A
história da humanidade tem sido marcada pela interdependência. Desde
os primórdios dos seres humanos, passando pela sociedade agrária
até os dias atuais onde se tem grandes corporações multinacionais,
o homem bem como empresas têm tornado-se cada vez mais especializados.
O resultado desse nível de especialização é a dependência. Adicionalmente,
a complexidade atrelada à tecnologia atual tem forçado uma necessidade
maior de especialização. Entretanto, ao mesmo tempo em que um nível
de especialização maior tem sido exigido, verificamos que o poder
da conectividade tem proporcionado interdependências sociais e econômicas
complexas, as quais são necessárias a fim de prover suporte a especialização.
Dentro desse contexto, a conectividade é vislumbrada como virtual,
não sendo estritamente no sentido tomado de um meio como uma rede.
Embora a interdependência seja um fenômeno antigo, a tecnologia
de conectividade que prover suporte a ela tem se tornado significativamente
mais rápida e poderosa nessa última década.
Hoje em dia, as comunicações, sistemas financeiro e
de comércio bem como sistema de transporte e energia oferecem
sustentação a sociedade e serve de base à economia global. Temos
estado tão imersos em tais interdependências que a separação entre
a tecnologia de conectividade e nós, seres humanos, torna-se quase
impossível. Dessa forma, falhas na tecnologia de conectividade
nos levam ao imediato desconforto bem como pode resultar em grandes
perdas de vida e econômicas. Para solucionar tais problemas, faz-se
necessário grandes investimentos, especialmente em segurança,
a fim de assegurar confiabilidade e correto funcionamento da tecnologia
de conectividade.
O ataque terrorista sofrido pelos Estados Unidos (EUA)
marcou a data fatídica de 11 de setembro. Naquela ocasião, o presidente
dos EUA, George W. Bush, disse: “O mundo nunca será o mesmo novamente”.
Este fato teve, tem e terá desdobramentos sob os mais variados
aspectos como sociais, econômicos, político, tecnológico, dentre
outros. Aqui, nesse espaço, reservo-me a discutir a questão segurança
ou, mais propriamente, a tecnologia de segurança. Ao mesmo tempo
em que a conectividade nos proporciona conforto, acesso rápido
a informações, agilidade nos negócios e realização de serviços,
ela também permite ações de intrusos com os objetivos mais diversos,
englobando roubo e manipulação de informações ou até mesmo causando
a incorreta operação de sistemas. Tais ataques causam grandes
impactos em termos de perdas de tempo, dinheiro e até vidas humanas.
O CERT Coordination Center (www.cert.org).
é uma entidade que monitora atividades de intrusão. Eles têm acompanhado
a ocorrência e tipos de ataques e verificado como tais atos afetam
a habilidade das pessoas e empresas utilizarem a Internet seguramente.
Dados deles referente ao período de 1995 a 2002 revelam o crescimento
exponencial observados nos últimos três anos, conforme Tabela
1.
|
Ano
|
1995
|
1996
|
1997
|
1998
|
1999
|
2000
|
2001
|
2002
|
|
No. de incidentes
|
2412
|
2573
|
2134
|
3734
|
9859
|
21.756
|
52.658
|
-
|
|
No. de vulnerabilidades
|
171
|
345
|
311
|
262
|
4127
|
1.090
|
2.420
|
3750
|
Sabe-se, como tem sido divulgado na mídia, que os EUA
e outros países não têm medido esforços buscando corrigir vulnerabilidades e evitar ataques em seus sistemas.
Tais atitudes têm motivado a polêmica sobre a perda de privacidade
em detrimento de um maior nível de segurança.
Neste sentido, a União Européia está propondo uma lei
que requer o armazenamento
de todo e qualquer tipo de comunicação pessoal de seus cidadãos
por pelo menos um ano. Pelo projeto, as empresas de telecomunicações,
incluindo operadoras de telefonia móvel e provedores de acesso
à internet, serão obrigadas a guardar os números de telefone e
endereços de e-mail trocados pelos europeus. Os europeus justificam
a lei em função da necessidade de ajudar serviços de inteligência
e polícia para o combate ao crime e terrorismo. Todavia, a proposta
desta lei tem motivado polêmica e ampla discussão na Europa sobre
privacidade e, principalmente, sobre o controle cada vez maior
do governo sobre a vida das pessoas.
Assim,
observa-se que a conectividade traz inúmeros benefícios às pessoas
e empresas, mas tem um lado perverso pois permite articulação
e coordenação de ataques das mais diversas naturezas, dentre os
quais os terroristas. Sem que tivéssemos percebido imediatamente
a conectividade tem invadido nossas residências e ambientes de
trabalho de maneira rápida nesses últimos anos e têm as pessoas
e empresas mais vulneráveis. Embora a proposta de leis dessa natureza
permitam às autoridades maior capacidade de rastreamento de informações
e possam ajudar a evitar ataques, elas permitem ao Estado uma
vigilância de seus cidadãos e destitui deles o direito a privacidade
e liberdade de expressão. Decorrente disso, o ser humano e sua
imensa capacidade criativa apresenta uma nova tecnologia que cria
meios para defender a liberdade de expressão: acaba de entrar
no ar uma nova versão da rede Freenet (http://freenetproject.org),
que busca o total anonimato dos participantes. Todavia, este será
um tema a ser expandido e discutido num próximo texto.