É
muito difícil não concordar com tais idéias. Estava mais do que
na hora de abandonar a concepção de que o mercado pode e sabe
tudo e que ele é a melhor maneira de resolver nossos problemas
econômicos e sociais, o que não significa voltar ao Estado como
dono da economia e ignorar algumas vantagens do mercado capitalista
competitivo. Parar de privilegiar o mercado financeiro, nacional
e internacional, em prol da produção e do desenvolvimento parece
uma posição cuja defesa seria supérflua, mas quem viveu os anos
de Gustavo Franco e Pedro Malan sabe que não é bem assim. Por
fim, quem poderia ser contra distribuir renda e garantir saúde
e educação aos brasileiros?
No
entanto, falar é mais difícil do que fazer. Devemos exportar o
máximo possível? Claro, mas como fazê-lo se a nossa pauta de exportação
é composta centralmente de commodities e de outros artigos de
baixo valor agregado, com relativamente pouca demanda internacional,
e se boa parte do mundo está fechada a eles e a outros produtos
brasileiros? Do mesmo
modo, como fazer o mercado financeiro virar financiador da produção
e não mero especulador se a era FHC deixou uma dívida imensa que
tem que ser rolada? Enfim, tudo é mais fácil no papel e é esperar
se a esperança, que já venceu o medo, pode vencer também a dura
realidade atual.
O
que mais me preocupa, porém, é a idéia de que apenas uma política,
um ato pode mudar a sorte dos brasileiros. Neste mesmo espaço,
tempos atrás, discuti como a educação, a ciência e a tecnologia
são chaves para o desenvolvimento
nacional, mas como sozinhas elas não nos levarão ao primeiro mundo.
Penso o mesmo no tocante à distribuição de renda.
Não
há como defender, evidentemente, o grau de concentração de renda
do Brasil, que parece imutável ao longo dos séculos e governos.
Ela provoca efeitos sociais como miséria, criminalidade, doenças
e outros tão conhecidos que nem precisam ser recordados.
No
entanto, são os efeitos em termos de desenvolvimento nacional,
econômicos, que me interessam nesse momento. A meu ver, para uma
economia capitalista se desenvolver, grosso modo, são necessários
três elementos: um Estado capaz de dar direção ao mercado, prover
infra-estrutura e garantir um ambiente macroeconômico saudável
(respeito às regras, inflação baixa, etc.) para este operar; poupança
interna que, canalizada pelo sistema financeiro, sustente a produção
e o consumo e, por fim, mercado consumidor interno ou externo.
O
primeiro elemento está lentamente se consolidando no Brasil. Realmente,
é um mérito do governo FHC que o Estado tenha começado a se sanear
financeiramente, controlado a inflação, etc. Claro que o fato
da infra-estrutura nacional (estradas, hospitais, escolas, Universidades,
hidrelétricas, etc.) ter se desintegrado nesse processo e o Estado
ter perdido capacidade de investimento é preocupante, mas podemos
dizer que algo aconteceu e que mudanças poderão ser feitas a partir
desse algo.
A
poupança interna e o consumo continuam baixos, apesar de algum
aumento no início da era FHC, quando o fim da inflação aumentou
o dinheiro disponível para a maioria das pessoas. Se pensarmos
com cuidado, não poderia ser diferente num país com a concentração
de renda do Brasil. Quem consome além do essencial e guarda alguma
coisa no fim do mês para comprar uma casa ou formar uma reserva
é quem tem salário para tanto. A esmagadora maioria dos brasileiros
mal consegue consumir o básico e esperar que eles possam poupar
é ilusão.
Quanto
às elites, aquele 1% da
população que concentra a riqueza nacional, sua renda é fenomenal,
mas é óbvio que elas não podem consumir além de certo ponto, pois
ninguém pode fazer mais de três refeições por dia (mesmo que seja
de caviar e escargot) ou usar vinte celulares na cintura. Além
disso, é tanto nas mãos de tão poucos que, proporcionalmente,
a poupança é diminuta. Os nossos ricos, em geral, ostentam suas
canetas Mont Blanc e suas roupas da Daslu, mas tal ostentação
não apenas não consegue mover o mercado capitalista (que precisa
de escala, inclusive para poder exportar), como desperdiça recursos,
que, distribuídos por mais pessoas, seriam poupados numa escala
maior.
Ou
seja, distribuir renda e incluir pessoas no mundo do consumo,
da poupança e da produção é uma questão não apenas de justiça
social, mas de desenvolvimento econômico. Mais pessoas trabalhando,
recebendo salários justos, poupando e gastando significa mais
lucros para as empresas, maior produção de bens para consumo interno
e exportação, mais arrecadação
de impostos e maior fluxo financeiro no sistema bancário.
Em
outras palavras, distribuir renda, no caso brasileiro, não significa
a implantação do comunismo, mas o próprio desenvolvimento do capitalismo
nacional, historicamente cerceado pela opção das elites em concentrar toda a renda e poder em suas mãos. Mudar isto é seguir
o caminho da Europa, dos Estados Unidos, do Leste asiático e de
outros países que, pressionados por guerras, movimentos sociais,
medo de insurreições populares e outros elementos, acabaram por
aprender que a democracia e o capitalismo desenvolvido implicam
num egoísmo menor das elites.
No
entanto, resta o como fazer isto. Esperar, como querem os liberais,
que o bolo cresça para então pensar em distribuição é uma ilusão,
pois, como visto, não só as elites brasileiras tradicionalmente
resistem a qualquer perda da sua renda, como distribuir o bolo
é pré requisito para que ele possa crescer. Políticas estatais,
como impostos para grandes fortunas ou propriedades e políticas
sociais que não se limitem ao assistencialismo, mas enfatizem
mecanismos para quebrar o círculo vicioso da pobreza, como o apoio
a pequenas empresas, a bolsa escola e ênfase na educação são mecanismos
óbvios. Precisamos realmente de crescimento e distribuição, ao
mesmo tempo, se queremos mudar esse país.
A
única ressalva é que precisamos ter muito cuidado para não ver
o processo de distribuição como a única coisa que resta a ser
feita nesse país, como se a função do governo agora fosse ser
a de um Robin Hood, tirando dos ricos para dar aos pobres.
Digo
isso, em primeiro lugar, porque as riquezas produzidas no Brasil
ainda não são suficientes para dar a todos os brasileiros um padrão
de vida sueco. Bem distribuídas, num padrão de primeiro mundo,
permitiriam que multidões saíssem da miséria Mas estaríamos
ainda muito longe do PIB per capita de um Canadá ou da Dinamarca.
Ou seja, ainda não somos tão ricos que possamos deixar de pensar
na produção para nos concentrarmos na distribuição.
Além
disso, apenas um bom índice de Gini (que mede a concentração de
renda) não significa nada. Num país realmente rico e produtivo,
significa socialização da riqueza e das oportunidades. Num país
pobre, apenas que todos,
ou quase todos, são miseráveis.
Não é à toa que existem países com economia muito menos
desenvolvida do que a brasileira, como a Costa Rica ou a Colômbia,
mas com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) melhor por causa
de uma riqueza mais bem distribuída e outros também melhores do
que o Brasil nessa distribuição, mas que tem tão pouco a repartir
que apenas socializam a miséria, como os africanos.
Nesse
sentido, o recente artigo do agora senador Aloísio Mercadante
(“Crescimento e equidade”. Folha
de São Paulo, 20/10/2002) é brilhante. Após constatar que
não se muda a estrutura social de um país em um dia, mas que podem
ser tomadas medidas para inverter tendências de longo prazo, ele
propõe que a distribuição de renda se dê a partir do crescimento
da mesma de todos os grupos. Num período de 20 anos e supondo
crescimento de 6% ao ano do PIB e políticas estatais nessa direção
de maior igualdade, a participação dos 20% mais pobres na renda
nacional subiria de 2,5% para 8%, com a renda per capita subindo
11,5 % e passando de 316 para 2.782 dólares. Já os 20% mais ricos
sairiam de 63,8% para 40% de participação na riqueza nacional,
mas eles não empobreceriam, passando de 8.069 para 13.910 dólares
em renda per capita. Os setores intermediários sofreriam proporcionalmente
o mesmo processo, que não tornaria ninguém mais pobre, mas diminuiria
a pobreza e a desigualdade gerais.
Colocar
em prática tal idéia, claro, é incrivelmente complicado, mas concluo
que é o único caminho possível. Ou distribuímos renda ou o Brasil
está destinado a continuar a ser o que é, ou seja, uma sociedade
injusta, violenta e que não atinge nunca o seu imenso potencial
econômico e social. Mas o façamos com cuidado e critérios, para
não cair em políticas que reduzam todos os problemas nacionais
a isto. Não basta fazermos uma parte do todo necessário para termos
o sucesso. O desenvolvimento de uma nação depende da justiça social.
Mas não apenas disto.