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Por ALTAMIRO BORGES
Jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor
da revista Debate Sindical
e autor, junto com Marcio Pochmann, do livro “Era FHC – A regressão
do trabalho” (Editora Anita Garibaldi).
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Foto:
Sebastião Salgado (1997)
Já há um certo consenso entre as forças
que atuam no movimento social sobre as razões da consagradora vitória
de Luiz Inácio Lula da Silva na sucessão presidencial. Ela teria
decorrido, entre outros fatores, da crescente insatisfação do povo
diante do destrutivo modelo neoliberal aplicado por FHC; do acúmulo
de forças dos setores populares nas lutas sociais e no terreno institucional;
da divisão do bloco dominante nesta contenda; e da capacidade da
esquerda de unir forças, numa ampla política de alianças, contra
a fúria liberal. Como resultado, a esperança venceu o medo; o desejo
de mudança derrotou o continuísmo.
Passada a ressaca dos festejos desta vitória histórica,
também começam a ficar mais nítidos os limites do futuro governo.
Todas as correntes de esquerda, até as mais voluntaristas e sectárias,
concordam que não será nada fácil a gestão de Lula. A trágica herança
deixada por FHC não permite ilusões com uma fase de “paz e amor”.
O país está pendurado na brocha, quase insolvente, o que inibe o
crescimento econômico e, conseqüentemente, a geração de emprego
e renda. Medidas paliativas, assistenciais, serviriam apenas para
atenuar os graves problemas. Além disso, o quadro mundial é de ofensiva
da reação, do “império do mal”. Os EUA exigem ainda mais sacrifícios
das nações dependentes no altar do demoníaco mercado.
Diante deste complexo quadro, qual deve ser o papel
do movimento social, em especial do sindicalismo? Até por ser uma
situação inédita na história do país, que pela primeira vez elege
um governo nitidamente identificado com as esquerdas, não há respostas
fáceis para esta delicada questão. Mas já surgem algumas pistas
de como as forças populares devem se comportar. A primeira é sobre
a necessidade de se defender esta conquista democrática do povo
brasileiro, fruto de tantas lutas. Os representantes do grande capital,
tendo na dianteira os setores hidrófobos da direita, farão de tudo
para desestabilizar o novo governo. “A direita norte-americana parece
considerar Da Silva como um comunista disfarçado e já pressiona
Bush a adotar uma atitude dura em relação a ele”, revela recente
artigo do jornal The New York Times.
As corporações, principalmente do setor financeiro,
utilizarão da “mão invisível do mercado” para evitar alterações
de rumo no país que afetem seus mesquinhos interesses. Elas também
não vacilarão em usar de ardis políticos, inclusive instigando o
legítimo anseio de mudanças para fustigar o futuro governo. Neste
cenário, qualquer iniciativa descolada da realidade, que desconsidere
a tensa correlação de forças, fará o jogo da direita. Como adverte
César Benjamin, autor do livro A
opção brasileira, “um eventual fracasso do novo governo será
um fracasso de todos nós, um fracasso do Brasil”. Na mesma linha
de raciocínio, o sociólogo Emir Sader, membro da coordenação do
Fórum Social Mundial, argumenta: “Se fracassarmos, teremos perpetuado
o Brasil das injustiças e condenado a esquerda a um projeto sem
esperança”.
A compreensão desta nova realidade parece já impregnar
as correntes mais lúcidas que militam no campo popular. A CUT, principal
central sindical do país, já anunciou que não abdicará da sua autonomia,
mas que apostará na “negociação permanente” para garantir os avanços
expressos na candidatura Lula. “A CUT não será instrumento do esquerdismo
infantil e nem da direita desavergonhada que farão alianças para
desestabilizar o novo governo”, garantiu João Felicio, presidente
da entidade. Também o MST, que promove nesta semana um seminário
nacional em Pernambuco, busca adotar uma posição mais matizada diante
do novo quadro político. “A ação política não poderá ser sectária”,
explica Gilmar Mauro, membro da coordenação do Movimento dos Sem
Terra.
Pressão popular
Outra pista importante, quase um contraponto, é sobre
a necessidade dos movimentos sociais investirem pesado no trabalho
de formação, organização e mobilização dos trabalhadores neste novo
tempo. Num contexto de intensos conflitos de classe, o campo popular
precisará reforçar ainda mais a sua capacidade de intervenção política.
Isto porque o capital, apesar de dividido na disputa eleitoral,
tende a se unificar novamente para fazer vingar seus intentos. É
obvio que não abandonou sua agenda fundada na exploração de classe.
Ele fará forte pressão para enquadrar o futuro governante. Além
disso, o projeto neoliberal foi derrotado nas urnas, mas a ditadura
do capital financeiro ainda mantém as rédeas do poder. O esforço
de domesticação do novo governo faz parte dos planos das elites!
O jornal inglês The
Independent expressa com nitidez esta artimanha: “Rejeição da
liberal economia de mercado pelos eleitores do mais populoso país
da América Latina? Ou eleição de um líder que terá mais confiança
do eleitorado e por isso será capaz de executar a próxima etapa
das necessárias reformas?”. De forma arrogante, responde: “Talvez
o país precise da esquerda para consolidar os ganhos da direita”.
Com este objetivo, e utilizando-se de vários expedientes econômicos,
políticos, ideológicos e outros, o capital fará o impensável para
manter sob controle os rumos desta nação estratégica para o sistema.
Caso ele não consiga, apostará então na pura desestabilização –
vide o exemplo de Hugo Chávez na Venezuela.
Exatamente por isso, o movimento sindical e popular
precisa se capacitar para interferir neste conturbado cenário. Se
o voluntarismo esquerdista é um crime, que faz o jogo da direita,
a postura da adesão passiva também cobraria um alto preço, abrindo
espaço para as manobras das elites. O esforço deve ser no sentido
de pavimentar um poderoso campo popular que garanta os avanços expressos
na candidatura Lula. Com base num projeto nacional, democrático
e popular, é preciso aproveitar o rico momento político que se abre
para avançar ainda mais na construção da alternativa de esquerda
no país.
ALTAMIRO
BORGES
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