À
minha frente, um camarada
de barba longa e embranquecida,
à maneira de um profeta, discorre
sobre a missão do proletariado,
o caráter proletário do partido,
a crise da direção revolucionária
e a inevitabilidade do socialismo.
Fala com ardor e convicção.
A própria verdade se materializa
diante dos meus olhos. Ele
expressa a indignação milenar
dos justos contra a miséria,
as desigualdades e injustiças
sociais. Como o Messias, anuncia
a boa nova, o paraíso terrestre;
como os profetas, clama contra
a exploração e a opressão;
não apenas fala pelos oprimidos
e explorados, se coloca no
lugar destes. Quem poderá
questionar as suas
certezas?
Envolvido por sua oratória, como que num transe, recupero a
lucidez e, ingenuamente, mas
cuidadoso, pergunto: - Não
lhe parece que seu discurso
expressa um certo caráter
religioso, uma certa religiosidade
na forma de conceber a teoria
e os líderes que a formularam?
Percebo que ele se ofende, mas mantém a civilidade. Como que
provocado por um inimigo oculto,
sua fisionomia se altera,
acentua o tom da voz e, com
ainda mais ênfase, repisa
seus argumentos. Meu interlocutor
é um indivíduo sisudo, domina
a teoria e argumenta que o
socialismo é inexorável..
Marx disse-o, Lenin e outros
marxistas reafirmaram-no.
E, assim o é não porque queiramos,
mas porque resulta das contradições
do capitalismo; porque o marxismo
é uma ciência; porque o proletariado
expressa esse projeto histórico
etc. etc. Como duvidar?
Tenho a impressão de que os mortos falam por sua boca. Atordoado
por seu proselitismo, pretensamente
racional e científico – com
as devidas citações das autoridades
proféticas – calo-me. Agradeço,
despeço-me e vou embora admirado
pela demonstração de fé que
acabara de presenciar.
Não generalizemos. Mas o exemplo ilustra bem um tipo de militante
social presente no interior
da esquerda, em especial,
nos grupos mais radicalizados.
Também não concluamos que,
pela descrição, o apostolicismo
encontra-se relacionado à
idade relativamente avançada.
Os jovens iniciados na política
podem ser tão dogmáticos quanto
os idosos. Nos anos 1980 convivi
com jovens que após lerem
o jornal ou a revista da organização,
um ou outro livro indicado
pelo guru e ouvirem a voz
da autoridade, imaginavam
dominar a teoria. Esse tipo
de militante, seguro de si
e, em geral, muito arrogante,
passa a repetir frases, transformadas
em fórmulas prontas: ele tem
a resposta para todos os dilemas
da sociedade, citações para
todas as circunstâncias.
Naqueles anos, num evento promovido por uma determinada organização
política, vi jovens que gritavam
alegremente: “Nós somos,
nós somos, soldados de Leon!”
Foi naquela época que conheci
a autobiografia de Leon Trotsky
(Minha Vida), exposta
numa dessas barraquinhas dos
encontros partidários. Tive
a ousadia de fazer um breve
comentário sobre o narcisismo.
O companheiro que vendia os
livros ficou muito bravo!
Por essas e outras, aprendi
que o culto à personalidade,
à maneira do cristão adorador
de imagens e símbolos, não
se restringe ao stalinismo.
Observe-se outro aspecto importante
do discurso militante: a utilização
de palavras e conceitos emprestados
da linguagem militar. Com
efeito, não basta abraçar
religiosamente à causa; como
os cristãos em suas cruzadas
contra os hereges é preciso
também instituir exércitos
e destruir os inimigos.
Como o cristão cujo argumento de fé reduz-se à citação do Livro
Sagrado, este tipo de
militante incorpora, sem qualquer
reflexão crítica, o que dizem
ou escreveram seus líderes.
A referência ao líder, ao
guru, aos clássicos, tomados
como livros sagrados, é uma
necessidade de legitimação
pela autoridade. Como escreve
Bourdieu:
“O eu
sacerdotal deriva da autoridade
do profeta de origem; todavia,
por maior que seja a modéstia
(condição de participação
no capital herdado de autoridade)
que o impede de falar efetivamente
na primeira pessoa, ele não
pode esquecer que possui algum
mérito por restaurar o capital
em sua integridade através
da desbanalização, revolução
da leitura que define a revolução
letrada.” (1998: 160 e 162)
A discussão política é esvaziada, o diálogo torna-se mera estratégia
para a auto-afirmação do credo
adotado. Na realidade o objetivo
principal não é convencer
o outro, mas impor a sua
verdade. No fundo, não se
trata de um diálogo, mas de
vários monólogos entre sacerdócios
diferentes. E se você se recusa
a participar da farsa, verdadeiro
exercício de doutrinação,
logo lhe lançarão um epíteto
que soará como um palavrão:
fique contente se apenas o
chamarem de centrista,
eclético ou o qualificarem
como um alienado.
Como o padre ou o pastor, cuja palavra nunca está sob dúvida,
o apóstolo da razão se coloca
como o guardião da mensagem
autêntica, como o único capaz
de proteger a fonte da autoridade
da tentação dos hereges e
revisionistas. O texto
sagrado não admite questionamento.
Está escrito, pronto!
Cita-se e recita-se, permanentemente. Da citação passa-se à
interpretação e às disputas
sobre quem representa o verdadeiro
sacerdócio. Como as incessantes
batalhas entre as várias igrejas,
guerras de deuses cuja fonte
é um único Deus e sua palavra
que, acredita-se, consubstancia-se
na doutrina do Livro Sagrado,
os diversos sacerdócios necessitam
não apenas legitimarem-se,
mas alçarem a sua leitura
ao status da leitura revelada,
isto é, a verdadeira, a fiel,
a que representa a tradição.
A luta pelo monopólio do comentário e da interpretação legítima
dos profetas, as intermináveis
polêmicas recheadas de longas
e cansativas citações, de
acordo com as estratégias
de afirmação da autoridade
do eu sacerdotal, ocorre
por um motivo muito simples:
o que está em disputa é um
imenso capital simbólico
representado pelo marxismo
– quanto mais uma determinada
interpretação é aceita, mais
capital simbólico tem
e mais será legitimado. Então,
torna-se possível compreender
as intermináveis lutas faccionistas
e fratricidas e a necessidade
de se afirmar enquanto guardião
da doutrina. Identificar-se
com o profeta maior, numa
linhagem que começa com os
clássicos e tem no representante
hierarquicamente superior
da organização o seu continuador,
não é apenas um exercício
de sacerdócio, é também fonte
geradora de lucros simbólicos
e reais: o prestígio, o poder,
o controle dos aparatos organizacionais,
a adesão de seguidores.
Como a Santa Inquisição que objetivava, em nome de Deus, salvar
o pecador, purificando-o através
do auto-de-fé ou nos suplícios
da fogueira. Decretando a
incapacidade do herege de,
por suas próprias forças,
escapar ao contágio do mal,
o apostolado da razão política
também se alimenta do combate
às heresias, da necessidade
de afirmar a doutrina e o
dogma. Ele vive do erro teórico;
imagina ser a sua tarefa,
sua razão de ser, identificar,
denunciar, exorcizar: a “tentação”,
o “desvio” ou a “recaída”
estão em todo lugar e ate
mesmo no próprio discurso”,
como comprova-o o famoso procedimento
da autocrítica:
“A autoridade
sacerdotal implica o direito
à correção: ela persegue o
erro até no discurso do profeta
de origem (refiro-me às “interpolações”
odiadas pelos filólogos),
o qual convém ao menos corrigir
e corrigir incessantemente,talvez
purgá-lo e expurgá-lo, “de
retificação em retificação”.
O sacerdócio organiza catálogos
de pecados (as palavras terminadas
em ismo).” (Id.: 164)
Se a reforma protestante teve o mérito de combater o monopólio
da palavra e romper com a
idéia de que o crente necessita
de intermediários entre ele
e Deus (para em seguida reafirmar
a autoridade do pastor ungido
como o guardião da santa palavra),
na militância política procede-se
de forma semelhante: todos
têm acesso aos textos sagrados
(embora existam organizações
que controlem e indiquem o
que ler, o que não ler e quando
ler). Formam-se leitores de
um único autor, doutrinados
por mestres, também eles,
crentes de que suas referências
teóricas são as mais justas
e verdadeiras, sagradas. Conheci
professores, por exemplo,
que imaginavam poder ensinar
os clássicos da economia burguesa
através da crítica de Karl
Marx. Na verdade, eram doutrinadores,
e não mestres.
A teoria assume status de ciência, mas é incorporada enquanto
religiosidade não assumida.
Isto só é possível com a sua
metamorfose em verdade inquestionável,
em dogma. Se considerarmos
o marxismo em suas origens,
veremos que o mesmo, a despeito
das resistências de Karl Marx
(que declarou não ser marxista),
transformou-se em escola de
pensamento pela ação dos novos
sacerdotes – consolidando-se
enquanto tal no debate com
o revisionismo de Bernstein.
“A paternidade das noções
de “marxista” e de marxismo”
no sentido que assumiu em
nosso vocabulário cabe a Kautsky”,
escreveu G. HAUPT (1983: 364)
Foi a social-democracia alemã que, sem o conhecimento e contra
a vontade de Karl Marx e Engels,
consolidou os termos marxismo
e marxistas (usados
inicialmente de forma pejorativa
pelos adversários de Marx).
A partir de então a obra de
Marx adquiriu, para muitos,
o status de evangelho e seus
seguidores passaram a constituir
uma igreja secularizada, mas,
simultaneamente, com a devida
função de sacralizar a teoria.
O marxismo passa a ser utilizado com meio de luta ideológica
entre os verdadeiros
e falsos marxistas,
entre a tradição e
a ruptura, a ortodoxia
e a heterodoxia. Kautsky
soube capitalizar este processo,
tornando um dos cardeais da
nova igreja – para posteriormente
ser renegado como traidor.
Mas antes mesmo de Lenin proferir
a sentença que o condenaria
perante todas as gerações,
ele encontrou críticos que
o acusaram de, junto com Bernstein
(quando este ainda era considerado
um guardião da doutrina),
pregarem a “infalibilidade
do marxismo” e de o transformarem
num novo evangelho:
“Eu não conheço uma religião de Marx, nem um programa
de Marx ao qual eu ou outros
companheiros tenham jurado
fidelidade; só conheço um
programa do partido. Kautsky
prega uma religião de Marx.”
(Apud HAUPT, 1983: 368)
Todo
evangelho necessita de intérpretes
e esses são os novos apóstolos,
os novos profetas da redenção.
Quanto mais especializada
a linguagem, maior a necessidade
de constituir-se um “corpo
de intérpretes” cujo objetivo
é proteger “contra o risco
permanente do “desvio”, da
“recaída”. Esse corpo, legitimado
pelo sacerdócio, se coloca
como “a única e real proteção”
contra as heresias:
“Somente esse corpo sabe tomar no bom sentido as palavras
com duplo sentido, discernindo
o uso “burguês” do uso “marxista
e científico” dos conceitos
marxistas, podendo decretar
a linha justa, ou então, alcançar
o “mais profundo” (...) “suscitar
teses gerais” acerca de “questões
de alcance geral”. Em suma,
a produzir a dificuldade do
texto que por sua vez o produz
como único intérprete capaz
de superá-la (...), esse mesmo
corpo institui-se como detentor
exclusivo da verdade do texto
sagrado, fonte inesgotável
de todas as verdades (positivas
e normativas) sobre o mundo
social.” (BOURDIEU, 1998:
172 e 174)
O próprio Kautsky desenvolveu a tese de que a consciência de
classe do proletariado é exterior
a este, o que significa afirmar
que não é resultante da luta
direta entre as classes sociais,
mas sim produto do acúmulo
de profundos conhecimentos
científicos, algo só possível
aos intelectuais. A sacralização
dessa tese se deu com Que
Fazer?, de Lenin (1902)
e a sua posterior consagração
pela vitória das teses leninistas
em solo russo. No fundo desta
polêmica está a idéia de que
a massa precisa de uma vanguarda
iluminada que indique o caminho.
Essa
elite passa a desempenhar
o papel dos apóstolos: interpretam
e anunciam a boa nova; decidem
sobre o bem e sobre o mal;
torna-se a guardiã da verdade
e da linha justa. Ela organiza-se
no partido, apresenta-se como
a vanguarda do proletariado,
depositária dos seus interesses.
Identificada à classe, substituí-na.
Ungido à sacrossanta tarefa
de expressar a classe que
redimirá a humanidade dos
seus pecados, o partido, e
depois o secretário-geral,
torna-se, como o Papa cristão,
infalível, possuidor do dom
da revelação, parâmetro da
verdade e da mentira. Tudo
que o fortalece é bom; tudo
o que o enfraquece, exprime
o mal. Portanto, está em sua
gênese não admitir heresias.
Como o Deus cristão, o partido
do proletariado é único, exige
o sacrifício, a fé cega. Pois,
o que pertence ao âmbito da
fé não precisa de comprovação,
mas de abnegação.
A
literatura está repleta de
exemplos nos quais abnegados
militantes imolam-se religiosamente
no altar do partido. Jorge
Amado, por exemplo, descreve-nos,
como os comunistas reagiram
ao pacto germano-soviético
(Hitler-Stalin). A certa altura,
um dos personagens, entre
perplexo e sedento de reafirmação
da sua fé, diz:
“– Sim, quando li a notícia recebi um choque, também
não queria acreditar. Larguei
o escritório, andei pelas
ruas meio abobalhado, mas
depois refleti: serei eu por
acaso quem pode julgar e decidir
da melhor política para o
proletariado, para o povo
soviético, para os povos do
mundo? Sou eu ou os soviéticos
quem está à frente da luta
contra o nazismo? Quem tem
mais cabeça para pensar, eu
ou eles?” (AMADO, 1987: 174)
A
dúvida é descartada pela reafirmação
da obediência religiosa, isto
é, a crença no partido, na
União Soviética e em Stalin:
“– Recordei toda a atuação internacional da União Soviética.
Eles sempre tiveram razão
em tudo o que fizeram. Por
que não hão de tê-la agora?
Só porque eu não posso entender
completamente os motivos do
seu gesto? Se eu não compreendo,
a culpa é minha e não deles.
Não é a primeira vez que isso
sucede...” (Id.: 174-75)
Outra foi a atitude de Paul Nizan, o intelectual engajado no
Partido Comunista, autor de
Os cães de guarda (um
libelo contra os intelectuais
que não aceitavam o engajamento
político ou se isolavam em
suas torres de marfim). Decepcionado
com o pacto germano-soviético,
ele rompeu com o partido.
Foi acusado de espionagem
pelos ex-camaradas. Como escreve
BOBBIO (1997: 78), “no universo
staliniano só havia lugar
para o servo ou para o espião,
duas diferentes formas de
rebaixamento do homem.” Isolado
e abandonado, Paul Nizan morreu
na frente de combate: tinha
apenas 35 anos de idade. Antes
de morrer, escreveu:
“Nos tempos que correm, não reconheço mais que uma
virtude: não a coragem, nem
a vontade do martírio, nem
a abnegação, nem o ofuscamento,
mas apenas a vontade de compreender.
A única honra que nos resta
é a do intelecto.” (Apud in
id.)
Também KOESTLER, no livro O zero e o Infinito, descreve
o drama do dirigente comunista
tomado pelas dúvidas entre
a obediência ao partido e
o questionamento das suas
ações enquanto revolucionário.
Embora os personagens sejam
fictícios, o relato tem como
pano de fundo histórico os
famosos processos de Moscou
e o personagem principal,
N. S. Rubachov, sintetiza
a trajetória de vários militantes,
vítimas do terror stalinista.
Na prisão, Rubachov faz um inventário da sua vida, uma espécie
de acerto de contas; na verdade
uma forma de superar a sua
luta interior entre a afirmação
do eu ou a capitulação
ao partido. A afirmação do
eu significa negar
a própria razão de ser da
sua vida: a militância pela
causa revolucionária. No transcorrer
do relato, observamos a fé
cega no partido, concebido
como o demiurgo da História:
“O Partido nunca pode errar – disse Rubachov . – Eu
e o camarada podemos cometer
um erro. O Partido não. O
Partido, camarada, é mais
do que você e eu e milhares
de outros como você e eu.
O Partido é a corporificação
da idéia revolucionária da
História. A História não conhece
escrúpulos nem vacilações.
Inerte e infalível, ela marcha
para o seu alvo. Em cada curva
do seu percurso deixa a lama
que arrasta e os cadáveres
afogados. A História conhece
o seu caminho, não erra. Quem
não tem fé absoluta na História
não pertence às fileiras do
Partido”. (KOESTLER, 1964:
31-32)
Ter fé na História significa acreditar inabalavelmente na vitória
do socialismo. KUNDERA (1986:
52), em A Brincadeira,
traduz essa postura no diálogo
entre o personagem principal
e seus acusadores:
“Você acredita que o socialismo pode ser construído
sem otimismo? – perguntou
um outro. Não, respondi. Então,
conseqüentemente você não
é partidário da construção
do socialismo em nosso país,
declarou um terceiro. Como
assim? – protestei. Porque,
para você, o otimismo é o
ópio do gênero humano! – gritaram
eles. Como, o ópio do gênero
humano? – protestei mais uma
vez. Não há escapatória, você
escreveu isso! Marx qualificou
a religião de ópio da humanidade,
mas aos seus olhos o ópio
é o nosso otimismo!”
Conclui-se,
portanto, que o pessimista
é inimigo da classe operária
e do seu partido, ou seja,
um trotskista. O mais interessante
neste diálogo é a seriedade
sombria dos interrogadores
(e, observe-se que são jovens).
Eles brandem como peça de
acusação um cartão que o interrogado
havia enviado à sua namorada,
no qual, em tom de brincadeira,
escrevera:
“O otimismo é o ópio do gênero humano! O espírito sadio
fede a imbecilidade! Viva
Trotski!” (Id.: 52-53)
Ludvik não conseguiu convencer os seus sisudos camaradas de
que tudo não passara de uma
brincadeira. Mas, é sintomático
que as ditaduras, à esquerda
ou à direita, busquem suprimir
tudo o que possa induzir ao
riso – talvez por receio de
serem ridicularizados. Lembremos
que na idade média o riso
era considerado obra do demônio
– daí a representação das
bruxas e suas aterrorizantes
gargalhadas. Também é sintomático
que, em geral, os sectários
e fanáticos tenham dificuldades
de travar relações pessoais
com outros que não sejam seus
iguais.
Em outra obra literária, 1984, de George Orwell, as
verdades irrefutáveis das
ciências exatas são substituídas
pelas verdades construídas
pelo Partido e pelo Big
Brother. A verdade passa
a ser a verdade do Partido,
a História só existe a partir
da sua intervenção. Como afirma
o inquisidor O’Brien:
“A realidade só existe no espírito, e em nenhuma outra
parte. Não na mente do indivíduo,
que pode se enganar, e que
logo perece. Só na mente do
Partido, que é coletivo e
imortal. O que quer que o
Partido afirme que é verdade,
é verdade. É impossível ver
a realidade exceto pelos olhos
do Partido.” (ORWELL, 1998:
231)
Mas isso não se dá passivamente. O indivíduo pode ser levado
a acreditar, como o faz O’Brien
com o herege Winstson, que
dois e dois não são quatro.
Não se trata apenas de dobrar-se
às torturas ou de tacitamente
aceitar a versão do dominador
para safar-se do castigo.
Não, é preciso introjetar
a verdade partidária; é necessário
submeter-se incondicionalmente,
destruir a própria vontade.
“Deves te humilhar antes de
recobrar o juízo”, diz O’Brien.
(Id.)
A religião exige que o individuo se prostre humildemente diante
do seu Deus, pronto a imolar
seu filho no altar, se for
preciso e assim exigido pela
autoridade suprema; a religião
pressupõe um desejo de servir,
sem colocar em dúvida a quem
se serve, a quem se adora.
Também assim o exige o Partido,
o deus da razão suprema. Na
sala 101, Winstson nota que
o seu algoz acredita realmente
no que diz. Quando ele aceita
a verdade inquestionável de
que 2 + 2= 5, porque assim
o Partido determinou, acredita-o
simplesmente. Antes de convencer
a vítima, ele está convicto
(como os inquisidores estavam
plenamente convictos de que,
torturando e queimando corpos,
salvavam almas).
Mas não se trata dos mesmos objetivos da Santa Inquisição,
nem muito menos do que foi
feito sob o nazismo e o stalinismo.
Enquanto na inquisição os
homens morriam por se recusarem
a abandonar suas crenças –
o que os tornou mártires e
envergonhou a história da
Igreja – os inquisidores da
obra de Koestler sabiam que
era necessário não criar mártires:
era preciso levá-los conscientemente
à capitularem, acreditando
piamente nas razões e argumentos
dos seus algozes. Trata-se
de dobrar psicologicamente
o herege e não simplesmente
de destruí-lo. Em 1984,
Orwell imagina um sistema
capaz de cumprir essa função,
assim exposto na fala de O’Brien:
“– No passado,
o herege caminhava para a
fogueira ainda herético, proclamando
sua heresia, nela se gloriando.
Até a vítima dos expurgos
russos conseguia levar a rebelião
selada no crânio, enquanto
ia pelo corredor à espera
do tiro. Mas nós tornamos
perfeito o cérebro do indivíduo
antes de matá-lo. A ordem
dos antigos despotismos era
“tu não farás”. Os
totalitários mudaram para
“tu farás”. Nossa ordem
é “tu és”. (Id. : 237)
Tu és o que o Partido determinar, acreditarás no que ele disser;
professarás as verdades emanadas
por ele; o seguirás, sem duvidares
da justeza dos seus propósitos.
O partido é teu deus! Em nome
dele farás tudo o que for
necessário; tua ética será
determinada pela razão do
Partido e do Estado. Reconhecerás
que os meios justificam-se
pelos fins perseguidos.
Acreditarás na infalibilidade
do partido ou te verás nu,
sem deuses e sem ideologia
para seguir.
Se a inquisição da Igreja foi efetivada em nome de Deus, para
libertar os homens da influência
do demônio; a inquisição stalinista
foi levada a cabo em nome
dos máximos valores humanos,
para libertar os indivíduos
da influência maligna da ideologia
burguesa e pequeno-burguesa.
Em ambos os casos, tratava-se
de purificar corpos e mentes.
E, para isso, todos os meios
eram válidos:
“Quando ficava evidente a maldade dos meios, recorria-se,
para continuar a crer na bondade
da causa e ficar em paz com
a própria consciência, à elevação
do fim: a criação de uma sociedade
nunca vista antes, na qual
finalmente cessaria toda forma
de exploração do homem sobre
o homem.” (BOBBIO, 1997: 178)
É interessante como Rubachov, o personagem de Arthur Koestler,
ver a sua própria ação. À
semelhança do personagem de
Dostoiévski (Crime e Castigo)
que assassina a velha agiota
e rabugenta, exploradora de
uma jovem e miserável mulher,
ele se pergunta se tem culpa
pelo crime cometido ou se
os fins almejados isentam-no.
No 5º dia em que estava preso,
Rubachov escreve em seu diário:
“Fomos comparados com a Inquisição porque, como ela,
constantemente sentimos em
nós todo o peso da responsabilidade
pela vida superindividual
futura. Assemelhávamo-nos
aos grandes inquisidores porque
perseguíamos as sementes do
mal não nas ações dos homens,
mas também nos seus pensamentos.
Não admitíamos esfera privada,
nem mesmo dentro do crânio
do homem. Vivíamos sob uma
compulsão, elaborar as coisas
até suas conclusões finais,
os nossos espíritos estavam
carregados tão tensamente
que a mais leve colisão causava
um circuito mortal. Estávamos
fadados, assim, à destruição
mútua.
“Fui um desses. Pensei e agi como devia; destruí pessoas
das quais gostava, e dei o
poder a outros de quem não
gostava. A História me pôs
onde estive; esgotei o crédito
que me concedeu; se estava
com a razão, nada tenho de
que me arrepender; se estava
em erro, pagarei.
“Mas como pode o presente determinar o que será tido
pela verdade, no futuro? Estamos
fazendo a obra de profetas
sem o seu dom. substituímos
a visão pela dedução lógica;
mas embora todos partíssemos
do mesmo ponto, chegamos a
resultados divergentes. A
prova refutou a prova, e finalmente
tivemos que recorrer à fé
– à fé axiomática na justeza
do nosso próprio raciocínio.
Eis o ponto crucial. Jogamos
todo o lastro no mar: só uma
âncora nos segura: a fé no
próprio eu. A geometria é
a realização mais pura da
razão humana; mas os axiomas
de Euclides não podem provar-se.
Quem não acreditar neles verá
todo o edifício desmoronar-se.”
(KOESTLER, 1964: 73)
Conhecemos o desenlace desta história: homens abnegados, cujas
vidas foram dedicadas à causa
revolucionária, foram destruídos
psicologicamente, humilhados
e convertidos à nova verdade
do partido: acertavam as contas
com a História, mesmo sabedores
de que morreriam. O Partido
vencera; o Grande Irmão
reinaria absoluto por muitas
décadas. Como na ficção de
Orwell, seus nomes, imagens
e feitos foram apagados dos
registros da História; restou-lhes
apenas o consolo de que, à
maneira cristã, o Partido
viesse futuramente a ter compaixão
e tornar público o último
serviço prestado à Revolução.
Sabiam que estavam perdidos
e aceitaram resignadamente
o veredicto da História, interpretada
pelo Partido (como o cristão
se resigna diante dos desígnios
do Senhor).
Observe-se que mesmo o herege mantém a fé inabalável na redenção
da humanidade. Expulso do
Partido, como Adão e Eva do
paraíso, ele lutará contra
a infidelidade dos que o expulsaram
e terá como missão fazer a
exegese do evangelho. Ele
continuará acreditando na
necessidade da vanguarda,
no Partido e construirá novos
dogmas a partir do que lhe
disse ou escreveu o anjo expulso.
Seus fundamentos serão os
mesmos, as suas igrejas serão
diferentes. Terão algo em
que acreditar. Pois, do contrário,
estarão perdidos. Rubachov
bem que o sabia quando afirmou:
“O fato é este: não acredito mais na minha infalibilidade.
É por isso que estou perdido.”
(Id.: 73)
Outros,
em momentos históricos posteriores,
se sentiriam igualmente perdidos.
São aqueles momentos de crise
nos quais as referências e
valores impregnados caem por
terra. Foi assim quando o
mito Stalin foi destruído
pelas denúncias dos seus crimes
no XX Congresso do Partido
Comunista da União Soviética,
em 1956. Se os cristãos acreditam
que o Papa é o verdadeiro
sucessor de Pedro e, enquanto
tal, infalível; os comunistas
tinham Stalin como seu Papa,
o guia genial dos povos, o
farol da humanidade e, a exemplo
daquele, também infalível.
Como Rubachov, muitos comunistas
tiveram a sensação de que
o chão fugia aos seus pés
e, quando tiverem que encarar
a realidade, muitos não suportaram.
O
mesmo ocorreu quando da queda
do muro de Berlim e a desagregação
da União Soviética. Com efeito,
se Stalin perdeu a áurea que
o acompanhava enquanto dirigente
do heróico povo russo, comparado
a Lenin, sobreviveu como um
fantasma a assombrar os vivos:
uns substituíram o mito por
outro, reverenciando a pátria
do socialismo – isenta de
qualquer crítica, sob pena
de sofrer acusações muito
graves (daí a idéia, ainda
hoje presente, de que não
se pode fazer críticas à esquerda,
sob pena de ser acusado pelos
que agem segundo a lógica
política do amigo-inimigo);
outros não se envergonharam
em continuar defendendo Stalin,
e voltaram-se contra a pátria
do socialismo, que teria traído
o socialismo (estes foram
buscar outras referências
em outros profetas e pátrias).
Porém,
em ambos os casos, o stalinismo
manteve-se presente, na cultura
política, nos vícios arraigados
durante décadas, nas concepções
de partido e revolução. Mesmo
os hereges de outro tipo não
ficaram livres dessa nefasta
influência (com efeito, no
tocante à concepção de partido,
bebem nas mesmas fontes teóricas).
Assim, não é casual que os
ventos do leste tenham abalado
os edifícios da esquerda marxista
em geral. Os tijolos do muro
de Berlim, em maior ou menor
grau, atingiram a todos.
Os
que não acreditam precisam
de algo para acreditar. O
Deus único e sagrado dos cristãos
é substituído por outros deuses
profanos, mas igualmente santificados;
o livro sagrado é substituído
pelos textos sagrados escritos
por estes deuses profanos,
tomados, a exemplo da Bíblia,
como dogmas e verdades inquestionáveis.
A política sacraliza-se; a
razão torna-se fé travestida
de cientificismo. Se os teólogos
da libertação
secularizam a religião
- no sentido de aderirem às
teses materialistas-marxistas
- , os apóstolos da
razão fazem o caminho
inverso.[3]
Nem só de pão vivem
os homens. Eles também necessitam
de símbolos. “Sem eles não
haveria ordem, nem sentido
para a vida, e nem vontade
de viver”, afirma Rubem ALVES
(1996: 27) Os homens também
se alimentam de ilusões. Como
diria o poeta: “Ideologia,
eu quero uma prá viver.”
Uma última observação. É claro que enfocamos os casos limites
(tipos ideais). Nem
todo religioso é sectário
(em relação aos que estão
em igrejas diferentes da sua
ou não professam religião);
nem todo comunista age à maneira
do fanático religioso.: Como o
cristão que acredita em Deus
e na Igreja, o militante político
precisa acreditar na sua ideologia,
no partido ou no coletivo.
O problema é quando, num ou
noutro caso, as referências
tornam-se verdades absolutas,
dogmas que alimentam atrocidades
e aberrações históricas.Os
apóstolos da razão
caminham no tênue limite
entre a abnegação
à causa e a sacralização
da política; entre
a racionalidade da ciência
e a paixão ideológica;
entre a ética da convicção
e a ética da responsabilidade.
“O sono da razão engendra
monstros”, afirmou Goya.
É verdade. Mas não é menos
verdade que o despertar da
razão também produz monstros
abomináveis.