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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA
Professor
Associado do IE-UNICAMP, 51. Coordenador da Área de Economia da
FAPESP. Autor dos livros Economia em 10 Lições e Economia
Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista.
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Caetano,
Gal e Gil / Foto: Cynira Arruda
Tropicalismo
foi um movimento que resultou em uma síntese assistemática de alguns
elementos da brasilidade, em sintonia com as manifestações estéticas
e culturais do final dos anos 60. A “geração tropicalista” pode
ser considerada aquela estudiosa ou conhecedora do modo de vida
em nossos trópicos. Ela é a nossa “geração 68”.
Incorpora
não só os que aqui beberam desse “caldo de cultura” – como uma estratégia
de sobrevivência, após o golpe militar de 1964 até a primeira vitória
eleitoral da oposição em 1974 –, mas também os exilados nos “anos
de chumbo”. A partir de então, houve a retomada das lutas, nas ruas,
pela anistia e redemocratização. Mas a “geração 477” – decreto do
regime militar que tentava amordaçar o movimento estudantil –, a
sua maneira, já tinha realizado uma revolução cultural, na microfísica
do poder, com “paz e amor”.
Essa
geração entendeu que os participantes de movimentos sociais – sindicais,
estudantis, eclesiásticos, ambientalistas, feministas, anti-racistas,
homossexuais, entre outros –, juntamente com intelectuais e artistas
independentes, poderiam se tornar “companheiros”, na criação de
um partido político a partir dessas bases. Este partido alcançou
a maioridade: encabeça uma aliança política que ganhou a eleição
presidencial. Com essa geração, hoje na faixa dos 50 anos, chegando
ao poder, que mudanças ocorrerão? Quais são suas diferenças em relação
à geração anterior?
O
que significará alcançar o poder do Estado, para essa geração? Ela
sabe que o Estado não se restringe à sociedade política, isto é,
ao aparato da coerção e comando que se expressa no governo central
e jurídico. Ele soma também a sociedade civil: o conjunto das organizações
responsáveis pela elaboração e difusão das ideologias, para a coesão
social. Compreende o sistema escolar, as igrejas, os partidos políticos,
as organizações sindicais e profissionais, os meios de comunicação,
as organizações de caráter científico e artístico, etc.
A
realidade brasileira impôs a essa “geração tropicalista” a necessidade
de uma longa e ampla disputa para alcançar a hegemonia cultural
e o consenso social, antes da vitória eleitoral. No âmbito da sociedade
civil organizada, ela buscou ganhar aliados para suas posições,
através da direção e do consenso. A conquista do poder estatal,
em um regime democrático, exigiu dela conseguir convencer a maioria
dos eleitores a respeito de suas condições de controlar o poder
soberano – o monopólio da violência repressiva contra o crime e
o monopólio da emissão monetária –, respeitando os valores universais
republicanos: a igualdade, a fraternidade, a liberdade.
Sua
ideologia é, predominantemente, a da esquerda. O aparente conservadorismo dela, recentemente, contra algumas reformas neo-liberais,
pode ser entendido como uma
reação à tentativa de fazer a história retroceder. O neo-liberalismo tupiniquim investiu
com fúria, buscando a destruição de conquistas sociais anteriores.
Mas, com essa postura conservadora de conquistas anteriores, ficou
difícil aos eleitores diferenciar as propostas da esquerda?
Eles
adotaram um critério, para a diferenciação. Os homens, por um lado,
são todos iguais entre si; por outro, cada indivíduo é diferente
dos demais. Os que consideram mais importante, para a boa convivência
humana, aquilo comum que os une, em uma coletividade, votaram na
esquerda. Os que achavam relevante, para a melhor convivência, a
diversidade e/ou a competição, votaram na direita. O que definiu
essa posição de direita foi a idéia de que a vida em sociedade reproduz
a vida natural, com sua violência, hierarquia e eficiência. Para
a direita, se os homens são seres biológicos desiguais, devem submeter-se
à “lei do darwinismo social”; só os “preparados” merecem chances...
A direita adotou o “discurso da competência”. Não houve candidato
que se apresentou como fosse de direita; mas houve os que falaram
como a direita e recuperaram seus valores...
Votaram
na esquerda as pessoas que acham possível a eliminação das desigualdades
sociais. A direita insiste na convicção de que as desigualdades
são naturais e, enquanto tal, não elimináveis. Ela acha que o máximo
que se pode fazer é favorecer a competitividade geral via educação.
Minimiza a proteção social e maximiza o esforço individual. Já a
esquerda prioriza a proteção contra a competição social. Na escolha
entre a competitividade e a solidariedade, opta por esta última.
Portanto,
alcançar o poder do Estado, para essa geração tropicalista de esquerda,
simboliza uma ampla mudança cultural e ideológica, no Brasil. Cairá
a hegemonia do individualismo, da desregulamentação, do “salve-se
quem puder”, do “quem não é competente que não se estabeleça”. Venceu
a esperança de ascenderem, na sociedade brasileira, valores coletivos,
solidários, comunitários.
A
geração “dessa hora e dessa vez” não pensará em macaquear os “modelos
fora do lugar” sem a devida tropicalização. Não deverá tentar impor
às cegas o livre mercado à americana, seguindo o “consenso de Washington”.
Com ela, não serão nem o “filósofo de Harvard”, nem o “Chicago-boy”
os salvadores da pátria. Sua antropofagia cultural misturará “chiclete
com banana”, guitarras com MPB, baião com rock, em uma síntese própria,
em um baioque. Não ficaremos com tanta abertura financeira, mas
estaremos com abertura cultural e política para absorver o que de
fato nos interessa do mundo.
FERNANDO
NOGUEIRA DA COSTA
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