzas e os vaudevilles das feiras de Paris. A romanza é uma composição instrumental ou vocal, geralmente estrófica, de natureza lírica e romântica. Suas características são típicas da canção. O vaudeville é um gênero de melodia simples e popular, uma canção estrófica jovial, satírica e maliciosa. Acredita-se que tenha florescido no vale do rio Vire (Vau de Vire), donde a expressão vaudeville ou vaudevire.

(apresentação, em CD, de alguns segmentos de composições de Rousseau: Les muses galantes, L' air pour la troupe marchant, La romance sur trois notes e La romance d' Alexis)

A filosofia da música de Rousseau está fundada sobre a mesma filosofia do sentimento, do coração, do homem em estado de natureza. Chegando a Paris, em 1742, com 30 anos de idade, com uma formação voltada para a literatura, a filosofia e a música, em 15 anos ele irá completar o ciclo das seguintes obras no campo da música: o Projeto referente a novos sinais para a música, o bailado Les muses galantes (1746), a ópera bufa Le devin du village (1752), a Lettre sur la musique française (1752), parte de uma centena de romanzas e de cerca de 200 verbetes de música para a Encyclopédie, mais tarde organizados no Dicionário de música. No mesmo período, ele já terá concluído suas primeiras obras filosóficas e romances, Discurso sobre as ciências e as artes (1750),  Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1754), Discurso sobre a economia política, e, em 1756/7, terá iniciado o romance Júlia ou A nova Heloísa e suas maiores obras de pedagogia e teoria política: Emílio e Contrato social.

Observando as obras deste curto período de 15 anos, que vai de sua chegada a Paris (1742) até o início da escrita do Contrato social (1757), passando pela "guerra dos bufões" (querelle des buffons) percebe-se uma íntima afinidade entre a filosofia do sentimento e a filosofia da música . Como filósofo consagrado e introdutor da ópera bufa em Paris, ele ocupa o centro das atenções, pelas suas críticas à música francesa e ao compositor Jean-Philippe Rameau, o mais conceituado professor de música de Paris e autor de um tratado de importância decisiva para a racionalização da música ocidental, o Tratado de harmonia. Este tratado, que sistematiza a tonalidade, havia sido publicado em 1722, mesmo ano em que Bach publicou o primeiro volume da série de prelúdios e fugas, o Cravo bem temperado. A razão, como valor supremo, é cultuada por Rameau e seu amigo Voltaire, com quem colaborou na composição de óperas, como Hippolyte et Aricie (1733). Em 1745, La Princesse de Navarre, também em colaboração com Voltaire, foi apresentada com grande pompa, em Versalhes.

Rousseau acusa Rameau de criar obra frívola, sem sentimento, artificial, que não comunica diretamente com a alma, o coração... Frente a isto, só resta a Rameau jogar a última palavra contra seu rival: "incompetente". 

A interconexão da música com a filosofia, em Rousseau, permite-nos entender como suas hipóteses sobre o homem em estado de natureza levam-no a defender a melodia e o uníssono como elementos essenciais da música mais natural, contra os artifícios e "frivolidades" da polifonia e o contraponto.

Observe-se a íntima associação entre a ópera Le devin du village, apresentada em 1752, e suas idéias sobre a arte do homem em estado de natureza expostas no Discurso sobre as ciências e as artes, de 1750. 

Da mesma forma, o Discurso sobre a desigualdade (1755) e Júlia, estão entrecortados, em vários momentos, por reflexões sobre a música. Tais como seus discursos e romances, as obras musicais conferem primazia ao sentimento, prenunciando o romantismo.

O grande sucesso da ópera de Rousseau, Le devin du village, resulta em grande parte do emprego de melodias simples. Na partitura, Rousseau junta, à maneira pastiche, melodias que refletem as mais populares canções, como romanzas e waudevilles, ouvidas nas feiras de Paris. A melodia, paradigma essencial para Rousseau, é que mais aproxima o homem de seu estado de natureza, contra a corrupção das artes resultante da substituição dos valores naturais por efeitos postiços e artificiais. Polifonia e recursos contrapontísticos são artificiais e inúteis.

A apologia do sentimento, em oposição à razão, está bem representada na expressiva canção Allons danser, da ópera Le devin du village. Sua harmonia e acompanhamento são, como a melodia, muitos simples. Do mesmo modo, a letra conduz intérprete e ouvinte para o plano da natureza e do sentimento. Realizamos uma tradução quase toda literal, para que expresse fielmente, o mais possível, o sentimento e pensamento rousseaunianos.

Refrão: Allons danser sous les ormeaux / animez vous jeunes filletes / allons danser sous les ormeaux / galans prenés vos chalumeaux (Vamos dançar, por entre as flores, com alegria, / Oh! meninas, vamos dançar, por entre as flores, com alegria, ao som dos flautins) (bis). 1ª estrofe: Repétons mille chansonettes / et pour avoir le coeur joyeux, / dansons avec nos amoureux. / mais n'y restons jamais seulettes (Cantando belas canções de amor / Pra ter sempre alegre o coração / Dançando na roda dos enamorados / bem distantes da solidão). 2ª estrofe: À la ville on fait bien plus de fracas, / mais sont ils aussi gai dans leurs ébats, / Toujours contents, toujours chantans, / plaisir sans art, beauté sans fard, / Tous leurs concerts valent ils nos musettes? (Se na cidade não mora a paz / Se brincadeiras alegres não há / Que é da alegria? Que é da canção? / Onde a beleza, sem disfarce? / Suas orquestras não tem nossas gaitas). (Allons danser, da ópera Le devin du village, de Rousseau)

(execução, ao vivo, de Allons danser, por Salomão Guarnieri: violino, Fernando Matsuzawa: flauta transversal, e Luiz A. Giani: cravo - som sintetizado do piano eletrônico Yamaha YPP50; apresentação da gravação de Allon danser em CD, com Ana Luiza Costa Giani: voz e Luiz A. Giani: acompanhamento; execução de Allons danser, em canto coletivo, por toda a platéia e participação especial de um grupo de alunos ensaiados pela professora Josely Bogo Machado Soncella)

Após o sucesso de Le devin du Village, Rousseau dedicar-se-á menos intensamente à música e mais à filosofia e ao romance. Contudo, a preferência pela literatura e pela filosofia não tirará totalmente seu interesse pela música. Aos 58 anos de idade, após deixar a Inglaterra e retornar a Paris, ele cuidará  da publicação de seu Dicionário de Música, que já vinha preparando, há muitos anos, desde que escreveu cerca de 200 verbetes de música para a Encyclopédie, dirigida por Diderot.

Para Diderot, nem Rousseau, nem Rameau, mereciam as agressões mútuas, durante a "guerra dos bufões": "até quando será preciso que dure o ridículo de uma querela conduzida de modo tão desastroso, em que há tudo a perder para os debatedores e em que só saem ganhando os brincalhões de mau gosto?" (GOLDET, 1997: 503). A guerra teve início em 1752, no momento em que uma companhia italiana apresentava a ópera cômica La serva padrona, de Pergolesi, em Paris. Todos os enciclopedistas (Roussseau, Diderot, D'Alembert, Grimm e d' Holbach) firmaram posição contra a ópera francesa. Se estavam cobertos de razão em nome do "natural" (contra os brilharecos vocais, as árias à base de trinados, etc.), no entanto, teriam sido "injustos", diz Philippe Beaussant, ao escolherem Rameau como alvo, desconsiderando a mestria harmônica deste que foi o maior sinfonista antes de Haydn e Mozart (BEAUSSANT, 1972: 498).

Em novembro de 1753, Rousseau publica sua Carta sobre a música francesa (Lettre sur la musique française), que se torna a peça mais importante da "guerra dos bufões". A carta funciona como um verdadeiro estopim. Neste momento, a filosofia de Rousseau, contando com o apoio dos enciclopedistas Diderot e Grimm, bem como das platéias que se deliciaram com a ópera Le devin du village, ganha a batalha contra o pensamento e obra de Rameau.

Otto Maria Carpeaux, em sua Pequena história da música, observa que uma das facetas da obra de Rameau é o "racionalismo voltairiano" (CARPEAUX, 1968: 104). Ao conferir centralidade à harmonia, Rameau submete a música ao controle da razão. Para ele, a música é racional, igual em todos os lugares e todas as épocas. É portanto universal.

A racionalização, conceito característico e explicativo da moderna civilização ocidental, será tema constante da obra do sociólogo e filósofo alemão Max Weber, dedicado a estudos demonstrativos de como o conhecimento racional atravessa todas as esferas da vida social. Uma destas esferas da vida é a música, cuja racionalização é contemplada por Weber em seu estudo Fundamentos racionais e sociológicos da música, publicado em 1922.

(execução, ao vivo, da obra de Rameau: La coulican, do primeiro concerto das Pièces de clavecin en concerts, por Salomão Guarnieri: violino, Fernando Matsuzawa: flauta transversal, e Luiz A. Giani: cravo - som sintetizado do piano eletrônico Yamaha YPP50)

Stéphane Goldet  faz comentários interessantes sobre o debate ideológico entre os dois filósofos/compositores, considerando as oposições entre a liberdade do "coração humano" e a racionalidade matemática e universal:

Para Rameau, a música é sumamente racional, igual sob todas as latitudes e em todas as épocas: a compreensão da música é antes de tudo um fenômeno universal. Para Rousseau, muito pelo contrário, a música expressa as infinitas variedades do coração humano e não saberia de modo algum ser universal em sua forma. O caráter da melodia não tem como não variar de um povo para outro, de um momento para outro da História: a compreensão da música é, portanto, um fato histórico e cultural. O autor do Traité d'harmonie reduite à ses principes naturels (Tratado da harmonia reduzida aos seus princípios naturais) buscava os fundamentos eternos da arte musical e isolou-os no princípio unificador da harmonia. Nos antípodas desse "pitagorismo musical", Rousseau considerava nada existir de tão antinômico com a expressão dos sentimentos como a matemática de Rameau. Finalmente, para o autor de La Nouvelle Heloise (A nova Heloísa), o gênio não pode observar qualquer regra, pois, tal como a natureza de que procede, ele é sinônimo de liberdade. Mais de uma vez, por conseguinte, Rameau era acusado de ter pouco engenho e muita doutrina. (Goldet, 1997: 505)

A censura e a perseguição vão abater-se sobre a cabeça e obras de Rousseau. Por conta do dogmatismo, da intolerância religiosa, do "fator Deus", as autoridades de Paris movem contra Rousseau uma ordem de prisão. Em 1762, ano da publicação d' O Contrato Social e Emílio,  refugia-se em Neuchâtel (Suiça) e escreve a Carta a Cristophe de Beaumont, atacando o arcebispo de Paris que havia condenado a obra Emílio, na qual Rousseau opõe-se à fé dogmática e propõe uma religião natural e uma pedagogia que tem por objetivo fazer da criança um adulto bom. Emílio e Contrato Social são suas principais obras, que marcam a história  da pedagogia e da teoria política. Perseguido, é obrigado a levar vida errante, inclusive vestindo-se de armênio para escapar à perseguição. É também perseguido na Suiça. Protestantes de Neuchâtel apedrejam sua casa. Enfim, refugiando-se na tranquilidade encontrada na Inglaterra, vive em companhia do amigo, o filósofo David Hume.

Se Rousseau não foi melhor compositor que filósofo, quem poderá no entanto negar suas potencialidades musicais, especialmente a de melodista? As obras que ele nos legou são, no mínimo, dignas de serem apreciadas, como as óperas Les muses galantes, Le devin du village ("êxito considerável durante 60 anos", segundo Candé),  Pygmalion, Daphnis et Chloé, os cinco motetos e cerca de 100 romanzas, entre outras.

Não fosse a renúncia ao ofício de compositor, suas potencialidades não teriam atingido níveis cada vez mais elevados de inspiração? Por outro lado, há poucos casos de compositores-filósofos ou filósofos-compositores que intencionalmente tenham construído interconexões tão valiosas entre os dois campos. Rousseau está na pequena lista que também inclui Nietzsche, Eisler, Adorno e poucos mais. Desta lista, Adorno é certamente o único que defende a música como forma de emancipação humana, acima de qualquer associação entre música e política

A importância dada à música na política, durante a Revolução Francesa, é espantosa, segundo a Histoire de la musique, de Combarieu, "em 1789, são produzidas 116 canções; serão 261 em 1790; 308 em 1791; mais de 320 em 1792, crescendo para 590 em 1793 e para 791 em 1794..." (SQUEFF, 1989: 18). Muitas óperas do gênero cômico, gênero introduzido por Rousseau em Paris, integravam o repertório musical da Revolução.

A 20 de julho de 1789, seis dias após a tomada da Bastilha, a França ouve mais uma vez a ópera bufa de Rousseau Le devin du village (O adivinho da aldeia), que será mantida no repertório francês até 1829, com mais de 400 apresentações! 

LUIZ A. GIANI

     

 

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Bibliografia

BEAUSSANT, Philippe. Jean-Philippe Rameau (1683-1764). In MASSIN, Jean & Brigitte. História da música ocidental. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1997

CANDÉ, Roland de. Dicionário dos músicos. Lisboa, Edições 70, 1994

CARPEAUX, Otto Maria. Uma nova história da música. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1968

CHAUÍ, Marilena (consultoria). Rousseau, vida e obra. In ROUSSEAU, Jean-Jacques (Os pensadores). São Paulo, Abril Cultural, 1978

GOLDET, Stéphane. A querelle des bouffons. In MASSIN, Jean & Brigitte. História da música ocidental. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1997

MARX, Karl. O capital. Crítica da Economia Política. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, Livro Primeiro, volume II, 1975

MATOS, Franklin de. O filósofo e o comediante. Ensaios sobre literatura e filosofia na ilustração. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2001

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social; Ensaio sobre a origem das línguas; Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens; Discurso sobre as ciências e as artes. São Paulo, Abril Cultural, 1978

_______. Júlia ou A nova Heloísa. São Paulo: Editora HUCITEC; Campinas: Editora da Unicamp, 1994

SQUEFF, Enio. A música na Revolução Francesa. Porto Alegre, L&PM, 1989

STAROBINSKI, Jean. Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo. São Paulo, Companhia das Letras, 1991.


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