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Por LUIZ A. GIANI
Sociólogo, Professor adjunto do Departamento de Ciências
Sociais da Universidade Estadual de Maringá; pianista;
doutor em História pela UNESP/Assis
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Jean-Jacques
Rousseau (1712-1778)
O
texto que se segue é, no essencial, o que foi dito na conferência
inaugural da VIII Jornada de Estudos Franceses, na Universidade
Estadual de Maringá. Foram apresentadas ao vivo a maioria das ilustrações
musicais mencionadas no texto, como a canção Allons
danser, da ópera Le devin
du village, de Rousseau. Uma cópia desta partitura, obtida junto
ao acervo da Escola de Comunicação e Artes da USP, possibilitou
o ponto alto da conferência - o canto coletivo - quando todos os
presentes puderam entoar Allons
danser, seguindo a partitura, em uníssono com o violino, a flauta
e o som (sintetizado) de cravo.
Se
Rousseau é um ilustre expoente do Iluminismo, do século das Luzes,
o século da razão, como pode ele, então, colocar-se contra a razão?
Rousseau coloca-se contra a razão, mas não de forma absoluta. Ele
acredita que os caminhos da sociedade, conduzidos e corrompidos
pela razão, possam ser corrigidos, conquanto a razão escute o coração,
o sentimento, colocando em prática as virtudes do homem em estado
de natureza. Hoje, parcela considerável da população letrada conhece
Rousseau pelo já popularizado aforismo de que "o homem é bom
por natureza, a sociedade é quem o corrompe". Colocando a razão
em segundo plano, seu modelo ideal é o homem dos primeiros tempos,
o homem em estado de natureza. Quando se pergunta: o que veio primeiro,
a razão ou o sentimento?, ele responde: o sentimento. Na contribuição
original de Rousseau, em todos os campos em que se expressou, desde
a antropologia filosófica até o romance, a música, a educação e
a política, o sentimento tem primazia sobre a razão.
Rousseau
volta-se contra a razão, no exato momento em que a França atinge
o apogeu do Iluminismo, o culto à supremacia da razão. Ele critica
a ciência e o progresso que, na crença dos filósofos, como Voltaire,
conduziriam a humanidade a uma forma de sociedade harmoniosa.
Rousseau
volta-se contra a razão, no que ela tem de fundamento da maldade,
de todos os vícios e formas de opressão e escravidão engendrados
pela vida social, pela civilização. Ele é o primeiro mais eloquente
adversário do mito da razão. Na forma como vem conduzindo a vida
social, desde seus primórdios, a razão engendra os males sociais
e, por isso, abafa os sentimentos naturais, como os que ele chama
de "sentimento de piedade" e "amor de si". Sentimento
de piedade, comiseração, compaixão, de pesar que nos causa o sofrimento
alheio... O sentimento de piedade impedia que o homem em estado
de natureza fizesse mal aos outros desnecessariamente. A natureza
espiritual da espécie humana não é essencialmente agressiva, tal
como pensava, Hobbes, o autor d' O
Leviatã. Rousseau diz que a pretensão Hobbes é a de que "o
homem é naturalmente intrépido e não procura senão atacar e combater"
(ROUSSEAU, 1978: 239). A mesma pretensão está também presente em
muitos escritores que, como Hobbes, vêem na força o fundamento natural
da sociedade. A desigualdade natural entre fortes e fracos, no "verdadeiro
estado de natureza", está "longe de ter tanta realidade
e influência quanto pretendem nossos escritores" (ROUSSEAU,
1978: 257).
O
próprio Rousseau não tinha certeza de que, um dia, tivesse realmente
existido a sociedade em estado natural por ele imaginada. Na condição
natural primitiva, o sentimento de autopreservação (incluindo o
sentimento de existência, a fome, o sexo e o instinto de defesa)
conduz o homem natural a ações agressivas. Porém, mais forte que
o sentimento de autopreservação, no estado de natureza, é o sentimento
natural de piedade, que tem uma base essencialmente natural, anterior
à reflexão, à consciência. A consciência, por sua vez, engendra
o amor-próprio, o luxo, a vaidade, a ociosidade e toda a falsa moral.
Ela começou a engendrar a maldade, a corrupção, desde seu estado
de origem, o estado de vida social em seus primórdios.
O
estágio dos povos "selvagens" encontrados pelos europeus,
no período dos descobrimentos - entre eles os caraíbas de Martinica,
onde aportou Colombo - é, para Rousseau, o exemplo de uma "verdadeira
juventude do mundo". Tal estágio, embora muito distante do
primeiro estado de natureza, ainda expressa uma condição de paz
e felicidade para a espécie, anterior aos progressos que, nos primeiros
desdobramentos da evolução, conduziram à propriedade privada e à
escravidão:
O
exemplo dos selvagens, que foram encontrados quase todos nesse
ponto, parece confirmar que o gênero humano era feito para sempre
nele permanecer, que esse estado é a verdadeira juventude do mundo
e que todos os progressos ulteriores foram, aparentemente, outros
tantos passos para a perfeição do indivíduo e, efetivamente, para
a decrepitude da espécie. (ROUSSEAU, 1978: 264)
Ao
evoluir para o estado de raciocínio, de vida social, civilizada,
o homem engendra todas as formas de maldade, perversão e opressão.
"O homem que pensa é um pervertido". Nesta linha de reflexão,
Rousseau tira conclusões em torno de outro fundamento da civilização:
a propriedade privada. Esta é a raiz principal dos males sociais.
Isto se deve à instituição de uma sociedade mal conduzida, a formas
de raciocínio sem as quais a propriedade privada e seus malefícios
poderiam ter sido evitados:
O
verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo
cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou
pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes,
guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero
humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso,
tivesse gritado a seus semelhantes: "Defendei-vos de ouvir
esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos
são de todos e que a terra não pertence a ninguém!" (ROUSSEAU, 1978: 259)
O
fundamento da sociedade está na desigualdade de posses, sobre a
qual está sentada a desigualdade de poder e a lei da propriedade:
Tal
foi ou deveu ser a origem da sociedade e das leis, que deram novos
entraves ao fraco e novas forças ao rico, destruíram irremediavelmente
a liberdade natural, fixaram para sempre a lei da propriedade
e da desigualdade, fizeram de uma usurpação sagaz um direito irrevogável
e, para lucro de alguns ambiciosos, daí por diante sujeitaram
todo o gênero humano ao trabalho, à servidão e à miséria.(ROUSSEAU,
1978: 269-270)
A
ambição e a inveja acompanham a falsa moralidade, sob a máscara
da bondade, no intuito de se fazer fortuna às expensas dos outros.
Tais males, entre muitos outros, constituem o primeiro efeito da
propriedade e desigualdade nascente, na transição do homem natural
para o homem civil:
...a
ambição devoradora, o ardor de elevar sua fortuna relativa, menos
por verdadeira necessidade do que para colocar-se acima dos outros,
inspira a todos os homens uma negra tendência a prejudicarem-se
mutuamente, uma inveja secreta tanto mais perigosa quanto, para
dar seu golpe com maior segurança, frequentemente usa a máscara
da bondade; em um palavra, há, de um lado, concorrência e rivalidade,
de outro, oposição de interesses e, de ambos, o desejo oculto
de alcançar lucros a expensas de outrem. (ROUSSEAU, 1978: 267)
De
forma realmente genial, as intuições de Rousseau preparam o surgimento
da sociologia, que será inaugurada no século XIX, especialmente
a concepção da propriedade e desigualdade como resultado da evolução
da sociedade. Da cultura de terras resultou necessariamente a sua
partilha. A propriedade não poderia nascer de algo que não fosse
o trabalho do cultivador:
Somente
o trabalho, dando ao cultivador um direito sobre o produto da
terra que ele trabalhou, dá-lhe consequentemente direito sobre
a gleba pelo menos até a colheita, assim sendo cada ano; por determinar
tal fato uma posse contínua, transforma-se facilmente em propriedade.
(ROUSSEAU, 1978: 266)
A
origem da desigualdade social não é natural mas, sim, social. Com
o crescimento da desigualdade entre os homens, "uma série de
males sociais passam a constituir o primeiro efeito da propriedade",
formando um "cortejo inseparável da desigualdade nascente"
(idem, 267). O Discurso sobre a desigualdade social, publicado em 1755, contem inspirações
em teorias da época. A crença em uma religião natural, as idéias
sobre o homem em estado de natureza, o "bom selvagem",
têm como fontes, entre outros autores, o naturalista Buffon, precursor
da teoria da evolução do homem, Dutertre, autor de uma História
Geral das Antilhas habitadas pelos Franceses e História das viagens, e a obra Ensaios,
de Montaigne, especialmente o capítulo Os
canibais.
O
nascimento de Rousseau, na próspera Suiça, ocorrera em um momento
em que a França estava agonizante. Chegando a Paris, ele encontrou
uma nação chafurdada na lama da corrupção e esbanjamentos da corte,
da nobreza e do clero. Toda sorte de privilégios e opressões estão
associados aos últimos grilhões feudais, ao capitalismo emergente
e à política absolutista, de que Luís XIV é a encarnação suprema.
Rousseau presencia o contraste entre a luxúria e a miséria. Registra
a presença de um "natural sentimento de piedade" no modo
de vida da populaça, no mercado, nas ruas, contrastando com o cortejo
dos vícios, corrupções e todas as formas de falsa moralidade do
homem civilizado, incluindo os filósofos. Premiado pela Academia
de Dijon, em 1750, sua tese, sob o título Discurso sobre as ciências e as artes,
é de que o restabelecimento das ciências e das artes, seja na Renascença,
seja sob a proteção de Luís XIV - não contribuiu para melhorar os
costumes. A Academia instituiu o concurso a partir da seguinte questão:
"o restabelecimento das ciências e das artes terá contribuído
para aprimorar os costumes?" Frente à eloquência e vigorosa
crítica de Rousseau, os sábios da Academia estão agora convencidos,
ao contrário do que esperavam, pela resposta negativa. Rousseau
logra sucesso ao demonstrar que a maldade advém das "luzes",
do progresso. As artes, como as ciências, estão intimamente associadas
ao artificialismo, ao luxo, à falsa moral, aos vícios, à corrupção.
Em sua sensibilidade revolucionária, Rousseau antevê um futuro de
revoluções. Efetivamente, ele irá falecer em 1778, às portas da
Revolução Francesa.
Enquanto
Voltaire elogia a França de Luís XIV, como momento da história em
que o espírito humano mais se aproxima da "perfeição",
Rousseau, ao contrário, questiona a relação entre o renascimento
das ciências e das artes e a condição da vida humana. De que valeram
toda a glória da França, sob o reinado de Luís XIV, que ficou para
a história como Le roi soleil, o protetor das letras, das artes e das ciências? De
que valeram todo o esplendor da Academia Francesa e as inúmeras
academias de belas-artes, de música, de arquitetura e de ciências
fundadas e patrocinadas pelo "rei sol"?
Contra
a supervalorização da razão, ele argumenta que a razão, a consciência,
tornou-se um instrumento responsável pela má condução da sociedade,
desde os primeiros momentos em que as primeiras relações sociais
afastaram o homem de seu estado de natureza. À medida que se sucederam
as idéias e sentimentos, na longa trajetória dos primeiros tempos
de formação da vida social, o espírito e o coração do homem em estado
de natureza entraram em atividade. A razão, formada através da longa
sucessão dos acontecimentos, conduziu a sociedade para sucessivas
etapas de progresso, que Rousseau chama de "novas luzes".
As primeiras atividades do espírito, primeiras reflexões, primeiros
atos de raciocínio, estão na origem das "luzes" e, simultaneamente,
dos males sociais. Não fossem estas mesmas "luzes", não
teriam surgido os males sociais.
Rousseau
não acredita na ciência, no progresso, como caminho supremo da humanidade
na conquista da felicidade. Seu paradigma é o sentimento, que está
na essência do homem em estado de natureza e ao qual deve subordinar-se
a razão.
Um
século depois de Rousseau, a história da formação e exploração da
classe operária já estará suficientemente efetivada e visível para
se argumentar, com Karl Marx, que a desigualdade social não é natural,
mas um resultado da história. Ao contrário, Comte e Durkheim edificarão
os fundamentos da sociologia burguesa, pela teoria positivista,
consagrando a desigualdade social como fato natural, impossível
de ser eliminado pela história dos homens.
Karl
Marx citará Rousseau para ilustrar seu estudo sobre a expulsão dos
camponeses de suas terras, a expropriação dos trabalhadores independentes,
a concentração dos meios de produção e a mais-valia (trabalho não
pago), na gênese do capitalista industrial: "concedo-vos",
diz o capitalista, "a honra de me servir desde que me deis
o pouco que vos resta pelo trabalho que tenho de vos comandar"
(ROUSSEAU, citado por MARX, 1975: 864). Esta citação, extraída do
Discurso sobre a economia
política, de Rousseau, é utilizada por Marx no momento em que
ele fala do comando que o capitalista passa a exercer sobre os trabalhadores
expropriados, agora reunidos nas "casernas de trabalho".
Antes, quando ainda tinham a posse do solo, os camponeses repartiam
entre si o linho que cultivavam e fiavam em pequenas porções com
suas famílias. Agora, o linho concentra-se nas mãos de um capitalista.
Os fusos e teares, antes espalhados pelos campos, concentram-se
em algumas grandes casernas de trabalho, o mesmo ocorrendo com os
trabalhadores e a matéria prima. "Os fusos, os teares e as
matérias-primas se transformaram de meios de existência independente
de fiandeiros e tecelões, em meios de comandá-los e de extrair deles
trabalho não pago" (MARX, 1975: 863-4).
Uma
parcela da humanidade, hoje, tem consciência da necessidade de novas
formas de racionalidade, em que sejam dissipadas as práticas autoritárias
e destrutivas inerentes à ciência, a tecnologia e o progresso. A
crítica à razão transformada em instrumento de controle e dominação
dos homens pelos próprios homens ocupa um lugar central no mundo
contemporâneo. Tal racionalidade recebe o nome de "razão instrumental",
assim designada pela Escola de Frankfurt. Percebe-se, hoje, que
a longa luta do movimento racionalista contra a ditadura da Fé/Revelação,
bem como o cientificismo herdado do século XIX, culminaram, em grande
parte, em uma nova idéia, também absoluta, que converte a razão
humana e o progresso em verdadeiros mitos, substitutos de Deus na
explicação e condução dos destinos da humanidade.
Dois
séculos e meio após Rousseau, na chamada "pós-modernidade",
no suposto "fim da história", marcado pela chegada do
tão esperado progresso, ainda persiste como problema central da
humanidade o fato de que o processo científico-tecnológico de controle
e dominação da natureza é o mesmo processo de controle e dominação
dos homens pelos próprios homens.
Hoje, temos clareza de que o tempo de Rousseau
foi realmente um tempo em que a razão, através dos filósofos das
"luzes", contribuiu para a libertação humana, na luta
contra o absolutismo e o que restava do antigo regime feudal. O
capitalismo emergente na França tentava explodir os últimos grilhões
da velha sociedade. Mesmo desacreditando da razão, Rousseau é responsável
por grande parte do ideário que será consagrado pela Revolução Francesa,
ideário cuja expressão maior está contida no lema "liberdade,
igualdade, fraternidade". No entanto, a nova sociedade, sob
o capitalismo consolidado do século XIX, irá trair estes mesmos
ideais que haviam legitimado sua instauração. Rousseau não viveu
para presenciar como a nova sociedade, a mesma que levantara a bandeira
da liberdade/igualdade/fraternidade, irá submeter os trabalhadores
às condições mais infames, jamais vistas em toda a história da humanidade.
Tentando
contribuir para o resgate do sentimento de piedade, comiseração,
humanidade, contra todos os males sociais, Rousseau propõe vários
projetos de reforma: o da democracia, como exposto no Contrato
social, o de educação, em Emílio,
e o das artes, especialmente a literatura, a música e (contra) o
teatro, como exposto em vários "Discursos", romances e
cartas.
No
projeto para a música, a melodia e o uníssono são os elementos essenciais
da música mais natural. A música de Rousseau, introdutor da ópera
bufa na França (Le devin du village, 1752), é, em grande
parte, inspirada em melodias populares, como as romanzas e os vaudevilles
das feiras de Paris. A romanza
é uma composição instrumental ou vocal, geralmente estrófica, de
natureza lírica e romântica. Suas características são típicas da
canção. O vaudeville é um gênero de melodia simples e popular, uma canção estrófica
jovial, satírica e maliciosa. Acredita-se que tenha florescido no
vale do rio Vire (Vau de Vire), donde a expressão vaudeville ou vaudevire.
(apresentação, em CD, de alguns segmentos
de composições de Rousseau: Les
muses galantes, L' air
pour la troupe marchant, La
romance sur trois notes e La
romance d' Alexis)
A
filosofia da música de Rousseau está fundada sobre a mesma filosofia
do sentimento, do coração, do homem em estado de natureza. Chegando
a Paris, em 1742, com 30 anos de idade, com uma formação voltada
para a literatura, a filosofia e a música, em 15 anos ele irá completar
o ciclo das seguintes obras no campo da música: o Projeto
referente a novos sinais para a música, o bailado Les
muses galantes (1746), a ópera bufa Le
devin du village (1752), a Lettre
sur la musique française (1752), parte de uma centena de romanzas e de cerca de 200 verbetes de música para a Encyclopédie, mais tarde organizados no
Dicionário de música. No mesmo período,
ele já terá concluído suas primeiras obras filosóficas e romances,
Discurso sobre as ciências e as artes (1750), Discurso
sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens
(1754), Discurso sobre a economia política, e,
em 1756/7, terá iniciado o romance Júlia
ou A nova Heloísa e suas maiores obras de pedagogia e teoria
política: Emílio e Contrato social.
Observando
as obras deste curto período de 15 anos, que vai de sua chegada
a Paris (1742) até o início da escrita do Contrato
social (1757), passando pela "guerra dos bufões" (querelle
des buffons) percebe-se uma íntima afinidade entre a filosofia
do sentimento e a filosofia da música . Como filósofo consagrado
e introdutor da ópera bufa em Paris, ele ocupa o centro das atenções,
pelas suas críticas à música francesa e ao compositor Jean-Philippe
Rameau, o mais conceituado professor de música de Paris e autor
de um tratado de importância decisiva para a racionalização da música
ocidental, o Tratado de harmonia.
Este tratado, que sistematiza a tonalidade, havia sido publicado
em 1722, mesmo ano em que Bach publicou o primeiro volume da série
de prelúdios e fugas, o Cravo
bem temperado. A razão, como valor supremo, é cultuada por Rameau
e seu amigo Voltaire, com quem colaborou na composição de óperas,
como Hippolyte et Aricie (1733).
Em 1745, La Princesse de Navarre,
também em colaboração com Voltaire, foi apresentada com grande pompa,
em Versalhes.
Rousseau
acusa Rameau de criar obra frívola, sem sentimento, artificial,
que não comunica diretamente com a alma, o coração... Frente a isto,
só resta a Rameau jogar a última palavra contra seu rival: "incompetente".
A
interconexão da música com a filosofia, em Rousseau, permite-nos
entender como suas hipóteses sobre o homem em estado de natureza
levam-no a defender a melodia e o uníssono como elementos essenciais
da música mais natural, contra os artifícios e "frivolidades"
da polifonia e o contraponto.
Observe-se
a íntima associação entre a ópera Le
devin du village, apresentada em 1752, e suas idéias sobre a
arte do homem em estado de natureza expostas no Discurso
sobre as ciências e as artes, de 1750.
Da
mesma forma, o Discurso sobre
a desigualdade (1755) e Júlia,
estão entrecortados, em vários momentos, por reflexões sobre a música.
Tais como seus discursos e romances, as obras musicais conferem
primazia ao sentimento, prenunciando o romantismo.
O
grande sucesso da ópera de Rousseau, Le
devin du village, resulta em grande parte do emprego de melodias
simples. Na partitura, Rousseau junta, à maneira pastiche, melodias
que refletem as mais populares canções, como romanzas
e waudevilles, ouvidas nas feiras de Paris.
A melodia, paradigma essencial para Rousseau, é que mais aproxima
o homem de seu estado de natureza, contra a corrupção das artes
resultante da substituição dos valores naturais por efeitos postiços
e artificiais. Polifonia e recursos contrapontísticos são artificiais
e inúteis.
A
apologia do sentimento, em oposição à razão, está bem representada
na expressiva canção Allons
danser, da ópera Le devin du village. Sua harmonia e acompanhamento
são, como a melodia, muitos simples. Do mesmo modo, a letra conduz
intérprete e ouvinte para o plano da natureza e do sentimento. Realizamos
uma tradução quase toda literal, para que expresse fielmente, o
mais possível, o sentimento e pensamento rousseaunianos.
Refrão:
Allons danser sous les ormeaux / animez vous jeunes filletes / allons
danser sous les ormeaux / galans prenés vos chalumeaux (Vamos
dançar, por entre as flores, com alegria, / Oh! meninas, vamos dançar,
por entre as flores, com alegria, ao som dos flautins) (bis). 1ª
estrofe: Repétons mille chansonettes / et pour avoir
le coeur joyeux, / dansons avec nos amoureux. / mais n'y restons
jamais seulettes (Cantando belas canções de amor / Pra ter sempre
alegre o coração / Dançando na roda dos enamorados / bem distantes
da solidão). 2ª estrofe: À
la ville on fait bien plus de fracas, / mais sont ils aussi gai
dans leurs ébats, / Toujours contents, toujours chantans, / plaisir
sans art, beauté sans fard, / Tous leurs concerts valent ils nos
musettes? (Se na cidade não mora a paz / Se brincadeiras alegres
não há / Que é da alegria? Que é da canção? / Onde a beleza, sem
disfarce? / Suas orquestras não tem nossas gaitas). (Allons danser, da ópera Le devin
du village, de Rousseau)
(execução, ao vivo, de Allons danser, por Salomão Guarnieri: violino,
Fernando Matsuzawa: flauta transversal, e Luiz A. Giani: cravo
- som sintetizado do piano eletrônico Yamaha YPP50; apresentação
da gravação de Allon danser em CD, com Ana Luiza Costa
Giani: voz e Luiz A. Giani: acompanhamento; execução de Allons danser, em canto coletivo, por toda a platéia e participação
especial de um grupo de alunos ensaiados pela professora Josely
Bogo Machado Soncella)
Após
o sucesso de Le devin du Village,
Rousseau dedicar-se-á menos intensamente à música e mais à filosofia
e ao romance. Contudo, a preferência pela literatura e pela filosofia
não tirará totalmente seu interesse pela música. Aos 58 anos de
idade, após deixar a Inglaterra e retornar a Paris, ele cuidará
da publicação de seu Dicionário
de Música, que já vinha preparando, há muitos anos, desde que
escreveu cerca de 200 verbetes de música para a Encyclopédie,
dirigida por Diderot.
Para
Diderot, nem Rousseau, nem Rameau, mereciam as agressões mútuas,
durante a "guerra dos bufões": "até quando será preciso
que dure o ridículo de uma querela conduzida de modo tão desastroso,
em que há tudo a perder para os debatedores e em que só saem ganhando
os brincalhões de mau gosto?" (GOLDET, 1997: 503). A guerra
teve início em 1752, no momento em que uma companhia italiana apresentava
a ópera cômica La serva padrona, de Pergolesi, em Paris. Todos os enciclopedistas
(Roussseau, Diderot, D'Alembert, Grimm e d' Holbach) firmaram posição
contra a ópera francesa. Se estavam cobertos de razão em nome do
"natural" (contra os brilharecos vocais, as árias à base
de trinados, etc.), no entanto, teriam sido "injustos",
diz Philippe Beaussant, ao escolherem Rameau como alvo, desconsiderando
a mestria harmônica deste que foi o maior sinfonista antes de Haydn
e Mozart (BEAUSSANT, 1972: 498).
Em
novembro de 1753, Rousseau publica sua Carta
sobre a música francesa (Lettre
sur la musique française), que se torna a peça mais importante
da "guerra dos bufões". A carta funciona como um verdadeiro
estopim. Neste momento, a filosofia de Rousseau, contando com o
apoio dos enciclopedistas Diderot e Grimm, bem como das platéias
que se deliciaram com a ópera Le devin du village, ganha a batalha contra o pensamento e obra de
Rameau.
Otto
Maria Carpeaux, em sua Pequena
história da música, observa que uma das facetas da obra de Rameau
é o "racionalismo voltairiano" (CARPEAUX, 1968: 104).
Ao conferir centralidade à harmonia, Rameau submete a música ao
controle da razão. Para ele, a música é racional, igual em todos
os lugares e todas as épocas. É portanto universal.
A
racionalização, conceito característico e explicativo da moderna
civilização ocidental, será tema constante da obra do sociólogo
e filósofo alemão Max Weber, dedicado a estudos demonstrativos de
como o conhecimento racional atravessa todas as esferas da vida
social. Uma destas esferas da vida é a música, cuja racionalização
é contemplada por Weber em seu estudo Fundamentos racionais e sociológicos da música,
publicado em 1922.
(execução, ao vivo, da obra de Rameau:
La coulican, do primeiro
concerto das Pièces de clavecin
en concerts, por Salomão Guarnieri: violino, Fernando Matsuzawa:
flauta transversal, e Luiz A. Giani: cravo - som sintetizado do
piano eletrônico Yamaha YPP50)
Stéphane
Goldet faz comentários interessantes
sobre o debate ideológico entre os dois filósofos/compositores,
considerando as oposições entre a liberdade do "coração humano"
e a racionalidade matemática e universal:
Para
Rameau, a música é sumamente racional, igual sob todas as latitudes
e em todas as épocas: a compreensão da música é antes de tudo
um fenômeno universal. Para Rousseau, muito pelo contrário, a
música expressa as infinitas variedades do coração humano e não
saberia de modo algum ser universal em sua forma. O caráter da
melodia não tem como não variar de um povo para outro, de um momento
para outro da História: a compreensão da música é, portanto, um
fato histórico e cultural. O autor do Traité
d'harmonie reduite à ses principes naturels (Tratado
da harmonia reduzida aos seus princípios naturais) buscava
os fundamentos eternos da arte musical e isolou-os no princípio
unificador da harmonia. Nos antípodas desse "pitagorismo
musical", Rousseau considerava nada existir de tão antinômico
com a expressão dos sentimentos como a matemática de Rameau. Finalmente,
para o autor de La Nouvelle Heloise (A nova Heloísa), o gênio
não pode observar qualquer regra, pois, tal como a natureza de
que procede, ele é sinônimo de liberdade. Mais de uma vez, por
conseguinte, Rameau era acusado de ter pouco engenho e muita doutrina.
(Goldet, 1997: 505)
A
censura e a perseguição vão abater-se sobre a cabeça e obras de
Rousseau. Por conta do dogmatismo, da intolerância religiosa, do
"fator Deus", as autoridades de Paris movem contra Rousseau
uma ordem de prisão. Em 1762, ano da publicação d' O
Contrato Social e Emílio,
refugia-se em Neuchâtel (Suiça) e escreve a Carta a Cristophe de Beaumont, atacando o arcebispo de Paris que havia
condenado a obra Emílio,
na qual Rousseau opõe-se à fé dogmática e propõe uma religião natural
e uma pedagogia que tem por objetivo fazer da criança um adulto
bom. Emílio e Contrato Social são suas principais obras, que marcam a história
da pedagogia e da teoria política. Perseguido, é obrigado
a levar vida errante, inclusive vestindo-se de armênio para escapar
à perseguição. É também perseguido na Suiça. Protestantes de Neuchâtel
apedrejam sua casa. Enfim, refugiando-se na tranquilidade encontrada
na Inglaterra, vive em companhia do amigo, o filósofo David Hume.
Se
Rousseau não foi melhor compositor que filósofo, quem poderá no
entanto negar suas potencialidades musicais, especialmente a de
melodista? As obras que ele nos legou são, no mínimo, dignas de
serem apreciadas, como as óperas Les muses galantes, Le devin du village ("êxito considerável durante 60 anos",
segundo Candé), Pygmalion, Daphnis et Chloé, os cinco motetos e cerca de 100 romanzas, entre outras.
Não
fosse a renúncia ao ofício de compositor, suas potencialidades não
teriam atingido níveis cada vez mais elevados de inspiração? Por
outro lado, há poucos casos de compositores-filósofos ou filósofos-compositores
que intencionalmente tenham construído interconexões tão valiosas
entre os dois campos. Rousseau está na pequena lista que também
inclui Nietzsche, Eisler, Adorno e poucos mais. Desta lista, Adorno
é certamente o único que defende a música como forma de emancipação
humana, acima de qualquer associação entre música e política
A
importância dada à música na política, durante a Revolução Francesa,
é espantosa, segundo a Histoire
de la musique, de Combarieu, "em 1789, são produzidas 116
canções; serão 261 em 1790; 308 em 1791; mais de 320 em 1792, crescendo
para 590 em 1793 e para 791 em 1794..." (SQUEFF, 1989: 18).
Muitas óperas do gênero cômico, gênero introduzido por Rousseau
em Paris, integravam o repertório musical da Revolução.
A
20 de julho de 1789, seis dias após a tomada da Bastilha, a França
ouve mais uma vez a ópera bufa de Rousseau Le
devin du village (O adivinho da aldeia), que será mantida no
repertório francês até 1829, com mais de 400 apresentações!
LUIZ
A. GIANI
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